quinta-feira, 30 de junho de 2016

Léia Carvalho: Mais água no feijão

Por Léia G. S. Carvalho

Imagem - Panela cheia com feijão carioca cozido. Na imagem a frase: "A nova ostentação do brasileiro!". E marca d'água do Avante: Mão empunhando um martelo envolta por uma corrente.


O feijão é um item de consumo básico do brasileiro. O aumento de seu preço nas prateleiras dos mercados tem causado preocupação. A notícia do aumento bombardeou a população - em alguns locais o preço chega a R$15,00 o kg, sendo que o pacote de 1kg de feijão era encontrado por até R$4,10, até o final de maioA saca de 60kg era vendida a R$262,00, em abril deste ano. No começo de junho a saca já estava valendo entre R$400,00 a R$550,00 em alguns estados. Espera-se que a próxima safra, em 2017, atenue um pouco esse aumento de preço. Mas não trará a solução para o problema. 

As explicações que vêm sendo dadas à população para o aumento do preço são várias. Segundo especialistas, talvez registremos a pior safra da história. 

A inflação tem culpa. Sabe-se que ela é um dos principais fatores pelos aumentos dos preços. No entanto, este aumento de agora não foi causado pela inflação, pois ela já havia afetado anteriormente os preços do feijão e de todos os demais produtos da cesta básica. A inflação em maio subiu 0,78%, já o feijão mulatinho subiu 9,85%, e o carioca, 7,61%. Em 2016 de janeiro até agora, a taxa de inflação já acumula 4,05%, o IPCA subiu 9,32% no mesmo período, segundo o IBGE, já o feijão mulatinho ficou 37,44% mais caro, e o carioca subiu de preço em 33,49%.

O feijão é uma commodity, sendo assim, o preço do feijão é definido de acordo com a quantidade de produtos no mercado. Ou seja, quanto menor a oferta, maior o preço, ou vice-versa. O aumento assustador de agora, foi causada pela diminuição da oferta de feijão devido a baixa quantidade colhida: geralmente se colhe 50 sacas de feijão por hectare. Na colheita mais recente foram apenas 12 sacas de feijão por hectare.

Outro fator apontado como "culpado" foi a doação de 625 toneladas de feijão para Cuba. Porém, isto, não é nem de longe razão para o aumento do preço do feijão. 625 toneladas de feijão não é quase nada da quantidade de toneladas do nosso estoque e muito menos de nossa produção. Segundo o Conab a doação faz parte do Programa de Doação Humanitária de alimentos do Brasil à países da América Central. Na época em que a doação foi feita, o estoque de feijão no Brasil era de 303 mil toneladas, ou seja, a doação foi de apenas 0,19% do estoque. Agora em 2016, o estoque diminuiu para 103,2 mil toneladas. 625 toneladas a mais nesse estoque não ajudaria a diminuir o preço do feijão. Logo, não foi a doação a culpada pelo aumento.

Nosso país produz em média 3,3 a 3,5 milhões de toneladas de feijão anualmente. E desta produção, consumimos entre 3 a 3,3 milhões de toneladas (a média considerada pelo Ibraf é de 3,5 milhões de toneladas consumidas). Ou seja, consumimos quase todo o feijão que produzimos. Em anos de safras normais, o Brasil abastece toda sua demanda interna de feijão. E isso faz com que não possamos exportar de forma significativa esta commodity. No entanto, o fato de não podermos exportar maiores quantidades de feijão não deveria nos preocupar, pois o mais importante deveria ser abastecer o mercado interno.

Fenômenos climáticos, de fato, contribuíram para a safra ruim do feijão, bem como custos de produção com energia, insumos e mão de obra (que encareceram). El Niño, seca em alguns estados, chuva em excesso e frio em outros estados - principais produtores de feijão do país (Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia) - tiveram culpa. Mas lembremos que questões climáticas desse tipo ocorrem com certa frequência, e não houveram aumentos de preços tão absurdos em safras anteriores com condições climáticas ruins.

Entretanto, problemas com a produção de feijão não são tão novos assim. Segundo a CNA, nas safras de 2012 e 2013 já havíamos registrado uma produtividade menor que a habitual, dando os primeiros sinais de preocupação.



O governo anunciou, no dia 22/06, que vai liberar a importação de feijão de alguns países. Isto é, a "solução" apresentada pelo atual Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi (o rei da soja), é zerar a taxa de importação para facilitar a entrada do feijão estrangeiro. A medida valerá para o feijão vindo da Argentina, do Paraguai e da Bolívia. Também estão estudando a possibilidade de importar feijão do México e da China (esses países não vendem feijão carioca, só feijão preto). Mas esta atitude é insuficiente para resolver o problema.

Algo que não se falou foi que o agronegócio no Brasil não se preocupa em produzir para o Brasil, e sim em lucrar. Se observarmos a mudança na utilização das terras no país, veremos que nos últimos 25 anos houve uma diminuição profunda na área destinada à plantação dos alimentos básicos de nosso cardápio. A área plantada com feijão reduziu 36% desde 1990, enquanto isso, a população aumentou 41%. Mesmo a produtividade tendo aumentado nos anos anteriores a 2012, a diminuição da área deixou as colheitas mais suscetíveis e vulneráveis a variações como esta de agora.

Aqueles que compõem o agronegócio: a bancada ruralista, os grandes latifundiários brasileiros e as multinacionais de sementes transgênicas e de agrotóxicos como Monsanto, Bayer e Basf, não estão preocupados com a alimentação do povo brasileiro. Eles veem o campo apenas como uma forma de aumentar seus lucros e riquezas.

Enquanto a área plantada de feijão caiu, a área de soja aumentou 161% e a área plantada do milho aumentou 31%. Além disso a área plantada de cana também aumentou 142%. Somando o valor destes três produtos são 72% da área de agricultura,  isto é, 57 milhões de hectares, do Brasil apenas para 3 tipos de monocultura - que funcionam somente a base de muito fertilizante químico, agrotóxicos (veneno), e sementes transgênicas.

Com o preço do dólar americano em alta vale mais a pena vender para o mercado externo do que atender a demanda interna e abastecer o nosso mercado. Ou seja, produzir mais soja e milho para a Europa e China é mais importante do que produzir em quantidade suficiente aquilo que consumimos aqui.

Apesar de produzirmos boa quantidade de arroz e feijão, a área plantada destes diminuiu para dar mais espaço à plantação de soja  e milho, e por isso precisamos importar arroz, feijão e até mesmo milho (para as festas de juninas) para atender a demanda.  E as importações pressionam os preços, o que faz com que as produções possam enfraquecer ainda mais. Além disso o valor mínimo do feijão não foi reajustado no ano passado, enquanto os valores da soja e do milho ficaram mais competitivos. 

Como alternativa para a população temos as outras espécies de feijão (preto e branco) que ainda estão com preços mais em conta. O fato de o feijão preto estar mais em conta do que o carioca é por causa da importação já existente. O feijão fradinho não será exportado (apresenta boa produtividade e qualidade).

O que deve de fato ser feito é dar mais incentivos à agroecologia (produzindo alimentos saudáveis), investimento e controle na produção para abastecer o mercado interno (porque a demanda existe) primeiro e depois o mercado externo e diminuir a concentração latifundiária.

A realidade é que o agronegócio prefere nos deixar dependentes do mercado externo e vulneráveis às mudanças climáticas e não se importa em abastecer nosso mercado interno, o que ameaça a soberania alimentar de nosso país. Este é o Golpe do Agronegócio!


Referências:
EBC
Brasil de Fato
Share:

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Marcus Valerio XR: Do pré-sal ao Impeachment



O MARAVILHOSO MUNDO DAS COINCIDÊNCIAS FABULOSAS

DO PRÉ-SAL AO IMPEACHMENT

Obs: Esta é uma compilação atualizada e expandida de 4 textos distintos publicados originalmente como posts de Facebook, o primeiro de 23/02/2015, cujas previsões já se cumpriram em grande parte, e tudo indica virão a se cumprir integral, e infelizmente. 1

20.495 Caracteres

A STANDART OIL COMPANY

Para quem realmente quer tentar entender o "Petrolão", temos que começar bem do começo...

