quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

John Lennon: 10 verdades inconvenientes sobre o Hippie multimilionário

Por: Edward Benjamin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho

Lennon, ícone de uma geração nascida do globalismo que sonha com um mundo material uniforme, homogêneo, apático

Quando você é essencialmente canonizado como um santo secular moderno, não há maneira de não ser superestimado em um grau ou outro; mas, no caso do lendário John Lennon, a distância entre o ídolo adorado e a pessoa real é imensa. E os elogios feitos a ele vêm de tão alto que é impossível não tentar atenuar os danos em algum grau. A verdade é que muitas pessoas - jovens e velhas - em todo o mundo modelam suas vidas e crenças de acordo com o ícone de Lennon, e elas realmente (realmente mesmo) não deveriam fazer isso.

Aqui estão 10 fatos que explicam o motivo:

10. Agressor 



Simplesmente não há como negar esse fato: o ícone reverenciado da paz e amor tinha um problema sério com violência contra a mulher. Isso foi documentado desde os dias dele em Liverpool, e ele mesmo eventualmente admitiu esse fato, mais tarde. Sua primeira esposa, Synthia, e sua segunda esposa, Yoko Ono, foram (as duas) vítimas da brutalidade de Lennon num ponto ou outro; e, dado o fato de que a maioria dos homens que agridem suas esposas ou namoradas regularmente não fazem distinção sobre o objeto de sua violência, é francamente impossível que elas tenham sido as únicas. Parece claro numa perspectiva de que um ícone gentil adorado por hippies foi, na verdade, um homem com problemas psicológicos sérios que perdia o controle e, em fúria, agredia as mulheres que passavam por sua vida.

9. Abusador emocional do próprio filho

Sem dúvidas, a maior vítima do caráter de Lennon foi seu filho mais velho, Julian. Lennon claramente culpava o garoto cuja concepção havia o forçado a entrar num casamento que ele não queria e prendê-lo a uma vida de rotina doméstica para a qual ele era imatura e narcisista demais pra manter. Tanto Julian quando sua mãe, Cynthia, declararam publicamente que Lennon era alternadamente ausente, indiferente, drogado e geralmente alguém cuja companhia era desagradável durante a infância de Julian. Depois que ele se divorciou de Cynthia, Lennon saiu com Yoko Ono e abandonou a vida do filho durante anos. Depois que eles se reconectaram, Lennon abusou severamente do emocional do próprio filho em várias ocasiões, censurando o filho e gritando com ele, fazendo o garoto se reduzir às lágrimas. Certa vez, Julian deu risadas e Lennon disse para o próprio filho: "Odeio o jeito de m*rda como você ri!". Julian ainda não era um adolescente na época. Talvez, o testemunho mais triste já feito sobre Lennon, Julian relatou que Paul McCartney foi mais pai para ele do que seu pai verdadeiro jamais havia sido. 

8. Mentiroso patológico


Simplificando, John Lennon inventou sua própria vida - exagerando, embelezando e mentindo quando lhe era conveniente. Normalmente, ele o fazia por pura egomania - um desejo de fazer-se parecer melhor do que realmente era. Todo mundo faz isso até certo ponto, mas no caso de Lennon, ele reescreveu quase todos os grandes eventos de sua vida para atender seus próprios gostos. Ele alegou ter sido um rapaz de classe trabalhadora de Liverpool antes dos Beatles; mas, na verdade, ele foi criado numa casa confortável de classe média. Ele negou estar casado durante seus primeiros anos de estrelato. Ele afirmou ter conhecido Yoko Ono em uma exposição de arte e seu amor floresceu espontaneamente; mas, na realidade, Ono o perseguiu durante meses antes de ele ceder a seus avanços. 

Ele afirmou ter perdido o interesse pelos Beatles devido às tendências de Paul McCartney em relação à música pop e ao papel dominante dele no grupo, bem como seu desejo de fazer um trabalho mais avant-garde fora da banda; mas, na verdade, ele já tinha quase deixado a banda dois anos antes de sua saída oficial - por causa de um sério vício dele em heroína. Quando ele emergiu de volta ao público, pouco antes de sua morte, ele alegou que estava passando tempo cozendo pão e sendo um pai em casa; na verdade, ele estava vivendo em uma névoa induzida por drogas na maioria das vezes. A verdade em todos esses casos era embaraçosa, mas não mais do que o tipo de comportamento com o qual muitas estrelas do rock reconheceram se envolver durante os anos 60 e 70; de qualquer maneira, Lennon mentiu compulsivamente sobre essas coisas.

7. Quebrou os Beatles



Ao contrário dos contos posteriores sobre uma ruptura espontânea ou sobre a decisão de Paul McCartney de deixar a banda, foi John Lennon quem destruiu os Beatles. Certamente, nem tudo ia bem com a banda durante os anos finais da década de 60, mas foi Lennon - e Lennon sozinho - quem deu a última machadada para derrubar o grupo, anunciando (numa reunião rotineira) que ele estava deixando o grupo. Isso foi mantido em segredo por algum tempo, mas ninguém mais tinha quaisquer ilusões sobre a capacidade do grupo de prosseguir sem ele. Essencialmente, a partida de Lennon fez com que a morte dos Beatles fosse inevitável: só levou um ano ou mais para o obituário ficar pronto.

6. Politicamente irrelevante


As pessoas tendem a ver Lennon como uma espécie de guru divino de "paz e amor" por conta de suas atividades políticas no início dos anos 1970. A verdade é que a maior parte da reputação de Lennon como ativista político é baseada somente em fotos dele com vários radicais dos anos 60 e suas próprias declarações dadas à imprensa. Ele nunca fez nada de notável no campo político, e a maioria dos radicais que ele tanto louvava achavam que ele era um ignorante. As poucas coisas que ele realmente fez, como dar dinheiro e publicidade a grupos violentos como os Black Panthers, não são motivo de orgulho nenhum.

5. Sem talento




Este é provavelmente o item mais controverso nesta lista, e deve-se admitir que é uma questão inerentemente subjetiva em certa medida; mas uma análise muito boa pode ser feita porque, mesmo como músico e compositor, Lennon foi notavelmente sub-talentoso . Primeiro, ele era, na melhor das hipóteses, um guitarrista médio, principalmente confinado a partes rítmicas básicas, e seu piano não era muito melhor que isso. 

Quanto à sua carreira de compositor, sim, ele escreveu um punhado de músicas verdadeiramente inspiradas, mas com o passar do tempo e o hype nostálgico que rodeia os Beatles já começando a desaparecer, muitos de seus trabalhos posteriores se tornaram muito bobos e ultrapassados. Tente ler as letras de "Strawberry Fields Forever" ou "Come Together" algum dia. Eles são puro hippie psicodélico balbuciante, o tipo de coisa que passou por profundidade de névoa induzida por drogas do final dos anos 1960. A única coisa que os faz "funcionar" é a produção fantástica, para a qual o crédito facilmente vai para o produtor George Martin e os outros Beatles, tanto quanto para Lennon (ou seja, os méritos não são só dele).

