quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Othmar Spann e o conceito de Estado Corporativo

Por Jean Augusto G. S. Carvalho



Quando falamos em doutrina fascista, ou mesmo em fascismo, Othmar Spann é um nome que não vem à cabeça da maioria - mesmo dos estudiosos do tema e dos adeptos do fascismo. A contribuição de Spann ao ideário fascista é tão significativa quanto emblemática. Benito Mussolini disse a célebre frase: "O fascismo deve ser mais apropriadamente chamado de Corporativismo, pois ele é a fusão entre o Estado e o poder corporativo".

Se, como o próprio Mussolini, o fascismo pode ser resumido no poder do Estado corporativo, esse próprio conceito pode ser (ao menos em grande parte) atribuído a Spann. Filósofo e católico austríaco, adepto do conservadorismo, Spann foi forte crítico tanto do socialismo quanto do capitalismo liberal. 

Em Frankfurt am Main, Spann trabalhou para o Centro de Serviço de Bem-Estar Particular. Nessa função, ele realizou estudos de campo a respeito da classe trabalhadora. No ano de 1904, ele funda o jornal chamado de "Páginas Críticas para todas as Ciências Sociais", juntamente com Hanns Dorn e Hermann Beck. De 1907 a 1909, ele recebeu permissão para trabalhar como privatdozent [docente privado], habilitado a lecionar. 

Com o romper da Primeira Guerra Mundial, Spann serviu como tenente. Recebeu um ferimetno durante uma batalha em Lemberg, na Ucrânia. Depois de se recuperar, foi promovido a primeiro comandante de uma companhia formada por prisioneiros de guerra russos. No pós-guerra, trabalhou no Comitê Científico para a Economia de Guerra, no Ministério da Guerra sediado em Viena (então, um centro cultural e econômico pulsante, tendo sido anexado após a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha). 

Spann trabalhou como professor superior na Universidade de Viena, a partir de 1919, tendo exercido a função até 1938. Carismático, conquistou o apreço de seus alunos - tanto nas épocas de aulas quanto nas férias, nas quais ele realizava atividades recreativas, como uma curiosa cerimônia na qual os alunos deveriam pular por sobre uma fogueira. O ritual era explicado na seguinte sentença: "A habilidade de intuir essências é alimentada ao se pular por sobre o fogo"[1].

Tanto por suas posições em cargos públicos de relevância quanto por seus estudos em relação à classe trabalhadora, bem como suas posições como professor, Spann começou a formular suas concepções sobre o Estado Corporativo. Esse projeto, construído com grande afinco, nunca foi uma proposta pessoal ou meramente acadêmica. Desde o início, ele tentou convencer as autoridades governamentais de que sua teoria de governo corporativo era não só benéfica, mas essencial para o bem-estar dos austríacos. Em 1928, ele uniu ao Partido Nazista - provavelmente por ver, no nacional-socialismo, uma vertente pela qual ele poderia inserir seus ideais de corporativismo estatal. 

É provável, principalmente por meio de eventos como sua filiação à Liga Militante de Cultura Alemã, que Spann reconhecesse os laços étnicos, culturais, históricos, geográficos e políticos que uniam a Alemanha e a Áustria - e, talvez, um dos motivos de sua aceitação inicial do movimento nacional-socialista. Mas essa posição seria mudada em 1938.

Durante a fase crescente e inicial do nacional-socialismo, Spann esteve em grande sintonia com o Zeitgeist[2] da época. Entretanto, suas discordâncias em relação a vários dos pontos da doutrina nacional-socialista lhe renderam problemas em relação à ideologia dominante. Após o Anschluss[3], ele foi preso pelos alemães e proibido de lecionar na Universidade de Viena. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, ele tentou ser readmitido na função de professor universitário. Em 8 de julho de 1950, aos 71 anos, ele morreu praticamente isolado, em decepção com a condução do regime.

A contribuição de Spann à doutrina e às teorias fascistas sobre o Estado e a organização econômica em torno das corporações e da união dos sindicatos das diversas categorias trabalhistas ligadas diretamente ao Estado é considerável. Seu livro "Der Wahre Staat"[4], publicado em 1921, trata dos principais aspectos de um Estado que ele considerava como positivo para a organização espacial-governamental - e também trabalhista-econômica. 

O Estatismo Corporativo (ou Corporativismo de Estado) forma uma estrutura político-cultural que assume as corporações como a forma de organização político-social. Reunidos em torno das organizações corporativas, os trabalhadores se integram à vida política e econômica do país, num sistema semelhante (mas diferente) ao dos sovietes. O Estado torna-se, ao mesmo tempo, agente ativo e passivo, formando as classes corporativas e sendo formado por elas.

Para a efetivação do sistema corporativo em torno de uma estrutura de Estado, exige-se que todos os membros de um corpo social pertencentes a determinados setores de atividades econômicas (essencialmente produtivas) se associem oficialmente a um grupo corporativo. Por meio desses grupos corporativos, esses membros participam dos processos de construção da política nacional.

O Estado torna-se extremamente ativo, nesse aspecto, agindo tanto como um mediador quanto intermediário entre os trabalhadores, os interesses do capital e os interesses do próprio Estado - contrastando com a doutrina liberal/minarquista, que preconiza a não-intromissão ou a diminuição da participação estatal na economia; e colidindo também com a doutrina socialista-comunista, que preconiza o aniquilamento da camada burguesa e dos interesses do capital. Daí a formação da Terza Via[5], o "outro caminho" entre o liberalismo e o comunismo.

Assim, não só o fascismo é tributário de Othmar, mas muitas doutrinas de teor nacionalista e de Terceira-Via também o são. O Parti Rexiste[6] na Bélgica, a Garda de Fier[7] na Romênia e a Falange Española Tradicionalista e de las J.O.N.S[8] na Espanha são doutrinas que absorveram, em níveis diferentes, os ideais corporativistas de Othmar.

A autonomia nacional, proporcionada pelo dirigismo do Estado na estrutura econômica, política e social, tão preconizada por Othmar e pelos vários ideólogos e teoristas das diversas doutrinas nacionalistas de Terceira Via na Europa (e em outros continentes, como vários governos nacionalistas africanos) foi solapada com a vitória do liberalismo que, ao promover o capital especulativo acima da ação produtiva, acabou por tornar ineficazes as estruturas corporativas laborais; a própria globalização, impulsionada pelo liberalismo, "dissolveu" as fronteiras dos Estados, elementos importantes ao conceito de organização político-espacial preconizado pelo corporativismo de Estado.

Muitos dos membros da Terceira-Via tomaram, na luta simultânea contra o liberalismo e o comunismo, a preferência por militar contra este último, subestimando o perigo potencial do primeiro. Dessa forma, a destruição física dos regimes nacionalistas durante e após a Segunda Guerra Mundial pode ser, em grande parte, atribuída à União Soviética; mas a destruição da viabilidade da ideia fascista, na modernidade, é obra do liberalismo e seu culto ao indivíduo. Mesmo nos estágios iniciais, os nacional-bolcheviques europeus perceberam na União Soviética uma aliança necessária em face do liberalismo econômico e moral.




Notas e referências:

[1] Caldwell, 2004, páginas 138-139.

[2] "Espírito do Tempo", pode ser considerado como o conjunto de valores dominantes numa determinada época, a força motivadora dos membros de uma sociedade em determinado período de tempo e em determinado espaço.

[3] Conexão ou anexação, termo utilizado pela Partido Nazista para promover, incentivar e justificar a política de anexação da Áustria. A iniciativa não foi um pioneirismo alemão: o Movimento Anschluss, austríaco, defendia a união da Alemanha à Áustria para formar uma "Alemanha maior". Em 1918, ao fim da Primeira Guerra Mundial, a República Austro-Germânica tentou a unificação com a Alemanha, mas o evento foi impedido pelo Tratado de Saint Germain, assinado em 10 de setembro de 1919. Em adição, o Tratado de Versalhes (o acordo que tentava soterrar as pretensões militaristas alemãs) havia proibido tanto a união quanto o uso do próprio termo "Austro-Germânico". O projeto de unificação, como mencionado, foi retomado e concretizado pelos alemães em 1938.

[4] Othmar Spann, Der Wahre Staat: Vorlesungen über Abbruch und Neubau der Gesellschaft [O verdadeiro estado: palestras sobre a demolição e reconstrução da sociedade];Quelle & Meyer Publisher, 1921.

[5] Partido Rexista, movimento belga fundado por Léon Degrelle e profundamente corporativista.

[6] Guarda de Ferro, movimento romeno criado por Corneliu Zelea Codreanu, extremamente nacionalista e religioso.

[7] Falange Española Tradicionalista y de las Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista foi um movimento espanhol de caráter sindicalista, fundado por José Antonio Primo de Rivera. 
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A arte de exigir que os outros gostem daquilo que você não gosta

Por Jean A. G. S. Carvalho



Olhe bem para a imagem acima. No caso de você ser uma mulher, responda sinceramente (pra si mesma - não se preocupe, não há coletivos te monitorando): você sente uma vontade instintiva de se reproduzir com a figura da foto? Se você não é adepta do politicamente correto, sua resposta (muito previsível, provavelmente) é indiferente. Caso contrário, há pontos bem importantes a se considerar.

