terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Cristianismo como ruptura e renovação

Por Vinicius Spiger 

Lamentação sobre O Cristo Morto - Botticelli
 
Existe entre muitos conservadores e tradicionalistas ocidentais uma equação jargonofásica incorporada como uma verdade absoluta: "A civilização ocidental é fruto da cultura greco-romana e da moral judaico-cristã", ou ainda suas variantes "O Cristianismo possui uma forte herança greco-romana e judaica". Tal visão apresenta o Ocidente como a simples união do mundo grego, do mundo judeu e do mundo romano, na formação do mundo cristão, tendo como fruto aquilo que consideramos cultura, moral e cosmovisão ocidental. Tal afirmação, entretanto, não poderia ser mais equivocada. 

Embora existam diversos traços de cada uma destas culturas incorporados na formação da sociedade Ocidental através do Cristianismo, é de uma simploriedade absurda resumir a gênese cristã nesta fórmula. Trata-se apenas de um esvaziar da Tradição Cristã, retirando seu verdadeiro significado e, portanto, reduzindo-a. O Cristianismo surge não de uma mera união orgânica de heranças pagãs e judaicas, mas de uma superação destas. Os limites dos mundos pré-cristãos já não são bem-vindos. Não se trata, portanto, da mistura destes velhos mundos, mas de um verdadeiro "adeus" a eles. Amarga é a despedida de cada um destes vícios e maus hábitos, tão incorporados na essência carnal humana, em prol de uma cosmovisão voltada à Verdade. Não surpreende, portanto, a resistência e as tentativas de retorno a tais "heranças".

Isto, entretanto, não implica que não exista algo válido em cada Tradição. Como bem evidenciado pelos perenealistas, diversas são as similaridades entre as crenças tradicionais da humanidade, seja no Ocidente ou no Oriente. É devido, em parte, porque as tradições são capazes de procurar (e encontrar) a Verdade, não em sua unidade de plenitude, mas em sua forma nébula e parcial, ainda que significativa. Tais semelhanças, como bem notou o Arcebispo Fulton Sheen, não significam entretanto equivalência. Uma conclusão deste tipo seria tão absurda quanto supor que, pelos planetas serem todos esféricos, possuiriam uma mesma massa gravitacional. 

Assim, tudo aquilo que é apontando como "herança" de outras civilizações no Cristianismo nada mais é do que uma mera aproximação da Verdade. Neste sentido, todo o conhecimento pré-cristão verdadeiro age como uma preparação para a vinda de Cristo, e, por tabela, pertence à própria Verdade da Tradição Cristã, mas em forma pura e afastada de todos os erros previamente associados. Esta postura é bem definida por Santo Agostinho em sua Doutrina Cristã, e também reforçada pela Filosofia Cristã, que muito lidou da exposição e superação dos pensamentos heréticos, limpando da Verdade "herdada" a poeira do profano. 

Em suma, uma teologia cristã representa exatamente a superação desta "herança" grega, romana, judaica. É uma transcendência a todos estes erros almejando a mais pura perfeição, ao passo que abandona os erros propagados pelas demais tradições Estes problemas, entretanto, não podem deixar de existir no mundo, já que ainda habitam no espírito do homem pecador. Já não cabe mais entretanto aceitá-los como Verdade. Os críticos e opositoras da Tradição Cristã, como Julius Evola, não foram capazes de superar esta visão de mundo pagã, apegando-se à confusa mistura de erros e acertos em busca meramente do "tornar-se" Deus.

A Tradição Cristã, entretanto, responde de forma muito mais sutil e elegante, ao diferenciar-se da equivalência perenial quando Deus torna-se Filho e vem ao mundo em sacrifício, alterando a via histórica entre o divino e o terrestre. E, quando a Tradição Cristã decai, surgem suas vertentes heréticas que buscam resgar os hábitos judaicos e pagãos, afastando assim os homens da Verdade.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Yukio Mishima: A Filosofia da Ação



Tradução: Jonas Ferreira de Souza



A ação possui uma lógica peculiar. Quando uma ação começa, sua lógica procede num ritmo implacável, até o final. Em certo sentido, assemelha-se a um brinquedo de corda, cujo movimento não cessa até que se esgote. Para um intelectual, esta lógica de ação é temível. Na realidade, falta astúcia para se manter longe do perigo e se corre o risco de ficar envolvido em algo que, uma vez iniciada a carreira, não se é possível deter. Recentemente, Akiyuki Nosaka[1], que havia declarado seu apoio moral as três facções do movimento estudantil, logo mudou de opinião, abandonando sua postura de simpatizante. 