Na verdade, olhando para trás e analisando o legado dos Beatles, pode-se fazer um caso muito bom sobre o fato de que Paul McCartney e George Harrison (nos últimos álbuns, pelo menos) foram talentos superiores para Lennon no departamento de composição. A verdade é que, depois de 1965, Lennon mais ou menos cai fora dos Beatles. Ele quase não tinha nada a ver com o álbum  Sgt. Pepper, e a maioria daquilo que veio depois foi produzido - por admissão de todos - em grande parte sob o comando de Paul McCartney. Até o final, como você pode ver no filme Let It Be, McCartney estava desesperadamente tentando motivar um Lennon que simplesmente não queria estar lá. Quanto à carreira solo de Lennon, há cinco ou seis canções memoráveis, e o resto ... Bem, você pode nomear uma única faixa de "Sometime in New York City"?

4. Um seguidor, não um líder

Esse fato é verdade para praticamente todos os membros dos Beatles; mas, com Lennon, essa é uma verdade particularmente óbvia. No começo, ele estava seguindo a tradição de ritmo criada nos Estados Unidos e do blues com um punhado de baladas pop do estilo de Roy Orbison [na foto à esquerda]. Mais tarde, Lennon já estava obviamente tentando canalizar o que Bob Dylan fazia. 

Então, ele só se aproximou dos estilos psicodélicos das bandas da Califórnia que atuavam sob efeito de drogas. Depois disso, ele usou as glórias do vanguardismo da música de arte moderna, bastante influenciada por John Cage (ao lado esquerdo, na foto). Verdade seja dita: John Lennon não fez praticamente nada que já não tivesse sido feito antes por artistas mais originais e talentosos do que ele.




3. Um conformista estúpido


Apesar de sua reputação como um pensador livre que seguia seu próprio caminho, Lennon foi um caso óbvio de alguém desesperado para se adaptar. Sim, ele estava tentando se encaixar nos grupos que eram considerados como "não-conformistas", mas conformismo é conformismo. Desde o início, Lennon estava agindo como um poser. No começo da carreira dele, o estilo de "garoto ursinho" estava em alta, então ele aparecia com em jaquetas de couro e pompadour. Depois, ele adotou o estilo pop fofinho. Depois, ele entrou naquela coisa hippie psicodélica. Em seguida, entrou pra vanguarda moderna. O processo nunca acaba. Tudo a respeito de Lennon, de sua música e política à forma como ele se vestia, era uma tentativa de se encaixar em sub ou contra-culturas que já existiam.

2. Desesperado por fama e dinheiro


Por mais que ele gostasse de fingir ser um artista mal compreendido seguindo sua própria visão intransigente, a verdade é que Lennon perseguia a fama e a fortuna desde o início. Mesmo nos primeiros dias de sua carreira, quando os Beatles eram apenas uma banda de bar lutando pra fazer sucesso, ele costumava exaltá-los dizendo que iriam "para o topo mais alto do maior pop". Ele segiu alegremente o papel junto com os outros Beatles, usando cortes de cabelo, ternos e imagem bastante calculados, bem como as inúmeras aparições da banda para a mídia. 

Ele só começou a denunciar tudo como "superficial e vazio" mais tarde, quando ele já estava cultivando uma reputação de vanguardista. Suas palhaçadas implacáveis com Yoko Ono no início dos anos 70 pareciam ser tentativas flagrantes de chamar a atenção que podemos nos perguntar como alguém conseguiu levá-los a sério naquela época. E, claro, ele nunca recusou qualquer dos salários gordos que vinham como resultado de sua fama e sucesso.

1. Hipócrita



Este é o ponto mais duro e o mais difícil de se dizer em público, principalmente porque o assassino de Lennon (na foto acima) citou exatamente a hipocrisia de Lennon como seu principal motivo para cometer o crime - mas isso não o torna menos verdadeiro: Lennon foi o exemplo perfeito de alguém que vivia da hipocrisia, alguém que diz coisas como "faça o que eu digo, não o que eu faço". 

Como seus críticos às vezes apontam, tudo que você tem a fazer é ir direto para suas canções. O homem que cantou "imagine no possessions" [imagine nada de posses] viveu a vida de um milionário em um elegante hotel de New York. O homem que cantava "imagine no religion" [imagine nenhuma religião] era obcecado com todas as modas espirituais da Nova Era que apareciam em seu caminho, incluindo a meditação hindu, o I-Ching e a astrologia de todos os tipos. 

O homem que cantou "all you need is love" [tudo que você precisa é o amor] era um homem amargo, violento e zangado que abusava de sua família e amigos. O homem que disse "nothing to kill or die for" [nada pelo qual matar ou morrer] ajudou a financiar e divulgar grupos radicais que exaltavam o uso da violência. Literalmente, tudo o que seus fãs vêem personificado no ícone de John Lennon são ideais que o próprio homem não poderia ou não faria.


Postado originalmente em: ListVerse
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Tudo que você não sabia sobre os curdos

(Em resposta ao vídeo "Os Curdos: Tudo o que você Precisa Saber" - Dave Rubin fala a Bayan Sami Rahman)

Por: Max J. Joseph
Traduzido por: Jean A. G. S. Carvalho



Introdução

Deixe-me ser bem objetivo: a ideia de convidar Bayan rahman, a representante máxima do Partido Democrático do Curdistão (PDC) nos EUA (e, anteriormente, no Reino Unido) para o Rubin Report sem fazer qualquer questionamento difícil e desconfortável sobre os curdos, a política deles, suas alegações ou a narrativa que eles apresentam e que têm apresentado especificamente sobre a região curda do Iraque, então, chamar uma farsa de "Tudo o que Você Precisa Saber" é algo malicioso e enganador. Quão baixos estão os padrões agora?

Dito isso, bem-vindos ao meu show, "Tudo o que Você não Sabia sobre os Crudos", onde eu vou, primeiramente, comentar sobre os apontamentos de Bayan Sami Rahman e, depois, apresentar a vocês o que poderia ter sido abordado em relação ao foco que ela manteve: os curdos no Iraque.

Contexto histórico

Bayan Rahman, representante máxima do Partido Democrático do Curdistão [PDC]


Bayan Rahman define o tom da entrevista alegando que os três homens sábios [os "Três Reis Magos"] que visitaram Jesus eram do Curdistão. Olhos abertos à parte, vamos fingir que isso não foi dito e simplesmente continuar.



