quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Internacionalização dos lucros, nacionalização dos prejuízos

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Os liberais usam uma lógica circular para justificar a abertura de mercado como receita para o desenvolvimento dos países pobres: o mercado precisa ser aberto porque é assim que se atrai investimentos externos, e investimentos externos são bons porque geram emprego e renda (além do mantra de que o setor privado é essencialmente melhor do que o público). "Investimentos externos", assim, tornam-se algo inerentemente bom, e o valor da afirmação não está em seu conteúdo ou em sua veracidade, mas em si mesma.

A realidade é bem diferente. Países pobres que abrem indiscriminadamente seus mercados tornam-se, invariavelmente, meros exportadores de commodities e áreas de livre exploração para as grandes multinacionais. Os lucros imensos dessas atividades não geram retornos reais ao país, retornando praticamente intactos aos países de origem. Sem estrutura, o próprio Estado passa a ser dependente dessas empresas e, com uma receita deficitária, precisam recorrer a empréstimos a juros altíssimos, num ciclo de dívidas praticamente ininterrupto.

Os empregos gerados nesse processo são descartáveis e não há estabilidade necessária ao desenvolvimento econômico e social para os países pobres. Como as crises são fenômenos "naturais" de uma estrutura financeira baseada em dívida, especulação e usura, os países debilitados são forçados a abrir ainda mais seus mercados e se transformam em meros corredores para o tráfego de capitais. Os lucros dessas atividades são externos, internacionais, mas os prejuízos são nacionalizados, e o Estado deve aplicar medidas de austeridade[1] para compensar os danos dessas crises, mantendo as empresas de pé a qualquer custo, mesmo que seja necessário sacrificar o bem-estar popular nesse processo.

Sem estrutura necessária para tomar benefícios ativos dessa entrada de capitais externos, os países menos desenvolvidos tornam-se reféns de um processo de extorsão: se os países não atendem as exigências feitas pelas nações mais desenvolvidas , ou se buscam maior autonomia econômica, são atacados de vários modos: avaliações negativas de agências de rating, sanções econômicas, golpes de Estado,  e até invasões militares diretas.

Os próprios países ricos têm dívidas imensas, que transferem para os países mais pobres. Os Estados Unidos possuem uma dívida externa estimada em U$17.910.859.000.000,00[2]. Mas essa dívida de mais de 17 trilhões de dólares não impede o país de receber ótimas notas das agências de rating, que o coloca como um "ótimo país para se investir". Países com dívidas muito menores, por questões muito mais triviais, são sabotados por avaliações artificiais e perdem sua base de investimentos.

No Brasil, de 1994 a 2002, foram vendidas 125 empresas estatais, sendo 70 delas federais e 55 estaduais. Esse imenso patrimônio estratégico foi essencialmente entregue aos compradores externos[3]. O discurso de que as estatais não geravam lucro e que eram "inúteis" foi usado para validar essa política de desestruturação interna. Assim, "entregá-las" aos investidores externos que trariam "emprego e renda para o Brasil" passou a ser não só "a única solução possível", mas também "extremamente benéfica". É um milagre a PETROBRAS não ter sido vendida.

Logo após as privatizações, essas empresas passaram a gerar lucros. Ou seja: se o setor era em si mesmo improdutivo, por qual razão empresas "que não valiam nada" passaram a valer muito? O sucateamento dos setor público é consciente e proposital, pois abre caminho para o contexto necessário à justificativa da privatização. 


Feitas essencialmente durante os governos de Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco, essas privatizações representam bem o quadro de dilapidação criado nos países em desenvolvimento que optam pela abertura indiscriminada do mercado nacional ao capital externo (ou são forçados a fazer isso): entrega da estrutura estatal e anulação da soberania em troca da livre operação do capital externo e seu retorno quase que absoluto aos países de origem desse capital. 

Nossa vizinha, a Argentina, também serve como exemplo do verdadeiro efeito da abertura indiscriminada de mercado: durante o governo de Carlos Menem[4], todo um projeto de desestatização foi posto em prática (o maior do país e um dos maiores do continente). Em média, as estatais foram vendidas por 10% de seu valor real - como a estatal Telefónica de Argentina[5], que valia 10 bilhões e foi vendida por apenas 1 bilhão[6]. Como resultado das políticas neoliberais adotadas por Menem, 53% da população argentina passou a viver abaixo da linha da pobreza na época[7].