O sujeito da imagem é vítima de alguma "gordofobia" presente numa estrutura social, ou simplesmente não corresponde às características mais presentes nos instintos humanos? Quer aceitemos ou não, somos incrivelmente movidos por instintos (mas também não somos totalmente condicionados a eles). Sim, definitivamente há estruturas estéticas consideradas como "padrão", e há pessoas com gostos que escapam a esses padrões. 

A questão é: o que você assume como ponto crucial? Reconhecer que há instintos básicos e pessoas que não são atraentes à maioria (mas que sim, podem receber atenção em certa medida, e até se tornar preferência de algumas pessoas), e que, independente disso, podem ser atraentes pra quem quer que seja, assumindo assim que preferências são sim subjetivas, mas que há certos padrões que atraem mais um número maior de pessoas - ou você parte do ponto de que o minoritário deve ser majoritário e o padrão deve ser invertido?

Você aponta os dedos para os outros usando alguns dos milhares de neologismos - tão especiais a uma pseudo-Esquerda politicamente correta e emotiva. Qualquer um é uma vítima em potencial (ou melhor, um culpado): alguém que não namore uma gordinha, o rapaz que não quis namorar uma mulher negra, o gay que não namorou uma "mulher trans" (alguém com pênis que se vê como mulher), o porteiro do prédio que não gosta de Jean Wylls (afinal, ele só pode ser um "homofóbico" - e não alguém com um mínimo de bom senso). Até seus pais (se é que você os tem) são fascistas em potencial.

Pessoas são diluídas e transformadas em troféus: medalhas que devem ser conquistadas, colecionadas e exibidas no "mural da inclusão", o hall da "tolerância". Mas os adeptos do politicamente correto têm seus troféus favoritos. Sim, porque, no final do dia, não há ninguém de ferro e as pessoas podem jogar seus véus de falso moralismo, demagogia e hipocrisia e descansar com os verdadeiros gostos.

Há um aspecto forçado, artificial, engessado nessa militância: há quase que uma obsessão em forçar que os outros gostem daquilo que nem você mesmo parece gostar. É claro que o homem cis-hétero-branco-patriarcal deveria namorar uma mulher negra, um gay ou uma "mulher trans" (alguém com pênis que pensa ser mulher) -  ou, é claro, alguém acima do peso ou "fora dos padrões'. 

Mas, no fim do dia, depois da militância em algum coletivo "feminista" ou inclusivo, com todxs xs manxs, você prefere aquele cara com 3 anos de academia do que o "gordinho desconstruíde - ou seu amigo magrelo que é a favor da legalização da maconha e se intitula como "feministo". Porque, é claro, nem mesmo sua ideologia e nem décadas de militância são capazes de superar sua biologia. Seu útero diz: "preciso gerar um bebê", e você sabe que os homens que seu coletivo colocam como o modelo ideal não são, nem nos seus instintos mais profundos, os pares ideais.

É claro que você acha muito mais agradável namorar algum playboy (que tem pênis, é claro) que possa te levar para um bom shopping (pra fazer ótimas compras) do que pegar três ônibus e dois metrôs pra chegar numa favela de periferia. A recriminação é para os outros: é tarefa do outro ser moralmente incólume, puro, inclusivo e "desconstruído", não sua.

Ou, quando há alguma relação com algum dos mascotes do politicamente correto, ela acontece de forma totalmente artificial, forçada, quase que propagandista. E sua contribuição contra os males que diz-se abaterem sobre a sociedade é exatamente zero. Exatamente: tratar pessoas como aleijadas que precisam de um pouco de atenção para não se sentirem sozinhas, criando toda uma retórica em volta elas para forçar algum tipo e atratividade (já que, é claro, elas são incapazes de se tornarem atraentes sem isso, certo?) é exatamente marginalizar essas pessoas e colocá-las num patamar ainda mais inferior.

Não há problema algum em ter preferências; o erro está em obrigar outras pessoas a gostarem daquilo que você essencialmente não gosta, daquilo que você essencialmente rejeita. Porque, no fim das contas, acima de todo esse politicamente correto e essa verborragia doce, aveludada e cor-de-rosa, temos instintos e nem mil anos desse discurso resistem a dois segundos de lógica básica. E seria muito mais efetivo considerar isso do que forçar gostos que não são seus em pessoas distantes da sua própria realidade.

E, nesse aspecto, a Esquerda pós-moderna adota a demagogia como bandeira política, a hipocrisia como mantra, adotando bandeiras totalmente alheias, totalmente superficiais e, além de apontar questões irrelevantes, renega a lógica mais elementar e se torna incapaz de oferecer soluções reais para as questões às quais propõe-se resolver.

Deve haver um sonho bastante fetichista nesse meio: uma paleta de cores (da mais clara à mais escura) para verificar tom de pele, uma classificação de peso (ou seja, a "gordofobia" seria mais elevada tanto maior o peso na escala) e de genitália (você ganha um bônus ao se relacionar com quem se identifica com um gênero diferente de sua estrutura biológica) - além de classe social (+500 pontos no seu score se namorar alguém que ganhe menos de 1 salário mínimo).

Há sempre mais espaço para demagogia.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Duterte quer todas as tropas estrangeiras fora das Filipinas

Tradução: Jean A. G. S. Carvalho



O presidente Rodrigo Duterte disse que quer todas a tropas estrangeiras fora das Filipinas no prazo de dois anos, conforme prosseguiu em suas declarações contra os EUA durante sua visita de três dias ao Japão (um aliado-chave dos EUA).

"As Filipinas podem se manter sem a ajuda dos EUA", declarou Duterte num discurso durante um fórum econômico em Tóquio. Ele reiterou seus chamados para uma política externa independente, e disse que não discutiu uma aliança militar om a China durante sua visita de Estado a Pequim, na semana passada.

"Sem a assistência dos EUA, teremos uma qualidade de vida um pouco menor", disse Duterte diante de centenas de empreendedores filipinos e japoneses. "Mas nós vamos sobreviver", disse o presidente.

Cerca de 100 soldados estadunidenses estão estacionados nas Filipinas, aptas a responder a qualquer momento em regime de base rotativa, de acordo com o Pentágono. No mês passado, Duterte disse que os soldados estadunidenses devem deixar a ilha sul de Mindanao, onde eles treinam combate a grupos terroristas há uma década.

As declarações de Duterte sobre a relação entre as Filipina e os EUA entram em conflito com mensagens enviadas pelos membros de sua própria administração. O secretário de relações externas das Filipinas. Perfecto Yasay, disse na terça-feira que seu país vai respeitar todos os tratados e acordos com os Estados Unidos. "Não há razões, agora, para fechar nossos acordos", disse o secretário a repórteres em Tóquio.

As Filipinas, que foram um território estadunidense por quase 50 anos, até sua independência em 1946, é um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos na Ásia. Os dois lados são unidos por muitos pactos de defesa, incluindo um tratado de defesa mútua.

As Filipinas têm reavaliado periodicamente sua relação defensiva com os EUA, mais notavelmente a partir do começo da década de 90, quando um sentimento anti-colonialista levou os EUA a fechar suas bases militares no país que, na época, representavam a maior presença militar dos EUA no Pacífico ocidental.

Laços defensivos foram aprimorados durante o antecessor de Duterte, o ex-presidente Benigno Aquino, com as duas nações assinando o Tratado de Cooperação Defensiva Aprimorada. O pacto permite uma grande presença dos EUA por meio de bases militares nas Filipinas, e também a construção de novas instalações dentro dessas bases.

O Tratado de Cooperação Defensiva Aprimorada é considerado como um acordo executivo pelos dois países. Ele teve um prazo inicial de 10 anos, sendo mantido como uma força após esse prazo, a menos que os dois lados anulem o acordo por meio de um comunicado anual dado por escrito à outra parte.

Disponível originalmente em: Bloomberg
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Entrevista com Alain de Benoist: A Bênção das Limitações

Por: Alain de Benoist
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




Nessa recente entrevista com o jornal católico Le Nef, Alain de Benoist discute as origens e a evolução da "Nova Direita" francesa, bem como seu próprio pensamento, sobre o liberalismo, sobre o futuro da política e sua ideia de paganismo. 

Nós tivemos o prazer de entrevistar o maior dos intelectuais franceses, de Chantal Delsol a Pierre Manent, passando por Marcel Gauchet, Alain Finkelkraut, Jacques Juillard e alguns outros, em nossas colunas. Alain de Benoist não é cristão - então, nós divergimos em certos pontos -, mas é uma grande mente aberta ao debate e com o qual concordamos em vários pontos. Enquanto ele permanece grandemente ostracizado em relação à mídia mainstream, estamos felizes e honrados e lhe dar um pouco de espaço aqui.

Você é um dos fundadores da "Nouvelle Droite" [Nova Direita], do GRECE, e de mutos jornais desse movimento. Você poderia nos lembrar das circunstâncias desses projetos, e das principais ideias que você defende? 