Ela alega que o Curdistão foi dividido entre quatro países depois da Primeira Guerra Mundial, quando, na realidade, foi o Império Otomano que havia sido dividido em quatro estados diferentes, todos sob mandatos das potências europeias. Aquilo ao qual ela se refere é um Curdistão idealizado que seria o maior país do Oriente Médio, tudo às custas dos povos das outras nações que, de modo heterogêneo, estão inseridas naquelas terras, muitas das quais sofreram genocídios nas mãos dos turcos otomanos e dos próprios curdos, povos que foram expulsos de suas terras, tendo seus territórios sido reduzidos a ruínas.



Falando sobre o genocídio: a população assíria total foi reduzida em cerca de 75%, e não há nenhum reconhecimento disso, nenhuma compensação e nenhuma apreciação desse tema; espera-se que simplesmente aceitemos esse grande crime, nos curvando a um Estado de um Curdistão emergente, construído sobre o sangue e os recursos de nossos ancestrais assassinados, bem como sobre os ancestrais dos armênios e gregos, que sofreram o mesmo trauma.



"O povo do Curdistão foi dividido", disse Bayan Rahman, que, convenientemente, omite o fato de que o povo da Assíria foi assassinado pelo "povo do Curdistão" em muitas ocasiões, enquanto ambos estavam sendo divididos. Esses fatos históricos, sendo omitidos enquanto se fala sobre história moderna e sobre como os curdos chegaram nessa situação precária na qual se encontram entre os vacilantes Estados resultantes do tratado Sykes-Picot não é nada mais que um breve revisionismo histórico.



Ela prossegue: "No Iraque, eles colocam os sunitas e xiitas juntos, e querem que os curdos sejam o terceiro elemento para equilibrar os outros dois".



Mais uma vez, isso não passa de revisionismo histórico. Esses recrutas é que foram colocados juntos uns aos outros, treinados e instituídos pela Grã-Bretanha para manter a ordem na região. Essas tropas logo se tornaram quase que exclusivamente assírias, já que, por alguma razão, a Grã-Bretanha parecia mais inclinada a manipular assírios[1] para que eles (e não os curdos) fossem essa força de equilíbrio que Bayan Rahman citou. Foram esses recrutas assirios que alienaram os outros grupos no novo Estado do Iraque.



O primeiro ato militar do Iraque, conduzido após a conquista de sua independência, em 1932, sob a liderança do general curdo Bakr Sidqi, foi o massacre da população assíria em Simele e nas áreas da redondeza, onde curdos, árabes e outros se uniram sob uma causa comum: infligir mais violência contra os cristãos assírios e saquear suas cidades e vilas, assassinar os homens e estuprar e matar as mulheres e as crianças. Muitos desses assírios ainda estavam se recuperando do genocídio otomano que havia acontecido menos de duas décadas antes desse episódio.



Território



Esse próximo ponto é crucial: Dave Rubin pergunta "o que se tornará o Curdistão - quais suas esperanças para aquilo que se tornará o Curdistão - ele vai abranger mais áreas, certo?" Bayan Rahman responde que "O GRC agora controla todo o território curdo, e oficialmente nós administramos só uma parte dele, mas, depois que fomos empurrados pelo ISIS depois de terem nos atacado, agora nós temos o controle de todas as áreas curdas do Iraque".



Ela começa com a premissa idealista daquilo que constitui o "Curdistão" - uma ideia tão vagamente definida que muitos curdos com os quais eu converso possuem, cada um deles, uma visão diferente acompanhada de mapas diferentes. 



É claro que aquilo que Bayan Rahman define como "Curdistão" está totalmente alinhado àquilo que o PDC define como sendo o Curdistão, ou seja, as áreas que eles não controlam atualmente, mas que desejam controlar - por conta da geografia, dos recursos, etc. Qual é o critério dela para definir o "território curdo"? A definição que persiste hoje é simples: "qualquer lugar onde os curdos vivem". Mas essa definição não se encaixa nem mesmo com áreas como as planícies de Nínive, onde os curdos quase nunca tiveram qualquer presença e que, mesmo assim, alegam ser um território seu. 



Ela começa falando da posição de que essas terras são curdas e que o GRC (Governo Regional do Curdistão) está revindicando essas terras do Estado Islâmico. Isso é conquista disfarçada de liberação.



Essas terras nunca pertenceram aos curdos, nem na história moderna nem na história antiga. Essas terras pertenceram aos assírios, que permaneceram constantes nelas durante milhares de anos. Nada nas planícies de Nínive é curdo, nem Nohadra (ou Dohuk) nem as terras no entorno são historicamente curdas: sua administração foi oferecida ao GRC como uma moeda de barganha para desviar a fome dos curdos pelo territóro de Kirkuk, que é muito mais rico em petróleo. Grandes influxos de curdos se deslocaram para Dohuk e as áreas ao redor em tempos recentes, o que faz com que esses lugares sejam aparentemente "curdos" (escrevi essa parte sabendo que há assírios que ainda possuem os documentos de seus terrenos em Dohuk, mas que foram forçados a ir embora).



Empregar uma noção fluída daquilo que constitui o "Curdistão" é dizer que qualquer lugar onde haja mesmo um pequeno número de curdos é território curdo. Contudo, se alguém respeitar a história, exibindo mesmo alguma noção dos crimes do passado, honrando aqueles que possuem a terra ou qualquer tipo de justiça no final das contas, esse conceito não vai funcionar.



Procure por Nohadra (Dohuk) no Google, e você vai pensar que o lugar sequer existia antes da repartição em 1991 que criou uma zona de exclusão aérea, criando um espaço no qual o anteriormente suprimido nacionalismo curdo pôde florescer. Na verdade, Dohuk foi dominada nos anos 1990 pela família Barzani como uma rota-chave do tráfico para a Turquia, principalmente para as trocas discretas de Saddam, longe das sanções patrocinadas pela ONU (a política "Petróleo por Comida"). Tanto Barzani quanto Saddam cooperaram com esse comércio ilícito e se beneficiaram mutuamente dos vários milhões de dólares oriundos desse ramo.



Você pode observar duas coisas atuando aqui: primeiro, o que Dave Rubin e Bayan Rahman concordam telepaticamente em chamar de "complexo", com referência à política curda, é algo simplesmente cínico, e isso foi provado várias vezes na região curda do Iraque. Segundo, o que os curdos adotaram no Iraque é uma política de "nós vamos pegar o que pudermos". Territórios assírios e yazidis[2] foram facilmente conquistadas: não temos suporte, apoiadores, nem atenção da mídia; a "liberação" já mencionada.



Bayan Rahman disse que: "O Curdistão é multicultural e multi-religioso. No Curdistão do Iraque, temos cristãos, assírios, caldeus, yazidis, shabaks, kakais e árabes também. Talvez algumas dessas comunidades possam pensar que nós poderíamos muito bem estar sob a autoridade iraquiana, mas estou confiante de que a vasta maioria do povo que votou no referendo preferia ter uma autodeterminação do que estar sob a autoridade de Bagdá".