Na realidade, ele se afastou da ação não porque ignorara em que direção era capaz de arrastar um ser humano, mas sim por ter se dado conta do destino que lhe aguardava. Deste ponto de vista, ele se comportou de uma forma muito prudente, embora eu pense que, quando ele conseguiu escapar a esse mecanismo, ele reconsiderou que, em realidade, não se tratava de uma verdadeira e própria ação, porque quando uma ação deste tipo começa, ela não permite a menor possibilidade de fuga.


A espada japonesa, uma vez tirada da bainha, inicia um movimento característico, exatamente como acontece com uma bala em movimento preciso quando se dispara: percorre uma trajetória inexorável, uma vez projetada contra o inimigo. Sem dúvida, por alguma estranha intervenção do destino, pode dar-se o caso de que ela golpeie no capacete colocado na testa, que penetre em seu interior, que se deslize e saia sem provocar dano algum. Em muitos casos, a ação pode terminar sem haver conquistado o objetivo para o qual estava destinada; porém, ela sempre deve obedecer à lei e à lógica que a obriga a dirigir-se em linha reta por esse mesmo objetivo. Imaginemos que lhe falamos sobre a bala em vôo e que a perguntamos: “Aonde você vai?”. A bala responderia: “Vou matar o inimigo”. E, para isso, ela nem sequer teria parado por um único instante durante sua trajetória. Seria impossível para ela dirigir-se para uma atividade secundária. Também cabe dizer isso em relação à espada japonesa. 

Embora não sejam tão rápidas como as balas, uma vez desembainhada, elas não podem ser guardadas sem que tenham cortado ou matado. Quando não se puxa a bainha com essa finalidade, a espada japonesa é derrotada e humilhada. Isto é perfeitamente demonstrado no que aconteceu na Universidade de Tóquio quando um grupo de estudantes do clube de ginástica irrompeu brandindo espadas japonesas para, logo em seguida, serem desarmados e reduzidos. 

Parece incrível que estes jovens tenham entregado suas espadas sem dar sequer um único arranhão em seus adversários. É provável que não tenham desembainhado com a intenção de matar, apenas para ameaçar. Sem dúvida, este é um objetivo alheio à natureza das espadas japonesas, e quando uma arma se utiliza pra um fim diferente daquele para o qual foi forjada, ela perde instintivamente sua força. O exemplo da espada japonesa nos permite compreender como uma operação em grande escala pode resultar ineficaz se levada a cabo só com fins de intimidação. Parece-me que em tudo se revela a natureza das armas.


A ação nem sempre coincide com o uso das armas. Não obstante, desde os tempos antigos, “ação” é sinônimo de “atividade bélica”, e seu principio é a identidade entre o homem e sua arma, em seu avanço em linha reta até um objetivo definido. Com efeito, é inconcebível que exista uma ação quando não há um objetivo e é impossível que a ação dum homem esteja centrada em algo que não seja a luta. Por suposto, jogar-se num rio para salvar um menino também é realizar uma ação; é o mesmo que intervir, como faz o Exército de Defesa Nacional, em caso de catástrofes naturais. Porém, inclusive nesses exemplos, a ação consiste em lutar contra a natureza pra salvar vidas humanas e, portanto, se encontra completamente focalizada num fim bem definido.


Dado que não pode existir uma ação sem um fim, as pessoas que vivem sem um objetivo em particular, escravas das circunstâncias, detestam e temem a palavra “ação”. Quando um pensamento ou uma teoria começa a estruturar-se em torno de um objetivo, eles naturalmente terminam por converter-se em ação. Porém, nem todas as ações são perigosas e temíveis. É inato em nosso corpo um prazer característico pelo movimento, que se expressa na dança e nos esportes. Se o movimento não tem um objetivo, se está inspirado por impulsos estéticos, ele progressivamente se diferencia da ação e se aproxima da arte. Como já indiquei em outro lugar, a ginástica é a forma mais próxima do limite entre a arte e a ação.