Aquilo que muito mais tarde foi designado pela expressão bem simples de "Nouvelle Droite" [Nova Direita] nasceu em 1967 e 1968, pouco antes dos eventos em Paris, durante o mês de maio. Ainda adolescente, eu já tinha intensa experiência, argumentação e militância política dos quatro ou cinco anos anteriores, dentro da Direita radical (a Fédération des Étudiants Nationalistes [Federação dos Estudantes Nacionalistas], de François d'Orcival, e, depois, no jornal Europe Action, fundado por Dominique Venner.

Uma escola rude e uma experiência memorável, mas, cujos limites testei rapidamente. Aos 25 anos de idade, eu compreendi que eu era um homem de conhecimento, não um homem de poder - para falar como Raymond Abellio. Além disso, eu estava cansado de slogans e de ideias prontas. Então, rompi definitivamente tanto com a ação política e a extrema Direita, para me devotar completamente ao trabalho do pensamento. Foi quando eu criei o jornal Nouvelle École [Nova Escola], pouco antes de lançar o GRECE.

O jornal Éléments [Elementos] apareceu em 1972. Eu também lancei o jornal Krisis em 1988, que deveria ser um "jornal de ideias e debates". Esses três jornais ainda são publicados. Minha intenção, na época, era a de começar do zero, ou seja, fazer sistematicamente um inventário de todos os domínios do conhecimento, que conduzisse ao desenvolvimento de uma nova concepção de mundo, capaz de clarificar o momento histórico no qual vivemos. Eu tinha em mente o exemplo da Escola de Frankfurt, a Action Française [Ação Francesa], e o CNRS! É claro que tivemos de recuar. Ao menos posso dizer que, desde meio século atrás, eu nunca estabeleci outros objetivos.

Você colaborou com a revista Figaro no final dos anos 1970; você ganhou notoriedade nela, mas você foi expulso. Isso foi por conta de um "crime de pensamento"? Poderíamos enxergar nesse episódio o começo de um ostracismo midiático do qual você tem sido vítima?

As coisas são mais simples. Louis Pauwels, quando havia criado a revista Figaro, me pediu pra fazer isso junto com ele, o que eu aceitei. Muitos de meus amigos também participaram dessa aventura. Três naos mais tarde, traumatizado com a chegada da Esquerda ao poder, Pauwels decidiu se converter ao Cristianismo e ao liberalismo, já que ele não era nem cristão nem liberal anteriormente. O monsenhor Lustiger recebeu a confissão dele. Se eu tivesse seguido o exemplo dele, teria sido fácil pra mim manter meu emprego na revista Figaro. Eu não fiz isso.

A expulsão da qual você fala foi a consequência lógica. Mas eu não acho que essa seja a origem do ostracismo que você mencionou. Esse foi só um aspecto da evolução mais geral do cenário intelectual, que marginalizou progressivamente uma série de pensadores independentes, e que atingiu muitos outros pensadores além de mim. Essa é a pedra basilar que hoje está começando a sair de moda. O pacote de gelo intelectual está derretendo. É o aquecimento global!

Na época, eles te reprovaram por defender teorias "racistas"; o que realmente eram essas ideais? Você mudou? Não são essas velhas acusações que encarnam em você?

Os poucos promotores que querem ditar a mídia usam muitos meios hoje! Os fantasmas "racialistas" eram parte da bagagem da juventude da qual eu já havia sido alijado há muito tempo atrás. Publiquei três livros contra o racismo, nos quais eu desconstruí metodicamente as teorias racistas para demonstrar sua falsidade intrínseca. Fiz o mesmo com todas as doutrinas que pretendem derivar a especificidade sócio-histórica das sociedades humanas, sem considerar a biologia.

E, quando eu falo de identidade, me refiro a Martin Buber, não a Gobineau! Basta ler o que eu escrevo para notar isso (não falta material: 102 livros, 2000 artigos e 600 entrevistas). Mas eu não sou tão ingênuo: ao contrário, sei bem que o objetivo real é evitar que as pessoas leiam meus materiais.

Em relação ao começo da Nouvelle Droite [Nova Direita], quais são os principais pontos que você crê terem mudado, e quais são os temas persistentes, fundamentais?

Mais do que mudanças, houveram inflexões. Por exemplo: hoje, eu não aceitaria mais a rejeição completa do pensamento de Freud ou de Marx, aos quais eu havia aderido nos anos 1970. Além dos grandes pólos de influência que me impressionaram desde o início, como o pensamento socialista no começo do movimento trabalhista (Sorel, Proudhon, Leroux, Malon) e os não-conformistas dos anos 1930 (Mounier, Robert Aron, Alexandre Marc), ou dos conservadores revolucionários alemães (Schmitt, Spengler, Jünger, Moeller van den Bruck), meu interesse estava se voltando gradativamente para as ciências sociais, de Max Weber a Jean-Claude Michéa, passando por Simmel, Sombart, Baudrillard e Louis Dumont. Mas eu também prossegui em meus trabalhos sobre tradições populares e a história das religiões.

Como você analisa a emergência do "politicamente correto", com seu principal vetor no anti-racismo e na pouca resistência que isso encontra?

Isso é uma moda que veio originalmente dos Estados Unidos. Na França, ela floresceu por conta da Esquerda, mas também marcou o fim de uma Esquerda fervorosa em suas aspirações iniciais. Ao privilegiar o "anti-racismo" e a "luta contra todas as discriminações", a Esquerda buscou uma substituição histórica de sujeito já que, deliberadamente, rompeu com o povo. 

Ao recitar os mantras dos direitos humanos e conclamar o encorajamento de todas as formas de desejo, inclusive a nível institucional, a Esquerda deseja ocultar sua aderência vergonhosa ao monoteísmo de mercado. Essa virada dificilmente encontrou qualquer resistência, pois o terreno já havia sido preparado pra isso, durante, no mínimo, dois séculos; mas eu convoquei a ideologia do "Igual", essa ideologia multifacetada que diz que os homens são fundamentalmente os mesmos em todo lugar, e que as diferenças que notamos entre eles são secundárias, se não perigosas. Igualdade, nessa perspectiva, se tornou sintoma de uniformidade.

Você escreveu muito sobre o liberalismo*. Enquanto que nosso país sofre com um Estado de socialismo sufocante, enquanto a violência islâmica desencadeia a si mesma por meio a imigração em massa, enquanto eles "desconstroem" o homem passo a passo por meio da teoria de gênero e do trans-humanismo, em suma, enquanto muitas ameaças concretas nos oprimem, por qual razão o liberalismo também é um perigo em tal contexto?

As ameaças mais barulhentas e visíveis não são necessariamente as mais importantes. Algumas são tão formidáveis quanto silenciosas, como o crescimento de poder de uma inteligência artificial na convergência das NBIC (Nanotecnologias, Biotecnologias, Informações e Ciências Cognitivas) na fabricação e transformação da vida. 

Se eu privilegio a crítica ao liberalismo, é porque ele representa, hoje, a ideologia dominante da maioria dos países no planeta, mas também porque ele é a origem da maioria dos problemas que você menciona. O trans-humanismo e a ideologia de gênero residem na ideia de que o homem pode criar a si mesmo do nada, o que se encaixa perfeitamente com a antropologia liberal, que não enxerga o homem como herdeiro, mas sim como um ser capaz de perseguir seu melhor interesse de modo egoísta, e cujas escolhas nunca estão enraizadas em algo que precede o indivíduo.

Desde o início, a imigração representa o "exército de reserva" de mão-de-obra: os liberais sempre foram partidários da livre circulação de pessoas, bens e capital. Diante das patologias sociais resultantes, eles não oferecem nada além da criação de um "mercado de imigração" (como também desejam criar um mercado baseado no "direito" de poluir). Em relação à violência islâmica, isso é só o resultado convulsivo das guerras "humanitárias" lançadas no Oriente Próximo pelas potências ocidentais, dominadas pelo universalismo dos direitos humanos e obcecadas com o mercado.


De acordo com você, os problemas que eu mencionei desenham novas divisões políticas? Se sim, quais?

Nascidas da modernidade, a dualidade de Esquerda e Direita divide fraquezas com a modernidade. Só aqueles que ainda se apegam a isso não compreenderam que o mundo mudou, e que os instrumentos conceituais obsoletos não permitem análise. A única divisão real atualmente é aquela que contrasta com a França periférica e a França uranizada, as pessoas das elites globalizadas, as pessoas comuns e a classe dominante, as classes populares e as classes da burguesia globalista, os perdedores e os que lucram com a globalização, os proponentes das fronteiras e os partidários da "abertura", os "invisíveis" e os super-representados; em resumo, aqueles que estão na base e aqueles que estão no topo.

Nesse aspecto, eu me refiro aos trabalhos de Christopher Lasch e Christophe Guilluy. Só nessa perspectiva podemos compreender um fenômeno como o do despertar do populismo, que constitui a única novela política verdadeira dos últimos trinta anos.