Nesse ponto, fica realmente doloroso escutar aquilo que ela diz. Não, vocês [curdos] não "têm" assírios nem quem quer que seja. O que o GRC considera como "ter" é aquilo que eles tomaram pela força, garantindo seus interesses (ou seja, o desejo de ser visto pelo Ocidente como progressistas, pluralistas e tolerantes, atraindo investimentos, negócios).



Além dessa linguagem bizarra, doentia e possessiva, o que ela está realmente dizendo é que as comunidades que agora se encontram vivendo sob as bandeiras curdas recentemente fixadas têm de decidir subitamente e votar pela independência curda - e essa implicação permanece sem desafios.



Seria como se eu fosse londrino e acordasse amanhã, notando que as fronteiras da Escócia se expandiram, incluindo Londres nelas e obrigando a cidade (por meio de violência ou empobrecimento por parte dos bem pagos e bem armados escoceses) a votar positivamente pela "independência" da Inglaterra sem absolutamente nenhum pensamento sobre quem eu sou, minha história ou minhas próprias aspirações.



Como eu entendo, mesmo que os assírios votassem pelo "não", eles seriam superados pelo "sim" - e desde que os assírios passaram a viver nos novos territórios conquistados pelos curdos, o "não" deles nunca importou, as áreas assírias não vão voltar subitamente para a administração iraquiana (muito menos para sua própria administração), elas serão comprimidas pelo voto numa campanha bem-sucedida pelo "sim".



O referendo não foi simplesmente aplicado em certas partes do "Curdistão" iraquiano por razões estratégicas e cínicas, mas pela questão inteira. Comandantes peshmergas[3] já foram citados dizendo que não desejam "devolver" esses territórios porque eles "já são curdos".



"Quem é que quer viver sob uma ditadura?", é o que Bayan Rahman pergunta com referência a Saddam e outros déspotas. "Pra nós, curdos, o Iraque falhou repetidamente. Eu não consigo pensar numa só coisa boa que tenhamos visto quando fazíamos parte do Iraque".



Vamos cortar essa conversa sem sentido novamente: a despeito dos massacres, das dificuldades e do sofrimento que os curdos suportaram no Iraque, o Iraque deu mais benefícios ao povo curdo do que qualquer outro país no mundo.



Dentro da incubadora do Iraque, os curdos formaram seu primeiro governo reconhecido em toda a história. Estabelecido debaixo da zona de exclusão aérea em 1992, sob a proteção de numerosos governos internacionais e de suas forças armadas; ainda com ajuda de vários bilhões de dólares, o Governo Regional Curdo se desenvolveu para algo ubíquo e monolítico com 19 ministérios, empregando representantes em todos os principais países do mundo, hostes de embaixadas no estrangeiro, relações diretas com todas as principais organizações globais, milhões de dólares dedicados à centros internacionais de propagação de ideias, acordos comerciais independentes de Bagadá, entre outras coisas mais.  



O mito de que o "pobre GRC" é oprimido e explorado é realmente divorciado da realidade. Desde o começo, o GRC se fartou de apoio internacional em todos os sentidos: econômica, política e militarmente. Um grande insulto aos curdos da Turquia, da Síria e do Irã, que não se beneficiaram de nenhum desses privilégios. E que insulto aos assírios e outras minorias, que têm sido esmagadas sob o peso completo e estendido do nacionalismo curdo não verificado e sempre celebrado em suas próprias terras, sem recurso de lei, doméstica ou internacionalmente.



Armas



"Porque, de verdade, no Oriente Médio nós ainda estamos no estágio de evolução onde a força é aquilo que te dá autoridade. [...] Valores como liberdade e liberdade de expressão são artigos de luxo. Na maior parte do Oriente Médio, quem consegue a arma é o que conta".



De modo interessante, Bayan Rahman parece dizer isso enquanto sugere que os curdos no Iraque têm uma mentalidade diferente. Deixe-me colocar de modo claro outra vez: o único barulho confiável que você vai ouvir do GRC é a constante exigência de que mais armas devem ser entregues para eles. É algo que todos os oficiais deles dizem, onde quer que estejam e com quem quer que falem.   



Isso foi melhor demonstrado depois que o ISIS tomou forma e começou a ameaçar o território curdo: notícias mostraram que armas despachadas pelos EUA pelo aeroporto de Erbil foram inicialmente tomadas pelo GRC  nenhuma bala sequer foi compartilhada com a UPC (União Patriótica do Curdistão) que também lutava contra o ISIS ao redor de Kirkuk. Não é segredo que os dois principais partidos, que atualmente operam com um acordo de partilha de poder (que pendeu fortemente em benefício do PDC - Partido Democrático do Curdistão), estavam se matando aos milhares com suas próprias milícias peshmergas até recentemente, nos anos 1990, numa amarga luta pelo poder na qual a UPC se moveu mais para perto do Irã e o PDC barganhou mais com Saddam em troca de apoio, o homem que havia usado armas químicas contra os curdos menos de uma década antes disso - outro fato omitido por Bayan Rahman.



O PDC e a UPC sabem muito bem qual é o valor das armas do Oriente Médio, razão pela qual são obcecados em adquirir todas as armas nas quais possam colocar as mãos, privando aqueles que não são leais a eles dessas mesmas armas. Isso foi mais notável quando o exército particular o PDC era composto por 10.000 soldados, ocupados em sistematicamente desarmar e abandonar as minorias que não fossem curdas, como os assírios e os yazidis, numa preparação para o assalto do ISIS em suas respectivas terras.



Notícias foram distribuídas aos assírios de Nínive exigindo o desarmamento completo e a entrega de todas as armas em julho de 2014, ameaçando aplicar punições severas a qualquer um que não cooperasse. O ISIS invadiu esses territórios menos de duas semanas depois desse ato, em agosto de 2014. Assírios e yazidis foram desarmados com a garantia de que os curdos peshmerga iriam protegê-los. O que aconteceu de fato foi um recuo em larga escala logo após a aproximação do ISIS. Esse recuo foi tomado discretamente, sem qualquer aviso ou evacuação dos civis desarmados e indefesos (que, de outro modo, teriam conseguido lutar e defender suas casas, mas haviam sido abandonados desarmados).


Comunicado das autoridades curdas exigindo que as minorias assírias e yazidis entregassem suas armas, pouco antes do ataque do Estado Islâmico contra seus territórios

Muitos testemunhos emergiram, como o anúncio dado ao parlamento britânico pelo ex-cativo yezidi Salwa Khalaf Rasho, que relatou que os peshmergas, ansiosos em fugir primeiro antes dos civis yezidi, se recusaram a ficar no local para proteger os yezidi ou ao menos lhes fornecer suas próprias armas [para que eles pudessem se defender]. Eles até mesmo lhes asseguraram novamente de que deveriam voltar para suas casas, onde seriam defendidos. Alguns soldados peshmerga chegaram a disparar contra yazidis quando os protestos começaram a ficar enérgicos, matando muitos deles, tudo para limpar o caminho para que o comboio de veículos pudesse passar sem obstáculos.