1 - Em 1870 os irmãos John Davison Rockefeller e William Rockefeller, filhos de um trambiqueiro cujos golpes iam desde fingir-se de médico até abandonar a mulher em troca de dinheiro, fundaram a Standard Oil, que se tornou a maior petrolífera do mundo fazendo de John o primeiro Bilionário de todos os tempos. Tendo a primeira grande multinacional, não se pode negar aos irmãos visionarismo e talento, mas também parecem ter herdado do pai a vocação para o embuste. Praticamente inventaram o esquema de cartel em larga escala, e promoveram uma série de operações que levaram a monopólio tão invasivo que em 1911 o governo dos EUA baixou uma Regulamentação Anti-Truste tentando acabar com a concorrência desleal. Mas os Rockefeller não se deram por vencidos. Para driblar a lei, a Standard Oil foi dividida em 34 companhias.

2 - Elas e outras empresas privadas dominaram a produção de petróleo mundial até que em 1951 o Irã nacionalizou (estatizou) a inglesa Anglo-Persian Oil Company, que não gostou e em resposta formou um cartel de empresas que ficaram conhecidas como AS 7 IRMÃS! Elas eram:

1) Anglo-Persian, que se tornou British Petroleum (BP), da Inglaterra;
2) SHELL (Holanda / Inglaterra); 
3) Gulf Oil (EUA);
4) Texaco (EUA); 
5) Standard Oil of California - SOCAL (EUA); 
6) Standard Oil of New Jersey - ESSO (EUA); 
7) Standard Oil of New York - SOCONY (EUA).



3 - Mas a moda das nacionalizações e criação de estatais pegou, surgiu a Organização de Países Exportadores de Petróleo, em franca oposição às 7 Irmãs, e diversos monopólios nacionais controlados exclusivamente pelos governos de seus países dificultando a vida das empresas privadas transnacionais que podem até explorar essas reservas por concessões, mas que podem ser revogadas. Na atualidade fala-se nas NOVAS 7 IRMÃS, que detêm a vantagem de possuir as maiores reservas monopolizadas que são no máximo concedidas parcialmente à exploração. TODAS ESTATAIS, elas são: 
1) Saudi Aramco (Arábia Saudita) - Subsidiária da SO estatizada em 1974; 
2) CHINA National Petroleum Corporation; 
3) Gazprom (Rússia); 
4) National Iranian Oil Company (Irã), aquela nacionalizada em 1951; 
5) Petronas (Malásia); 
6) PDVSA (Venezuela), 1976 estatizando empresas privadas inclusive SO; 
e, advinhe só? 
7) Petrobras (Brasil).

As novas 7 Irmãs estatais.

4 - O fato é que o setor petrolífero privado vem enfrentando más condições, dando nítidos sinais de cansaço perante as estatais e seus monopólios nacionais. Uma das evidências disso é que restou das antigas 7 irmãs. A SOCAL virou CHEVRON, comprou a Texaco e a maior parte da Gulf Oil, a parte menor foi comprada pela BP. A ESSO virou EXXON e a SOCONY virou MOBIL, depois se fundiram em EXXON-MOBIL, que com a CHEVRON são netas da Standard Oil e ainda sob controle indireto da família Rockefeller. Das outras restaram apenas a BP, a SHELL. Outra evidência muito mais clara é o simples fato de que ao final da década de 60 as 7 irmãs privadas controlavam 85% da produção mundial de petróleo. Hoje controlam 10%!



Genealogia da Standard Oil. (Marathon nunca fez parte das 7 Sisters.)


5 - Nesses novos tempos, essas petrolíferas não irão avançar sobre a China, muito menos Rússia, que reestatizou empresas que haviam sido privatizadas na dissolução da URSS. Também é muito complicado se intrometer com Arábia, Irã ou Malásia, países muçulmanos, mais do que já fizeram as intermináveis guerras no Oriente Médio cujo motivo REALMENTE FOI PETRÓLEO! E deve-se lembrar que jamais houve expansão ampla de grandes corporações internacionais em áreas estratégicas sem o uso de poderio militar. Assim sendo, que opções restam para as petroleiras privadas norte americanas continuarem crescendo? Apenas uma: América Latina!

6 - Por isso até um famoso blockbuster hollywoodiano de Ficção Científica ambientando no ano 2154 em outra planeta num sistema estelar 5 anos-luz de distância da Terra 2 precisa falar mal da Venezuela, que tem a maior reserva de petróleo do ocidente e um governo nada amigável aos EUA, de quem tomou parques petrolíferos por meio de nacionalização / estatização. Bem como nossa mídia vendida aos mesmos interesses fazer sensacionalismo com escassez de produtos básicos (parte deles devido a boicotes de conglomerados privados tal como nos ocorreu no Plano Cruzado), pois mais vale a guerilha ideológica que qualquer preocupação com o be estar popular. Inclusive o golpe de estado mal sucedido contra Hugo Chavez em 2002 foi evidentemente apoiado pelos norte americanos. Isso tudo tornava a situação muito desesperançada até que em 2007 o Brasil subitamente descobriu o Pré-Sal, o que também teve, aqui, a curiosa consequência de sepultar as intenções de investimento em biocombustíveis que pareciam tão promissoras.

7 - Naturalmente, as netas da Standard Oil cresceram o olho, afinal o Brasil é uma país muito mais amigável aos EUA, para não dizer subserviente, mesmo sendo a maior potência da América Latina. Mas para o desespero de suas pretensões privadas as regras de exploração impostas pelo modelo de concessão foram inaceitáveis para Exxon Mobil e a Chevron (a SHELL aceitou), e pior de tudo, ainda por cima beneficiaram a China. O PSDemB, com seu legado privatista, prometeu às petrolíferas americanas mudar as regras da partilha para beneficiá-las caso fossem eleitos, mas José Serra perdeu para Dilma Rousseff, ou melhor dizendo, para quem Lula apontou como sua sucessora, perigando adiar em ao menos mais 4 anos os sonhos de expansão das potentosas empresas privadas transnacionais.

8 - Mas as crias dos Rockefeller estavam decididas a não arriscar mais, decidindo ir à luta por conta própria e dar, no mínimo, sua contribuição eleitoral a seus capachos brasileiros, ou se necessário coisa pior. Acionaram ninguém menos que a CIA, uma das várias instituições dos EUA sob seu controle, que como sabemos começou a "espionar" a Petrobras conforme amplamente noticiado em Setembro de 2013 muito antes das denúncias do Petrolão. Como por sinal o vídeo com comentário de Bob Fernandes O Pré-Sal vale R$ 20 Trilhões - Rockefeller - Rotschild - Interesses Ocultos antevê, na época, com notória precisão. Mas até quem só entenda da CIA o que vê nos próprios seriados americanos sabe muito bem que a especialidade dessa instituição não é apenas "espionar", mas assassinar, sabotar, fraudar, FORJAR EVIDÊNCIAS e promover toda sorte de patifaria sórdida com vista a objetivos escusos. Então Por uma milagrosa coincidência "O Maior Escândalo de Corrupção De Todos Os Tempos da Última Semana" estourou justo em véspera da eleição. Mas o PSDemB, mais uma vez, perdeu!

9 - Então o JP Morgan & Chase Bank, que também é dos Rockefeller, anunciou na maior cara de pau em 20/02/15 que ia "mandar" abaixar a avaliação de crédito da Petrobras, MESMO ADMITINDO que seus ativos ainda estavam em alta e que ela prometia se recuperar! O que demanda uma atenção mais especial.