Você acha que esses problemas podem ser solucionados dentro dos padrões do debate eleitoral? E essa abordagem seria aproximada pela resolução de uma "boa eleição"? 
Não acredito muito em "boas eleições", nem em partidos políticos como forma que possua muito futuro. Sob as atuais circunstâncias, eleições permitem alternação, mas não alternativas: elas permanecem no mesmo paradigma social. Toda a questão reside em saber como nós podemos mudar isso. Mesmo se nós vivemos numa época que é mais de implosões do que explosões, meu sentimento é de que nós só vamos mudar a sociedade quando se tornar impossível não fazer nenhuma mudança nela.
O que eu desejo é outra maneira de considerar o fim do capitalismo. Eu escrevi isso mutas vezes: o sistema monetário deve perecer pelo próprio dinheiro. 
O que o combate cultural significa pra você? Como você o situa em relação à ação política?
A cultura, em geral, desapareceu das escolas; a classe política, hoje, consiste principalmente de gente educada, mas ainda assim inculta, como Alain Finkelkraut disse. Além isso, os partidos políticos sempre foram desconfiados em relação às ideias, que dividem inutilmente as pessoas diante dos olhos deles. A Direita nunca gostou muito de intelectuais. O trabalho cultural, que objetiva mudar o espírito dos tempos, deve seguir outros canais então.
Os Estados Unidos terão um novo presidente no outono. Você acha que isso vai mudar concretamente alguma coisa, em termos de equilíbrio mundial? 
Os Estados Unidos entraram numa fase de declínio relativo, mas ainda permanecem como uma potência que seria errado subestimar. Com Hillary Clinton, que é representante dos meios sociais do business e do establishment, o principal risco é o de lançar novamente uma Guerra Fria - guerra mesmo. O capital sempre clama por guerra quando não há mais nenhum meio de lançar novamente uma corrida por lucro!
Donald Trump representa o desconhecido. Ao menos ele poderia manter o princípio da precaução para recordar que, se a Europa sempre teve tantos governos pró-EUA, nunca houve um governo pró-Europa nos Estados Unidos.
Você se define como pagão; pra você, o que é ser pagão? E o que sua antropologia estabelece?
Como resumir em poucas frases - e, além disso, num jornal católico - uma posição sobre a qual já escrevi muitos milhares de páginas? A oposição entre cristãos e pagãos claramente não se reduz à quantidade de divindades. O paganismo é, primeiramente, a religião da cidade (os gregos adoram os deuses gregos). É, então, a religião do cosmo e da vida, onde a ética e a estética nunca entra em oposição.
O paganismo é a ética da honra, não a moralidade do pecado. É a condenação do excesso (híbridos), um senso de limites, a negação da primazia de todas as coisas que são apenas materiais. Historicamente, o Cristianismo é um fenômeno híbrido que teve de contender com formas de paganismo sem deixar de lutar em sua essência. Essa é a complexidade que eu tentei trazer à luz no livro "Comment Peut-on Être Païen?" [Como Podemos ser Pagãos?] (1981) e, talvez, mais ainda no meu diálogo com o filósofo cristão Thomas Molnar no "L'éclipse du Sacré" [O Eclipse do Sagrado], em 1986.
Não gosto daqueles que não acreditam em nada. Eu creio que, para que alguém dê o melhor de si, para que alguém atinja seu telos, deve-se apelar para algo que o ultrapasse. Mas eu não acredito em nenhum "mundo vindouro", em nenhum mundo além. Não acredito na distinção teológica entre o ser e o ser não-criado. Essa é a razão de eu me sentir mais em casa imergindo nos épicos de Homero ou na Canção dos Nibelungos, praticando Heráclito, Aristóteles, Sêneca ou Marco Aurélio do que lendo São Paulo ou Santo Agostinho.
Estudei as origens do Cristianismo por mais de quarenta anos. Não vejo nada de verossímil ou atrativo. Eu reprovo o universalismo cristão (o "povo de Deus" não corresponde a povo algum) que evita que, quando deixado por si mesmo, não assume uma dimensão identitária. Eu o reprovo por ter introduzido o universalismo individualista no espaço mental europeu, por ter esvaziado o mundo de toda sua sacralidade intrínseca, por ter propagado um conceito vetorial e linear da história, do qual todo o historicismo moderno emergiu, e por ter disseminado essas "verdades cristãs que se tornaram loucura" (Chesterton) que, uma vez secularizada, se tornaram o pedestal do mundo desencantado, esvaziado de sentido, no qual vivemos hoje.
Ao mesmo tempo, se ler minhas memórias (Mémoire Vive [Memória Viva]), que foram publicadas quatro anos atrás, você vai saber que eu tenho um débito com autores como Charles Péguy e George Bernanos (autores católicos). Também devo lembrar de pessoas como Gustave Thibon e Jean-Marie Paupert, com os quais mantive relações muito afetuosas, com as quais eles correspondiam - ao que parece (como em La Nef [A Nave], em outubro de 2003, onde Paupert teve a gentileza de me definir como seu "alter ego").
Devo adicionar que não sou um daqueles que não gosta da encíclica Laudato, nem do "ecosocialismo" do Papa Francisco - que se encaixa muito bem comigo. Sobre a condenação do dinheiro, essa "manobra do diabo"; a rejeição da cobiça e a crematística; a proteção dos ecossistemas e a condenação da "comercialização" da vida (que os católicos muitas vezes esquecem quando o assunto é a venda da força de trabalho) - com certeza, pode haver uma concordância.
Discussões religiosas são discussões intermináveis. Mesmo os que acreditam são ateus para a religião de outros! A simples experiência humana me mostrou, por muito tempo, que, entre cristãos, pagãos, ateus ou agnósticos, há as mesmas proporções de homens bons e de espíritos livres, bem como de sectaristas doentios e de canalhas francos. Ideias são uma coisa, homens são outra. 
Eu julgo um homem primeiramente por aquilo que ele valoriza (ou demonstra valorizar para mim), não naquilo que dizem. É isso que me distingue tanto das víboras "santas" (os propositores do politicamente correto) quanto dos inquisidores do momento.
Hoje, quais são os principais temas de seu pensamento filosófico ou político? E quais são os principais perigos que nos ameaçam diante de nossos olhos?
Os perigos são de todos os tipos, já que nunca vivemos num mundo tão incerto. Dentre eles, encontro o mais preocupante: a falta de limites globais para a ideologia do comércio, o desaparecimento das culturas populares e dos modos de vida enraizados, a possível substituição do homem pela máquina, a exaustão de grandes projetos coletivos, a ascensão do tecnomorfismo**. Esses são alguns dos temas nos quais eu reflito. Mas eu também trabalho em temas como a importância das realizações políticas da exegese contemporânea - importância esta que está afunando. É difícil fazer todas as coisas duma só vez.
Essa entrevista com Alain de Benoist foi postada em francês em setembro de 2016, no site do La Nef [A Nave]. Christophe Geffroy foi o entrevistador. A tradução para o inglês foi feita por Eugene Montsalvat, e a tradução para o português foi feita por Jean Augusto Guimarães Sampaio Carvalho.

Disponível originalmente em: Katehon

*Nota do tradutor: liberalismo, aqui, é compreendido no sentido europeu da palavra, referindo-se à ideologia de livre mercado e de individualismo.
**Nota do tradutor: tecnomorfismo se refere às influências crescentes da tecnologia na vida das pessoas, ao ponto de que a tecnologia começa a dominar.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Santos Dumont e a genialidade incompreensível

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Do mais primitivo objeto ao dispositivo mais avançado e moderno, o homem expressa sua capacidade criativa por meio desses objetos. Mas, antes de tomar forma material, essas coisas ganham formas no campo do inconsciente, do imaginário e da especulação. O pensar precede o fazer

Tecnologia é o reordenamento da matéria, pelo qual o homem amplia suas próprias capacidades e o poder de moldar o cenário. Esse reordenamento abrange tanto os antigos canais de irrigação da antiga civilização egípcia, a agricultura em níveis nas encostas das montanhas pelos incas, o arco e as flechas dos sumérios, a pólvora dos chineses, as caravelas dos portugueses e espanhóis, navios a vapor, motores de combustão, armas automáticas, bombas atômicas, smartphones, videogames e redes sociais - e equipamentos de ultrassom, ressonância magnética e transplantes de órgãos.

Para cada conquista civilizacional e tecnológica, o trabalho de quantidades imensas de braços foi utilizado; entretanto, homens e mulheres dotados de um intelecto que supera os padrões médios e com um grande conhecimento que não se limita pela simples racionalidade ou pela lógica simples, mas algo extremamente indecifrável, divino, são responsáveis por enxergar aquilo que não existe, aquilo que ainda será criado pelo reordenamento da matéria.

São pessoas capazes de enxergar o amanhã, de idealizar e construir algo. Alberto Santos Dumont não foi o primeiro dos mortais a se empenhar no projeto de um voo, mas - provavelmente - foi o primeiro a fazê-lo com sucesso. Os homens dominam os animais, mas se inspiram neles. Dumont tomou como exemplo as tentativas anteriores às dele, e foi capaz de criar algo que seus antecessores não conseguiram, e seu conhecimento permitiu que outros, depois dele, replicassem o invento e o aprimorassem.

As construções de Santos Dumont obedecem parâmetros rígidos (mas incrivelmente maleáveis) de uma arquitetura inspirada na estrutura das aves; asas e cauda de um pássaro; máquina que, assim como as aves, é mais pesada que o ar, mas que é capaz de alçar voo; o ato de voar é, em si mesmo, incompreensível em termos puramente aerodinâmicos. Na capacidade dos gênios reside a observação das leis físicas e suas manifestações no mundo físico, mas a capacidade de desafiar essas leias através da absurdidade.