A Yazda, uma organização que faz campanha pelo reconhecimento do genocídio contra os yazidis, disse em seu último relatório, publicado em janeiro de 2016, que: "Se eles [os yazidis] tivessem sido defendidos durante um dia, eles poderiam ter sido evacuados com segurança, e os massacres e a crise de escravização teriam sido evitados".

Haydar Shesho, um comandante yazidi, havia até mesmo solicitado armas do PDC, o que lhe foi categoricamente negado sob a alegação de que ele não era fiel ao PDC. Então, ele teve de adquirir armas através de Bagdá e da UPC, mas foi imediatamente preso pelas autoridades do PDC por "formar uma milícia ilegal" de yazidis desesperados para defender suas casas. Foi preciso que um dignatário alemão (que resida na Alemanha)voasse para Erbil para negociar a soltura de Shesho. 

A situação nas planícies de Nínive não foi diferente. 150.000 assírios foram violentamente retirados das terras de seus ancestrais. Além disso, há um barulho de curdos exigindo que qualquer assírio dissidente seja grato por terem sido roubados de todas as formas e impedidos de defender a si mesmos, e também por terem suas terras roubadas - os curdos definem isso como "proteção", um tipo de vocabulário similar ao das máfias.

As ações dos bem-armados soldados peshmergas nessa região não nasceram dos instintos, mas sim da instrução dos comandantes peshmergas e dos veteranos da liderança do PDC (já que os peshmergas do PDC se colocaram como responsáveis pela segurança do terrtório yazidi de Sinjar e das planícies de Nínive dos assírios). Não poderia haver outra razão para que mais de 10.000 soldados fugissem sem disparar uma única bala, se recusando a combater o Estado Islâmico, mesmo quando o ISIS estava nas proximidades atacando os civis que tentavam fugir - assim, não faz diferença o quão bem armados são os peshmergas. Se eles se recusam a lutar por conta de manobras políticas, então eles não são uma força confiável.

Um oficial anônimo do GRC foi citado num artigo do Reuters em junho de 2014, dizendo o seguinte: "O ISIS nos deu em duas semanas aquilo que Maliki não pôde nos dar em oito anos". Ao desarmar e desestabilizar as comunidades que vivem em territórios que a liderança curda deseja conquistar, permitiram que uma força externa agressiva invadisse e desenraizasse as comunidades nativas, forçando-as a fugir, as forças do GRC (apoiadas por ataques aéreos do Ocidente) serão vistas como as forças que só vão "retomar" terras "suas" - que, de fato, nunca lhes pertenceram.

É simplesmente a substituição de uma força conquistadora por outra. Uma perpetrou o agora reconhecido genocídio contra yazidis e assírios; a outra [os curdos] permitiu que esse genocídio acontecesse.

Democracia

Dave Rubin disse que: "Tudo o que eu sei sobre os curdos - literalmente vi fotos de mulheres guerrilheiras - mulheres que parecem com mulheres ocidentais, lutando contra o ISIS [...] como o ethos dos curdos, de onde vem o respeito que vocês têm com os yazidis e muitas outras minoria? [...] e há um sentimento de que os valores do Ocidente são bons dentro da comunidade curda. Como esses valores floresceram entre tantos lugares numa região onde vocês são rodeados por povos onde esses valores não floresceram?". 

Depois dessa declaração, Bayan Rahman disse que: "penso que temos uma tradição, parte de nossa herança, parte de nossa cultura, que procura pela coexistência pacífica [...] algo bastante normal, nós temos cotas no nosso parlamento onde as minorias têm números alocados de assentos, quer eles tenham ou não os votos suficientes, eles recebem esses assentos [...] onde você é cercado por regimes autoritários que destroem tudo, nós somos subjugados, então há uma ideia de bem comum que nós compartilhamos".

Além dessa passagem ter sido introduzido por Dave Rubin sendo tratada com um monte e baboseiras e orientalismo sem sentido, a resposta de Bayan Rahman consiste de conjurações de concessões democráticas para representações de minorias cujas terras eles tomaram como se fossem deles.

Vamos detalhar a história recente da dinâmica envolvida aqui: os assírios possuem sim cotas de assentos, mas a maioria dos partidos "assírios" que concorrem são fundados e dependem abertamente de verbas e apoio do PDC. Isso é feito para dividir qualquer voz coerente e unificada dos assírios no GRC, uma tática empregada por todas as principais tiranias da história recente. 

O que o GRC faz muito bem é colocar a própria liderança à parte dos regimes autoritários que Bayan Rahman cita, apesar de eles terem as mesmas marcas desses regimes. Nisso, eles se beneficiam de serem uma entidade relativamente desconhecida no Ocidente - onde os ocidentais só vêem fotos de mulheres sorrindo, sem qualquer véu, segurando rifles de assalto ou homens rudes alimentando filhotinhos, sendo desarmados e presos por elas (é claro, de um modo bastante diferente daquele que os assírios e yazidis foram desarmados e presos pelos curdos no Iraque).

"Por que você acha que toda a história do seu povo é simplesmente ignorada no Ocidente?", é o que Dave Rubin pergunta. 

"Suponho que há muitas razões, também porque a história curda é bastante complicada - e por mais que eu tente simplificar e sempre queira ser fiel à história [...] os outros estão francamente falando sobre dinheiro: para verdadeiramente criar uma campanha efetiva onde você trás as pessoas pro seu lado, você precisa de dinheiro, precisa propagar instrumentos de soft power[4], precisamos de universidades que ensinem sobre o Curdistão, precisamos de campanhas de publicidade dizendo para que as pessoas visitarem o Curdistão, precisamos de um lobby muito pesado, particularmente em países como os Estados Unidos e em toda parte, não só em Washington. Precisamos de dinheiro, e nunca tivemos esse tipo de dinheiro".

É esse tipo de dívida de 25 bilhões que as conquistas territoriais e de recursos trazem consigo. Há relatos de que os próprios curdos dispõe de caminhões com reservatórios para transportar petróleo de Kirkuk indo e vindo da cidade, sem qualquer sinal de dinheiro sendo entregue à cidade por seus recursos.

Antes, Kirkut recebia dinheiro de Bagdá por seu petróleo; mas isso acabou quando o GRC começo a fazer seus próprios contratos de petróleo. Agora, Kirkuk não recebe nenhum dinheiro, nem de Bagdá, nem de qualquer uma das vendas de petróleo feitas pelo GRC. Onde foi parar todo esse dinheiro?


Milhões de dólares que haviam sido enviados para ajuda humanitária aos grupos e minorias vulneráveis foram consistentemente desviados pela corrupção, tanto que grupos de caridade pequenos e independentes, como o Khalsa, estão oferecendo a ajuda necessária para a sobrevivência dos yazidis e assírios que estão sob o "protetorado" do GRC. 


