terça-feira, 6 de junho de 2017

Qual o motivo do fracasso da série SENSE 8?

Por: Marcus Valerio XR



Certo dia, após muita recomendação, assisti SENSE 8, com expectativa elevada não apenas por ser uma obra dos Irmãos Wachowski (agora "transmulheres" assumidas), mas por também ter a participação de J. Michael Straczinsky, autor da que é até hoje minha série de ficção científica favorita: Babylon 5.

Assisti apenas ao primeiro episódio e não tive a menor vontade de ver o segundo. Nem entro no mérito de ser uma propaganda feminista. Acho que é direito de qualquer ideologia se promover por meio da cultura pop, só não sendo correto desejar censurar a promoção de ideologias adversárias (que é exatamente o que costuma ser feito neste caso). Digo porque, se a ideia era representar a diversidade da humanidade com uma abordagem global (gostei das locações em vários países), então a série falhou desastrosamente.

Para começar, numa amostragem de 8 pessoas, o correto seria haver dois chineses - e não há nenhum. Há uma indiana (seria correto também ter mais uma) e uma sul coreana, apesar da Ásia ter metade da população mundial. Há um africano, apesar da África ter mais gente que todo o chamado Ocidente que, por outro lado, possui 5 representantes na série. Há dois estadunidenses (apesar de os EUA corresponder a menos de 5% da humanidade), dois europeus e um mexicano.

Considerando que tudo o que chamamos de Ocidente não é sequer 1/7 da humanidade, no que se refere a pretender dar uma boa amostragem da experiência humana universal, a série fracassa por não conseguir escapar de seu etnocentrismo anglófono, uma vez que é evidente que a escolha da herdeira rica sul coreana, da indiana e do africano do Quênia se dá evidentemente pelo fato deles serem falantes do Inglês, idioma que é usado no máximo por cerca de 10% da humanidade. E a questão linguística não seria uma obstáculo à dinâmica da série (como a saudosa LOST foi capaz de demonstrar bem), mas também pelo fato de que, envolvendo ligações telepáticas entre os membros, essa barreira idiomática poderia ser facilmente contornada pelo próprio conceito da telepatia, que poderia promover aprendizado praticamente instantâneo dos idiomas por todos os 8 personagens mentalmente conectados.

Como se essa representação demográfica e cultural já não fosse completamente viciada, ainda por cima dois dos personagens são homossexuais, o que, numa amostragem de 8 pessoas que representasse a humanidade, deveria inserir no máximo um bissexual. E, para completar, há uma "transmulher", o que, mais uma vez, em termos de representação, nem deveria existir, já que isso corresponde a menos de 0,1% da humanidade.

Em suma, a amostra não só é viciada etnograficamente, mas sobretudo em termos de sexualidades alternativas, que no máximo atingem 3% da espécie humana. E sexualidade não é um dado de menor importância, como seria no caso, por exemplo, da profissão ou da religião, visto que, tal como o gênero dos personagens (unica coisa que foi correta em termos de representação), esse é um dado estrutural da experiência humana que vai além das meras variações culturais, que poderiam ter representação menos proporcionais sem grande prejuízo (afinal, ladrões sofisticados e herdeiras de empresários bilionários também não são representantes devidamente proporcionais da humanidade).

Portanto, temos aí a insistência progressista de dar a fenômenos humanos ínfimos em termos de representatividade uma importância desmedida, muito além de questões absolutamente cruciais que afetam a maioria esmagadora da espécie humana, como as questões étnicas, religiosas, políticas e econômicas.

Soma-se a isso clichês hollywoodianos contemporâneos como hackers gostosas e franguinhas lutadoras; e não tenho como lamentar o cancelamento da série que tem sido superestimada não pelo seu conteúdo, mas pelo seu tom panfletário ideológico que chega ao ponto de estimular orgias sexuais públicas "politizadas", corroborando ad nauseam uma das mais monumentais farsas históricas da contemporaneidade, a tal "Revolução Sexual", que atende caprichos de elites mimadas de países ricos enquanto a maioria esmagadora da humanidade ainda almeja revoluções socioeconômicas.

The Matrix pode ser panfletário, mas o é num sentido crucial, associando a clássica Saga do Herói, que é essencialmente revolucionária, numa roupagem que , além de permitir vários níveis de leituras mítica, simbólica e psicológica, ainda permite a analogia direta com uma revolução de massas. Não deixa de ser curioso ver entusiastas da "Pílula Vermelha" ideologicamente alinhados ao conservadorismo e liberalismo, quando a leitura mais direta de Matrix é exatamente a da derrubada do sistema político econômico vigente, no qual até mesmo se fala em escravidão e na prisão que estão por toda parte - e que nos rodeia a tal ponto que não nos damos conta dela, mas que nos destrói continuamente o sentido existencial.
 
Babylon 5 é uma brilhante analogia da geopolítica mundial ilustrada por meio de civilizações extraterrestres onde podemos identificar facilmente os ocidentais, os orientais, os africanos, etc., e , ao mesmo tempo, com questões místicas e filosóficas mais profundas, envolvendo espécies ultrapoderosas que cumprem o papel simbólico de divindades, por vezes esquecidas e ocultas e, em outras ocasiões, que se revelam em eventos galácticos de relevância armagedônica.

Mesmo Jupiter Ascending permite um perspicaz leitura da realidade plutocrática de nosso mundo, com uma analogia até mais precisa que a de Matrix (e que já examinei brevemente[1]) mas que infelizmente parece ter passado por completo desapercebida.

Sense 8 até tem alguns elementos interessantes no sentido de uma alegoria sobre integração, empatia e conexão humana, mas que terminam passando ainda mais desapercebidos devido ao foco na panfletagem feminista e sexualmente libertária, que terminou ditando o tom da percepção de seu público. Os protestos contra o fim da série parecem ter ignorado totalmente o que esta teria de mais interessante, e se focam exclusivamente nessa propaganda da representatividade tão falsa e equivocada quanto achar que o hedonismo carnal de uma ínfima minoria é mais importante que toda uma realidade concreta muito mais profunda, dominante e universal, que é o que deveria ser objeto de uma abordagem verdadeiramente representativa da espécie humana.



Notas:

[1]
Reflexões sobre JUPITER ASCENDING

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