Uma característica da ação é a mínima inversão de tempo que ela exige. Um exemplo: quando fui convidado a participar de um debate, que terminou sendo um choque verbal, durante o período das manifestações estudantis na Universidade de Tóquio, a discussão durou só duas horas e meia. Eu não havia me preparado em absoluto, e a única coisa que fiz foi ir à universidade de táxi, participar do encontro e voltar para casa (de táxi também). Tudo isso não me tomou nem quatro horas. 

E, sem dúvida, essa ação minha foi de domínio público, deu muito que falar e despertou interesse e atenção durante certo tempo. Durante um tempo, as pessoas que me encontravam não deixavam de fazer-me perguntas sobre esse episódio.  Quatro horas me bastaram: um breve período comparado, por exemplo, com um total de um mês; também se necessitam quatro horas para assistir a uma representação teatral, e, às vezes, a um filme no cinema. Porém, o interesse geral se concentrou em um lapso insignificante durante o qual se realizou essa ação, e todas as pessoas que encontrei mostraram uma indiferença quase total pelo modo como haviam transcorrido minhas outras setecentas e dezesseis horas nesse mês. 

Eu havia dedicado metade desse tempo à humilde e desgastante tarefa de escrever, o que, como não é uma ação autêntica, requer um tempo ilimitado: e eu sacrifiquei os primeiros quatro anos pra escrever os primeiros três livros de uma obra e não sei quando poderei terminar o quarto e último volume. A ação é rápida, enquanto que o trabalho intelectual e artístico impõe tempos extremamente longos. Também a vida exige uma longa paciência, enquanto a morte pode acontecer num instante; a qual dos dois se atribui maior importância aos seres humanos?


O nome de Saigo Takamori[2] será recordado eternamente por conta de seu seppuku[3] em Shiroyama, e o Corpo de Ataque Especial (Kamikaze) sempre o será por seus fulgurantes atos de heroísmo. As demais horas de sua vida, as centenas de horas de treinamento, permanecerão no anonimato (ou esquecidas). A ação tem o misterioso poder de resumir uma larga vida na explosão de fogos de artifícios. Tem de se honrar quem dedicou toda a sua vida a um único objetivo, o qual é justo; porém, quem queimar toda sua existência em fogos de artifício, que duram só um instante, testemunha com maior precisão e pureza os valores autênticos da vida humana. 

A ação mais pura e essencial consegue retratar os valores da vida e as questões eternas da humanidade, com uma profundidade muito maior e com um esforço humilde e constante. Sempre temos o costume de meditar sobre a ação e o pensamento, sobre os problemas do corpo e do espírito, e é por isso que desejo apresentar aqui algumas conclusões a respeito deste assunto.



Fonte: Lições Espirituais para Jovens Samurais; Yukio Mishima.




Notas

[1] Akiyuki Nosaka (nascido em 10 de outubro de 1930 e falecido em 9 de dezembro de 2015) foi um escritor, novelista e compositor japonês. 
[2] Samurai de Satsuma, nascido em 1827 que apoiou o golpe de estado que culminou com a restauração do poder imperial. Nomeado ministro, preferiu retirar-se da política quando foi rejeitada sua proposta de invadir a Coreia e regressou a sua distante província onde organizou academias de artes militares. Em 1877, encabeçou uma rebelião de centenas de jovens samurais opostos a política de modernização e ocidentalização do governo; foi derrotado em combate e fez o seppuku, pedindo-lhe a um dos seus companheiros que lhe cortasse a cabeça. Alguns membros de seu exército seguiram o exemplo do chefe e abriram o ventre, cometendo suicídio.