"A vasta maioria dos curdos são muçulmanos, mas eu diria que são moderados; nós acreditamos na coexistência, nós olhamos para o Ocidente e o admiramos", disse Bayan Rahman.


Agora, qualquer tentativa de falar em benefício das dezenas de milhões de pessoas não deveria ser levada a sério, e isso não é exceção. Em 2011, ímãs radicais em Zakho, na província de Dohuk, encorajaram muçulmanos curdos a se rebelar e destruir lojas cristãs que vendiam álcool, lugares de adoração, ou qualquer outra coisa que desejassem. 


No total, 30 lojas foram saqueadas e queimadas; uma diocese dos caldeus em Zakho foi atacada; um clube social assírio em Nohadra foi cercado por uma turba de 200 pessoas; um clube yazidi, restaurantes, hotéis e várias outras lojas foram atingidas com disparos de armas automáticas. Cartazes foram colados em todas essas propriedades, com ameaças claras de que haveria mais violência caso esses lugares fossem novamente abertos. Essa "coexistência" vem com condições.


ISIS [Estado Islâmico] 


Ao responder sobre como o ISIS surgiu, Ban Rahman diz o seguinte: "Pegue o ISIS no Iraque: ele é um casamento entre o ISIS [...] e os Ba'athistas [...]. Os Ba'athistas querem voltar ao poder no Iraque, e o ISIS quer um califado. É um casamento de conveniências".


Essa análise volúvel e simplista ignora muita coisa.


Primeiramente, a política de des-Baathificação tomada depois de 2003 apagou completamente qualquer papel que os árabes sunitas tiveram no Iraque. Isso aconteceu porque, durante o regime de Saddam, era preciso ser um membro do Partido Baath para ter qualquer tipo de vida, ou qualquer tipo de emprego no setor público (incluindo funções apolíticas, como a de professor ou enfermeira). Isso significava fardos imensos para os sunitas que não se preocupavam com o Partido Baath ou seus princípios, e que só eram membros da organização para assegurar uma sobrevivência própria; do contrário, seriam deixados de lado e marginalizados pelo resto de suas vidas.


Isso é bastante irônico, já que, qualquer um que queira sobreviver sob o domínio do Governo Regional Curdo tem que se juntar a um dos partidos políticos dominantes. O Partido Democrático Curdo ou a União Patriótica Curda são ambientes que se parecem mais com prisões com suas facções rivais, competindo por terras e números.


Pra adicionar à completa alienação dos civis sunitas, o exército do Iraque foi desmantelado em sua inteireza. Isso criou um completo colapso de todas as funções de segurança e de várias centenas de milhares de soldados redundantes, como foi perfeitamente descrito por esse artigo publicado pelo New York Times em 2004:


"Uma oficial estadunidense das forças especiais em Bagdá, na época, me contou que ele havia ficado atordoado com os dois decretos de Bremer. Depois da dissolução do Exército, ele disse: 'Meus rapazes vinham até mim e diziam, 'Bremer entende que há quatrocentos mil desses caras por aí, e que todos eles têm armas?'. Todos eles tinham que alimentar suas famílias.
Isso nos adianta para o ano de 2010 (e muitos outros milhares foram assassinados no Iraque, mais tarde). O bloco xiita liderado por Iyad Allawi, que os sunitas apoiaram e que venceu as eleições. Contudo, eles não são permitidos a formar um governo por conta da influência do Irã dentro do Iraque e da preferência clara dos iranianos por Maliki, desejando que ele retenha o poder. O que se seguiu, então, foi algo surpreendente segundo o próprio testemunho de Allawi: os Estados Unidos, para manter a frágil estabilidade da região, aconselharam Allawi para que ele desistisse e deixasse Maliki formar o governo.

O bloco que venceu com a maioria dos votos e assentos no Iraque, o bloco que inclui os alienados e os sunitas destituídos de direitos, foram novamente forçados a deixar o governo e abrir mão de qualquer partilha de poder.


Sem dúvida, o ISIS explorou a desconexão ordinária na qual os árabes sunitas foram lançados desde 2003, mas desempenhar o papel da des-Baathificação como precursora da situação horrível da segurança é algo irresponsável. Não há dúvida de que a linha dura dos baathistas faria um retorno ao poder, mas, por uma vez durante essa entrevista, eu teria gostado de ver o "complexo" sendo usado aqui, onde ele atualmente é apropriado; mas, ao invés disso, nós somos tratados como um conto parcial.