A abertura de mercado defendida pelos liberais é excelente, mas só para os países mais ricos: com estrutura, tecnologia e investimentos estatais ativos, eles são capazes de captar para si os lucros e repassar o ônus negativo (degradação ambiental, medidas de austeridade, etc.) inteiramente para os países explorados. Para os países mais pobres, é a receita para a submissão.


 
Notas:

[1] Aumento de carga tributária para os mais pobres, cortes em serviços sociais,vendas de estatais, dentre outras medidas que objetivam "equilibrar a receita" para recuperar a economia em situações de crise e dívidas.

[2] "Treasury TIC Data, March 31, 2016". U.S. Department of the Treasury. US Department of the Treasury. March 31, 2016. Retrieved 2016-08-28. 

[3] Para uma análise mais completa sobre o processo de privatizações no Brasil, como valores, questões econômicas, políticas e sociais, confira o artigo "Privatizações Entre 1994/2002", disponível no site "FPA de Fato!".

[4] Carlos Menem foi presidente da Argentina de 1989 a 1999, responsável pelo maior programa de privatizações no país.

[5] Para informações mais detalhadas sobre a privatização do setor de telefonia na Argentina, confira o artigo de João de Almeida Rego Campinho, intitulado "A privatização das telecomunicações na Argentina e suas consequencias para os trabalhadores".

[6] O Continente Desaparecido, Gianni Minà; p. 78. 

[7] Ibidem, p. 74.
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Elijah Wood: Hollywood é dominada por um círculo de pedófilos

Por: Jay Greenberg
Traduzido por: Jean A. G. S. Carvalho



O ator Elija Wood expôs a verdade sobre a pedofilia em Hollywood, alegando que toda a indústria hollywoodiana é dominada por um círculo de pedófilos blindado por ligações com a elite em Washington, D.C.  

O ator de 35 anos de idade disse que Hollywood está inserida num escândalo de abusos sexuais que envolve "figuras muito poderosas", protegidas por conexões políticas "direto com figuras do topo".  Elijah, que fez sua primeira atuação no filme "De Volta Para o Futuro II", com apenas oito anos de idade, disse que teve sorte em ser protegido pela mãe quando foram para Hollywood, já que ela não permitia que ele fosse nos tipos de festas frequentadas por pedófilos, onde eles aliciavam atores jovens.

Corey Feldman, que também começou a carreira ainda na infância, descreveu como ele mesmo e seu melhor amigo, Corey Haim, foram molestados por "velhos com bastante poder", que aliciavam crianças cercando-as como "abutres" em festas organizadas pelas elites de Tinsel Town. Feldman atribui o alcoolismo, o vício em drogas e a morte do amigo ao abuso sofrido por ele na infância.

Elija Wood alega que o escândalo de Hollywood está numa escala similar ao de Jimmy Savile no Reino Unido, no qual a ex-estrela de TV, que teve uma relação próxima com a Família Real britânica, não só foi um pedófilo em série (que literalmente abusou de centenas de crianças), mas que também aliciava crianças para grupos de pedófilos. 

"Todos vocês cresceram perto de Savile - Jesus, isso deve ter sido devastador", disse ele ao The Sunday Times. "Claramente, alguma coisa maior estava acontecendo em Hollywood; isso tudo foi organizado". 

"Há um monte de víboras nessa indústria, gente que só têm os próprios interesses em mente", declarou o ator. "Há uma escuridão no ventre - se você conseguir imaginar isso, é porque isso provavelmente aconteceu". Na semana passada, centenas de prisões foram efetuadas ao longo da Califórnia, numa grande operação contra a pedofilia para enfraquecer o tráfico humano. 

Apesar de parecer que as autoridades estão tomando uma posição ativa contra o tráfico e abuso infantis, alguns temem que as "figuras poderosas" que estão no topo da cadeia desse escândalo de pedofilia permaneçam intocáveis. 

Wood disse que o abuso prevalece porque as vítimas não conseguem falar tão alto quanto aqueles que estão no poder. "Essa é a tragédia de tentar revelar o que está acontecendo com pessoas inocentes", disse ele. "Eles podem até ser esmagados, mas as vidas dessas pessoas foram irreparavelmente prejudicadas".

Anne Henry, cofundadora da Bizparents, uma organização criada para ajudar jovens atores, alega que Hollywood está abrigando "100 pedófilos ativos" e que uma "tsunami de acusações" está se formando.   