[3] Seppuku (切腹), cujo significado é "cortar o ventre" (também conhecido como haraquiri ou haraquíri (腹切 ou 腹切り) é o ritual japonês de suicídio praticado pela classe guerreira, principalmente pelos samurais (foi também praticado como tática de guerra pelo Exército Imperial Japonês, durante a Segunda Guerra Mundial). Basicamente, consistia na morte por esventramento e decapitação. Esse ato era praticado tanto para demonstrar coragem e honra quanto como autopunição por alguma infração ao código de honra do Bushido.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Donald Trump: a receita para o nacionalismo é o protecionismo

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Donald Trump conseguiu a simpatia de setores antagônicos: uma Esquerda fundamentalmente anti-imperialista (não aquela formada por jovens afetados e que só se importam com Obama segurando um guarda-chuva ou dando as mãos para a primeira dama) e uma Direita essencialmente politicamente incorreta. Com um discurso e propostas totalmente contrárias ao establishment atual, cercado pela mídia e demonizado pelas principais estrelas de Hollywoody (e com uma oposição que o subestimou profundamente), Trump deixou de ser uma simples piada para se tornar uma realidade: ele é o novo presidente os Estados Unidos.

Seu discurso, entretanto, é algo complexo para uma análise externa (e mesmo para a conjuntura interna dos EUA): ele mesclou pontos de uma Esquerda desenvolvimentista e uma Direita cultural - a síntese que chamamos de Esquerda do Trabalho e Direita dos Valores. Trump assumidamente defendeu práticas protecionistas totalmente contrárias aos ideais de livre mercado e "Estado mínimo": sua pauta pode ser resumida em criar empregos para americanos nos Estados Unidos com empresas dos Estados Unidos. E, no processo, adotar medidas de contenção de mercados concorrentes será algo inevitável.

Donald Trump não criou nada essencialmente novo no mundo, mas adotou uma tendência atual para a política dos EUA: foco nos problemas internos, maior independência em relação a estruturas estrangeiras e internacionais e promoção do nacionalismo. Marine Le Pen, candidata mais provável a assumir a presidência da França nas próximas eleições, adota a mesma linha de nacionalismo + protecionismo; Viktor Orbán (na Hungria), Vladimir Putin (na Rússia), Lukashenko (em Belarus), Bashar (na Síria) e tantos outros líderes que têm despontado no cenário mundial seguem, mesmo que de maneiras diferentes, essa receita.

A compreensão é bem clara: a ideia de anular todas as fronteiras e abrir irremediavelmente e sem qualquer controle todos os setores econômicos de um país é a receita perfeita para o imperialismo global, o terrorismo financeiro e a submissão aos desmandos externos. É a receita para aniquilar a soberania de qualquer nação - mesmo grandes potências, que sofrem com os efeitos de médio e longo prazos dessas políticas.

Trump adotou em seu discurso (e já colocou em prática) vários pontos que, por aqui, seriam denunciados pelos "nacionalistas" como "esquerdismo": medidas efetivas para criar e proteger empregos, dirigismo de Estado sobre a economia, retorno dos investimentos para o país e controle da atuação das empresas, tudo em benefício dos Estados Unidos da América. 

A tendência mundial de ruptura para com o globalismo é essa: negar os preceitos de livre mercado e de destruição das soberanias em nome de um ideal abstrato de "globalismo" e "sociedade global". O nacionalismo autêntico, em todo o mundo, adota cada vez mais expressamente essa forma. No Brasil, percebemos justamente um curso que vai na contramão dessa tendência: o "nacionalismo" que implora pela entrega de patrimônios e recursos nacionais, que clama pela anulação do Estado e que rejeita qualquer medida protecionista em benefício do próprio Brasil. 

Em suma, os "nacionalistas" e liberais brasileiros que  se dizem tão admirados com Trump e com o rumo dos Estados Unidos recusam, para o Brasil, justamente os pontos que fizeram dos EUA uma nação forte e, de Trump, um homem tão popular - seja por uma base realmente leal a ele, seja pela difamação constante da mídia que, para isso, utiliza o próprio filho de Trump como alvo.