Suas máquinas pareciam obedecer uma cosmovisão inteira, o desenho de um mundo refletido num objeto - e não um simples item, um simples dispositivo; é o que explica a monstruosidade e, ao mesmo tempo, a grandiosidade de algo como um dispositivo nuclear. Invenções são, via de regra, impressões do mundo num instante, condensadas num objeto específico - mas com significados que superam o próprio objeto.

Os inventos de Dumont precisam ser compreendidos no campo imaterial; mais do que invenções, ele criou conceitos e realidades alternativas - e superou impossibilidades temporais. Seus desenhos são conceitos que duraram além de seu tempo, e nesse aspecto futuro está o caráter de um verdadeiro gênio.

Dumont é de uma linhagem de homens que engloba figuras como Leonardo da Vinci: criadores do não-existente. Homens que, pela observação da estrutura dos inúmeros elementos e seres da Natureza, são capazes de criar coisas incríveis. O cerne do intelecto humano não pode ser compreendido por termos estritamente lógicos e racionais. Há algo de mais profundo, há algo de oculto e sublime em homens como Dumont.

Podemos compreender, por vias estritamente racionais, como é possível fazer um dispositivo voar; mas a genialidade contida num Santos Dumont, genialidade esta que permite a criação desse dispositivo, é incompreensível.

E é essa incompreensão que foi capaz de alçar voo 110 anos atrás - e ainda hoje, e em outros níveis num futuro igualmente imprevisível.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O liberalismo como morte civilizacional

Por: Jean A. G. S. Carvalho



O que movimenta os povos? O que promoveu a glória das civilizações da antiguidade, o poder de exércitos imensos? Alexandre, o Grande, redesenhou mapas com que ímpeto? O que motivou o homem das estepes, Gengis Khan, a conquistar imensidões? Cleópatra, a senhora do Nilo, conseguiu interferir no maior império da época: mas com que pretensões? Montezuma governava milhões; mas, como fazia isso?

Todos os grandes nomes da História, todos os grandes povos e civilizações foram também organismos: saudáveis em seu início, firmes em sua maturidade e enfraquecidos nos seus tempos tardios. Nasceram, cresceram, se expandiram, estagnaram, encolheram e morreram, sendo suplantados por outros povos com mais vigor. Alguns duraram poucos séculos; outros, milênios - e outros sequer deixaram seus nomes na História.

Não foi a simples busca pelo lucro. Havia, para esses grandes vultos, algo além da matéria. A própria noção de grandiosidade era construída para além da própria vida: ela deveria ser uma marca percebida após a morte, por inúmeras gerações em diversas Eras. Não foi a noção do "eu", já que o essencial era o "nós", a noção de povo, de civilização. Mesmo imperadores, estabelecendo um culto para si mesmos, sentiam que sua glória pessoal era a glória do Império, de toda uma civilização que havia sido iniciada antes deles e que deveria perdurar depois que se fossem.

Toda civilização passa por um processo essencialmente cíclico: começo, meio e fim. O ímpeto enquanto grupo, a força coletiva de um povo e sua missão histórica são elementos que funcionam como o "sangue" de um povo. As noções de pertencimento étnico, de religião, cultura e missão são os aportes de uma sociedade saudável e vigorosa. Nenhum grande povo, nenhum reino ou império com relevância histórica significativa teve como motor propulsor a mera busca pelo lucro ou o individualismo: uma noção atemporal e uma identidade coletiva sempre foram elementos essenciais para a superação e o apogeu de qualquer povo, em qualquer raça, qualquer etnia, qualquer religião - em qualquer lugar do mundo.

Dessa forma, o Império Romano, o Egito antigo, a China Imperial, as civilizações dos maias e dos astecas, os zulu na África, as civilizações da Índia, o Japão feudal, enfim, todas as culturas relevantes ao mundo tinham algo em comum: um forte senso coletivo, a noção de organismo social e a visão de seus membros como parte desse todo. Não o centralismo no indivíduo, mas sim no corpo, no todo, na civilização, no Império.

O liberalismo esteve ausente em todos os estágios de apogeu desses povos. Ele surge, no máximo, como resultante de um processo de enriquecimento material e como indício de uma licenciosidade que precede o fim. Tomemos como exemplo o antigo Império Romano. Em seus estágios finais, o liberalismo (tanto político quanto econômico) tornou-se forte em Roma - e não nos referimos aqui essencialmente à doutrina liberal, que obviamente não havia sido formulada na época, mas sim aos sinais e fenômenos observáveis à época e que são defendidos dentro da praxe liberal.

A aceitação dos "bárbaros" como um elemento essencial para o "enriquecimento" de Roma, seja como mercantes ou como mercenários, foi um desses sinais políticos; a nobreza passou a ser uma questão de disponibilidade de ouro; as noções de honra e de disciplina marcial foram substituídas por relações contratuais. Lentamente, os romanos perderam sua força enquanto corpo, enquanto identidade coletiva; seu ímpeto civilizacional cessou: a questão era manter ou salvar a riqueza acumulada por alguns nobres, refugiados em suas montanhas enquanto a civilização milenar era espoliada pelos invasores.

O que motivava os bárbaros e porque eles sobrepujaram os romanos? Essa é uma lição que serve ao mundo atual: povos que perdem seu ímpeto e sua identidade coletiva, mesmo que sejam tecnológica, econômica e militarmente mais desenvolvidos, são suplantados por outros povos mais primitivos, mas portadores de um vigor e de um ímpeto, de uma força de ignição, uma vontade e um aspecto bélico ausente nessas sociedades mais "desenvolvidas", que são, então, espoliados. Foi isso o que aconteceu com Roma, espoliada pelos visigodos; e foi isso também o que ocorreu com o Império da China que, durante a dominação mongol, havia se tornado materialista, mercantilista e acomodado.

Civilizações sedentárias são suplantadas pelos povos de incursão. Povos vazios são preenchidos por alguma outra substância, ou seja, povos vigorosos e com ímpeto - elementos que faltam ao Ocidente atual. É o que acontece, hoje, com a Europa Ocidental em relação à onda islâmica: os países liberais da Europa, já esvaziados, imersos no individualismo e no niilismo, nos ideais cosmopolitas. O continente europeu, tendo renunciado aos próprios ideais de identidade coletiva e de ímpeto civilizacional, tem cedido terreno para a cultura islâmica que, em oposição ao sentimento europeu, está em franca expansão.

O liberalismo não estava presente na aurora das civilizações. Não moveu reis, imperadores, conquistadores, revolucionários; não construiu as pirâmides de Gizé, nem a Muralha da China e seus guerreiros de terracota, não criou a cultura marcial dos samurais, não moveu os cruzados; não construiu Tenochtitlán. Onde estava o liberalismo quando os gregos fizeram suas estátuas, quando construíram o Colosso de Rodes? Onde estavam as doutrinas liberais quando Carlos Martelo enfrentou a batalha decisiva para a história da Europa?

O liberalismo não pode ser encontrado em momentos de glória. Não está no alvorecer, está no crepúsculo - na noite. É lunar, não solar. Ele não é verificado quando os povos encontram seu ápice, seu apogeu. Mas está sempre presente nos momentos que antecedem a ruína. Como os nobres em Roma que, mesmo diante da invasão bárbara, se deliciavam em suas saunas e em suas orgias, negando o destino óbvio que se abatia sobre eles. Como o Ocidente, que nega sua situação e se recusa a compreender o momento no qual se encontra.

O liberalismo é um vírus cujo crescimento só é possível em organismos doentes, em corpos enfraquecidos - em povos decadentes. A riqueza material não foi capaz de salvar Roma, não foi capaz de evitar a dominação mongol na China e não será a solução para a crise cultural na Europa e nos Estados Unidos. Tampouco produzirá efeitos positivos no Brasil. Ela corrói o organismo; seu ideal máximo de individualismo é a semente para destruir qualquer noção de comunitarismo, de pertencimento, de identidade. Promove afeminação e negação de aspectos masculinos essenciais à sobrevivência de qualquer povo.

Em países, culturas e tradições saudáveis, o liberalismo é inexistente ou insignificante. Ele não germina onde há força e vigor, onde há orgulho e patriotismo; mas povos desiludidos com seus governos, nações esgotadas pelo vazio são alvos fáceis para essa doutrina que, em toda a parte, significa a morte, o suicídio civilizacional que se abate sobre o homem no entardecer, que retira dele qualquer sentido de heroísmo, de glória, e o preenche com a mais vil paixão pelo ouro.



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domingo, 16 de outubro de 2016

A mídia global odeia Trump - e isso é um bom sinal

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Poucos momentos na política estadunidense foram tão agitados quanto o atual embate entre Donald Trump e Hillary Clinton. Há algumas semelhanças entre as duas figuras: são magnatas da elite (Trump, de uma mais nacional e empresarial; e Hillary, de uma elite mais transnacional-globalista) e possuem lobbys intensivos. Mas há uma diferença entre essas duas figuras: Trump é odiado pela mídia (não só a mídia dos Estados Unidos, mas a mídia global) e Hillary é explicitamente protegida, amada e reverenciada.


