segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Usura é roubo: os juros são o verdadeiro problema

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Os verdadeiros mestres da economia estão acima do próprio governo e do próprio Estado. O clamor contra os impostos oculta o verdadeiro cerne da questão anti-produtiva: os juros.

Quando se fala em prejuízo à produtividade e no entrave ao desenvolvimento econômico, ao poder aquisitivo e à qualidade de vida econômica, o primeiro "inimigo" que surge é o imposto. Afinal, a "lógica" liberal diz que os produtos e serviços ficam mais caros por conta da intervenção estatal na economia, os pesados tributos e impostos cobrados pelo governo, que desestimulam a produtividade e tornam todas as coisas mais caras e piores. O imposto pode desempenhar um papel nesse fator, mas os juros são o vilão principal - e nunca (ou quase nunca) se fala sobre eles.

Toda a lógica liberal consiste em jogar o ônus das dívidas e crises nas costas do trabalhador, enquanto fazem críticas superficiais à estrutura política. O que não entra na análise liberal é o aspecto criminoso e imoral da usura extremamente exagerada. Sim, usura é roubo. Enquanto a corrupção política retira parte do seu orçamento, a elite bancária garante que esse desvio continua e, além disso, promove esse desvio numa escala muito superior à corrupção governamental. Em praticamente todas as campanhas eleitorais, a pauta do "combate à corrupção" (algo extremamente vago) é colocada na mesa - mas nunca se fala no combate à usura e à estrutura da elite financeira, que permanece intocada.

O que é usura? É, em termos simples, o valor obtido de juros, rendas ou rendimentos de capitais. A economia global, extremamente suscetível às crises, reside sobre esse conceito. Isso significa que o que sustenta a engrenagem econômica atual não é a produção de riquezas reais (bens e serviços), mas sim a capacidade de adquirir capital e, por meio de dívida, ampliar esse capital. Assim, riqueza é dívida e dívida é riqueza.

Dívidas são lucrativas, porque permitem a ampliação da usura como fator essencial à "continuidade" da economia: se você não tem dinheiro, deve tomar emprestado de alguém, seja um agiota ou um banco (os bancos também são agiotas, só que maiores e com funcionários bem vestidos) - ou de um parente. O mesmo vale para o Estado. Não importa se milhões ficam desempregados, se fábricas e empresas inteiras fecham as portas e cidades e estados entram em colapso: contando que os juros estejam rodando, isso é o que conta. Como num cassino, "a casa sempre ganha". 

Dívidas são bastante lucrativas. Elas não são "eventualidades" de uma economia perfeitamente adaptável e flexível, nem acidentes ou erros da "mão invisível" do deus-dinheiro cultuado pelos liberais: são resultados naturais do sistema liberal de economia global, uma economia essencialmente virtual e baseada em dívida, não em riqueza real e efetiva.

Em 2015, o Itaú lucrou mais de R$23,35 bilhões, um valor 15.4% maior em relação ao ano anterior[1]. No mesmo ano, o Bradesco registrou um lucro de R$17.19 bilhões[2]. Foram os dois maiores lucros de bancos já registrados no Brasil. Como isso é possível em plena crise? Muita gente perdeu o emprego nessa mesma época (e continua a perder), e talvez você mesmo seja um deles. Muitas empresas e negócios fecharam as portas. Mas é exatamente nos períodos de crise que os bancos mais lucram. Como um quadro onde a maioria, sem dinheiro para as necessidades básicas, apresenta esse tipo de anomalia?

Esse é o resultado da economia baseada em usura, em dívida. Quanto mais dinheiro você perde num cassino, mais a casa ganha. Sim, esse é o sonho liberal: um grande cassino, uma economia onde tudo depende da sorte, do acaso, da "mão" - e onde aspectos racionais como o planejamento e o dirigismo são tratados como "utopias". Esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas sim global: onde há crise, há super lucros (não para o povo, é claro).