Não existe soberania nem reforço nacional sem o incentivo à produção e ao mercado internos, sem o resguardo aos recursos estratégicos e sem a defesa ativa (contando com a forte participação do Estado e de um projeto-nação) dos interesses nacionais no cenário global. Qualquer retórica "nacionalista" que rejeite esses pontos não passa de utilitarismo ao regime de unipolaridade global (um regime que já começa a ruir).

Enquanto permanecermos na contramão da verdadeira tendência mundial anti-globalista, continuaremos prescrevendo como medicamento aquilo que, na verdade, apenas reforça a doença: o livre mercado, o liberalismo - que só reforça o sistema global.

Esses pontos não fazem de Trump um homem perfeito e, certamente, ele cometerá erros. E é justamente por reconhecê-lo como figura útil contra o globalismo é que devemos estar atentos e nos manter críticos a esses erros, sejam eles intencionais ou não. Entretanto, sendo o primeiro candidato estadunidense a enfrentar o establishment global frente a frente e a confrontar abertamente toda a estrutura de mídia são feitos que fazem de Trump alguém digno ao menos de um gesto de cordialidade.


 
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Lyell Asher: A Baixa Definição do Ensino Superior

Por: Lyell Asher
Traduzido por: Jean A. G. S. Carvalho


Quando estudantes são doutrinados sobre o que devem pensar e o que não devem dizer, quem é que sofre no fim das contas?

Todos os anos, há quase uma década, eu recomendava Anna Karenina aos alunos matriculados em meu curso sobre romance. Em mais de 800 páginas, a saga de Tolstói pode convidar a leitura apressada; então, muito tempo de aula é gasto aplicando os freios: "Não tão rápido"; "Como você sabe disso?"; "Como é que ela se parece do ponto de vista dela mesma?; "Há uma vantagem de velocidade útil naquela famosa primeira linha": Todas as famílias felizes são iguais; cada família infeliz é infeliz em sua própria maneira. "Em sua própria maneira". Não suponha que você saiba quem são essas pessoas, adverte Tolstói, por mais familiar que elas pareçam.

O livro então procede com essa cautela, pois o que se segue é uma trança fantástica de autoenganos, erros e mal-entendidos, e de tudo o que vemos (como os personagens nunca podem ver) a partir da onisciência de Tolstói. O conhecimento ao qual estamos expostos pode muitas vezes parecer demais - não apenas para se aceitar, mas para suportar. A reação solene e impassível de Karenin à declaração lacrimosa de amor de Anna para Vronsky, por exemplo, parece inicialmente confirmar a descrição de Anna de seu marido como um funcionário mecânico para quem o tempo é um horário - e a vida, uma série de compromissos mantidos. Só depois descobrimos que o olhar morto no rosto de Karenin esconde um homem tão plenamente vivo às lágrimas de sua esposa que ele teve de se tornar inerte para não desmoronar. Como acontece com tanta frequência no livro, quando pensamos que finalmente entendemos alguém, Tolstói deixa cair uma lente mais poderosa no escopo, ou muda seu ângulo de visão, e ficamos perplexos de novo.

Eu não gostava de perplexidade quando eu estava na faculdade, e meus alunos também não. Suas vidas são caóticas o suficiente sem qualquer ajuda de livros. Então, eles estão tão inclinados quanto eu a ignorar a complicação como forma de preservar a clareza de seus julgamentos, que é precisamente o que os personagens de Tolstói fazem. Anna precisa interpretar seu marido como uma máquina insensível para resistir à sua própria culpa, assim como seu marido precisa interpretar Anna como uma mulher completamente depravada para afiar seu próprio ódio. É um dos muitos padrões indeléveis do livro: a maneira mais fácil de simplificar seus sentimentos é simplificar as pessoas que os provocam.

Uma faculdade deve ser o lugar ideal para ajudar os alunos a resistir a tais simplificações - resistir a elas não apenas dentro da sala de aula, nos livros que leem, mas fora nas vidas que levam. Bem entendido, o campus (além da sala de aula) é o componente de laboratório da própria faculdade. É onde as ideias e experiências devem se encontrar e refinar umas às outras, onde as coisas devem ficar mais complicadas, não menos.