Quando Donald Trump é preterido por canais tradicionalmente favoráveis ao Partido Republicado, como a Fox News, há um alerta que deve ser notado; seu próprio partido tem se voltado cada vez mais contra ele, algo praticamente inédito em termos do dualismo político bipartidário presente nos Estados Unidos. E, quando a própria Hillary Clinton é elogiada por mídias da "oposição" e por várias figuras dentro do próprio Partido Republicano, o fenômeno torna-se ainda mais interessante.

A mídia mostra incessantemente casos de vinte anos atrás, supostos abusos sexuais e assédios cometidos por Donald Trump; várias mulheres aparecem, muto oportunamente, para relatar os terrores passados nas mãos desse misógino-machista-chauvinista-xenófobo-megalomaníaco. Questões financeiras e empresariais de Trump vêm à tona, e é difícil absorver e determinar aquilo que é real e o que é mera fabricação da mídia (e os opositores de Trump sequer levam essa possibilidade em consideração).

Trump é o monstro a ser detido, é o lunático que quer dominar a Casa Branca e levar o país à catástrofe. Mas a tônica não é a mesma para Hillary Clinton: nenhum de seus esquemas de corrupção é trazido aos holofotes, nenhum dos crimes sexuais de seu marido (com os quais ela foi conivente e ajudou a acobertar) é debatido, nem mesmo o fato bizarro de ela ter roubado cerca de U$200.000,00 em artigos de luxo e decoração é mencionado em qualquer debate ou periódico. Só canais marginais (como sites independentes, blogs e canais marginais de pequeno ou médio alcance) falam sobre os crimes de Hillary Clinton, suas ligações com o terrorismo mundial e suas intenções de promover uma guerra aberta contra a Rússia, o Irã e a Síria.

A política de Hillary é a de "civilizar os EUA  o mundo" - e fazer do mundo os EUA. A imprensa não fala sobre a absurdidade de sua intenções, os crimes que ela ajudou a cometer na Líbia e em praticamente todo o Oriente Médio nem a tônica cada vez mais belicista da candidata. Mas, se houver um caso onde Trump tenha assobiado para uma mulher, lá estarão os microfones da CNN, NBC e da Fox News.

Na imprensa brasileira, todos os canais (absolutamente todos) mais expressivos, especialmente a Globo (e a Globo News), como boas caixas de ressonância que são, apenas repetem os discursos dos canais majoritários do mundo anglo-saxão, como se apenas traduzissem suas notícias para transmiti-las ao público brasileiro. É quase impossível encontrar um ponto mais imparcial ou favorável a Trump.

Enquanto isso, na internet, o cenário se altera: Trump tem as páginas mais populares e recebe apoio expressivo de várias comunidades, enquanto mutas páginas atacam frontalmente a figura de Hillary - e esse é um fenômeno que a mídia global não pretende abordar (nem exibir).

Essa hostilização generalizada contra Trump por parte da mídia global nos transmite uma mensagem muito clara: o establishment não quer que ele chegue ao poder, e isso só pode significar que ele é visto como um inimigo, como um agente contrário. Se a estrutura de poder afirma isso, então Trump é o "cavalo de Tróia" que deve ser arremessado contra os portões do sistema; ele representa efetivamente uma quebra na hegemonia do sistema que escraviza os próprios americanos e estende as garras ao mundo. Hillary não representa um risco ao sistema, por isso mesmo é amaciada e reverenciada pelos olhos e pela boca dessa estrutura; ela não faz nenhuma análise no macro, nem critica a estrutura em si.

Em torno de Trump se reúnem diversos setores com uma geopolítica mais esclarecida (principalmente em relação à questão da Síria), e até mesmo uma Direita russófoba (que, estranhamente, não demoniza Trump por suas declarações pró-Rússia); ao lado de Hillary, há uma Direita ainda mais russófoba do que a anterior (e que se gloria com as declarações de guerra abertas feitas por ela) e uma Esquerda pouco atenta às questões geopolíticas e sociais, mas que gosta de Hillary por ela ser... mulher.

Há uma regra muto simples, diante da qual poucas exceções escapam: aquilo que a mídia global demoniza é essencialmente bom, e aquilo que ela prestigia e favorece é naturalmente ruim.
Trump certamente não é a donzela em perigo - mas Hillary é, de fato, o dragão.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A História da Honra - Parte III

por Brett Mckay




A honra vitoriana

No início da Era Vitoriana (1830-1900), a sociedade inglesa era estratificada e hierárquica, e a população foi classificada em três classes principais. A ideia de classes é difícil para nós compreendermos plenamente perante nosso ponto de vista moderno. Pensamos nessa separação de classes avaliando o nível de renda, no entanto, apesar disso também ser um fator, há também a questão de valores, educação, ocupação, conexões familiares e história, nascimento, bem como seus modos, oratória e vestuário.

No topo do monte estava a aristocracia rural (ou seja, a propriedade de terra fazia parte de seu nobre privilégio). Essa aristocracia mantinha títulos de nobreza e em grande parte descendência da nobreza guerreira da Idade Média que batalharam com sucesso por feudos e defenderam esses território de pretensos usurpadores. Eles possuíam terras, mas alugavam para outros para trabalho. Devido ao sistema de primogenitura, apenas os filhos primogênitos herdariam o título. Os filhos mais jovens pertenciam à nobreza, embora não tinham títulos, eles ainda eram considerados nobres, e verdadeiros "cavaleiros". Com o título ou não, umas das qualidades que definem a classe alta, era que eles não tinham de trabalhar ou se manchar com a vulgaridade do comércio para ganhar a vida; sua renda provinda inteiramente de possuir e alugar uma terra.

A classe média era consistida por aqueles que realizavam de forma "limpa", o trabalho assalariado. O que mais distinguia a classe média eram os clérigos, oficiais militares, advogados, médicos e professores e diretores de escolas prestigiosas. Agricultores que alugavam uma grande parte de sua propriedade, mas outros que tinham de fazer a maior parte do trabalho físico para eles, eram considerados da classe média também. Trabalhadores de escritórios também era incluídos, mas considerados menores no totem da classe média. Fabricantes, comerciantes e banqueiros eram alguns dos membros mais novos da classe média (mais sobre isso posteriormente), e com o trabalho do colarinho branco expandido, os novos jornalistas, policiais e agentes de segurança também foram classificados assim.

A classe operária era constituída de quem fazia qualquer um dos trabalhos "sujos" físicos que restava.

Durante séculos, as pessoas geralmente tinham que aceitar o sistema de classes e seu lugar na hierarquia. Cada classe tinha suas próprias regras, normas, culturas e até mesmo terminologia. Era impensável imitar outra classes, uma acima ou abaixo da sua - você tinha que seguir as regras de suas própria classes.

A classe média somente emergiu recentemente. A priori, havia tido geralmente duas classes: 1) os que possuíam terras, os nobres 2) os demais, a plebe trabalhadora. Como iremos discutir nos próximos posts, existem diferentes tipos de honra em todas as classes, mas a aristocracia rural monopolizou o termo. Plebeus estavam definitivamente fora do seu grupo e ao contrário do conceito de honra que existia nas antigas civilizações, eles não podiam conquistar a honra através da adesão ao código de honra do grupo. Invés disso, a honra se tornou hereditária - transmitido para a família da aristocracia. Um aristocrata que exibia más maneiras ou mau comportamento para com seus membros de sua própria classe poderia teoricamente perder seu título de cavaleiro, mas essa distinção foi em grande parte produto de hereditariedade.

A ascensão da classe média durante o período vitoriano criou uma fluidez social que iria desafiar esse sistema, e necessariamente criação duma nova cultura de honra que transcendeu todas as classes.

A ascensão da classe média e a expansão da honra

No início do século XIX, a Revolução Industrial estava em pleno vigor. A ascensão da indústria alimentou mudanças radicais na tecnologia, sociologia e a economia no Ocidente.

Quando Vitória morreu, o ritmo e a textura da vida havia se transformado dramaticamente. A maioria da população inglesa agora vivia em vilas e cidades, e algumas de suas casas foram equipadas com luzes elétricas, armários abastecidos com alimentos enlatados. Telégrafos realizavam mensagens rapidamente, trilhos de trem atravessavam o mundo e navios luxuosos a vapor levavam passageiros da Inglaterra para a América em pouco tempo. Um homem poderia agora escrever uma carta em sua máquina de escrever, pegar sua fotografia tirado pelo fotografo no mesmo instante, fazer um raio-x, vacinação ou clorofórmio administrado pelo seu médico, fazer a barba com uma navalha segura em casa invés de ir na barbearia. A educação dum jovem havia se tornado obrigatória e a alfabetização subiu muito.

No entanto, a mudança mais importante do século XIX, foi a ascensão da classe média. A Revolução Industrial não apenas criou trabalho manufaturado, mas um boom de expansão do comércio e serviços bancários, justamente com todo um novo estrato de empregos do colarinho branco.