Postado originalmente em: Neon Nettle
Actor Elija Wood has come forward to expose the true nature of Hollywood pedophilia, claiming that the entire industry is run by a powerful pedophile ring that's shielded by elite ties in Washington D.C. The 35-year-old said that Hollywood is in the grip of a child sexual abuse scandal that involves "very powerful figures" that are protected by political connections "right at the top". The former child star, who made his debut in Back To The Future II aged 8, said that he was lucky to be protected by his mother when he first arrived in Hollywood, and he didn't attend the types of parties where the pedophiles would pray on the young actors. Fellow former child actor, Corey Feldman, recently revealed his experiences as a child star in Hollywood and described how himself and his best friend, Corey Haim, were molested by "powerful older men" who surrounded children "like vultures" at parties organized by Tinsel Town elites. Feldman attributes Haim's molestation to his drink and drug-fueled demise that led to his eventual death. Elija Wood claims that the Hollywood scandal is on a scale similar to that of Jimmy Savile in the UK, in which the former TV star, who had a close relationship with the British Royal Family, was not only a serial pedophile that had abused literally hundreds of children, but he was also a procurer of children for elite pedophile rings. “You all grew up with Savile – Jesus, it must have been devastating,” he told The Sunday Times. “Clearly something major was going on in Hollywood. It was all organised”. “There are a lot of vipers in this industry, people who only have their own interests in mind,” he added. “There is a darkness in the underbelly – if you can imagine it, it’s probably happened.” Last week, hundreds of arrests were made across California in a huge pedophile bust to crack down on human trafficking. Although it seems that authorities now seem to be taking an active stance against these child sex abuse traffickers, some fear that the "powerful figures" at the top of the chain will remain shielded from prosecution. Wood said abuse prevails because victims are unable to speak as loudly as those in power. “That’s the tragedy of attempting to reveal what is happening to innocent people,” he said. “They can be squashed but their lives have been irreparably damaged.” Anne Henry, the co-founder of Bizparents, an organization set up to help young actors, claimed Hollywood was currently sheltering “100 active abusers” and a “tsunami” of claims was emerging.

Read more at: http://www.neonnettle.com/news/1888-elijah-wood-hollywood-is-run-by-a-powerful-elite-pedophile-ring
© Neon Nettl
Actor Elija Wood has come forward to expose the true nature of Hollywood pedophilia, claiming that the entire industry is run by a powerful pedophile ring that's shielded by elite ties in Washington D.C. The 35-year-old said that Hollywood is in the grip of a child sexual abuse scandal that involves "very powerful figures" that are protected by political connections "right at the top". The former child star, who made his debut in Back To The Future II aged 8, said that he was lucky to be protected by his mother when he first arrived in Hollywood, and he didn't attend the types of parties where the pedophiles would pray on the young actors. Fellow former child actor, Corey Feldman, recently revealed his experiences as a child star in Hollywood and described how himself and his best friend, Corey Haim, were molested by "powerful older men" who surrounded children "like vultures" at parties organized by Tinsel Town elites. Feldman attributes Haim's molestation to his drink and drug-fueled demise that led to his eventual death. Elija Wood claims that the Hollywood scandal is on a scale similar to that of Jimmy Savile in the UK, in which the former TV star, who had a close relationship with the British Royal Family, was not only a serial pedophile that had abused literally hundreds of children, but he was also a procurer of children for elite pedophile rings. “You all grew up with Savile – Jesus, it must have been devastating,” he told The Sunday Times. “Clearly something major was going on in Hollywood. It was all organised”. “There are a lot of vipers in this industry, people who only have their own interests in mind,” he added. “There is a darkness in the underbelly – if you can imagine it, it’s probably happened.” Last week, hundreds of arrests were made across California in a huge pedophile bust to crack down on human trafficking. Although it seems that authorities now seem to be taking an active stance against these child sex abuse traffickers, some fear that the "powerful figures" at the top of the chain will remain shielded from prosecution. Wood said abuse prevails because victims are unable to speak as loudly as those in power. “That’s the tragedy of attempting to reveal what is happening to innocent people,” he said. “They can be squashed but their lives have been irreparably damaged.” Anne Henry, the co-founder of Bizparents, an organization set up to help young actors, claimed Hollywood was currently sheltering “100 active abusers” and a “tsunami” of claims was emerging.