9.1 - Ao dizer que É iminente que a Petrobras perca seu grau de investimento, a entidade em questão pôde contar com a completa ignorância da grande maioria sobre o assunto, mas para os poucos esforçados independentes que estavam tentando tentando juntar as peças do curioso quebra cabeça (como o bom trabalho do colega Gregório Luiz Anaconi) fica até sem graça entregarem o esquema desse jeito! Ora, o que são as entidades invocadas pelo JP Morgan & Chase Bank? Nada menos que a Moody's Corporation e a Fitch Ratings. Duas das integrantes da Santíssima Trindade das Empresas de Avaliação de Crédito que quantificam riscos e potenciais de retorno para investimento. Se elas disserem que uma empresa X vale a pena, o investidores aplicarão em massa nela, se disserem o contrário, os gestores da empresa já podem ir procurar anúncios de emprego nos classificados.
9.2 - Mas a não ser para quem ainda acredite em Papai Noel, não é possível pensar que essas avaliações são perfeitamente honestas e bem intencionadas, invés de mais um braço manipulatório do poder financeiro global. O três vezes vencedor do prêmio Pulitzer Thomas Friedman, especialista em Comércio Internacional, declarou em 1996 que não sabia quem era mais poderoso, os EUA com seu poder militar de destruição (can destroy you by dropping bombs) ou a Moody's com seu poder de avaliação de títulos (can destroy you by downgrading your bonds). E aí, ver um dos bancos mais poderosos do mundo, braço das dinastias dos Rockefeller e dos Morgans avisando que esses avaliadores irão logo logo lançar suas "bombas especulativas" em cima da Petrobrás, mas AO MESMO TEMPO admitir que os ativos da estatal continuam acima do mercado e que a mesma irá se recuperar é quase como entregar o maior Spoiler possível para um romance de mistério conspiracionista!
9.3 - Ou seja. Derrubar o valor de mercado da Petrobrás especulativamente, provocando fuga de investimentos e jogando as ações ainda mais baixo do que já estão, enquanto os arquitetos por trás da patifaria toda as comprarão sabendo que irão hiper valorizar em pouco tempo! Enquanto isso, nossa mídia corrupta e um bando de facebookeiros idiotas ficam ajudando a fazer o trabalho sujo, com a diferença de que os primeiros ao menos são pagos para isso.
9.4 - Sobre a referida Santíssima Trindade, ela praticamente controla toda a avaliação de crédito do planeta, em especial a Moody's Corporation e a Standard & Poor's Financial Services LLC (S&P). Com a Fitch Ratings basicamente desempatando impasses entre as outras duas. Entre outras pilantragens, eles avaliaram favoravelmente os Créditos em Subprime que resultariam na Crise de 2008 o que por si só denuncia a seriedade dessas instituições.

Voltemos agora ao tema principal.

10 - Logo depois disso a Petrobras anuncia que porá a venda grande parte de seu patrimônio para se recuperar do rombo causado pela dívida que triplicou desde que começou a espionagem! Ao mesmo tempo que os liberais de sempre defendem a maravilhosa solução da privatização, a mesma que triplicou nossa Dívida Externa, quintuplicou nossa Dívida Pública e deixou nosso país numa crise de empregos, energia, e fragilidade internacional e da qual é impossível dar um único motivo claro de qual foi a verdadeira vantagem, exceto, claro, ter multiplicado fabulosamente as fortunas dos já riquíssimos. E que por sinal, é ideia de um certo Consenso de Washington que é cria, advinhe de quem? Dos mesmos Rockefeller que dominam o setor petrolífero e bancário dos EUA! 3
 

Rockefellers, CIA e Consenso de Washington (clique para ampliar)


TEORIA DA CONSPIRAÇÃO?

Como visto modelo de exploração estatal vem desbancando o modelo liberal há décadas. As petrolíferas privadas americanas tem na América Latina a melhor chance de crescer, especialmente agora com o pré-sal brasileiro, mas a política adotada pelo governo do PT não era de seu interesse. A política do PSDemB seria, mas como este não voltou ao poder, o jeito foi criar uma manobra para desvalorizar a estatal brasileira e convencer o país a torná-la mais passível de ser privatizada ao menos parcialmente. Não é que não exista corrupção na Petrobras ou que o governo não tenha culpa das ingerências, até porque nosso sistema de relações entre empresas estatais e privadas é estruturalmente corrupto, só necessitando de uma severa vistoria para revelar no mínimo uma horda de irregularidades que demandam explicações complicadíssimas.

Mas é preciso ter uma colossal dose de recheio de frango no cérebro para achar que tudo o que ocorre no Brasil, o elo mais ao oeste do BRICS, pode ser resumido em uma mera "corrupção do PT" ou uma ação do temido e latiníssimo Foro de São Paulo, A Legião do Mal na cabeça de trouxinhas liberais que ainda tem a grotesca disposição de implorar ao Conclave de Washington para vir nos salvar daquilo que foi criado, coincidentemente, para combater o Consenso de Washington. 3 Ter que aguentar patifes desse naipe se fingindo de patriotas é um peso à parte na paciência de quem tenta reerguer uma via nacionalista neste país.

Podemos então, tentar resumir a situação atual da seguinte forma.

1 - Estamos num momento histórico econômico onde a hegemonia dos EUA está ameaçada, em especial por Rússia e China (os Eurasianos), de maneira geral o BRICS, bem como países como Síria, Venezuela ou Irã, que adotam modelos estatistas e nacionalistas de produção, em especial de petróleo, contrário ao modelo privatista e de monopólio internacionalista das oligarquias norte americanas.

2 - Como analisei acima, o modelo privatista anglo americano está em retração. TODAS as guerras ou tensões políticas recentes dos EUA com outros países tem ao menos parte de seu fundamento nisso, inclusive as "revoluções coloridas", como a Primavera Árabe;

3 - Há até mesmo a disposição eurasiana de romper com a hegemonia do dólar, por meio de negócios entre Rússia e China com base no Yuan chinês. Muitos países são simpáticos a essa possibilidade, o que seria um golpe de dureza inédita no sistema norte americano;

4 - Esse sistema é controlado por oligarquias, em especial os que controlam o Federal Reserve Bank, que apesar de ser o Banco Central dos EUA, é privado! FED, JP Morgan & Chase Bank (o maior banco privado do mundo), as avaliadoras de crédito Moody's Corporation e Fitch Ratings, bem como as petroleiras subsidiárias da Standard Oil, são TODOS controlados pelos mesmos grupos econômicos;

5 - Se o padrão dólar (a base primordial de poder dos EUA) for abalado, podemos estar diante tanto da terceira guerra mundial quanto da queda do maior império econômico militar da história;

6 - O Brasil na última década evidentemente se aliou aos eurasianos, criando um modelo exploratório do pré-sal favorável à China ainda em 2012. Poeticamente dizendo, talvez o fim do mundo que conhecemos tenha mesmo começado neste ano;

7 - Imediatamente após isso a CIA monta o esquema de espionagem na Petrobrás. Pouco depois, estoura o escândalo do "petrolão", levando à crise econômica e política e castigando o governo que havia agido contra os interesses das tais oligarquias;

8 - O Brasil sempre esteve sob assédio dos EUA, e por não ter a imensa população e ou poderio militar da Índia, China e Rússia, com o qual os mesmos EUA jamais teriam a ousadia de se meter, demanda uma abordagem bem diferente, e não bélica, de neutralização em suas pretensões de ser uma nova liderança ocidental ou ao menos latino americana. O texto de Pepe Escobar Lista de Matar: Esmagar o "B" de BRICS, do PRAVDA russo traduzido em Português explica isso muitíssimo bem, apesar de termos herméticos como 'Excepcionalistão', que é os EUA, ou a acidentada tradução que utiliza Operação "Car Wash" invés de Lava Jato. 4 É inadmissível para as oligarquias dos EUA ter algum país sulamericano com potencial para se tornar uma futura dificuldade maior aos seus interesses, NÃO! APENAS UMA ESPETACULAR, FABULOSA E IMPROBABILISISMA COINCIDÊNCIA!!!

Desde o começo de 2015 estou dizendo que o Petrolão, cujas evidências foram "descobertas", para não dizer forjadas, pela CIA, JAMAIS teve qualquer outro objetivo a não ser viabilizar a privatização da Petrobras e por tabela das demais estatais brasileiras, entregando nossas riquezas naturais e nossa soberania nacional ao poder das oligarquias plutocráticas dos EUA.

Escândalo após escândalo, apoio massivo dos mesmos órgãos de mídia que sempre defenderam o privatismo, juiz "heróico" com ligações com a CIA, coxinhas desfilando nas ruas "contra a corrupção", articulação liberal no congresso e enfim golpe Impeachment de um governo que pode ter sido uma verdadeira desgraça, mas ainda resistia em cooperar com o esquema corruptor em toda a sua plenitude.

Veio a aprovação do infame PL 131/2015, que sacramentou a entrega de grande parte de nosso pré-sal às mesmíssimas petroleiras norte americanas antes preteridas no governo Lula 6, incapazes de concorrer com as estatais sem apelar para a pilhagem patrimônio nacional de países alheios 7. E consumada a posse de Michel Temer na presidência da república, logo após a cortina de fumaça da completamente irrelevante MP 726 de reorganização de ministérios que jogou boa parte da sociedade em lamúrias e discussões completamente inúteis, eis que finalmente veio a MP 727 revelando O VERDADEIRO PROPÓSITO de tudo o que aconteceu: Ressuscitar a maldita 9491/97 de FHC e PRIVATIZAR TUDO COM DINHEIRO PÚBLICO!