Mas o que acontece quando os administradores que supervisionam este laboratório - às vezes em conjunto com os professores que ensinam nos cursos - fingem ter dominado as questões difíceis de raça, justiça social, significado e intenção, que se sentem autorizadas a ditar aos outros? O que acontece quando eles fragmentam tanto o assunto que o que emerge é uma versão deturpada da experiência humana, exatamente o que um currículo universitário deveria estar combatendo?

O que acontece é que muitos estudantes aceitarão estas simplificações. Alguns até se apegarão a elas por sua vida. Finalmente, um mapa - com atalhos! - e um caminho para fora da perplexidade. Sentimento ofendido implica uma ofensa, e quando há uma ofensa, deve haver um culpado de a haver cometido. Não há necessidade de se preocupar com as complexidades do contexto e da intenção - diz-se aqui que o "impacto" é o que importa, que o que eu sinto é o que conta. Não há necessidade de se perguntar se uma expressão de ódio é real ou um ardil, isolado ou endêmico - basta assumir o pior e tomar a parte para o todo.

Mas é claro que esse é o problema da homofobia, do racismo, do sexismo, do extremismo religioso e de qualquer outro "ismo" que você gostaria de mencionar. São atalhos. Diga-me sua cor de pele, ou seu sexo, com quem você quer dormir ou casar, que deus você adora ou nega, e eu vou preencher o resto.


A epítome dos atalhos, aquela a que todos os outros aspiram, é a linha reta. É a mais simples das geometrias morais e a mais sedutora. Quando George Orwell estava trabalhando como policial na Birmânia, ele viu um homem sendo conduzido no caminho para a forca. Segurado firmemente pelos dois guardas indianos, e com apenas alguns minutos para viver, o homem fez algo extraordinário. Ou melhor, ele fez a coisa mais comum no mundo: "pisou um pouco de lado", Orwell nos diz em "The Hanging", "para evitar uma poça no caminho."


Algum dos colegas de Orwell viu esse desvio? Talvez. Mas, como gerentes eficientes de uma execução, tinham razão para não vê-la. Seu trabalho exigia que eles vissem apenas o criminoso condenado, não o ser humano que não queria ficar molhado. Seu desvio não estava no mapa.

Não há regras para perceber os desvios. Não há linhas - sejam desenhadas na areia ou em um código de voz - que ajudarão os alunos a compreender a complexidade da experiência de outra pessoa ou a sua própria. Ao contrário, tais linhas perfilam frequentemente os grupos que significam descrever, e aprofundam a desconfiança que fingem diminuir. Elabore uma lista de microagressões, por exemplo, e você divide implicitamente um campus em dois macro-agregados: por um lado, estudantes imprudentemente agressivos que precisam ser constrangidos e, por outro, alunos vulneráveis ​​que precisam ser protegidos. Então, a realidade cede a essa representação, à medida em que os alunos começam a escutar em vez de ficar temerosos sobre o que dizem ou ouvem, ao invés de se interessar ​​pelo que podem dizer ou ouvir.

Naturalmente, os estudantes imprudentes e os estudantes vulneráveis ​​existem, mas o número oprimindo deles não cabe nenhuma categoria. No entanto, todos eles estão sendo "educados" - treinados e agrupados: treinados por serem informados antecipadamente sobre o que uma determinada pergunta, afirmação ou imagem significa, independentemente do contexto ou intenção, e agrupados por serem implicitamente instruídos sobre como os membros autênticos Um grupo reagir a esse significado - por ser ofendido, ultrajado, até mesmo traumatizado.  

Certamente o nome do movimento Black Lives Matter pretende sugerir que as vidas negras também são importantes; e não apenas isso, mas alguns críticos do movimento se aproveitam dessa última interpretação porque ela poderia provocar a maior indignação e gerar o maior número de adversários. Muito dessa mesma estratégia estava no trabalho da tentativa de alguns em Yale de reduzir Erika Christakis, que procurara e matizara o email do Dia das Bruxas ("vestir-se a si mesmo") em algo "proibido", uma nota que descarta os interesses dos estudantes. Respostas não ambivalentes a significados não complicados: esta é uma fórmula maniqueísta para a polarização e um modelo de mal-entendido - tanto a si mesmo como a outros.