Read more at: http://www.neonnettle.com/news/1888-elijah-wood-hollywood-is-run-by-a-powerful-elite-pedophile-ring
© Neon Nettle
Actor Elija Wood has come forward to expose the true nature of Hollywood pedophilia, claiming that the entire industry is run by a powerful pedophile ring that's shielded by elite ties in Washington D.C. The 35-year-old said that Hollywood is in the grip of a child sexual abuse scandal that involves "very powerful figures" that are protected by political connections "right at the top". The former child star, who made his debut in Back To The Future II aged 8, said that he was lucky to be protected by his mother when he first arrived in Hollywood, and he didn't attend the types of parties where the pedophiles would pray on the young actors. Fellow former child actor, Corey Feldman, recently revealed his experiences as a child star in Hollywood and described how himself and his best friend, Corey Haim, were molested by "powerful older men" who surrounded children "like vultures" at parties organized by Tinsel Town elites. Feldman attributes Haim's molestation to his drink and drug-fueled demise that led to his eventual death. Elija Wood claims that the Hollywood scandal is on a scale similar to that of Jimmy Savile in the UK, in which the former TV star, who had a close relationship with the British Royal Family, was not only a serial pedophile that had abused literally hundreds of children, but he was also a procurer of children for elite pedophile rings. “You all grew up with Savile – Jesus, it must have been devastating,” he told The Sunday Times. “Clearly something major was going on in Hollywood. It was all organised”. “There are a lot of vipers in this industry, people who only have their own interests in mind,” he added. “There is a darkness in the underbelly – if you can imagine it, it’s probably happened.” Last week, hundreds of arrests were made across California in a huge pedophile bust to crack down on human trafficking. Although it seems that authorities now seem to be taking an active stance against these child sex abuse traffickers, some fear that the "powerful figures" at the top of the chain will remain shielded from prosecution. Wood said abuse prevails because victims are unable to speak as loudly as those in power. “That’s the tragedy of attempting to reveal what is happening to innocent people,” he said. “They can be squashed but their lives have been irreparably damaged.” Anne Henry, the co-founder of Bizparents, an organization set up to help young actors, claimed Hollywood was currently sheltering “100 active abusers” and a “tsunami” of claims was emerging.

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Actor Elija Wood has come forward to expose the true nature of Hollywood pedophilia, claiming that the entire industry is run by a powerful pedophile ring that's shielded by elite ties in Washington D.C. The 35-year-old said that Hollywood is in the grip of a child sexual abuse scandal that involves "very powerful figures" that are protected by political connections "right at the top". The former child star, who made his debut in Back To The Future II aged 8, said that he was lucky to be protected by his mother when he first arrived in Hollywood, and he didn't attend the types of parties where the pedophiles would pray on the young actors. Fellow former child actor, Corey Feldman, recently revealed his experiences as a child star in Hollywood and described how himself and his best friend, Corey Haim, were molested by "powerful older men" who surrounded children "like vultures" at parties organized by Tinsel Town elites. Feldman attributes Haim's molestation to his drink and drug-fueled demise that led to his eventual death. Elija Wood claims that the Hollywood scandal is on a scale similar to that of Jimmy Savile in the UK, in which the former TV star, who had a close relationship with the British Royal Family, was not only a serial pedophile that had abused literally hundreds of children, but he was also a procurer of children for elite pedophile rings. “You all grew up with Savile – Jesus, it must have been devastating,” he told The Sunday Times. “Clearly something major was going on in Hollywood. It was all organised”. “There are a lot of vipers in this industry, people who only have their own interests in mind,” he added. “There is a darkness in the underbelly – if you can imagine it, it’s probably happened.” Last week, hundreds of arrests were made across California in a huge pedophile bust to crack down on human trafficking. Although it seems that authorities now seem to be taking an active stance against these child sex abuse traffickers, some fear that the "powerful figures" at the top of the chain will remain shielded from prosecution. Wood said abuse prevails because victims are unable to speak as loudly as those in power. “That’s the tragedy of attempting to reveal what is happening to innocent people,” he said. “They can be squashed but their lives have been irreparably damaged.” Anne Henry, the co-founder of Bizparents, an organization set up to help young actors, claimed Hollywood was currently sheltering “100 active abusers” and a “tsunami” of claims was emerging.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Olavo de Carvalho e o falso distanciamento da ação

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Neste artigo, não pretendo discutir as ideias em si do Olavo. Haverá ocasião melhor para fazer isso. O que importa, aqui, é seu comportamento enquanto ideólogo e pensador, principalmente seus recursos retóricos de escapismo, distanciamento da ação e diminuição da própria importância enquanto influenciador.