Enquanto o centro econômico da Inglaterra estava abandonando a agricultura e indo em direção ao capitalismo industrial, e enquanto muitos da classe média nascente ganhavam rendimentos maiores que aqueles que possuíam uma propriedade de terra cultivada, o status e o poder político dos novos ricos das fabricas, comércio e finanças (os mercadores) não mantiveram o ritmo com a sua crescente contribuição para a riqueza da nação. A aristocracia, um grupo de honra de séculos de idade nunca tinha sido hostil às incursões de fora, com veemência lutou contra o abandono de sua posição. Mas, a classe média iria forçá-los a ceder e não simplesmente por alcançar riqueza e lutando por uma voz no governo, mas pela criação dum novo código de honra - um que estava aberto a todos, independente da classe - um código baseado na ética e virtudes que viriam a suplantar a honra baseada na hereditariedade.

Quais foram os princípios do código estoico-cristão de honra?

O código de honra que se desenvolveu provindo da classe média da Era Vitoriana era verdadeiramente um amálgama de várias influências:

A rebelião contra os valores da aristocracia. Muitos sentiram que durante a Regência Britânica, as classes superiores cresceram de forma decadente, revelando exuberância e dandismo, centrando-se muito na atenção da aparência e vestuário. Para, para alguns vitorianos, ter sido um período donde o materialismo solapou a espiritualidade da sociedade - os ricos desfilavam com belos trajes, no entanto, estavam pobres em seu núcleo. Vitorianos reagiram contra isso com um movimento em direção à sobriedade e retidão.

A classe média também tinha desprezo pela forma como a aristocracia vangloriava a ociosidade como uma virtude, e viam com ojeriza aqueles que trabalhavam para ganhar a vida. A crescente classe empresarial transformou essa ideia. Passaram a partilhar a ideia de que a ociosidade era um vício, enquanto o trabalho era uma virtude quase sagrada.

Renascimento do cristianismo evangélico. O cristianismo evangélico se afastou das crenças calvinistas tradicionais em depravação total (os seres humanos são pecadores, essencialmente ruins por natureza); ao invés disso, enfatizou o livre arbítrio duma pessoa, e a salvação estava aberta para aquele que escolhesse acreditar e cultivar uma fé interior. Ao mesmo tempo, os protestantes evangélicos pregavam um relacionamento contínuo com Deus que era baseado em viver retamente, e que os crentes devem se esforçar para uma perfeição moral individual, ao mesmo tempo, trabalhar para purificar a sociedade, reformar as práticas de corrupção e elevar os oprimidos.

Nostalgia. Os vitorianos, assim como os renascentistas, eram, ao mesmo tempo progressistas e voltados ao futuro e nostalgia - eles olhavam para as sociedades do passado em busca de inspiração sobre forma de melhorar seu próprio. A partir do período medieval, eles resgataram ideias da cavalaria (ou, pelos menos, o folclore que a cavalaria havia deixado). E também adotaram partes da filosofia grega estoica.

Expansão da democracia. Por séculos, a nobreza era constituída por oligarquia - controlando o Parlamento e a cultura também. Mas durante a Era Vitoriana, a classe média atacou a ideia de que o direito de votar e a ocupação de cargos no governo fossem reservadas somente para proprietários de terra. Projetos de reforma durante esse período expandiram a franquia para outros milhões de homens, criando um maior sentido de igualdade e promovendo a ideia de que gentiliza e o título de "cavaleiro" poderia transcender a classe.

A ascensão do self-made man. Como vimos anteriormente, durante séculos as pessoas amplamente aceitaram ser membros duma classe que eles nasceram, e não havia quase nenhuma chance de subir para outra classe mais elevada - um plebeu não poderia ser um aristocrata não importa o quanto ele se esforçasse. A mudança da agricultura para a indústria abriu a possibilidade (não importa quanto as chances eram na realidade) da mobilidade social, ou, a chamada "desigualdade removível". Um status elevado na sociedade poderia ser algo conquistado, mas somente se um homem cultivou as habilidades e traços de caráter necessários para subir numa economia industrial.

Se você colocasse todas essas influências numa panela e misturasse, isso resultaria nos princípios do código de honra vitoriano ou o que muitas vezes os vitorianos usavam como sinônimo de "respeitabilidade". A expansão do espírito democrático havia inspirado um código baseado no mérito (não no nascimento), e cada uma das outras influências transmitia várias qualidades para os padrões que constituem esse novo código de honra.

A reação contra o excesso de percepção da aristocracia resultou num impulso para a "reforma de costumes", e novas regras para o comportamento adequado e decoro.

Sinceridade e seriedade eram apreciados; vaidade, frivolidade e exibicionismo eram rejeitados. O movimento evangélico realçou a importância da moralidade, particularmente da castidade, piedade e caridade para com os outros. Nostalgia para ideal de cavalaria dos cavaleiros medievais inspirado no respeito pela mulher, e também a adesão a antiga filosofia estoica pôs um prêmio sobre a autossuficiência, autocontrole e reserva imperturbável.

Acima de tudo, o código vitoriano de honra enfatizou as virtudes relacionadas com o sucesso econômico - Aqueles que queriam trabalhar e ascender na vida, necessitavam ter iniciativa, engenho, independência e responsabilidade pessoal (entrar numa dívida era algo vergonhoso), ambição, parcimônia, pontualidade, regularidade, limpeza, paciência, confiabilidade e acima de tudo trabalho duro.

Quais foram as funções práticas do código de honra estoico-cristão?

Logo iremos dissertar ao objetivo maior por trás da criação dum código de honra estoico-cristão, mas primeiro, iremos explanar sobre algumas de suas funções práticas:

O código de honra vitoriano ajudou a criar estrutura numa sociedade em rápida mudança

Com a ascensão da indústria, a população passou de áreas rurais para a cidade. Cidades com pessoas atomizadas e anônimas - As relações face-a-face entre pares iguais e familiares que eram essenciais para a o código de honra tradicional se esvaíram da sociedade. Como estranhos poderiam interagir e como as pessoas iriam avaliar mutuamente sua reputação de forma pública numa sociedade repleta de relacionamento impessoais?

O código de honra vitoriano respondeu as estas preocupações, tornando a aderências às regras de boas maneiras e etiqueta parte do padrão de respeitabilidade. Boas maneiras foram concebidas para promover o decoro, mas também facilitou a interação entre estanhos. Cada uma das partes sabia como se comportar e o que era esperado deles em diversas situações. E a adesão ao código de conduta foi uma maneira de construir sua reputação pública de honra; boas maneiras eram marcadores observáveis pelo qual poderiam julgá-lo, e isso era visto como manifestações externas das virtudes interior de autocontrole, cortesia e respeito. Você não poderia permanecer totalmente anônimo, mesmo nas grandes cidades. A reputação por maus modos, imoralidade ou caráter negligente, ou uma ética de trabalho desconfiável iria fechar as oportunidades para você em questão de trabalho. Antes de fechar um contrato social ou de negócios, você tinha de apresentar cartas de recomendação e ser apresentado por outras pessoas que poderiam atestar sua respeitabilidade. A reputação que você ganhou num lugar poderia segui-lo onde que que fosse.

O código de honra vitoriano criou novos padrões para profissões emergentes

Parte do raciocínio que antes era comumente aceito, era que a aristocracia tinha o controle exclusivo da política e cultura, dado que eles não trabalhavam para viver, logo, eles seriam capazes de servir a sociedade com um valor altamente valorizado nesse período: desinteresse. Uma vez que eles não se preocupavam com dinheiro, o aristocracia poderia ser moralmente e intelectualmente independente e iria fazer a coisa certa, independente das circunstâncias - sempre colocando as necessidades da comunidade sobre o auto interesse.

No entanto, novas profissões surgiram, profissionais tradicionais foram expandidas e a classe média ganhou poder político e influência social, surgiu a questão de como garantir que esses profissionais continuem agindo com esse mesmo ideal de desinteresse. Em resposta, foram desenvolvidos códigos de ética profissional, moldada pelos princípios código de honra vitoriano; ou seja, colegas de trabalho deveriam colocar virtudes como honestidade, responsabilidade e respeito acima do interesse pessoal. Embora possa ser difícil de acreditar, na ausência de muitas restrições legais, o padrão de moralidade nos meios de negócio foi bastante elevado, e apesar das falcatruas inevitáveis de alguns canalhas e vigaristas, o sistema de honra manteve a corrupção em grande parte sob controle.

O código de honra vitoriano criou um código universal que ajudou a unificar as classes

Antes do século XIX, as viagens e comunicações eram bastante limitadas, assim como o comércio... e também, as comunidades foram em grande parte independentes e autossuficiente. A vinda das estradas de ferro quebrou a distância e tornou as viagens baratas, e jornais nacionais e entretenimento popular corroeram costumes de regiões distintas. Mas, enquanto as fronteiras físicas e culturais foram diminuindo, as distinções de classe permaneceram. Assim, um código mais amplo de honra ajudou a unir o país e criar a coesão nacional. 

Como Richard D. Altick argumenta, "numa nação dividida por disparidades econômicas e sociais, os princípios amplamente aceitos da moral evangélica tiveram um efeito reconciliador, unificando as classes no que poderia ser chamado duma democracia ética. Suas relações muitas vezes abrasivas foram aliviadas pela posse duma moralidade comum.”