Turquia


Dave Rubin, então, pergunta sobre a Turquia e como eles têm tratado mal os curdos, incluindo o banimento do idioma curdo, ao ponto de Bayan Rahman sorrir desconfortavelmente: "algumas letras não são permitidas porque não fazem parte do alfabeto turco, então, essencialmente, isso significa que os nomes curdos foram banidos. Mas a Turquia fez muitos progressos nessas áreas".
A relutância em elaborar esse tópico e a tentativa de imediatamente mudar o assunto da conversa para um campo mais positivo diz muito.
Dave Rubin diz que: "Então, de um lado, eles [os curdos] estão lutando contra o ISIS, e ao mesmo tempo, eles estão sendo bombardeados pela Turquia. Sei que isso é uma relação complexa [...], e parece que a Turquia está jogando dos dois lados". 
Bayan Rahman replica, dizendo: "Acho que na Turquia o foco principal é a Síria. A Turquia quer se livrar de Assad. Essa é a prioridade do presidente Erdogan. Muitas das ações turcas podem ser vistas por esse prisma. A Turquia tem uma população curda bastante grande. Algumas pessoas falam sobre 20 milhões, outras sobre 30 milhões [...] essas pessoas exigem seus direitos, como deve ser; mas a Turquia fez muito progresso, particularmente com o primeiro ministro Erdogan; quando ele foi primeiro ministro, a Turquia descriminalizou o idioma curdo, e havia ao menos um canal estatal de TV sobre os curdos, muito progresso foi feito. Houve até mesmo uma iniciativa de paz começada em 2012 [...] nós precisamos de Ankara e a população curda na Turquia precisa de paz para que possa prosseguir, mas, infelizmente, você enxerga um retrocesso em muitos dos passos que foram dados, e agora há uma grande tensão na Turquia".
Ela ainda adiciona: "Um partido curdo se saiu muito bem nas eleições, conseguindo 10% dos votos. Há muito progresso [...] Nós temos o equilíbrio e um relacionamento cooperativo com o Irã e a Turquia. Nosso solo é expandido através da Turquia".
A distância absoluta que Bayan Rahman, Barzani e o PDC colocam entre eles mesmos e os curdos na Turquia faria com que você acreditasse que eles são povos diferentes. E esse louvor, esse foco implacável no "progresso" (quando os observadores neutros poderiam alegar o contrário) - e as voltas que dão em torno da situação para ilustrar uma Turquia benevolente e nobre, que lida com os curdos que possuem uma boa causa, mas que estão lidando com o assunto do jeito errado, não é bem uma realpolitik, é só covardia e cinismo criado para agradar o partido dominante de Erdogan, o PJD [Partido Justiça e Desenvolvimento].
São o PJD e seus apoiadores que colocam o partido deles e o povo curdo em segundo lugar. Coloquei isso de modo melhor num texto sobre a entrevista de Barzani com o AI Monitor, de março de 2016:
"Tão nojento e horrível que possa ser, posso entender porque Barzani despreza qualquer não-curdo que não esteja estritamente do lado dele, desejando esmagá-los, levá-los pra longe, roubar suas terras ou retirar qualquer poder para absorvê-los. É bastante comum esse tipo de padrão tirânico, racista e supremacista. Mas Barzani é ainda pior do que isso, e aqui há outra perspectiva dessa dimensão. 
O que faz dele extraordinariamente repugnante é o fato de que ele adora Erdogan, um homem cujo país apoiou o ISIS dando liberdade de movimento ao grupo, suprimentos, cuidado médico, armas, dinheiro e petróleo, um homem que aprisionou todos os oficiais turcos, juízes, jornalistas, guardas de fronteira e acadêmicos que ousaram denunciar o apoio turco ao ISIS, um homem que deixou os militantes do ISIS atravessarem a fronteira para matar curdos na Síria e no Iraque, um homem que ainda está conduzindo massacres contra homens, mulheres e crianças na Turquia, destruindo cidades e vilarejos inteiros no processo; um homem que simplesmente encenou outra eleição porque o partido curdo, o PDP [Partido Democrático Popular] na Turquia, recebeu mais votos do que ele queria, e por isso mesmo conduziu uma campanha de terror nesse ínterim, coagindo violentamente a obtenção de mais votos para o seu PJD - um partido mais focado em construir mesquitas do que escolas e hospitais, um homem que aparentemente teria tudo para dar a chance de o PDP entrar na coalização com eles, uma decisão que o PDP não tomou e que Barzani lamenta e desaprova".
Erdogan é o homem que Barzani celebra como aquele que "compreende a causa curda mais do que qualquer outro", e, contra isso, ele se pinta de vítima - a despeito de as ruas no Sudeste da Turquia estarem cheias de corpos mortos de crianças curdas.
Uma coisa é destruir assírios e yazidis, além de outros que não se identificam com ele, seu partido ou o povo curdo; mas abandonar os próprios curdos e suas famílias por conta de objetivos políticos, dinheiro e poder, é algo que realmente fala muito sobre esse homem.
A crise dos "refugiados"
"Vocês têm uma fronteira com o ISIS e são aqueles que estão lutando contra eles?", é o que Dave Rubin pergunta, falando sobre os curdos no Iraque e a batalha deles contra o ISIS. Bayan Rahman toma isso como uma oportunidade de fazer um apelo: "Sim, precisamos de mais armas, precisamos de armamento pesado. Precisamos de equipamento protetivo para nossos peshmergas. Também estamos enfrentando uma crise humanitária; nossa população é de cerca de 5 milhões e aumentou cerca de 30% [...]. Todos são refugiados, eles não sabem nada, não podem trabalhar, não possuem coisa alguma, temos que fornecer tudo. Nós tínhamos eletricidade disponível 24 horas por dia, e subitamente não temos mais, porque temos de compartilhá-la [...]. A outra crise que enfrentamos é financeira [...] estamos tentando encontrar um modo de ajudar o Curdistão a sair dessa crise financeira".
Essa sede insaciável por mais (e maiores) armas só trai as intenções deles de possuírem as melhores armas disponíveis para suas forças, assegurando sua posição na região (o remanescente da realidade do Oriente Médio que Bayan Rahman evocou, mas do qual ela suavemente se distanciou). 
E, de tudo modo, eles não usaram nenhuma dessas armas para defender as minorias que eles alegam fazer parte do Curdistão, não antes que elas fossem violentamente removidas de suas próprias terras (que agora, subitamente, também fazem parte do Curdistão). o todo, a entrevista foi conduzida sem mesmo mencionar a outra palavra com C: "corrupção". 
Como o GRC, agora novamente ungido pela mídia como o "melhor" para o Ocidente, essa velha "nova Dubai", precisa encontrar seus pés novamente; e, pra fazer isso, o Ocidente deve enviar ainda mais dinheiro e armas para eles, enquanto roubam mais e mais território não-curdo. O nível com o qual o Ocidente agora investe no GRC atingiu um limite onde os governos simplesmente não querem mas ouvir sobre falhas e discrições.
O influxo de "refugiados" que "não sabem nada" é majoritariamente composto de Pessoas Internacionalmente Desabrigadas (PID), que, em geral, sabem muitas coisas. Muitos deles foram traídos pelos peshmergas e tiveram de fugir de suas casas para terras as quais eles sabiam que seus conquistadores iriam ao menos defendê-los.
Barzani e o PDC
Agora, vamos falar um pouco sobre Barzani (o chefão que paga Bayan Rahman) e o referendo recentemente anunciado pelo GRC sobre a independência (bem como todas as realidades feias que não foram mencionadas por Bayan Rahman).
Barzani disse que iria renunciar depois que o Curdistão se tornasse independente, e você pode ler isso de dois jeitos: primeiro, o Curdistão não será independente tão cedo; segundo, ele vai se tornar independente, mas então ele ficará no poder por uma razão ou outra, como sempre fez no passado. Sempre haverá outra razão para ditadores continuarem no poder - já que seu mandato oficial acabou, ele só é presidente até hoje por conta de decretos.
E eu tenho de mencionar aqui os jovens curdos heroicos, como Sardasht Osman, um estudante universitário que escreveu um poema satírico sobre a hegemonia da família de Barzani e que, pouco tempo depois, foi sequestrado e morto (seu corpo foi encontrado numa caçamba). Os assassinos dele foram identificados publicamente e ainda continuam andando livremente pelas ruas. Se Barzani e seus seguidores são dispostos a cometer assassinato de dissidentes criativos e inofensivos, o que mais eles não fariam em nome do poder? Incontáveis mártires assírios que provaram ser forças dissidentes emergentes, como Francis Shabo, sabem muito bem do que esses homens são capazes.
O cartão de referendo foi desempenhado em 2011, e veio com o peso da frustração de que os protestos na região curda estavam aumentando, e que curdos comuns se sentiram enganados por seu próprio governo. Essa é uma quebra geral de eventos (e, de alguns modos, ainda é):
1. Os curdos comuns no Iraque estão furiosos, empobrecidos, não são pagos; sentem-se enganados e começam a protestar.
2. Barzani ameaça (ou declara orgulhosamente) fazer um referendo sobre a independência.
3. Os curdos comuns se acalmam, voltam a trabalhar (enquanto continuam sendo mal pagos).
4. A Turquia faz uma ligação para o GRC e os pergunta se eles vão mesmo enfrentá-lo, e o GRC reafirma que eles não ão. Erdogan desliga o telefone e continua matando curdos na Turquia.
5. As questões são escondidas, e até mesmo esquecidas; os negócios voltam ao normal.
6. De volta ao número 1, repetindo o processo.
Qualquer um que queira entender o GRC deve entender sua situação econômica, bem como a situação política (já bastante discutida); então, aqui vão alguns fatos bem diretos: 
Eles possuem uma dívida de mais de 25 bilhões de dólares, rodando pelo Ocidente com o chapéu nas mãos, implorando por mais dinheiro.
A região curda pré-ISIS produzia 7% do petróleo do Iraque e tinha 17% de sua renda oriunda de Bagdá, o que significava que eles eram fortemente subsidiados e que dependiam bastante de Bagdá até mesmo para manter o básico funcionando. Depois dos ataques do ISIS, Bagdá parou de enviar pagamentos para o GRC porque o GRC começou a fazer acordos de petróleo independentemente de Bagadá (comerciando com a Turquia).
Sob o Iraque, todas essas negociações de petróleo tinham de ser sancionadas pelo Governo Federal do país, com todos os rendimentos distribuídos centralmente para as várias províncias e regiões. Por conta dos eventos, o acordo colapsou e a economia agora está operando largamente sem documentação, de modo desregulado. Você pode perceber os efeitos disso depois de seis meses de atraso ou falta de pagamento dos salários do setor público na região curda, o que faz com que muitos curdos desesperançosos deixem a região; até mesmo guerreiros peshmerga estão desertando porque não conseguem sustentar suas famílias.
A região curda tem um setor público que engloba 75% de toda a força de trabalho da região - o que significa que 75% de todos os trabalhadores na região curda trabalham para o governo curdo de algum modo. Mesmo debaixo de Saddam, a taxa correspondia a 40%. Isso acontece porque uma taxa muito, muito baixa mesmo dos trabalhadores na região administrada pelo GRC (como no Iraque de Saddam) produz a maior parte da receita da região (incrivelmente, por meio das trocas de óleo com a Turquia) e o resto ou trabalha como peshmerga ou ocupa empregos que simplesmente servem como "preenchimento" para o mercado de trabalho, ou seja, funções onde se recebe um cheque pra fazer algo servil.
Isso significa que o poo depende bastante do governo por conta de dinheiro, e que o PDC e a UPC tiram vantagem disso por meio de um sistema de apadrinhamento: você, como indivíduo, deve demonstrar uma lealdade completa e sem críticas ao partido político, seus objetivos e sua retórica; em troca disso, te pagam por essa lealdade, e assim você pode comer e alimentar sua família. Como eu já havia falando anteriormente, o sistema é bastante similar ao baathismo no Iraque, cujos nostálgicos ainda defendem por conta das "liberdades" fortemente condicionais que esse sistema lhes dava.
Pra manter esse estado de pseudo bem-estar social, cria-se uma economia incrivelmente desequilibrada de "fique rico rápido", uma corrupção endêmica através de todos os 19 ministérios governamentais cheios de desperdício, do topo à base, e o GRC rouba ainda mais e mais recursos e terras ricas para alimentar seu modelo econômico - já mencionado - falho (uma cleptocracia). 
O segundo projeto político deles está envolvido com o ato de criar uma relação mutuamente benéfica de mestre-escravo com a Turquia, primeiro se distanciando de Bagdá (mas às custas de ajudar ou expressar qualquer solidariedade real com os companheiros curdos que estão realmente sofrendo sob o jugo do nacionalismo turco); Barzani e o PDC fizeram quase que tudo no poder para aquiescer, adorar e endossar o governo de Erdogan, mesmo durante a campanha de terror criada por ele contra as áreas curdas no sudeste da Turquia. 
Nesse affair, o GRC serve como algo mais do que uma província para a Turquia e seus interesses no Iraque. Todos os militares que se integram ao GRC, oriundos do Iraqui e alistados nas forças peshmergas, recebem a instrução e a bênção do governo turco. Isso fica evidenciado simplesmente pelo modo como os eventos se revelaram e como eles estão se revelando em relação a Mosul: a "Lacuna Fulda" da Turquia, como expressado pelo excelente artigo a respeito do assunto, publicado pelo War on the Rocks em dezembro de 2015.
Tensões crescem tanto aqui que o PTC [Partido dos Trabalhadores do Curdistão] e as UPP [Unidades de Proteção Popular] estão atualmente se enfrentando, competindo para libertar Mosul: o PTC quer instalar sua influência na região, e o PDC tem o apoio da Turquia, que não deve perder outro corredor naquilo que acreditam vagamente ser uma antiga província deles, o Iraque - por conta de suas falhas na Síria e da emergência da RFC [Região Federal Curda].
Dito isso, com a conquista de Kirkuk, das planícies de Nínive e de Sinjar, o GRC pode estar numa posição de compensar suas perdas cercando completamente territórios, conseguindo subsídios e conseguindo novamente receber pagamentos de Bagdá, já que eles podem explorar os recursos nessas terras. Mas, por conta do modelo econômico que eles mantém, e quase que a completa dependência da Turquia para qualquer prosperidade econômica, não há sustentabilidade financeira e uma guerra civil pode novamente romper, já que o dinheiro inevitavelmente acaba e as intenções de conquistar terras mais bem defendidas se tornam cada vez mais distantes e remotas.