Ou seja, os cofres públicos, via BNDES, PAGAM PARA O SETOR PRIVADO levar de graça as estatais. Que depois fingem que devolvem o dinheiro emprestado enquanto roubam ainda mais por outros meios, tal como a VALE, que hoje é a maior sonegadora de impostos do país devendo quase R$ 42 BILHÕES. O que é 12 VEZES o que a privataria fingiu que pagou.

E o plano, pelo jeito, teve que ser apressado, pois diferente da ocasião anterior onde houve um alívio de alguns anos entre o auge da sanha privatista e a consequente e inevitável recessão econômica, desemprego massivo, alta do dólar e multiplicação das dívidas Externa e Interna, agora, a julgar pelo exemplo argentino, parece que a política privateira não está conseguindo criar a ilusão de progresso e crescimento nem sequer por um trimestre.

Afora isso, praticamente tudo o que andei dizendo há anos sobre como funciona o sistema de manipulação massivo que corrompe a Esquerda via Liberalismo Social e a Direita via Liberalismo Econômico está se manifestando de forma explícita. Pelo jeito, prever os rumos macroeconômicos e geopolíticos com anos de antecedência é mais fácil do que eu pensava. Basta se recusar a ser feito de idiota pela canalhice de nossos corruptores travestidos de formadores de opinião.

Mas como ensinaram tanto Platão há 2.300 anos na Alegoria da Caverna, quanto Samuel Clemens há pouco mais de um século, ou filme The Matrix em 1999, poucos se atrevem a desafiar o engodo e a ilusão, e muitos lutarão obstinadamente para se manter cativos de uma teia de mentiras que os mantém confortáveis, reagindo ferozmente contra os que ousem tentar demovê-los não apenas do engano a que estão submetidos, mas do próprio auto engano que se esforçam para manter.



Marcus Valerio XR

Notas

1. Os textos são, pela ordem de publicação, os posts de 23 de Fevereiro e de 19 de Março de 2015, e os de 17 de Fevereiro e de 22 de Maio de 2016. Todos são públicos e estão disponíveis, além do Facebook, tambem em meu site xr.pro.br pela lista de periódicos organizados por meses.

2. Alguns vídeo até mesmo tecem teorias a respeito da previsão de uma futura invasão norte americana à Venezuela, a exemplo de Avatar predice la invasión a Venezuela y derrocamiento de Chavez e de Avatar y la guerra en Venezuela, que chega a interpretar todo o filme como uma alegoria dessa vindoura guerra.

3. Comentei sobre isso em furioso post de 22 de Agosto de 2015. Também sobre Neoliberalismo e Feminismo serem crias dos mesmos autores comentei em 23 de Novembro de 2014. E mais especificamente sobre o Consenso de Washington recomendo o ótimo texto Os Chicago-Boys e suas Obtusas Mentes Colonizadas, de Nelson Werneck.

4. Outro texto particularemente interessante do mesmo autor é A luta é de vida ou morte; porque Lula é Brics, que também possui uma versão narrada em vídeo.

5. Segundo alguns, Henry Kissinger, a eminência parda que definiu os rumos da política externa norte americana no pós segunda guerra, teria dito "Não Permitiremos um Novo Japão ao Sul do Equador", informação também feita no texto Malditos Brasileiros, de Milton Severiano da Revista Caros Amigos. No entanto devo frisar que não consegui confirmar a veracidade da informação. Interessante ver também abordagem similar no texto Lavajato quer tirar Brasil do BRICS e CELAC, que narra, entre outras coisas de alta relevância um episódio da visita de Henry Kissinger ao Brasil em 1976, onde foi confrontado pelo General Presidente Ernesto Geisel. Não se pode negar que os militares da última ditadura tinham um viés nacionalista, por mais distorcido que fosse. O maior problema, nesse sentido, era o viés entreguista total da contraparte civil que apoiava a ditadura.

6. Conforme meu post de 25 de Fevereiro 2016 onde frisei que tinha avisado exatamente isso em 19 de Março de 2015, deixo registrado também aqui a lista dos VENDE-PÁTRIA! Senadores que votaram a favor do PL 131/15 entregando reservas do Pré-Sal e patrimônio da Petrobrás para as petrolíferas norte americanas: Aécio Neves (PSDB-MG), Aloysio Nunes (PSDB-SP), Álvaro Dias (PV-PR), Ana Amélia (PP-RS), Antonio Anastasia (PSDB-MG), Ataídes Oliveira (PSDB-TO), Blairo Maggi (PR-MT), Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), Ciro Nogueira (PP-PI), Dalirio Beber (PSDB-SC), Dário Berger (PMDB-SC), Davi Alcolumbre (DEM-AP), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Fernando Coelho (PSB-PE), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), Gladion Cameli (PP-AC), Hélio José (PMB-DF), Ivo Cassol (PP-RO), José Agripino (DEM-RN), José Maranhão (PMDB-PB), José Medeiros (PPS-MT), José Serra (PSDB-SP), Lúcia Vânia (PSB-GO), Magno Malta (PR-ES), Marta Suplicy (PMDB-SP), Omar Aziz (PSD-AM), Otto Alencar (PSD-BA), Paulo Bauer (PSDB-SC), Raimundo Lira (PMDB-PB), Ricardo Franco (DEM-SE), Roberto Rocha (PSB-MA), Romero Jucá (PMDB-RR), Ronaldo Caiado (DEM-GO), Sandra Braga (PMDB-AM), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Valdir Raupp (PMDB-RO), Vicentino Alves (PR-TO), Waldemir Moka (PMDB-MS), Wellington Fagundes (PR-MT).

7. Estas novas 7 irmãs e as 4 grandes empresas privadas supracitadas fazem parte das 25 maiores em produção, como se segue abaixo, com dados em Milhões de Barris por dia de 2012, segundo a revista Forbes. Sendo de 4 anos atrás, esses dados são até mais adequados para a percepção daquele momento em especial.


Esse não é o único fator a determinar o tamanho e valor de uma empresa petrolífera, há que se considerar também a produção de gás natural, o tamanho das reservas, a infraestrutura e uma série de fatores. Mas o ponto relevante é que apenas 8 são privadas. Exxon-Mobil, Chevron, BP e Shell se destacam mais pela infraestrutura de distribuição e refino, que no entanto depende totalmente da produção bruta, explorando petróleo sob concessões em diversas partes do mundo, e evidentemente podendo perdê-las a qualquer momento. Sua única chance de se manterem competitivas e crescerem é ter maior e mais livre acesso a reservas que estão sob controle de nações soberanas, nem que para isso seja necessário usar todo aparato de guerra não-convencional, lembrando que ExxonMobil e Chevron descendentes da mesma Standard Oil, que em parte também foi incorporada pela BP, são os inventores do truste e das técnicas de ocultamento, controlando remotamente uma infinidade de empresas, fundações, bancos e organizações, e tem mais poder do que qualquer politico norte americano jamais poderá ter, presidente incluso. Reza a lenda que Nelson Rockefeller, que fora prefeito de Nova Iorque, ao manifestar disposição para concorrer a presidência foi repreendido por seus familiares, segundo os quais não era digno de um Rockefeller fazer os serviço de seus empregados.


Compilação de Fevereiro de 2015 Julho de 2016

Share:

terça-feira, 28 de junho de 2016

Agricultura Orgânica pode alimentar o mundo inteiro

Por Léia G. S. Carvalho

A agricultura orgânica não é apenas viável e rentável como também melhora as condições dos trabalhadores e do ambiente.

Há vários estudos que comprovam a eficácia da agricultura orgânica. Um desses estudos afirma que ela pode alimentar o mundo inteiro. Para os especialistas a solução seria unir métodos orgânicos com o uso de tecnologias disponíveis (usadas nos plantios atuais).

O estudo, feito pela Universidade Estadual de Washington - EUA, mostrou que a agricultura orgânica é eficiente para alimentar toda a população mundial. A pesquisa, liderada pelo professor de Ciência do Solo e Agroecologia John Regalold, juntamente com o doutorando Jonathan Wather, mostra que este tipo de produção além de ter rendimentos suficientes aos produtores, também melhora as condições dos trabalhadores rurais e do ambiente.

O relatório "Agricultura Orgânica no século XXI" contou com análises detalhadas de centenas de outras pesquisas acadêmicas sobre o tema. A proposta foi examinar a eficiência da agricultura ecológica baseada na sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Para os pesquisadores a solução é mesclar os métodos orgânicos com tecnologias modernas utilizadas nas lavouras atuais. Deram ênfase a alguns aspectos: gestão natural das pragas, rotação de culturas, melhoras na condição do solo com o uso de compostagem, diversificação pecuária e agrícola, adubagem verde e animais.