O intelectual (ou filósofo) é visto como o "homem suspenso", aquele que observa todos os acontecimentos e pessoas e analisa todas as situações, mas não toma parte ativa em nenhuma delas. É aquele que supostamente não pode ser responsabilizado, culpado ou punido por absolutamente nada, já que seu campo de atuação é a teorização, a área das ideias e do pensamento em geral. Entretanto, essa é uma visão extremamente equivocada. Sócrates, por exemplo, foi um filósofo politicamente ativo (tanto que morreu por conta disso, consciente das consequências de suas ações, por mais injustas que fossem, assumindo-as até o final).

Olavo, entretanto, não assume a posição socrática. Basicamente, ele se dissocia de qualquer consequência real e alega que suas opiniões não exercem nenhuma influência no campo das ações, colocando-se como um "observador imparcial". Imparcialidade é uma impossibilidade ontológica: todos somos imbuídos de vontades, desejos, preferências e motivações. Assim sendo, todas as nossas análises são influenciadas, em maior ou menor grau, por esses elementos, e aquilo que fazemos gera consequências em nós mesmos, nos outros e no ambiente ao nosso redor.

Mesmo nossa atividade intelectual também provoca reações. Não existe esse distanciamento total entre o "pensar" e o "agir". Aliás, toda ação é precedida de uma ideia, um pensamento. Olavo se esforça em mostrar que é um homem humilde, praticamente irrelevante, sem grandes contatos e conexões (o que, obviamente, é mentira), um modesto morador da Virgínia, um frequentador de bibliotecas. Ele prolonga o discurso de que fala apenas por si mesmo e não está conectado a nenhum grande projeto, e denuncia seus opositores por serem "politicamente ativos".


O maior dos mentores intelectuais do impeachment... criticando o impeachment.

No debate com Dugin, Olavo fez questão de frisar o quanto era "insignificante" em relação ao oponente: enquanto ele é "um senhor humilde sem aposentadoria", Dugin é um alto ideólogo com conexões com Putin, líder de movimentos e dono de grande poder de influência. É, em termos simples, a adoção da psicologia pós-moderna: "Você tem de me ouvir porque eu sou mais fraco que você", o equivalente ao "quando o oprimido fala, o opressor fica calado". 

Ele não é suficientemente honesto para admitir que defende sim um plano e uma ideologia clara: a ação geopolítica dos EUA como potência predominante e as vias do liberalismo de fato. Enquanto não assume esse posicionamento, diz falar apenas por si mesmo, enquanto trata qualquer adoção ideológica como "fanatismo" ou "distorção da realidade". A estratégia é desqualificar o outro por questões ideológicas, tratando a própria ideologia como um mal em si (enquanto, com a falsa neutralidade, ele apenas cristaliza ainda mais a própria ideologia).


Nessa posição confortável, Olavo pode incitar ações sem responsabilizar por seus efeitos colaterais. Ele motivou as manifestações pró-impeachment de 2013 a 2016, e defendeu abertamente uma intervenção militar. Depois de atingido o objetivo,  insatisfeito com os resultados, ele condenou todos aqueles que seguiram seus discursos e criticou a ideia duma intervenção militar (criticando os próprios militares). Ele pode, livremente, inflar uma ação e fingir que não a motivou, agindo como alguém que sequer exerce qualquer influência no curso dos acontecimentos.

A arte de incentivar algo...

...para criticar em seguida.


Para Olavo, interferir ou influenciar os acontecimentos e o fluxo das ações é uma ação inerentemente "revolucionária" e, portanto, na visão dele, algo totalmente negativo (já que ele rejeita o chamado "pensamento revolucionário"). Mas, enquanto adota essa retórica de "distanciamento da ação" ou de "intervenção no curso dos acontecimentos", ele mesmo influencia, direta ou indiretamente - e por meio de suas opiniões, pensamentos e cursos - os acontecimentos políticos e sociais.

 

Essa é a posição desonesta, a blindagem em torno do mito da "imparcialidade", do "racionalismo" e do distanciamento do curso das ações. E, como essa estratégia lhe permite mudar de discurso e se contradizer sem que isso seja percebido como desonestidade (já que ele "nunca comete erros intelectuais", mas simplesmente "muda" de ideia), Olavo mantém a aura de guru, mestre e profeta, sem que seus seguidores façam sequer questionamentos mínimos - os quais ele sempre rejeita violentamente.



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