E, como sempre, com qualquer tensão entre partidos locais e seus exércitos pessoais, os assírios indefesos recentemente absorvidos e roubados de todas as suas agências significativas sofrerão o pior, sendo praticamente cativos sob uma bandeira que não é nossa.


Max J. Joseph é um artista e escritor assírio. Ele tem bacharelado em Filosofia e mestrado em Política Pública Internacional.

Publicado originalmente em: 1001 Iraqi Thoughts



Notas (adicionadas pelo tradutor):

[1] Os assírios são uma minoria étnica presente no Iraque e na região Nordeste da Síria, também conhecidos como caldeus, siríacos, cristãos assírios, cristãos caldeus ou cristãos siríacos. 
[2] Yazidis (ou iazidis, yezidis,yazdanis e êzidis) são uma comunidade étnica curda, cujos membros são praticantes de uma antiga e pecular religião sincrética, chamada de iazidismo (um iazdânismo misturado ao zoroastrismo) - uma das religiões mais antigas da Mesopotâmia. Vivem no Norte do Iraque, na Armênia, na Geórgia, na Síria.
[3] Peshmergas (ou peshmerge) é o termo usado para se referir aos combatentes curdos. O termo significa "aquele(s) que enfrenta(m) a morte".
[4] Soft Power é um termo das Relações Internacionais usado para se referir aos instrumentos de coerção indireta (influência cultural, intelectual, ideológica, etc.) usados para que um grupo ou Estado influencie outro grupo ou Estado, na busca por seus interesses.

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