Os acadêmicos autores do estudo garantem que, independente das mudanças climáticas, a agricultura orgânica é capaz de satisfazer as necessidades alimentares do mundo completamente. Justificam a afirmação dizendo que fazendas orgânicas têm potencial para terem grandes rendimentos como consequência de uma maior capacidade de retenção de água nos solos cultivados sem agrotóxicos.

Em questões econômicas, porém, o estudo esclarece que, apesar de ser muito rentável, o cultivo orgânico gera lucros menores do que os habituais. A explicação é óbvia: o uso de pesticidas acaba barateando parte da produção. Mas em compensação o ganho social, ambiental e na própria saúde da população e dos trabalhadores é enorme. As evidências mostram o fato de que sistemas orgânicos agrícolas garantem muito mais benefício social, o que resulta em um planeta mais saudável.

Referências:
Relatório Organic agriculture in the twenty-first century

Site Ciclo Vivo

Share:

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Morte ao turismo moderno

Por Jean Augusto G. S. Carvalho



Você fica suficientemente entediado do lugar onde vive e precisa desesperadamente conhecer outros ambientes. Não se preocupe: o mundo inteiro é transformado num pacote de viagens dividido no cartão de crédito, disponível num panfleto de alguma agência de turismo. E isso serve pra consolar jovens sem identidade, pessoas de meia-idade que sofrem de crises existenciais e velhinhos que precisam mostrar algum vigor e juventude para não serem considerados como lixo descartável.

Viajar sempre fez parte da história humana. O fluxo de pessoas é um fenômeno social natural, e todos os grandes impérios e civilizações precisaram lidar com isso (de um modo ou de outro). A grandeza e a ruína de reinos inteiros foram determinadas pelo influxo e afluxo de massas humanas. Essas pessoas se deslocavam por várias questões (procura por alimentos, deslocamento de rebanhos, catástrofes naturais - secas, geadas, enchentes -, guerras, escravidão ou por simples nomadismo) que não incluem as motivações típicas do "turismo moderno".

O turista moderno não está em busca de comida, nem foge de catástrofes. Ele é a própria catástrofe, o sintoma de um mundo decadente que consegue comercializar culturas inteiras. O turista moderno quer apenas colecionar selfies diante de monumentos diferentes, em lugares onde ele não possui qualquer vínculo efetivo e com pessoas que ele considera figuras exóticas, espécimes disponíveis pra catalogação (nem mesmo animais escapam disso). 

Ele despreza a cultura dos lugares onde visita, despreza o modo de pensar dos povos que diz conhecer e só leva essas coisas em consideração quando elas se encaixam em suas necessidades de se mostrar "cosmopolita", "diverso", "tolerante" e "cult". Turismo moderno é masturbação, egocentrismo, exibicionismo, lascívia e fetiche. Você pode condensar tudo isso num bastão de selfie e numa camisa florida.

Em essência, a busca por novos lugares é o conhecimento daquilo que não existe no lugar de onde você veio. Mas todo esse fetichismo faz com que o típico turista moderno viaje meio mundo para fazer essencialmente as mesmas coisas que faz onde vive: comprar. Visitar algum shopping center na China, um centro de compras em Miami, uma franquia da Mc Donalds no Japão. Você pode tomar um café Starbucks na Irlanda, na Inglaterra ou tomar Coca-Cola na Índia (ou Pepsi na Tailândia, para os mais "rebeldes").

Não há problema algum em viajar. Não é crime conhecer outras culturas e lugares. Mas a postura do turista moderno não é a do conhecer, e sim a do exibir. Você pode comer comida japonesa no Japão com a mesma postura que tem na lanchonete de fast-food na esquina da sua casa. Não há necessidade de demonstrar respeito pelos ritos e tradições de outros povos quando tudo o que você precisa é de um souvenir para exibir na estante de casa.

Outros lugares servem para que você compre uma camisa Lacoste, um tênis Nike, um lanche no Burger King, um perfume Dolce & Gabbana. Todas as cidades modernas são incrivelmente iguais: prédios imensos, muitos carros, lojas e mais lojas - e essencialmente as mesmas marcas e produtos. Se você visita um lugar desses, já visitou todos os outros. Todas as diferenças culturais, todas as sutilezas e peculiaridades se dissolvem no emaranhado de aço, concreto, asfalto e vidro.

Diante do Taj Mahal, o turista médio pode se comportar do mesmo modo como age em casa num domingo à tarde. Lugares sagrados, túmulos de heróis e monumentos de eras passadas se transformam em acessórios no cenário, prontos para a experiência da "interatividade". Você pode viajar pra Índia e participar do festival Holi como se estivesse numa festa rave qualquer (o uso de ecstase ou metanfetamina contribui pra "experiência").

O mundo é um playground imenso, um campo de testes. Povos, culturas e histórias diferentes são diluídos na homogeneidade do espírito cosmopolita, do "multiculturalismo" - um multiculturalismo esmagador e acessível em cada terminal de aeroporto. Todas as línguas são condensadas no "hello!". 


Share:

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Rhainer Cavalcanti: O narcisismo como "empoderamento"

 Por Rhainer Cavalcanti




O progressismo é maléfico ao povo em um sistema onde o capital está acima do coletivo ou do bem-estar. 

As pautas progressistas (principalmente
vinda de grupos radicais) carregam um individualismo cego, que ofusca a visão para compreender o plano econômico e consequentemente o moral.  Podemos fazer comparações do atual sistema liberal com a decadência de impérios que ocorreram durante a história. A política de “pão e circo” utilizada pelo Império romano, é até hoje inserida como meio de moldar as massas. Porém, houve uma evolução do capitalismo, o que acarretou nas mudanças sociais, onde o povo se sente livre apenas por ter seu espaço hedonístico. 

As crises do capitalismo industrial do século XIX, diferenciam-se das crises do atual sistema. A evolução do capitalismo, deu um novo sentido e um novo motivo para que a sua hegemonia desse continuidade, partindo do plano econômico (capitalismo industrial) ao plano ético/moral (Capitalismo cosmopolita), sendo este último ligado ao moderno sistema dos créditos e do capital especulativo, que levam os seus interesses ao campo cultural e ético, modificando o comportamento físico e psíquico dos povos. 


Durante a fase de declínio do Império romano, houve a exaltação do ethos hedonístico. O prazer acima do que é natural, a desvalorização do trabalho e as crises econômicas que acarretaram em desigualdades sociais e inflações. Nada diferente do que acontece hoje. As quedas dos Impérios ocorreram quando o dinheiro esteve acima do povo. Quando o prazer estava acima do que é belo. Quando o sentido de trabalho estava a favorecer uma casta de parasitas. O que queremos concluir com o passado, é que o sistema hegemônico utiliza todos os mecanismos para os seus benefícios, para os benefícios do mercado ou de uma única casta.


As pautas progressistas inseridas dentro do liberalismo econômico, servem apenas como uma política de “pão e circo”. Ela beneficia pequenos grupos, fazendo-os a crerem que estão livres ou ganhando os seus direitos, quando, no entanto, estão presos ao capital, estão presos ao consumismo. Tudo se altera, mas nada por completo. A desigualdade continuará, pois o modelo econômico não foi alterado. 


O verdadeiro sentido de “liberdade” vem do que é natural, do que não se força. Assim como o sentido de “trabalho” vem do que é da terra, do que é próprio do ser humano e não do que provém de uma força econômica. 


Do que adianta conseguirmos direitos para certos grupos se outros são massacrados? Do que adianta conseguirmos liberdade de gênero nos EUA enquanto o mesmo bombardeia mulheres e crianças de nações que não se rendem à sua hegemonia? Do que adianta alcançar direitos de protestos ou ONGs sendo essas financiadas por uma elite burguesa? A mesma elite que escraviza trabalhadores de suas colônias. Isso é egoísmo, isso é individualismo. Defender tal questão é ir contra o coletivo, é estar abraçado às mazelas do que provém do liberalismo. 

Sendo assim, essas pautas beneficiam uma elite, enquanto ludibria os explorados. No entanto, como todo Império chega ao seu fim, este está chegando. A grande valorização do hedonismo como estilo de vida, já é o principal sinal de sua decadência. O que temos como prova? Crises econômicas, guerras por interesses oligárquicos, o domínio dos bancos sobre o legítimo sentido de propriedade privada e liberdade, que acarretam nas grandes bolhas financeiras, crises mobiliárias, desvalorização da moeda, gerando a desigualdade no campo social, como fome, miséria, criminalidade, imigração massiva e terrorismo.