O código de honra vitoriano promoveu o uso de juramentos e a criação de pequenos grupos masculinos

Enquanto o código de honra vitoriano forneceu um conjunto universal de padrões que poderiam cruzar fronteiras geográficas e linhas de classe, e também ajudou os homens a navegar relações impessoais, o crescimento das multidões sem raízes e anonimato solitários estimulou os homens a criar grupos menores que poderiam replicar a camaradagem e fraternidade que antes existia no passado. 

Os juramentos cresceram em popularidade como uma chance de colocar o ideal estoico-cristão de fazer uma palavra da sua ligação para o testo de adentrar no grupo e para criar promessas de lealdade entre homens que não eram parentes, mas tinham decido propositalmente se tornarem "irmãos". O melhor exemplo em que essas tendências ressoaram na sociedade, são as fraternidades na faculdade que foram criadas durante esse tempo. Iniciados tinham (e ainda tem) de fazer um juramento, que normalmente contém promessas de lealdade para com os camaradas da fraternidade e uma promessa de se portar como uma cavaleiro. (atualmente as faculdades contém ritos de passagem de humilhação para adentrar no grupo)

Qual era o propósito sociológico e filosófico por trás do código de honra estoico-cristão?

Todos os códigos de honra são criados para motivar os membros da sociedade em relação ao seu comportamento que o grupo acredita que irá cumprir as suas necessidades e garantir sua saúde, felicidade e segurança. Isso funciona como ver de ver como desonrosos os indivíduos que não cumprem os padrões do código e recompensar aqueles que o cumprem, dando-lhes estima e privilégios para aqueles que mantém o código, mas também, o exercem.

Na sociedade vitoriana, ao contrário das culturas primitivas que entendiam a honra doutra forma (como discutimos anteriormente), a sobrevivência pura não era mais uma necessidade premente. E a justiça - realizada nos tempos primitivos numa reflexiva olho-por-olho - era aplicada cada vez mais pelo sistema jurídico.

Assim, com essas necessidades básicas atendidas, a sociedade vitoriana se voltou para uma aspiração mais elevada para o seu código de honra: o progresso - tanto moral quanto material.

Para os vitorianos, os dois tipos de progressos eram essenciais. Eles acreditavam que, assim como eles tinham usado a inteligência humana para canalizar e utilizar a tecnologia a seu favor, e por conseguinte, dominar o seu ambiente de forma engenhosa, eles poderiam também dominar a latência do indivíduo, afim de superar a si próprio. Desenvolvimento pessoal e material eram correlacionados como um loop. Assim como Altick diz, "o bem-estar da sociedade foi derivado da saúde espiritual de seus membros individuais". Noutras palavras, os vitorianos acreditavam que quanto mais pessoas viviam as virtudes delineadas, melhor e mais forte a sociedade se tornaria. 

Por outro lado, todo homem que caia no quesito de moralidade na sociedade desempenhada um papel de formação de força de toda a nação. Os homens estava motivos a seguir o código de atingir o status dum cavaleiro respeitável, para evitar ser humilhado e manter as oportunidades abertas apenas para aqueles com uma reputação respeitável (honrosa). 

Quanto mais destacado você era em exercer o código, quanto mais ele cultivava ambição de crescer, de trabalhar, de ter disciplina, na forma de se portar, mais ele ganhava prestígio na sociedade. E quanto mais os homens se esforçavam por prestígio na sociedade, mais a sociedade cresce como um todo. Assim como nas tribos primitivas, no entanto, com um novo conceito, o que era bom para um homem (seu desenvolvimento pessoal), isso por conseguinte, era bom para o grupo como um todo.

O conceito de honra estoico-cristão era público ou privado?

Nos posts anteriores dessa série, dissertamos sobre como o declínio da honra tradicional estava enraizada em sua mudança de público e externo para privado e interno. A honra tradicional era baseada unicamente em ter uma reputação digna de respeito a admiração num grupo de pares iguais (independente da moral), enquanto o conceito de honra interior era julgado apenas por si próprio (e talvez por sua religião). Apesar disso, a honra estoica-cristã adicionou traços de caráter e virtudes morais, além dos padrões primitivos de força, coragem e maestria (eles complementaram a isso, não substituíram - coragem ainda era parte do código de honra vitoriano), o código de honra vitoriano permaneceu em grande parte de natureza pública. Lembre-se da definição de Julian Pitt-Rivers que partilhei no primeiro post: "A honra é valor duma pessoa aos seus próprios olhos, mas também aos olhos da sociedade. É sua estimativa de seus próprio valor, sua afirmação de orgulho, mas também é o reconhecimento de que a reivindicação, sua excelência será reconhecida pela sociedade como seu direito ao orgulho." 

Enquanto a pretensão de orgulho para um cavalheiro vitoriano repousava sobre as virtudes morais, invés da aptidão física, o processo foi o mesmo para ele como era para um homem primitivo - ele começou com uma reivindicação de seu interior para atingir primazia na sociedade, mais do que isso, isso teria de ser reconhecido pelos seus pares de iguais. Você não pode agir como um malandro e dizer que era um cavalheiro - ninguém mais iria conhecer sua reivindicação para esse título. Seu comportamento era observado e julgado. Um deslizamento na moralidade ou a quebra de decoro poderia trazer vergonha pública (desonra) e ostracismo dos círculos sociais e profissionais.

Meninos em escolas públicas e privadas foram ensinando a ser cavalheiros, e os meninos mais velhos ficavam encarregados de supervisionar e verificar o comportamento dos meninos jovens. De acordo com Sally Mitchell, esses mentores aprenderam a "dar ordens duma forma que não despertaria ressentimento e internalizaria um senso de responsabilidade." Na área desportista, os jovens se dedicavam aos conceitos de trabalho em equipa e "jogo justo", e repreendiam aqueles que violavam o código de esportividade.

No entanto, houve uma mudança para uma maior ênfase na consciência pessoal durante o período vitoriano. Os vitorianos simplesmente pegaram o que os pensadores renascentistas haviam esboçado, sobre defender a importância da sinceridade - não era suficientemente agir como um bom homem, você tinha que de fato ser um bom homem em seu íntimo. 

Um homem que conseguia essa congruência do comportamento externo (cavalheirismo) e virtude interior, aderentes ao código de honra estoico-cristão, não apenas ganhava a aprovação dos outros, mas a satisfação duma consciência livre e esclarecida. Um homem vitoriano precisava entrar em contato com sua consciência mais que seus antepassados, porque o aumento da mobilidade geográfica significava que ao contrário de seus camaradas primais, ele tinha boa chances de se encontrar fora de seu grupo e estar entre estranhos. Para um cavaleiro vitoriano, isso era um verdadeiro teste de honra - você mantinha sua palavra mesmo quando ninguém estivesse olhando? Parafraseando Thomas Jefferson:

Sempre que você fizer algo, mesmo que ninguém venha a saber, faça como se o mundo estivesse olhando para você

A adoção popular de códigos de honras na universidade durante esse período sintetiza perfeitamente a tensão entre honra pública e privada para os vitorianos. Eles celebravam o ideal simplesmente confiando sua palavra de honra, um aluno poderia ser confiável para fazer a coisa certa - academicamente ou não - mesmo quando alguém não estava lhe observando. No entanto, ao mesmo tempo, alguns desses códigos implicavam necessariamente de que se você visse um camarada enganando alguém ou fazendo algo desonestos, você era obriga a entregá-lo.

Conclusão

Muitas vezes, quando um homem moderno pensa sobre honra, sua mente se volta para os ideias de honestidade e integridade, duelos (iremos dissertar sobre isso noutros posts), códigos de conduta na universidade, "mulheres e crianças primeiro", educação, retidão estoica, etc. O que eles estão pensando, noutras palavras, é o código de honra da Era Vitoriana. A honra estoico-cristã ainda está indelevelmente gravada em nossa consciência cultural por n fatores. Em primeiro lugar, a era vitoriana representou o nascimento da mentalidade moderna, e seu código de honra foi desenvolvido em resposta a fatores tecnológicos, sociológicos e econômicos que ainda estão perante a sociedade; o esforço para lidar com ritmo aparentemente rápido e constante mudança de vida, as consequências do anonimato e a busca do progresso pessoal e objetivos profissionais ainda ressoa em nossas sensibilidades. Em segundo lugar, a era vitoriana representou a última manifestação de honra como uma cultura social, não simplesmente como um conceito particular. Em terceiro lugar, muitos dos ideias do código de honra estoico-cristão continuam a ter um apelo profundo e isso você entenderá nos próximos posts dessa série.

Além disso, apesar do (pelo menos marginalmente) quadro coerente que tentei descrever aqui, o código de honra estoico-cristão nunca foi universalmente adotado por todos os homens. Embora tenha sido bastante influente sobre a classe média e pelas sociedades ocidentais que se estenderam, para a classe trabalhadora urbana, a honra ainda se assemelhava a variedade primal, com combates resolvido através da força e estima com base na aptidão física, coragem e destreza. E mesmo aqueles que estavam entre as classes média e alta, lutavam para conciliar o que parecia ser um desejo muito viril de ser agressivo e turbulento, com o ideal de ser um cavaleiro refinado e contido.

Essa luta entre ideias concorrentes sobre como a honra é entendida é vividamente iluminada sobre como os homens latinos entendiam a masculinidade.


Postado originalmente em: Art of Manliness

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