Raramente compreendemos o que as pessoas significam até que lhes perguntemos. Além disso, elas podem não saber nem mesmo o que elas significam até serem questionadas. É por isso que, em temas de profundidade e complexidade, o diálogo, e não o sermão, é o modelo de engajamento intelectual. O sermão pode pregar humildade, mas apenas o diálogo a coloca em prática. Pois somente o diálogo encarna o que Emerson chamou de "o segredo do verdadeiro estudioso", que é que "o homem que conheço é meu senhor em algum ponto, e nisso eu aprendo". O que o verdadeiro erudito aprende não é apenas "algum ponto" no qual ele era ignorante. Ele aprende com essa instrução particular a maior lição de sua própria dependência em relação aos outros, os limites de sua própria experiência.

Por que uma fantasia de significados sem complicações e respostas não ambivalentes seria especialmente atraente agora? Parte da resposta é que quanto mais complexo o problema, mais desesperado nosso desejo de simplificação. E quem não estaria desesperado neste momento na história de nossa nação? Só no verão passado, um motorista negro, que exercia os direitos da Segunda Emenda apoiada pela NRA, carregando uma arma de fogo licenciada, foi morto a tiros por um policial hispânico - que depois chorou (junto com a nação) por nosso presidente birracial de dois mandatos.  

A recente eleição de Donald Trump à presidência é, entre outras coisas, uma evasão grosseira e perigosa da realidade complexa que tal situação representa. Porém, menos grosseira é a sugestão corrosiva - popular na academia em particular - de que a supremacia branca é o código secreto que explicaria tudo.

Outro aspecto da atual experiência de graduação está em jogo aqui também: a velocidade. Costuma-se dizer que as vidas dos jovens de hoje são mais complicadas do que as das gerações anteriores. É possível, mas duvido. Em minha experiência, "complicado" é um eufemismo consolador para "distraído". Com cada conhecido que eles já fizeram, cada música que eles já ouviram e todos os bens de consumo que eles nunca imaginaram (como um touchscreen), os alunos vivem hoje mais distraídos em suas vidas, em relação à qual a complexidade pode ser uma convidada indesejável, exigindo tanto foco e tempo.  

A maioria dos estudantes do milênio reconhece isso imediatamente, mesmo aqueles que desconfiam de outros clichês sobre sua geração. Afinal de contas, a culpa não é deles, embora seja o seu problema, uma vez que as pressões de triagem - as pressões aumentadas pela comunicação compulsória das mídias sociais - tornam-nas mais suscetíveis a julgamentos rápidos, na maneira que as pessoas em movimento são mais suscetíveis ao fast food e as pessoas em crise são mais suscetíveis ao dogma religioso.

Um incidente notório em Harvard no último outono resume a forma como as faculdades e universidades estão trabalhando para mais do que contra essa tendência. Pouco antes do inverno, um punhado de administradores de Harvard distribuiu cartões um refeitório no campus, instruindo os estudantes que estavam indo embora
sobre a ruptura e como responder aos membros de suas famílias em questões como raça, ativismo estudantil, e crise de refugiados.  

Esses "pontos de conversa" politicamente corretos suscitaram preocupações imediatas sobre a liberdade acadêmica e, eventualmente, a universidade foi forçada a se desculpar. No entanto, o chamado Holiday Placemat para Justiça Social tipifica a forma como as faculdades e universidades estão alinhando-se com alguns dos piores aspectos da cultura americana. Combinando a confiança proselitista de um trato religioso fundamentalista com o oportunismo de marketing do McDonald's, esses cartões sugeriram que você poderia dar testemunho da verdade sobre tudo, desde a controvérsia do traje de Halloween em Yale até a crise de refugiados sírios, tudo sem perder a pose.