A justificativa liberal é que esse corporativismo bancário só se sustenta por conta do Estado. Mas, como já mostrado, o Estado está numa escala de poder inferior em relação a essas instituições, que inclusive se torna dependente delas. Fosse o Estado um agente onipotente, seria fácil suprimir essa atividade de usura - e não é de se estranhar que os poucos países que resistam a esse sistema sejam justamente aqueles demonizados pela mídia e até mesmo invadidos militarmente. 

Nesse sentido, o Estado é muito mais um meio para a corrupção estrutural do que um fim em si mesma, como julga a pseudo-moralidade liberal. Quem controla efetivamente os rumos da nação são aqueles responsáveis pelo dinheiro, e pode apostar que não são os políticos. O Banco Central, nesse sentido, é tão "público" quanto uma franquia da Mc Donalds. A inexistência do Estado em nada alteraria essa configuração, já que essas estruturas poderosíssimas são capazes de manter e ampliar sua rede de influência independentemente do Estado - e, na maioria dos casos, suas ações são feitas acima de qualquer legislação ou legalidade.

O Brasil possui imensas taxas de juros: 14.25% ao ano, segundo dados do Banco Central do Brasil[3] - as maiores do mundo. Dentre uma pesquisa feita com 40 países, temos a maior taxa de juro real, que é de 8% ao ano[4]. Pra se ter uma ideia, o segundo colocado no ranking é a Rússia, com uma taxa de juros de 2.98% (quase três vezes menor do que a do Brasil). 

Isso significa desestímulo à produção real, ao empreendedorismo e à geração de empregos. Culpar exclusivamente o Estado e os impostos por esse quadro de pessimismo financeiro significa ignorar a própria natureza do mercado contemporâneo. Com juros altos e um rendimento baixo de poupança (apenas 0.67%[5]), a economia de recursos é desestimulada e a tomada de empréstimos é quase que compulsória. Isso significa que grande parte do resultado de seu trabalho real (mais da metade do PIB - Produto Interno Bruto) é entregue a especuladores e grandes banqueiros, sem seu consentimento e sem qualquer retorno positivo.

Os juros são parte de praticamente qualquer atividade produtiva. Empresas e governos pagam juros sobre o dinheiro que tomam emprestado; como a maioria opera em dívidas (mesmo que ocasionais), é mais racional tomar empréstimos do que simplesmente fechar o negócio. Logicamente, quanto maior a taxa de juros maior será o endividamento; quanto maior o endividamento, maior será a necessidade de tomar novos empréstimos. É um ciclo praticamente vicioso.

As taxas de juros são extremamente relevantes e influentes em como o sistema produtivo se comporta e o quanto esse sistema é capaz de produzir e gerar riquezas, como mencionado pelo Small Business [6]:

As taxas de juros estão relacionadas com a quantidade de dinheiro flutuando através do sistema econômico, como dinheiro em bancos, dinheiro emprestado aos consumidores através de cartões de crédito, empréstimos para imóveis e veículos, dinheiro pago pelas empresas aos seus empregados e dinheiro que se move em todo o setor de negócios e investimentos. Quando há mais demanda de compra em relação à quantidade de dinheiro em circulação, esse dinheiro vale mais. Quando os bancos emprestam, eles cobram uma alta taxa de juros que reflete seu valor de escassez. Os investidores recebem uma alta taxa de juros, porque o sistema financeiro precisa de dinheiro para emprestar, então as instituições financeiras estão dispostas a pagar altas taxas de juros para atrair dinheiro investidor. Taxas de juros altas tornam mais caro para as empresas emprestar dinheiro para financiar suas operações, folha de pagamento e compras. As altas taxas também acabam por desencorajar os consumidores de comprar por causa da despesa envolvida, o que bloqueia a atividade econômica.
Sendo assim, os bancos lucram mais quando há uma situação de crise, porque as taxas de juros aumentam e isso atrai investidores que podem fazer aplicações com retornos mais altos. Quanto maior a dívida, maior a taxa de juros; quanto maiores as taxas de juros, mais atrativas as aplicações. Quanto menos dinheiro circulante, mais dinheiro acumulado. Parece uma lógica simples, mas é algo extremamente ignorando nas discussões sobre economia, produtividade e desemprego.