A história mostra que o resultado final do hedonismo coletivo não é uma maior liberdade, mas a escravização – ao pecado, ao vício, e por fim aos inimigos exteriores. A decadência moral leva inevitavelmente ao colapso social. "
Share:

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Alexander Dugin: O Paradigma do Fim (Parte 4)

Por: Alexander Dugin
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho



A última Fórmula


Chegaremos, finalmente, no curso de nossa análise. Nós percebemos que todos os níveis dos mais generalizados modelos reducionistas da teleologia histórica existem existem quase sempre as mesmas trajetórias e processos de desenvolvimento histórico. Agora, nós iremos simplesmente reunir todos os componentes revelados na última fórmula generalizante.

Então, dois sujeitos, dois polos, duas realidades agem através da história. Sua oposição, sua luta, sua dialética fazem o conteúdo dinâmico da civilização. Esses sujeitos se tornam mais e mais claros e evidentes, saindo da obscuridade, de uma existência velada e "fantasmagórica" para algo claro, avançado, uma forma estritamente fixada. Eles universalizam e absolutizam. 

O primeiro sujeito é o Capital = Mar (Ocidente) = Anglo-saxões (no amplo sentido do termo "romano-germanos") = confissões cristãs ocidentais. 

O segundo sujeito é o Trabalho = Terra (Oriente) = Russos (no amplo sentido do termo "eurasianos") = Cristianismo Ortodoxo.

O século XX é o ponto de culminação dessas duas forças de oposição em máxima tensão, a última batalha, o Endkampf. No momento em que nós estabelecemos esse fato, o primeiro sujeito se torna - quase que por todos os parâmetros - apto a superar o segundo. E o principal instrumento, o movimento tático da vitória do Ocidente, é repetido constantemente e em todos os níveis, usando algumas realidades intermediárias (terceiras), pseudo-sujeitos terciários da história, que, a cada momento, se transformam numa miragem incorpórea, destinada e ocultar a verdadeira essência da oposição escatológica.

A vitória do Ocidente (em sua completa extensão). As assertivas liberais otimistas, de que esse é o final e de que a "história foi vitoriosamente concluída". Os mais cuidadosos dizem que isso é só um estágio provisional, e que o gigante caído poderia se colocar novamente de pé sob certas circunstâncias.

Ainda mais: o lado vencedor encara uma nova situação, completamente incomum, a situação da falta de um inimigo, o duelo com o qual o conteúdo histórico havia sido construído. Consequentemente, o atual sujeito da história, tendo sido deixado sozinho, deveria resolver o problema da pós-história que lhe desafia - seria esse o sujeito remanescente da pós-história ou sua simples transformação em alguma outra coisa? Mas esse é um assunto absolutamente diferente. 

E o que aconteceu com o lado derrotado? É difícil esperar reflexões claras e imparciais disso. Em muitos casos, não há o entendimento sobre o que aconteceu com esse sujeito, e o órgão amputado - no dado caso, o coração - ainda dói e aperta, como num paciente após uma operação. Apenas poucas pessoas compreendem claramente aquilo que aconteceu no início dos anos 1990. 

Ou seja, não é possível explicar o fato de que Gorbachev pode andar calmamente pelas ruas, correndo apenas o risco de ser, talvez, esbofeteado por um trabalhador pobre e falido.


Texto original em: Arctogaia
Share:

Alexander Dugin: O Paradigma do Fim (parte 3)

Alexander Dugin
Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho




O Confronto das Religiões

O nível de redução histórica em larga escala conduz à simples fórmula encontrada na história das religiões e dos problemas inter-confessionais. Pela trajetória geral do processo histórico, que nós detectamos desde seus primórdios no paradigma econômico, essa redução se tornou aplicável a todos os outros níveis analisados, que nós, confiantemente, procuramos para a analogia também dentro da esfera religiosa.

Um dos polos - o do Capital, o Ocidente, o Mar, os anglo-saxões - é traçado, como nós  vimos, dentro dos escopos do Império Romano do Ocidente, fonte e ponto de partida de todas essas tendências, que gradativamente se cristalizaram na forma desse polo. O Império Romano do Ocidente, num sentido religioso, é associado ao Vaticano, a versão católica do Cristianismo. Consequentemente, é um tanto quanto lógico apelar para o catolicismo como a matriz religiosa desse polo. 

O polo oposto, o "Eurasiano", é diretamente associado ao "Bizantismo" e ao Cristianismo  Ortodoxo, já que os russos são tanto uma nação de cristãos ortodoxos quando de autores da primeira revolução socialista, eles também são aqueles que têm por morada o coração continental, que, de acordo com Mackinder, é o eixo categórico de todas as forças da Terra. Do mesmo modo, o Ocidente liberal é um resultado secularizado, generalizado, modernizado e universalizado do catolicismo, e o modelo soviético representa o mais avançado -  e também secularizado, generalizado e modernizado - desenvolvimento do Império Cristão Ortodoxo. Acerca do caráter secundário de todas as religiões do mundo, sobre a questão do drama escatológico, podemos aplicar o mesmo tipo de abordagem que usamos nas conversas sobre a escatologia étnica.

As tradições do Oriente não são focadas na escatologia, e não colocam os temas como "o fim dos tempos" ou a "última batalha" como o centro de seus temas. Não é que eles não saibam nada sobre essa realidade, mas eles não conferem a esses temas uma posição central, o que seria comparável à escatologia clara e primária do Cristianismo (ou do Judaísmo). Essa observação também explica a falta de uma forma escatológica de nacionalismo no Oriente (o que foi mencionado acima), já que as ideologias étnicas e religiosas são conectadas muito de perto umas com as outras, e acabam por definir umas às outras.

Esse esquema é muito evidente e se encaixa bem com os modelos prévios. O único ponto que precisa de esclarecimentos adicionais é a questão do Protestantismo. A Reforma foi o momento mais significativo da história do Ocidente. Não foi apenas um fenômeno multinível, mas também consistiu de duas tendências opostas, que, em última análise, deram origem às formas polares. Nós não podemos arrancar os cabelos aqui por conta de teologia e referir ao leitor toda nossa monografia detalhada acerca disso, intitulada "Metafísica da Anunciação". Vamos apenas desenhar um esquema.

O Catolicismo é um fragmento do Cristianismo Ortodoxo, já que, antes da dissidência, o Ocidente era Cristão Ortodoxo assim como o Oriente; em adição a esse fragmento à a distorção e a reivindicação de prioridade e completude. O Catolicismo é anti-Bizantismo e o Bizantismo é um tipo de Cristianismo completo e autêntico, contendo não apenas a pureza dogmática, mas também a fidelidade à doutrina social, política e de Estado do Cristianismo. Num esboço muito genérico, podemos dizer que a concepção do Cristianismo Ortodoxo acerca da sinfonia de poderes (vulgarmente chamada de "papismo de César") é associada à compreensão da significância escatológica não apenas do Império Cristão. Daí a função teológica e soteriológica do Imperador, baseada na segunda mensagem do apóstolo Paulo aos tessalônios, na qual a questão sobre aquele "que retém", o "Katechon" é abordada.

Aquele "que retém" é identificado pelos exegetas ortodoxos como a figura do Imperador Cristão Ortodoxo e o próprio Império Cristão Ortodoxo. A defecção da Igreja do Ocidente é baseada na negação da sinfonia de poderes, na rejeição do social e do político, mas, ao mesmo tempo, à rejeição da doutrina escatológica do Cristianismo Ortodoxo. É algo escatológico pois o Cristianismo Ortodoxo conecta a presença "daquele que retém", aquele que dificulta o "advento do filho da perdição" (ou seja, do Anticristo), com a existência política de um estado ortodoxo cristão independente, no qual o poder temporal (o Basileu) e o poder espiritual (o patriarca) são definidos numa correlação estrita, determinados pelos princípios da Sinfonia. Consequentemente, o desvio do paradigma sinfônico bizantino, a "apostasia", a defecção, o Catolicismo desde o início - logo após a defecção da Igreja unificada - tomou outro modelo em lugar do sinfônico (césaro-papista), onde a autoridade do Papa de Roma se espalha para outras esferas, as quais eram estritamente referidas às competências do Basileu dentro do esquema sinfônico.