Quaisquer que sejam as suas pretensões a uma política progressista e esclarecida, o espírito predominante do cartão é a ênfase da sociedade de consumo na rapidez e conveniência. Não há necessidade de pensar essas questões por si mesmo - nós pensamos por você. Além disso, "é o que todos estarão pensando neste outono". Esse ethos dissimulado do consumista ajuda a explicar o que de outra forma parece especialmente incongruente com a educação superior na América de hoje: como enquadrar a imposição supostamente "progressista" - mas, de fato, retrógrada - de códigos de fala e espaços seguros com a ênfase simultânea no comércio e empreendedorismo, uma ênfase especialmente favorecida pelos conselhos de administração orientados para os negócios. A resposta é que ambos estão interessados ​​na mesma coisa: operações suaves a qualquer custo. Muitas vezes esse custo é a negação da missão da própria universidade.

É a versão do ensino superior do que o psicanalista e ensaísta britânico Adam Phillips chamou de fobia à frustração numa cultura capitalista: uma tendência maníaca de dirigir nossos estados de incerteza - momentos em que podemos estar genuinamente intrigados com nossos desejos, quando não sabemos o que queremos ou pensamos - para uma fonte imediata de satisfação. Tal cultura é como um parceiro de conversação que constantemente termina suas frases por você - ou melhor, termina suas perguntas transformando-as em declarações positivas de crenças e desejos.


Em uma entrevista de 2013 na Biblioteca Pública de Nova York, Phillips sugeriu que a frustração - no sentido de esperar, de não saber - é algo que deve ser ensinado nas escolas, "porque as crianças sabem muito sobre frustração e precisam de línguas sobre isso para tornar mais sedutor, interessante e intrigante do que apenas terrível ou assustador ou qualquer outra coisa".


"Presumivelmente, ensinar frustração àqueles que, afinal de contas, sabem muito sobre isso já significa encorajá-los a ver suas pausas, suas hesitações e suas aparentes falhas como sinais de abundância ao invés de querer ignorar isso. Muitas vezes, a linguagem que torna esses estados de incerteza mais atraentes e interessantes pode surgir espontaneamente - como quando, por exemplo, um estudante meu que ficou frustrado durante semanas por minha sugestão de que as afirmações de tese provavelmente não fossem boas coisas sobre obras da literatura, começou a reconhecer que sua frustração era em parte um medo da liberdade. "Você realmente está apenas aumentando meu subsídio", disse ela.

A maioria dos estudantes vem para a faculdade com uma língua rica em subsídio já em andamento. Para notar isso, você só precisa ter uma conversa com eles sobre sua vida doméstica, seus pais, um irmão problemático ou amigo que eles mencionaram e, quase sem exceção - independentemente da cor da pele, religião, orientação sexual ou afiliação política - o que será uma qualificação de incerteza, um insight e uma ambivalência. Muitas vezes, os estudantes descontam essa linguagem - e até são ensinados a descontá-la - porque o vocabulário parece tão comum e as formulações tão hesitantes, especialmente quando comparadas com a linguagem abstrata e aparentemente refinada da academia.

Mas o que os alunos experimentam como falta de fluência sobre as coisas mais próximas a eles é mais bem entendido como consequência de suas aspirações morais, sua tentativa de fazer justiça à variedade de coisas que importam e à variedade de maneiras que elas importam. Expandir e elaborar essa linguagem de concessão, em vez de tentar reduzi-la, simplificá-la ou substituí-la, é o projeto em andamento de uma educação genuinamente democrática, cujo objetivo é multiplicar e não restringir nossas simpatias, idéias e qualidades.

Deveria ser assim, mas raramente é - o que está implícito em toda a conversa sobre diversidade no ensino superior. Não é que a conversa sobre diversidade vá longe demais, mas que nunca chegue longe. Ela é longa sobre as diferenças entre os grupos, mas curta sobre as diferenças dentro deles (e dentro de cada um de nós). 

  
Contudo, essas últimas diferenças - as "multidões" e as contradições que Whitman encontrou dentro de si - fornecem o caminho mais seguro para a conexão e o respeito humanos, porque somente quando reconhecemos e admitimos o quão misteriosos somos, até mesmo para nós mesmos, podemos começar a nos relacionar com o outro com atitudes abertas de humildade e incerteza, ao invés de atitudes fechadas de julgamento e medo.    
 


*Lyell Asher é professor associado de inglês no Lewis & Clark College, em Portland, Oregon.



Postado originalmente em: The American Scholar

 

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