Essas somas imensas subtraídas pelos juros são dinheiro "queimado": não há retorno produtivo, não há qualquer contrapartida positiva nem mesmo compensação. E a natureza da atividade especulativa não é a reorientação desse dinheiro para os setores produtivos. Ao contrário: a tendência é a continuação dessa atividade, é especular mais para conseguir mais dinheiro que deve continuar a ser expandido por dívida.

Literalmente, enquanto você trabalha gerando riqueza real para si, para um chefe (ou contratante), para o governo e para a economia como um todo, os mais ricos não geram riqueza nenhuma e apenas especulam com seu dinheiro, enriquecendo através de juros e se beneficiando das dívidas. Você produz uma fração real de riqueza que é desmembrada e aproveitada pelo sistema econômico inteiramente virtual, sem qualquer lastro - o que o banco te dá é um "número", mas a riqueza real que gera esse número sai inteiramente do seu bolso. É como trocar um bem ou uma quantia em dinheiro por um papel com um valor subjetivo dado pelo próprio credor.

Dá pra imaginar as consequências negativas de um sistema econômico que favorece o capital, e não o trabalho; a dívida e a especulação, e não a riqueza. Desemprego, arrocho salarial, retrocesso na qualidade de vida e desmantelamento dos serviços públicos são apenas alguns desses efeitos - que não são acidentais, mas naturais desse processo.

Defender essa "logica" mecanicista de mercado significa defender o enriquecimento imoral às custas do empobrecimento do povo e do endividamento do Estado. As consequências já são visíveis: servidores com salários atrasados e desestímulo à produção. A receita liberal? Mais "austeridade" e esfacelamento da estrutura pública - sem qualquer defesa à redução de juros, que significaria um estímulo real à economia e, consequentemente, geração de empregos e renda.

Usura é roubo e grandes banqueiros são criminosos. Um estímulo efetivo à economia não deve incluir apenas cortes bem analisados em certos impostos, mas também uma redução efetiva e radical das taxas de juros, especialmente em situações de crise. O bem-estar e as condições de vida de milhões de brasileiros e o estímulo à atividade produtiva devem estar acima do lucro de meia dúzia de rentistas e investidores, e o Estado é um mecanismo efetivo para realizar isso. O mito de que a intervenção estatal na economia é essencialmente ruim deve ser quebrado.




Fontes:

[1] G1 - "Lucro do Itaú Unibanco atinge R$ 23,35 bilhões em 2015" - matéria publicada em 02 de fevereiro de 2016, às 07h16m; atualizada em 02 de fevereiro de 2016, às 18h44m.

[2] G1 - "Lucro do Bradesco cresce para R$ 17,19 bilhões em 2015" - matéria publicada em 28 de janeiro de 2016, às 06h51m; atualizada em 28 de janeiro de 2016, às 13h36m.


[4] O Globo - "Brasil tem a maior taxa de juro real do mundo - Levantamento mostra que, para sair da liderança, Selic precisaria cair 4.5 pontos" - matéria publicada em 20 de julho de 2016, às 18h08m; atualizada em 20 de julho de 2016, às 21h57m. 

[5] Finance One - "Rendimento e Histórico da Poupança" - valor registrado para janeiro de 2017.

[6] Small Business - "How Do Interest Rates Affect Businesses?" [Como as Taxas de Juros Afetam os Negócios?]

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Um comentário:

  1. Jurômetro! Liberais "Em Defesa dos Ricos e Oprimidos 3"
    https://youtu.be/YPuDzOQq3vE

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