O Catolicismo quebrou a harmonia providencial entre os domínios temporal e espiritual e, de acordo com a doutrina cristã, caiu em heresia. A crise espiritual do catolicismo se tornou especialmente evidente no século XVI, e a Reforma foi o ápice desse processo. Contudo, nos devemos notar que, no decorrer da Idade Média na Europa, já existiam essas tendências, que tiveram mais ou menos propensão para a restauração do modelo adequado no Ocidente. O partido dos guibelinos na Alemanha, formado pelos príncipes da casa Hohenstaufen foi um exemplo brilhante de "Cristianismo Ortodoxo inconsciente", uma resistência quase bizantina à heresia latina.

E, já naquele tempo, no centro do movimento anti-papista, estavam os representantes das casas alemãs. Durante muitos séculos, forças similares - como os príncipes alemães, novamente - apoiaram Lutero em seu protesto anti-romano. Isso é interessante, já que a crítica de Lutero contra Roma foi muito similar àquela feita tradicionalmente pelos cristãos ortodoxos.

Cultos nas linguagens nacionais (especialmente o aspecto Cristão Ortodoxo, associado com o significado místico da compreensão da glossolalia, que foi incorporada à variedade linguistica local, às igrejas nacionais), a negação da determinação da Cúria Romana, a defesa do significado do "Katechon", a negação do celibato dos "padres" - estas teses centrais todas tipicamente luteranas poderiam muito bem ser chamadas de "teses cristãs ortodoxas". Outra questão é a reverência aos ícones e a negação dos rituais divinos, a liberdade de interpretações individuais sobre as Sagradas Escrituras, a rejeição do caráter sagrado do "Velho Testamento". Esses aspectos não podem ser considerados como cristãos ortodoxos, já que são os aspectos negativos do anti-papismo, que foi mais baseado na intuição espiritual, no protesto, do que nas grandes verdades da Tradição do puro Cristianismo Ortodoxo. 

A rejeição de Roma em nome da Reforma do puro Cristianismo foi inteiramente justificada. Mas o que foi proposto em troca disso? Exatamente aqui encontramos o ponto mais importante. Ao invés de apelar para a completa e autêntica doutrina ortodoxa, os protestantes tomaram o caminho duvidoso das intuições e das interpretações individuais. Em suas manifestações superiores, essa foi a plêiade dos brilhantes visionários místicos. Mas, menos nesse caso, não houve qualquer aproximação com as eminências da Metafísica Cristã Ortodoxa. Em suas piores manifestações estava o Calvinismo e a variedade de sectos protestantes extremos, que não mantiveram nada do Cristianismo, exceto o nome.

Existe o dualismo entre Lutero e Calvino, entre o Protestantismo prussiano (e francês, o huguenote) e o Protestantismo suíço, o "Velho Testamento", o farisaísmo, a nomocracia do catolicismo, o componente judaico-cristão do papismo. Essa é a razão de a Bíblia luterana conter apenas o Novo Testamento e os Salmos, rejeitando os livros do Velho Testamento, que, para eles, são incompatíveis com a ética cristã e a orientação da tradição cristã em geral. Para o Calvinismo, ao contrário, há o historicismo do Velho Testamento (método histórico) com a negação virtual do caráter divino de Cristo, que se transforma numa espécie de "herói cultural ou moral". 

Então, o Calvinismo desenvolveu as tendências mais não-ortodoxas, inerentes até mesmo ao catolicismo primitivo, tendências que Lutero, em seu criticismo, ampliou contra o catolicismo. Assim, existiram duas tendências opostas na Reforma. Uma, relativamente anticatólica do lado do Cristianismo Ortodoxo (o Luteranismo). Outra, anticatólica do lado anti-ortodoxo. O Catolicismo - especialmente difundido e expedido através dos países romanos - passou a existir entre duas versões do Protestantismo, cujos maiores portadores eram as nações germânicas.             

A maioria dos germano-prussianos orientais que, no início, eram as tribos eslavas germanizadas e que adotaram o Luteranismo, também conduziram o Calvinismo e as tendências judaico-cristãs ao seu estado absoluto. Logo, uma versão do Protestantismo (o Calvinismo, o fundamentalismo protestante) se torna a vanguarda do Ocidente - o Mar, o polo capitalista - e outra, ao contrário, aparece mais próxima do Cristianismo Ortodoxo (mas ainda longe de ser uma versão cristã ortodoxa) e o ramo do Cristianismo do Ocidente. A conexão entre o Protestantismo e o capitalismo foi agradável e, em detalhe, exposta por Max Weber em seu livro "A Ética Protestante", onde você pode encontrar explicações acerca das diferenças entre o Calvinismo e o Luteranismo. 

O exemplo é significante - o Protestantismo, na Inglaterra, leva às reformas capitalistas. Na Prússia, o Protestantismo apenas fortalece o sistema feudal. Consequentemente, Weber conclui que a questão se debruça sobre tendências diferentes. Numa análise análoga, o discípulo de Weber, Zombart, vai ainda mais além: ele traça a fonte do Capitalismo não apenas no Protestantismo, mas também na própria doutrina escolástica básica. Oswald Spengler apresenta observações interessantes acerca desse tema em seu trabalho "O Socialismo e os Prussianos".

O paradigma da oposição religiosa é definido como o Cristianismo Ortodoxo contra o Catolicismo e, mais tarde, contra o fundamentalismo Protestante extremo. Nessa antítese, a grande importância é anexada à proporção entre aquilo que pertence a este mundo e aquilo que pertence ao outro mundo, de acordo com a ética religiosa. A ética ideal do Cristianismo Ortodoxo consiste em insistir na reversão da proporção entre o mundo humano e o divino. O terreno para tal aproximação é o próprio Evangelho ("Eu não vim para os justos, mas sim para os pecadores", "é mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino dos Céus", e assim por diante), nas lendas do Cristianismo Ortodoxo e também na ética social da Igreja Oriental. 

O bem-estar mundo é considerado como algo efêmero, insignificante, e a melhoria da vida nesse mundo é considerada como algo secundário e, em essência, sem importância diante da principal tarefa do cristão - a tarefa de obter o Espírito Santo, a salvação, a transformação. A pobreza e a modéstia, em tal visão, parecem não como uma espécie de lacuna, mas, ao contrário, um pano de fundo útil para a procura espiritual, para o ascetismo, o monasticismo, a distração para a matéria desse mundo, considerada como uma missão superior. 

O sofrimento nesse mundo se torna não uma simples punição, mas uma repetição do glorioso e abençoado caminho de Cristo. Algo do outro mundo se manifesta através disso nesse nossomundo, fazendo deste último um mundo relativo, insignificante, transparente, transitório. Daí segue a tradicional (apesar de relativa também, é claro) negação da organização da vida, uma característica do Cristianismo Oriental. Alguém pode não concordar que tal aproximação do Cristianismo Ortodoxo traga sempre resultados positivos. Em sua manifestação superior, sua santidade, a não avareza para com o dinheiro, submete a consciência espiritual à ação, à contemplação. Em sua manifestação interior está a paródia, a preguiça e o descuido.

A Igreja do Ocidente, deste o início, foi notável por seu pesado interesse em assuntos mundanos, intrigas políticas, acumulação e distribuição de bem-estar mundano (ou secular). O fundamentalismo Protestante exagerou ainda mais esse aspecto, voltando toda sua atenção exclusivamente para esse mundo. A ética protestante frima que a pobreza em si mesma é um vício, e que a riqueza é uma virtude. Os outros elementos são completamente mudados para esse mundo, onde tanto a recompensa quanto a punição são transferidas do outro mundo para esse.

Isso foi condutivo para um surto sem testemunhas na esfera da organização da vida, mas diminuiu ou negou todo o aspecto contemplativo, meramente espiritual da religião. Nesses extremos não há somente a ausência do espírito, mas também a ausência de qualquer coisa da doutrina cristã. Daí seguem as tentativas de censurar o "Novo Testamento", o que produz contradições evidentes em relação às teses extremas do espírito Protestante. Esses dois tipos tão opostos de ética, tendo sido secularizados, por um lado deram origem ao socialismo, e, por outro, ao capitalismo liberal.

Em tal quadro, onde dois sujeitos históricos principais são definidos - a Igreja do Oriente (Cristianismo Ortodoxo) e a Igreja do Ocidente, ou, para ser mais preciso, o mosaico de confissões ocidentais, onde, na vanguarda, há o "fundamentalismo Protestante", torna-se claro que já passamos por através dele. A dialética de sua oposição desvenda a trajetória secreta do conteúdo histórico religioso. Agora, examinemos algumas outras confissões religiosas, nas quais está manifesto um fator escatológico suficientemente grande para alegar um papel de liderança no drama final da história. Apenas o Islã e o Judaísmo reivindicam esse papel.

O Judaísmo é o paradigma da religião escatologicamente orientada, e o Cristianismo em si mesmo é rigorosamente associado à escatologia judaica. A religião judaica desenha o que há de mais completo no quadro do fim dos tempos e da participação das nações e igrejas nele. Aqui está o esboço mais genérico acerca do senso de escatologia judaica. Os judeus não são apenas uma nação, mas, simultaneamente, um acesso religioso e comunitário, acesso esse que é negado aos representantes de outras nações. Tal identificação do elemento étnico com o religioso produz as características únicas apresentadas pelo Judaísmo. Nesse sentido, tudo o que foi dito na parte prévia acerca dos judeus como nação é plenamente aplicável ao Judaísmo como religião.

O Judaísmo é um sujeito da história religiosa, seu pivô. Por um longo tempo, a religião judaica esteve sob ataque das confissões dos "goyim", mas, no fim dos tempos, com o advento do Messias, que reunirá todos os judeus na t erra prometida e fará a restauração do Templo, o Judaísmo florescerá e se colocará como a liderança da Terra. O sionismo moderno tornou-se a expressão secular dessa escatologia religiosa. O fato de os judeus não terem se dissolvido como nação, e de que isso também não ocorreu com sua religião em meio ao mar de outras nações por longos séculos de dispersão, o fato de terem mantido sua fé em seu futuro triunfo, de que, tendo passado por tantos testes, tornaram-se hábeis a preencher o sonho longamente aguardado e recriar seu próprio Estado, causa uma grande impressão em qualquer observador imparcial. 

Tal preenchimento literal das expectativas religiosas dos judeus que obviamente testemunha essa tradição é, realmente, intimamente associado com o mistério da história do mundo, e nem mesmo os céticos, negativistas ou anti-semitas podem descartar o assunto com um movimento de suas mãos. Além disso, durante os últimos séculos, o status do Judaísmo como religião se elevou da condição de heresia periférica não franqueada aos olhos das nações cristãs para uma confissão que recebeu voto e permissão para discutir e decidir as mais importantes questões mundiais. Contudo, devemos perceber que a unidade confessional dos israelenses não é tão sólida como pode parecer.

Existem - num esboço mais generalista - duas versões do Judaísmo: o espiritualista (místico) e o materialista (aquele que tem na organização da vida seu maior objetivo). As várias tendências da mística tradicional do Judaísmo - a Cabala, o Hassidismo e algumas seitas heréticas do tipo "Sabataísmo" - correspondem à primeira versão. A segunda versão se correlaciona com o Talmudismo, a interpretação literal e nomocrática , determinante para as questões cotidianas, a interpretação dos princípios da Torah. Nesse dualismo vemos o dualismo análogo correspondendo à tradição cristã em si mesma - a organização da vida no Cristianismo ocidental (do Catolicismo ao fundamentalismo Protestante) e àquela contemplativa e mística do Oriente (Cristianismo Ortodoxo).

Esse tema é um detalhe observado nos trabalhos do proeminente pensador judeu moderno, Gershom Sholem. O setor espiritual do Judaísmo - e isso não deveria mais surpreender ninguém - em primeiro lugar, é característica dos judeus da Europa oriental, em adição ao Hassidismo em si mesmo e do Baal-shem Tov, emergido e desenvolvido no território do império russo. E foi exatamente desses círculos extremamente espiritualistas que vieram a maioria dos revolucionários marxistas, bolcheviques e socialistas-revolucionários. A ética ascética do Cristianismo ortodoxo eurasiano e o ideal messiânico de irmandade correspondem precisamente à variação espiritual e mística da tradição judaica. Em sua forma secular, ela deu origem ao "Sionismo de Esquerda".

O ramo oposto, a ortodoxia Talmúdica, continua a política do racionalismo de Maimônides, do mesmo modo como os antigos saduceus gravitaram para a diminuição do fator dou outro mundo para a negação implícita da "ressurreição dos mortos", para a ética imanente da organização da vida. No caminho escatológico, o Talmudismo considerou o triunfo futuro dos judeus como uma vitória exclusivamente imanente, social e política, uma realização do enorme poder material. 

Ao invés da transformação do mundo no fim dos tempos, pregam a "restauração" (tikkun) que foi antecipada pelos místicos judeus, talmudistas que identificaram a época messiânica como um tipo de reorganização dos elementos fornecidos, que iriam transferir os níveis de poder e controle às possessões dos representantes do Judaísmo e ao Estado de Israel restaurado. Tal imanentismo geral como tendência e ética, focado em solucionar as questões diárias desse mundo, questões práticas, une tanto os rabinos ortodoxos quanto os "Sionistas de Direita". Em outras palavra,s do mesmo modo como no caso da escatologia étnica, o campo religioso do Judaísmo é expandido entre dois polos - o oriental (expressado no Cristianismo ortodoxo) e o ocidental (expresso no Catolicismo e no extremismo Judaico/Protestante). 

A tradição islâmica, conectada com a herança das religiões semíticas, no entanto, é incomparavelmente menor em termos escatológicos do que o Cristianismo ou o Judaísmo. Apesar de também existirem doutrinas escatológicas desenvolvidas no Islã, isso se torna algo evidentemente secundário diante da lógica massiva da assertiva monoteísta que não depende de razões cíclicas. As versões mais escatológicas do Islã não se espalham dentre os puros árabes do Norte da África, mas sim no Irã, na Síria, no Líbano e especialmente entre os xiitas. O ramo xiita do Islã é o mais próximo da ética cristã e da orientação escatológica. Há vários paralelos aqui que podem ser comparados à marca espiritual do Judaísmo.

Os sectos xiitas extremos - os Ismaelitas, os Alavitas e assim por diante - baseiam suas tradições no tema escatológico, esperando pelo advento do "Ímã oculto" ou do "Kaiim" (o "ressurreto"), que restaurará a tradição genuína, deteriorada por séculos de compromissos e desvios, e reconduzirá a humanidade para o reinado da justiça e da irmandade. Essa marca escatológica do Islã - tanto no contexto xiita quanto além dele - e esses sectos podem ser considerados como uma variedade do "eurasianismo" numa interpretação mais geral. Isso corresponde exatamente à perspectiva escatológica do Cristianismo ortodoxo, ainda que opere, é claro, com outra terminologia confessional e dogmática. A outra versão não-escatológica do Islã, brilhantemente expressa no Wahhabismo Saudita, a despeito dos poderosos mecanismos da mobilização fanática, é bastante neutro no sentido da conceitualização do papel do Islã no fim dos tempos ou considera o problema sob uma perspectiva técnica e material.

A população islâmica cresce firmemente, e o fator de significância islâmica está crescendo por um caminho natural. Tanto o pragmatismo Wahhabita quanto as formas não-escatológicas do fundamentalismo islâmico podem revelar seus aspectos, que são tipologicamente similares ao fundamentalismo da organização de vida dos judeus ortodoxos e dos protestantes. 

Na atualidade, alguém dificilmente poderia falar seriamente acerca do "fator islâmico" como algo unificado, suficientemente grande para supor sua própria versão independente e religiosa de "fim dos tempos". Nós só podemos notar que o anti-Judaísmo ou, falando de modo exato, o anti-Sionismo, é um fator comum para o mundo islâmico. E, nesse sentido, expor o problema étnico e religioso em detrimento da acentuação da principal oposição entre o Cristianismo ortodoxo e o Cristianismo ocidental, nos faz lembrar da situação pela qual passamos, analisando a significância do racismo alemão.

A gravitação de muitos ideólogos islâmicos para fazer de 'Israel" e dos "judeus" a questão central da história moderna, tendo exagerado a contradição islamo-judaica, novamente nos leva ao impasse e à situação insolúvel, que entrava tanto a clarificação das funções e a identificação de muitos dos sujeitos da história humana, cuja conclusão está inevitavelmente se aproximando.

Nós devemos notar que o Islã, em si mesmo, também começa a ser considerado como um tipo de "espanto" em face do qual as forças "progressivas" ou até mesmo os "países cristãos" devem se unir. Em outras palavras,m o Islã, ou o tão chamado "fundamentalismo islâmico" começa a desempenhar, hoje, a função do fascismo não-existente. Nós vimos o quão dúbio foi o papel do fascismo em todos os níveis da luta real. Seria extremamente perigoso reproduzir a situação análoga, agora em relação ao Islã.



Texto original em: Arctogaia   
Share:

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook