terça-feira, 31 de maio de 2016

Ação - Avante/CE

Ação de colagem de cartazes realizada neste dia 31 de maio de 2016, pelo núcleo do Avante no Ceará.

Avancemos!



















Share:

Saul Ramos: A agricultura e seu papel na libertação dos povos

Por: Saul Ramos de Oliveira*


‘’Se as cidades pegarem fogo, restarão os campos; mas, se os campos se incendiarem, as cidades morrerão de fome’’ - Abraham Lincoln

Há cerca de 10.000 mil anos, um órgão vegetal foi responsável por uma revolução na pré-história que iria mudar radicalmente a vida do homem. Através desse órgão, um novo sistema sócio-econômico nasceu, permitindo avanços tecnológicos e culturais que serviram de base para o surgimento da sociedade como a conhecemos. Este órgão se chama semente.

O homem, antes da agricultura, era caçador-coletor, vivendo num sistema itinerante, nômade, que se deslocava através de grandes extensões, caçando animais silvestres e coletando frutos para se alimentar. Pesquisas apontam que, além dos frutos, os caçadores coletores também consumiam sementes. A relação com as sementes levou essas sociedades, um dia, a observar sua germinação e consequentemente o nascimento de uma planta.

Esse fato marcou o fim do sistema de caça e coleta, pois, através dessa observação, os homens passaram a cultivar seu próprio alimento, nascendo assim a agricultura, que pôs um fim em suas exaustivas andanças provocando sua sedentarizarão. O ponto certo dessa transição do homem de nômade a sedentário continua sendo um ponto ainda intrigante e não muito claro para várias ciências como a etnobotânica, ecologia humana, antropologia, arqueologia, dentre outras.

Com o advento da agricultura que proporcionou a abundância de alimentos, a população aumentou, saindo das cavernas, e vilas começaram a ser formadas, o que se cristalizou na primeira forma de organização social do homem. Associado a isso, a sedentarizarão foi acompanhada de avanços tecnológicos. Surgiram vários utensílios para facilitar a prática da agricultura como; foices e machados de pedra e osso, moinhos primitivos, panelas primitivas, etc. A formação de vilas também necessitou de avanços no domínio da construção, usando madeira para fazer as primitivas casas. A agricultura neolítica (mesmo sem saber) serviu de base para duas áreas chaves das ciências agrárias, a genética, através da domesticação das plantas cultivadas e dos animais silvestres criados, e a Zootecnia, através da criação de animais para fins de alimentação.

A primeira forma de organização social do homem foi responsável não só por avanços na agricultura e tecnologia, mas também, está associada ao nascimento das primeiras estruturas de ordem que irão determinar rotinas, comportamentos e as mais diversas relações entre os indivíduos. Um exemplo clássico disso é o Totemismo, um fenômeno que relaciona a mística com os objetos naturais. 

Emile Durkheim explicou de forma categórica o fenômeno do totemismo ao estudar as religiões primitivas. Para ele, a religião se forma através das relações de sagrado e profano, ou seja, de crenças e práticas. Sendo a agricultura uma prática importante para as sociedades primitivas, a planta, em si, representou um fundamental totem da qual ligou os homens ao sobrenatural, fundando práticas religiosas, culturais e ajudando a sociedade a evoluir suas relações e subjetividades.

Para alguns pesquisadores, o nascimento da agricultura livrou o homem da extinção, garantindo sua segurança alimentar, para outros, o sistema de caçadores e coletores mesmo com suas dificuldades, garantia a sobrevivência dos homens ao ponto de não permitir sua extinção. 

Polêmicas antropológicas acadêmicas a parte, o fato é que a agricultura possibilitou o nascimento das vilas e posteriormente das cidades, uma organização social, relações místicas religiosas que ocasionou amadurecimento e evolução social,  estimulando  maior exploração da criatividade humana, pois, o sedentarismo proporcionou tempo a os homens para se dedicarem à outras atividades como, a fabricação de ferramentas, cerâmicas, casas, além de atividades artísticas e comerciais.

A agricultura foi a responsável pela maior explosão demográfica vista no planeta. A acumulação de alimentos possibilitou não só o aumento da população como também sua expansão geográfica. Vários sistemas de produções agrícolas foram os grandes responsáveis por isso, os egípcios e os mesopotâmios com suas agriculturas de vazantes nas beiras dos rios, os chineses e Ameríndios com seus complexos sistemas hidráulicos e os Europeus com o sistema de alqueiva (preparo do solo ao longo de um tempo para melhorar sua fertilidade). 

A revolução agrícola do neolítico serviu de base para as novas revoluções que iriam beneficiar o campo e sociedade como um todo. Descrever todos os avanços tecnológicos no meio rural e seu impacto na sociedade seria uma tarefa difícil e longa, mas, podemos destacar as inovações criadas em três grandes revoluções agrícolas: 

1- Revolução agrícola da Idade Média, que teve como principais inovações o cultivo com tração pesada (uso de animais como força motriz), a criação de uma série de ferramentas que auxiliaram à agricultura como, o charrua, charretes, enxó, moinhos de ventos e de água, além de carpintaria e siderurgia básica. Isso tudo propiciou uma grande explosão demográfica na Idade Média, pois os europeus passaram a comer mais e melhor. Outra característica importante dessa revolução foi a possibilidade de criar e comercializar excedentes, provocando expansão comercial. 


2- Mecanização dos transportes agrícolas, ocorreu nos séculos XVIII e XIX. Foi nessa revolução que equipamentos como, arados metálicos, colheitadeiras, semeadeiras, entre uma série de outras máquinas foram criadas. Associado a isso, surgiram as máquinas a vapor, seja terrestres ou marítimas, que serviram nas logísticas dos escoamentos dos produtos agrícolas. A produção de alguns fertilizantes como o potássio e fosfatos também passaram a ser explorados e utilizados na agricultura. Essa revolução trouxe, até o final do século XIX, uma série de benefícios como o aumento da produção em escala, disponibilidade maior de matérias primas para as crescentes indústrias, inovações tecnológicas e uma maior consolidação do sistema capitalista de produção. 

3- Modernização da agricultura (Motomecanização e Revolução verde), aconteceram entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial e foi simplesmente a fabricação e expansão de máquinas agrícolas mecanizadas como tratores. Essas máquinas aumentaram a produção devido sua alta capacidade de trabalho por agregar diversos implementos agrícolas.

A revolução verde teve início entre as décadas de 50 e 60 e consistiu na adoção de um pacote tecnológico que visava aumentar a produção agrícola colossalmente. Entre esses insumos, estavam fertilizantes, defensivos agrícolas, sementes transgênicas e mecanização intensiva. Esse pacote fez aumentar a produção de alimentos no mundo inteiro, além de trazer uma série de inovações tecnológicas em relação à pesquisa agronômica.

Para muitos autores essas revoluções tiveram vários impactos negativos, realmente tiveram. A segunda e a terceira revolução mencionada foram responsáveis por um aumento da produção de alimentos, o que gerou um barateamento dos produtos agrícolas, levando ao colapso inúmeros pequenos e médios produtores por não poderem concorrer com a produção em escala.

A revolução verde foi, ainda, mais danosa. Foram ocasionados vários impactos ambientais devido ao uso excessivo de fertilizantes e defensivos. Entre eles, o surgimento de pragas e doenças, contaminação de águas, degradação dos solos, erosão genética, entre outras. Os impactos sociais foram ainda piores, êxodo rural, concentração fundiária e pobreza rural. A revolução verde teve um caráter extremamente conservador onde os pequenos e médios produtores não usufruíram de todas as tecnologias e ganhos produtivos que ela gerou, pelo contrário, muitos sistemas de produção familiar desapareceram.

Em poucos anos, a principal lógica da revolução verde que era produzir mais alimentos em menor érea e alimentar a crescente população, ironicamente, teve seu conceito totalmente invertido. A produção de gêneros alimentícios perdeu espaço para os produtos de exportação, como, soja, milho, cana-de- açúcar, e consequentemente sua produção foi reduzida, não conseguindo erradicar a fome.

Acredito que não foram as revoluções que ocasionaram tais flagelos, e sim, as formas que foram implantadas e regidas. Com a entrada do capital financeiro na agricultura e a formação de monopólios rurais monocultores, a agricultura deixa, cada vez mais, sua função de alimentar o homem para apenas gerar lucro. A atividade monocultora aglutinou terras, utilizou de seu poder para cooptar mais recursos dos Estados e foi drasticamente irresponsável em relação ao meio ambiente, tudo isso, devido a um não controle das ações por parte de vários países, em especial, os subdesenvolvidos.

Se as inovações tivessem sido estendidas para todos (pequenos, médios, e grande produtores), se os países tivessem adotado politicas de proteção de preços dos produtos agrícolas e uma política de reforma agrária para ajudar os pequenos produtores, bem como, mais responsabilidade ambiental baseada na lógica de como, quanto, e quando usar os defensivos e fertilizantes, teríamos, hoje, uma agricultura tecnificada de forma global, sustentável e extremamente produtiva.

Outro aspecto importante da agricultura é seu papel na economia e no desenvolvimento nacional. O Brasil tem nas exportações de commodities agrícolas importantes ganhos para sua economia, principalmente, por essas exportações cobrirem os déficits de manufaturados de nossa industrial nacional insuficiente. Mesmo com seus benefícios, acreditamos que esse modelo não seja o ideal, pois, deixa a economia vulnerável e dependente de exportações de simples matérias primas.

 No entanto, a agricultura só possui um grande potencial de libertação econômica se for acompanhada de um projeto de reforma agrária adequado. Atualmente, no Brasil, o termo reforma agrária se tornou sinônimo de Sem Terra, algo que deu errado e mais recentemente de corrupção. O conceito de reforma agrária, assim como o de campesinato, é algo bastante complexo, além de ser inerente de cada pessoa ou estudioso da área. Discutir esse conceito não é nosso objetivo.

Acredito que a reforma agrária não pode ser apenas uma política de distribuição de terras e acesso a um pequeno crédito como vem sendo feito no Brasil, reforma agrária tem que ser algo bem mais amplo, um projeto que inclua, além da posse da terra, uma política de desenvolvimento regional com uma sincronização entre crédito, produção agrícola, sustentabilidade ambiental, cooperativa, agroindústria, mercado e finalmente, consumidor.

Assim como o grande Manoel Correia de Andrade, também somos a favor de um reforma agrária característica para cada região ou estado, onde se leve em consideração cada povo, cada cultura e cada potencialidade específica de cada local. Verificando as potencialidades e as características de cada região, fica mais simples de traçar um projeto de reforma agrária, pois, saberemos quais culturas agrícolas se incentivar para produzir, quantidade de crédito a disponibilizar, potencial e dificuldades do mercado local, aceitação por parte dos agricultores e etc.

Os benefícios da reforma agrária para a economia são diversos. A agricultura diversificada com o intuito de atender o mercado nacional teria o papel de fornecer matérias primas para vários ramos industriais, como: têxtil, energético, agroindustrial de bebidas e alimentos, moveleiros, dentre outros. Isso seria fundamental para a criação de uma indústria regional e nacional.  Ainda é responsável pela diminuição dos preços dos gêneros alimentícios, sendo de fundamental importância para a transferência de recursos para a indústria devido ser a alimentação muito onerosa para os trabalhadores, sobrando poucos recursos para consumir outros produtos. Quando se inverter esse quadro, automaticamente, milhões de trabalhadores se transformarão em consumidores em potenciais, fazendo crescer a industrial nacional.

Um reforma agrária eficiente foi algo imprescindível para o desenvolvimento das nações desenvolvidas. Existe uma associação entre distribuição de terras, diminuição da pobreza e desenvolvimento. Uma das coisas que as nações desenvolvidas têm em comum são os baixos índices de concentração de terras. Vários países na Europa passaram por transformações em suas estruturas agrárias, mais especificamente, depois das revoluções burguesas. 

Contudo, somente no século XX que a reforma agrária e a unidade de produção familiar passaram a se concretizar como importante ferramenta de desenvolvimento. Grandes exemplos nesse período foram as reformas agrárias ocorridas após a Segunda Guerra Mundial na Coreia do Sul, Japão, Taiwan, onde a agricultura acompanhada de reforma agrária possibilitou a essas nações a emergirem como potências econômicas. Também vale ressaltar o caso da China, onde a transformação das fazendas coletivas em unidades familiares possibilitou transferência de renda para os setores industriais, o que foi de extrema importância para reduzir a pobreza, aumentar o consumo da população rural e fazer a China desenvolver um grande parque industrial. 

Está mais do que claro que a agricultura e a reforma agrária são importantes fatores de desenvolvimento da economia e da libertação dos povos, em especial, de se libertar do sistema semicolonial imposto por grandes potências imperialistas. É necessário entender que a manutenção da concentração fundiária nos países subdesenvolvidos é um plano para estagnar o desenvolvimento dos mesmos, pois, o crescimento da indústria interna depende dos benefícios da reforma agrária. Não é à toa que países subdesenvolvidos possuem pouca ou nenhuma indústria nacional. A manutenção desses países como exportadoras de matérias primas baratas para as grandes potências é algo primordial para suas escravizações.

Também vale destacar os benefícios da reforma agrária para a zona urbana. Com a redução do êxodo rural e o possível retorno de pessoas ligadas ao campo, os centros urbanos economizariam gigantescos recursos gastos todos os anos em transporte, saúde, habitação, segurança, etc. As grandes cidades já não suportam mais a grande quantidade de pessoas que diariamente chegam dos vários interiores por falta de oportunidades. Muitos não encontram, ficam vagabundeando sem nada produzir , e pior, muitos entram na criminalidade.

José Gomes da Silva, o maior teórico da reforma agrária brasileira fez um cálculo a fim de saber quanto custa para manter um presidiário em São Paulo. Segundo ele, o Governo paulista, em 1995, gastava cerca de 4 a 4,5 salários mínimos por preso mensais. Os assentamentos Paulistas custaram menos da metade disso! José Gomes ligava ,diretamente, o aumento da violência com o êxodo rural provocado pela a falta de uma reforma agrária e acreditava fielmente que a reforma agrária era peça chave para a resolução da criminalidade.

A agricultura também pode servir para libertar os povos de várias enfermidades. Os estudos e o cultivo de plantas medicinais vêm trazendo inúmeros benefícios para a saúde, seja devido a disponibilidades dessas plantas no mercado, seja por gerar informações científicas para as indústrias farmacêuticas e órgãos do Estado. Dentro da botânica, existe uma área chamada Etnobotânica, essa área trata dos estudos das relações de comunidades tradicionais com plantas. O avanço em pesquisas nesta área traz resultados importantíssimos para a farmacologia, por trazer informações de tratamentos e uso de plantas que a medicina convencional desconhece, realizando uma fusão entre conhecimento tradicional e científico gerando novos medicamentos.

A agricultura, ainda, pode ser uma prática disciplinadora, terapêutica, educacional e de recreação. Como disciplinadora, pode ser utilizada em presídios, nas fundações casas, universidades e escolas. A disciplina é adquirida devido a rotina e os cuidados indispensáveis das lavouras, pois, quando se trata de agricultura, um único dia pode ser suficiente para perder toda a produção devido um ataque de praga, doença, ou forte chuva, etc. 
Como terapêutica, a agricultura tem um grande potencial no tratamento de pessoas depressivas, hiperatividade, entre outras doenças que afetam a psique. Nos tratamentos em viciados em drogas, a agricultura já é utilizada, mas, não na proporção que deveria. O contato com a terra, em a atividade diária, proporciona calma, diminuição da ansiedade e uma experiência longe da agitação dos centros urbanos, coisa necessária no tratamento das enfermidades mencionadas.

Na educação, a prática pode ser largamente utilizada nas escolas para ensinar biologia, química, física, matemática, educação ambiental, entre outras. Além de contribuir na erradicação dos preconceitos com o mundo rural ainda muito frequentes nas grandes cidades. Na recreação, a formação de jardins nas praças, vias públicas, clubes, trazem, não somente, conforto térmico, mas também, bem estar e uma melhor recreação. A vida com agricultura é mais colorida e feliz.

Por fim, a agricultura é fundamental para a necessidade mais básica do homem, que é a de se alimentar. Descrever todos os benefícios da agricultura para a libertação dos povos é uma tarefa difícil, mas, podemos dizer que foi a agricultura quem libertou o homem da extinção, da reprodução limitada e do provincianismo. A agricultura possibilitou libertação tecnológica, explosão demográfica, avanços em várias ciências e a formação das cidades. Foi de grande importância para o maior convívio social dos homens, do amadurecimento das relações sociais, culturas, da criação de práticas religiosas ou até mesmo religiões.

A agricultura foi, e ainda é, uma peça chave para o desenvolvimento das nações, de uma economia soberana, da diminuição da pobreza, da criação de empregos e da indústria nacional. Mesmo com todos os benefícios até hoje criados por ela, sua função ainda está longe de terminar, pois, sua potencialidade para libertar os homens de vários problemas ainda não é bem explorada em todo o mundo.

E necessário que a agricultura não seja apenas uma atividade econômica lucrativa, ela precisa ter uma papel social antes de tudo, precisa que todos os benefícios que advém dela sejam explorados ao máximo, que sua prática seja libertadora e não escravizadora como em muitos casos no mundo. 



* -Saul Ramos de Oliveira é Engenheiro Agrônomo, Mestrando em Horticultura Tropical (ambos pela UFCG) e é membro do Avante da Paraíba.

Share:

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Léia, Jean e Matheus: Contra o estupro, a defesa!

Por:
Jean Augusto G. S. Carvalho
Léia G. S. Carvalho
Matheus Souza de Campos



Recentemente, ocorreu um caso horrendo no Rio de Janeiro: uma adolescente sofreu um estupro cometido por mais de 30 homens – isso é extremamente chocante - e, para piorar a indignação da sociedade, filmaram a moça e expuseram na internet se gabando do fato e humilhando-a. O caso chocou o país e trouxe o assunto do estupro novamente à tona nos debates. 

Neste caso em específico, percebe-se que os criminosos que estupraram a mulher não a viam com dignidade - é um casos que se enquadra em toda a crise de realidade que vivemos. O crime, provavelmente, foi prática de retaliação de indivíduos ligados ao narcotráfico contra uma usuária supostamente endividada. Ato bárbaro típico de pessoas da lumpencriminalidade.

Há outras informações divulgadas a respeito deste caso, informações que contestam a versão oficial veiculada pela mídia: a garota já era envolvida no tráfico; teria consentido com o ato; questiona-se como ela pode ter conseguido contar 33 homens estando inconsciente; demorou a fazer exame de corpo de delito, cujo resultado recente não apontou violência sexual. A advogada Eloísa Samy, que defendia a moça, já teve prisão pedida em 2014 pelo mesmo delegado que estava investigando este caso e fugiu da Justiça pedindo asilo no Uruguai, não querendo que fosse pedido à adolescente que se fizesse o exame de corpo de delito - e pediu também o afastamento do delegado do caso.

Se estas informações forem corretas, isso só nos deixa mais atentos ao comportamento das massas e seu condicionamento, mostrando a necessidade de analisar os casos com frieza e seriedade, sem emotividade ou sentimentos que prejudicam o discernimento correto. Entretanto, isso não invalida o tema central aqui exposto, que é o do estupro e violência contra a mulher, e não anula nossa determinação em defender aquilo que defenderemos aqui como soluções plausíveis e concretas para a questão.


Primeiramente, deixemos claro que o estupro é algo extremamente cruel, nojento, vil e monstruoso. É utilizado como uma arma para trazer à vítima os piores sentimentos possíveis. Os danos à vítima são, muitas vezes, irreversíveis e carregados pelo resto da vida (inclusive, muito mais psicológicos do que físicos). Além de passar por toda a situação, a vítima ainda precisa conviver com lembranças extremamente danosas. 

Tentar entender o estupro como algo passível de ser controlado meramente com "educação" é, no mínimo, ridículo. O estupro é um comportamento bruto,  majoritariamente de natureza masculina. Você não vê muitas mulheres estupradoras na história, porque este comportamento não é da natureza feminina - e quando se vê, os casos são raríssimos, estando geralmente associados a mulheres que molestam crianças (ou outras mulheres).

O estupro é um sub-ramo da violência, por isso faz parte do todo da violência: assaltos, homicídios etc., por isso mesmo ele também faz parte de toda uma crise social, moral, política, cultural. É mais que óbvio que somos totalmente contra e defendemos penas mais graves para criminosos dessa estirpe (como prisão perpétua em caso de crimes hediondos, trabalhos forçados e castração química em casos de estupros confirmados). 

Sobre o crime, surgiram várias opiniões definindo e discutindo as causas do caso, sem se ater devidamente ao que interessa: a punição dos envolvidos e a reestruturação da vítima. Dentre elas as principais são:
- colocar a culpa do crime em todos os homens e no tal "machismo";
- culpar a vítima por ter feito alguma coisa que facilitou o crime;

Todas essas opiniões são focadas no caso isolado e não no contexto mais amplo. Pouco alcance tiveram opiniões mais sérias e aprofundadas que buscam entender e debater de fato a raiz do problema. Como já foi dito: o estupro é uma das muitas formas em que a violência se manifesta em nosso país. A violência é um problema de âmbito social e econômico e deve ser analisada nos dois aspectos.

O crime cometido de fato não é culpa da vítima, é culpa dos criminosos. No entanto, reconhecer isso não é suficiente para combater e melhorar o problema da violência. É preciso analisar tudo que está ligado a isso: falha da educação, desestruturação da família, abandono do Estado nas áreas mais vulneráveis, objetificação da mulher, crise dos valores e decadência moral, o uso do corpo como instrumento, a satisfação dos desejos a qualquer custo como “liberdade”, o consumismo desenfreado, etc. – tudo isso fruto da crescente degeneração da sociedade e do discurso cada vez mais liberal e individualista.

O ser humano mostra suas piores inclinações em realidades medíocres como a que nós atualmente vivemos. Todo o discurso liberal só serviu para piorar isso, atomizando as pessoas, que deixaram de se compadecer uns pelos outros, pois o mais importante é satisfazer suas vontades individuais – pensar primeiro em si. O liberalismo reduziu a mulher à condição de mercadoria, não só "vendável" e "comprável" mas também apta a ser apropriada à força. 

Os estupradores "apropriam" a mulher como um objeto seu, utilizável e descartável. É claro que isso não é invenção do liberalismo, mas é muito propagado por uma sociedade puramente materialista e economicista. A própria sexualidade em si é vivenciada como isso: o fetichismo em torno de pessoas como mercadorias e o objetivo de consumir o máximo de mercadorias possíveis, das mais variadas formas e tipos. Esses criminosos doentios obviamente não têm qualquer visão saudável de si mesmos, da mulher e da sexualidade.

A solução para a esquerda seria extinguir magicamente o problema, combatendo entes abstratos (como machismo e patriarcado) ao invés de combater alvos objetivos (criminosos e raízes reais do problema) ; mas sejamos realistas: a brutalidade e a violência existem na Natureza e na civilização desde o início dos tempos e não desaparecerá tão cedo. A esquerda quer “acabar com a violência”, apenas com educação, passeatas, cirandas, campanhas de Twitter e cartazes. 

No entanto, continuam defendendo integralmente tudo o que causou a estruturação  e o aumento da violência. Eles não entendem que, para se ter uma solução mais racional e realista, é preciso abandonar a defesa de muitos de seus pensamentos e tentar construir uma sociedade real e não essa utopia fantasiada por eles - utopia que condena o trabalhador a viver como alvo eterno do crime e da miséria enquanto o mundo mágico não é construído.
Você não vai conseguir mudar os comportamentos de um ser degenerado não-social como um estuprador levantando plaquinhas nas ruas. Este é um pensamento absurdo e típico de feministas, burguesas esquerdistas. As mesmas que são contra o porte de armas e mal saberiam se defender de um possível ataque de um ser bruto como esses.No outro lado da moeda, algumas mulheres pagam por isso, mulheres estas que gostariam de se defender e não podem, que almejam por justiça. O feminismo esta no lado de quem, afinal?

Devemos manter a violência sobre controle. É isso o que falta: controle, segurança, educação e, principalmente, o combate a toda a agenda liberal. Não devemos ficar fantasiando o mundo perfeito e tentar construí-lo com cartolina e “protestos” inúteis – essa mentalidade é totalmente ingênua. Estupro sempre aconteceu, e a maioria das sociedades lidava com isso de forma simples e clara: punições severas para os estupradores.

Para combate-lo, devemos pressionar o poder público para penas mais duras, exigir a reforma do código penal, exigir políticas sérias em educação, geração de emprego e oportunidades (principalmente em periferias) e políticas sérias em valorização e manutenção da estrutura familiar, bem como abrir mão do pensamento liberal, consumista e individualista (através de medidas que restrinjam atitudes do tipo que venham a trazer malefício à sociedade) e do pensamento esquerdista politicamente correto, totalmente distanciado da realidade e da lógica.

Toda a pauta defendida pela "Esquerda" só serviu até o momento para promover mais intolerância, violência, discurso de ódio e todo tipo de reflexo da imoralidade defendida por eles. De que adianta dizerem que “tem que acabar com a ‘cultura do estupro’”, se em muitos casos ficam do lado dos criminosos, e abominam qualquer reação de legítima defesa como “violência”, além de claro, odiarem a ideia do porte civil de arma de fogo e diminuição da maioridade penal (grande parte dos estupradores são menores de idade que no máximo pagarão uma pena irrisório, prontos a cometer novos delitos). 

Dizem que “a culpa é do machismo" e que "precisamos combate-lo!”. Como? Se não dão nomes aos bois? Estupro é culpa do criminoso que o comete e ele tem nome – quem comete o crime é que deve ser combatido. Essa generalização da culpa só esconde os verdadeiros culpados, fazendo com que seja mais difícil combatê-los, ao se criar inimigos abstratos. As vias de resposta da Esquerda são totalmente dissociadas da realidade, do pragmatismo e do mínimo de racionalidade. 

Querem combater sádicos, psicopatas criminosos da pior espécie com hashtags, campanhas em Twitter e fotos com algum cartaz. A própria ideia de se combater o estupro com "educação", como se estupradores que o fazem por sadismo e prazer fossem passíveis de serem educados, é algo totalmente bizarro. A educação funciona para as novas gerações, se de fato, houver investimento e melhora na estrutura educacional e moral de nossa sociedade. É preciso haver um melhor aproveitamento do potencial da juventude. Isso inexiste - escolas deixaram de fazer isso. Os jovens, em geral, usam essa energia para o crime ou para o hedonismo vazio.

Falemos também sobre a mente fechada de alguns moralistas em citar o fato de a adolescente estar bêbada e drogada, como se isso servisse de justificativa. Falar isso não ajuda em nada. É só mais uma opinião inútil. Será mesmo que acham que se ela estivesse sóbria estaria imune ao estupro? A bebida e as drogas devem ser criticadas, sim. Mas como malefícios à saúde e não como causa do estupro. Muito melhor fizeram alguns (que mesmo com pensamento moralista) buscaram provas e fizeram denúncias sobre o caso.

É preciso buscar meios eficazes: melhora na educação, mais segurança, melhor estruturação da família, e claro, defender sim, o discurso de autodefesa por meios considerados legais: arte-marcial, spray de pimenta ou gengibre, bastão retrátil, máquina de choque, etc., são meios úteis de se defender legalmente, dentro da proporcionalidade. E a reconstrução ou criação de uma sociedade baseada nos valores.

Medidas preventivas (como melhoria da educação) são essenciais, mas não eliminam o problema em sua inteireza. Sempre haverá o remanescente de doentes mentais, sádicos, psicopatas e afins, pessoas que praticam o crime por terem prazer nele, pura e simplesmente isso. O erro da Esquerda é enxergar a totalidade do crime como um fenômeno puramente econômico.

Medidas reativas são essenciais também. É inadiável a reforma do Código Penal, totalmente frouxo e ultrapassado, que trata criminosos da pior espécie como perseguidos políticos - penas mais severas, trabalho compulsório nos presídios, etc. A Direita só se atem a isso, e negligencia as causas econômicas que motivam o crime.

Nossa luta deve ser racional, realista e combativa. Lutemos para arrancar a raiz do problema e não apenas suas folhas. Todo combate deve ser feito contra a agenda liberal propagada pela Esquerda (social) e pela Direita (econômica) que só farão com esse tipo de barbárie se intensifique ainda mais, se nada for feito a respeito. Punamos mais severamente os criminosos, esmaguemos o liberalismo e resgatemos os valores perdidos em nossa sociedade! 

Mulher, sua vida não será protegida por coisas como "sororidade", militância virtual ou slogans vazios, será protegida por sua ação: aprenda a se defender, não seja indefesa!
Share:

domingo, 15 de maio de 2016

Trotsky: o traidor revelado



Tradução: Jean Augusto Guimarães Sampaio Carvalho

Fonte original: Marxist Internet Archive

Trotsky é o líder-defunto e ídolo de uma geração de pretensos “revolucionários”, trotskistas animados que afirma que Trotsky viveu como um verdadeiro revolucionário, foi traído pelo tirano Stalin e morto como um mártir da “verdadeira revolução”. Retratado quase sempre como o pacífico intelectual, que conquistava através da palavra, a verdadeira identidade de Trotsky pode ser facilmente descoberta não por meras argumentações, mas por provas e fatos concretos.

1. Trotsky no Elba

No dia 13 de fevereiro de 1929, Leon Trotskyhavia chegado a Constantinopla. Ele não chegou como um político exilado e desacreditado. Trotsky chegou como um visitante poderoso. As maiores agências de imprensa noticiaram sua chegada. Correspondentes estrangeiros esperavam para cumprimentá-lo quando ele descesse da lancha particular que o trazia. Espremendo-se entre eles, Trotsky rapidamente se dirigiu ao automóvel que o aguardava, pilotado por um de seus guarda-costas pessoais, sendo levado para seu quartel pessoal na cidade, o qual havia sido preparado para sua chegada.

Uma tempestade política começou na Turquia. O porta-voz pró soviético exigiu que Trotsky fosse expulso; o porta-voz antissoviético, ao contrário, deu a Trotsky as boas vindas como inimigo do regime soviético. O governo turco parecia indeciso. Havia rumores de certa pressão diplomática para manter Trotsky na Turquia, próximo à fronteira soviética. Finalmente, um compromisso foi estabelecido: Trotsky deveria ficar na Turquia e, ao mesmo tempo, não permanecer lá. O “Napoleão Vermelho” exilado, como o chamavam, deveria receber um refúgio na ilha turca de Prinkipo. Trotsky, sua esposa e seu filho, juntamente com um número de guarda-costas, se mudaram para lá algumas semanas depois.

Em Prinkipo, na pitoresca ilha do mar Negro, onde Woodrow Wilson sonhava em sediar uma conferência de paz entre aliados e soviéticos, Trotsky, exilado, estabeleceu seu novo quartel político com seu filho, Leon Sedov, como seu chefe ajudante e segundo em comando. “Em Prinkipo, um novo grupo de trabalhadores jovens vindos de diferentes países formaram, com sucesso, uma colaboração íntima com meu filho”, escreveria Trotsky, mais tarde. Uma estranha atmosfera febril de mistério e intriga cercou a pequena casa na qual Trtosky vivera. Externamente, a casa era guardada por cães da polícia e seguranças armados. Internamente, ela era lotada de aventureiros radicais vindos da Rússia, da Alemanha, da Espanha e de outros países, pessoas que se juntaram a Trotsky em Prinkipo.

Ele os chamou de “secretários”. Eles formaram uma nova guarda para Trotsky. Havia um fluxo constante de visitantes na casa: propagandistas anti-soviéticos, políticos, jornalistas, adoradores daquele herói em exílio, além de pretensos “revolucionários do mundo”. Guarda-costas permaneciam do lado de fora da porta da livraria de Trotsky enquanto ele mantinha conferências privadas com renegados de movimentos comunistas ou socialistas de todo o mundo. De tempo em tempo, suas visitas se escondiam em segredo, e ele recebia também agentes de serviços de inteligência e outras figuras misteriosas que vinham entrevistá-lo.

No começo, o cabeça da força de guarda armada de Trotsky era Blumkin, o assassino social-revolucionário que seguiu Trotsky com a devoção de um cão desde o início dos anos 1920. Mais tarde, em 1930, Trotsky o enviou de volta à Rússia soviética numa missão especial. Blumkin foi pego pela polícia soviética, posto em julgamento e sentenciado como culpado de contrabando de armas e propaganda anti-soviética dentro da URSS, tendo sido fuzilado posteriormente. Depois, a guarda pessoal de Trotksy foi chefiada por um francês de nome Raymond Molinier, e por um americano, chamado Sheldon Harte. 

Com cuidado elaborado, Trotsky manteve sua reputação como um “grande revolucionário” durante seu exílio temporário. Ele já estava com seus cinquenta anos. Sua figura encorpada e levemente encurvada estava se tornando roliça e flácida. Tinha uma mecha de cabelo negro e uma barba rala cinza e pontuda. Mas seus movimentos ainda eram rápidos e impacientes. Seus olhos escuros por trás de seus óculos sustentados em seu nariz afilado davam-lhe características sombrias e móveis, com uma expressão peculiar de malevolência. Muitos observadores eram repelidos por sua fisionomia “mefistofélica”. Outros achavam que a voz de Trotsky e seus olhos continuam um fascínio quase que hipnótico.
       
Sobre manter sua reputação fora da Rússia soviética, Trotsky não entregou nada ao acaso. Ele citou as palavras do anarquista francês Proudhon: “Destino: algo do qual eu rio; algo para os homens que são demasiadamente ignorantes, demasiadamente escravizados para que eu me perturbe por eles”.

Mas, antes, ele deu entrevistas para visitantes importantes. Trotsky cuidadosamente reorganizou seu papel, e até mesmo estudou gestos apropriados diante do espelho em seu quarto. Jornalistas que visitavam Prinkipo tinham de submeter seus artigos para serem editados por Trotsky antes de serem publicados. Em uma conversa, Trotsky deu vazão a uma infindável torrente de assertivas dogmáticas de inventivas antissoviéticas, enfatizando cada sentença e gesto com a intensidade teatral de um orador de massas.    

O escritor alemão liberal Emil Ludwig entrevistou Trotsky pouco depois de ele ter se estabelecido na ilha de Prinkipo. Trotsky estava num humor otimista. A Rússia estava enfrentando um período de crise, disse Trotsky a Ludwig; ele também afirmava que o plano quinquenal era uma falha; que haveria desemprego, desastre econômico e industrial; que o programa de coletivização da agricultura estava condenado; que Stalin estava liderando um país rumo à catástrofe; que a oposição estava crescendo...
 
Quantos são seus seguidores dentro da Rússia?” perguntou Ludwig. Trotsky ficou subitamente cauteloso. Ele agitou uma mão gorda, branca e com as unhas bem tratadas. “Isso é difícil de estimar”. Seus seguidores estavam “dispersos”, disse ele a Ludwig, trabalhando na clandestinidade, no underground. “Quando você espera poder voltar a agir abertamente outra vez?” – Para essa pergunta, depois de alguma consideração, Trotsky deu a seguinte resposta: “Quando uma oportunidade for apresentada de fora. Talvez uma guerra ou uma nova intervenção europeia – quando a fraqueza do governo soviético puder agir como um tipo de estímulo!”.

Winston Churchill, apaixonadamente interessado em cada fase da campanha anti-soviética, fez um estudo especial do exílio de Trotsky em Prinkipo. “Eu nunca gostei de Trotsky”, declarou ele em 1944. Mas a conspiração audaciosa de Trotsky, seus talentos de oratória e sua energia demoníaca apelaram para o temperamento aventureiro de Churchill. Compreendendo todo o propósito da conspiração internacional de Trotsky, estabelecida desde o momento no qual ele havia deixado a União Soviética, Churchill escreveu o seguinte, para o Great Contemporaries: “Trotsky [...] se esforça em reunir o submundo da Europa para a derrubada do exército russo”.

Também nessa época, o correspondente americano John Gunther visitou o quartel de Trotsky em Prinkipo. Ele falou com Trotsky e com um número de associados trotskistas russos e europeus. Para a surpresa de Gunther, Trotsky não se comportava como um exilado derrotado. Ele agia mais como um tipo de monarca reinante, ou um ditador. Gunther pensou na imagem de Napoleão na ilha de Elba – logo antes de seu retorno e do período dos Cem Dias.

Gunther escreveu: “O movimento trotskista cresceu através da maior parte da Europa. Em cada país, há núcleos de agitadores trotskistas. Eles recebem ordens diretas de Prinkipo. Há um tipo de comunicação entre os vários grupos, através de publicações e manifestos, mas a maior parte dessa comunicação é feita através de cartas particulares. Os vários comitês centrais são conectados a um quartel internacional em Berlim”.

Gunther tentou conversar com Trotsky sobre a Quarta Internacional, o evento pelo qual e para o qual ele havia se posicionado. Trotsky foi bem reservado em relação a esse assunto. Em um momento expansivo, ele mostrou para Gunther o número de “livros ocos” nos quais documentos secretos eram escondidos e transportados. Ele glorificou as atividades de Andreas Nin[1] na Espanha. Ele também disse ter seguidores e simpatizantes influentes nos Estados Unidos. Ele falou das células trotskistas sendo formadas na França, na Normandia e na Tchecoslováquia. As atividades dessas células, segundo o que Trotsky informou a Gunther, eram “semi-secretas”.

Gunther escreveu que Trotsky havia “perdido a Rússia, ao menos por um tempo. Mas ninguém sabia quando ele poderia reconquistá-la, se em dez ou vinte anos”. O principal objetivo de Trotsky era “manter-se do lado de fora, torcer pela queda de Stalin na Rússia, e, enquanto isso, utilizar toda energia para atingir a perfeição de sua organização contra-comunista”.

Só “um detalhe”, concluiu Gunther, poderia levar Trotsky “de volta à Rússia”. Esse detalhe era a “morte de Stalin”. De Prinkipo, durante os anos 1930-1931, Trotsky lançou uma propaganda anti-soviética extraordinária, que logo penetrou em cada país. Era um tipo inteiramente novo de propaganda anti-soviética, infinitamente mais sutil e confusa do que qualquer outra coisa já criada pela divisão de cruzados anti-bolcheviques no passado.
  
Os tempos haviam mudado. Após a Grande Depressão, o mundo inteiro tinha uma mente revolucionária e não desejava voltar aos dias do passado, que haviam trazido tanta miséria e sofrimento. A recente contrarrevolução do fascismo na Itália havia sido efetivamente promovida por seu fundador ex-socialista, Benito Mussolini, como uma “Revolução Italiana”. Na Alemanha, os nazistas ganharam as massas não apenas pela reação anti-bolchevique, mas também por defender os trabalhadores e camponeses alemães com o slogan de “Nacional Socialistas”. Em 1903, Trotsky fez uso da propaganda que Lênin havia chamado de “slogans ultrarrevolucionários” que não haviam lhe custado nada.

Agora, numa escala global, Trotsky procede para o desenvolvimento dessa técnica de propaganda, empregada por ele originalmente contra Lênin e o Partido Bolchevique. Uma quantidade imensurável de artigos ultra-esquerdistas foi empregada violentamente para esse propósito, livros, panfletos e discursos, Trotsky começou a atacar o regime soviético e clamar por sua deposição violenta – não por isso ser algo revolucionário; mas por que era, como ele havia dito, um ato “contrarrevolucionário” e “reacionário”.

Durante a noite, muitos dos cruzados anti-bolchevistas mais antigos abandonaram sua posição pró-czarista e sua linha de propaganda abertamente contrarrevolucionária, adotando uma nova roupagem trotskista para atacar a Revolução Russa “pela Esquerda”. Nos anos seguintes, tornou-se algo aceitável que pessoas como Lord Rothermere[2] ou William Randolph Hearst[3] fizessem acusações contra Joseph Stálin, chamando-o de “traidor da Revolução”.

O primeiro grande trabalho de propaganda de Trotsky para introduzir essa nova linha anti-soviética à contrarrevolução internacional foi sua autobiografia melodramática e semifictícia, intitulada “Minha Vida”. A obra foi primeiramente publicada por ele como uma série de artigos anti-soviéticos em jornais europeus e estadunidenses, seu objetivo com o livro era o de vilificar a figura de Stalin e da União Soviética, aumentar o prestígio do movimento trotskista e apoiar o mito de Trotsky como “o revolucionário mundial”. Trotsky retratou a si mesmo em “Minha Vida” como o verdadeiro inspirador e organizador da Revolução Russa, como alguém que havia sido enganado e destronado de seu lugar de direito como líder russo, traído por figuras de oponentes “astutos”, “medíocres” e “asiáticos”.

Agentes anti-soviéticos e publicitários imediatamente impulsionaram o livro de Trotsky, transformando-o num sensacional best seller mundial, prometendo que o livro contaria toda a verdade sobre a “história interna” da Revolução Russa. Adolf Hitler leu a autobiografia de Trotsky assim que ela havia sido publicada na Alemanha. O biógrafo de Hitler, Konrad Heiden, conta no “O Líder” como o chefe nazista surpreendeu o círculo de seus amigos em 1930 ao fazer citações do livro de Trotsky. “Brilhante!” dizia Hitler, balançando o livro para seus seguidores. “Eu aprendi muito com essa obra, e vocês também o podem aprender”.

O livro de Trotsky rapidamente se tornou o referencial para os serviços de inteligência anti-soviéticos. Foi aceito como guia básico de propaganda contra o regime soviético. A polícia secreta japonesa tornou compulsória a leitura do livro para comunistas japoneses e chineses mantidos em suas prisões, como um esforço para quebrar sua moral e convencê-los de que a Rússia Soviética havia traído a Revolução Chinesa e, por consequência, traído também a causa pela qual estavam lutando. A Gestapo deu um uso similar a esse livro.

Minha Vida” foi só a arma inicial da prodigiosa campanha anti-soviética de Trotsky. Foi seguido pela publicação de obras como “A Revolução Traída”, “Economia Soviética em Perigo”, “O Fracasso do Plano Quinquenal”, “Stalin e a Revolução Chinesa”, “A Escola de Falsificação de Stalin” e incontáveis outros livros anti-soviéticos, panfletos e artigos, muitos dos quais apareceram primeiramente em jornais reacionários na Europa e nos Estados Unidos. A intelligentsia de Trotsky forneceu à imprensa mundial anti-soviética um fluxo contínuo de “revelações”, “exposições” e “relatos internos” sobre a Rússia.

Para o consumo dentro da União Soviética, Trotsky publicou seu Boletim Oficial da Oposição. Impresso no exterior, primeiramente na Turquia, depois na Alemanha, França, Normandia e outros países, e contrabandeado para a Rússia por mensageiros trotskistas, o Boletim não tinha a intenção de chegar às massas soviéticas. Seu objetivo era atingir diplomatas, oficiais de Estado, militares e intelectuais que haviam seguido Trotsky ou que pareciam ser influenciados por ele. O Boletim também continha diretivas para o trabalho de propaganda dos trotskistas, tanto na Rússia quanto no estrangeiro.

Incessantemente, o Boletim desenhou imagens sinistras de um desastre que estava para atingir o regime soviético, predizendo a crise industrial, um retorno da guerra civil e o colapso do Exército Vermelho diante do primeiro ataque estrangeiro.

Esse Boletim fez uso, habilmente, de todas as dúvidas e ansiedades despertadas pelas tensões e dificuldades durante o período de construção e consolidação do regime, provocando a incerteza nas mentes de elementos instáveis, confusos e insatisfeitos. O Boletim abertamente convocou esses elementos para minar o regime e realizar atos de violência contra o governo soviético.

Aqui estão alguns exemplos típicos da propaganda anti-soviética e de apelos para a derrubada violenta do regime soviético, que Trotsky espalhou através do mundo nos anos que se seguiram à expulsão dele da URSS:

A política da atua liderança, o pequeno grupo de Stalin, que agora lidera o país, a todo vapor, rumo às perigosas crises e colapsos.”.
Carta aos Membros do Partido Comunista da União Soviética, março de 1930.

A crise iminente da economia soviética irá, inevitavelmente, e num futuro muito próximo, desintegrar a doce lenda [de que o socialismo pode ser construído em uma nação] e, então, nós não teremos razão alguma para duvidar de que isso espalhará muitos mortos... A economia soviética funciona sem reservas materiais e sem cálculo... e a burocracia incontrolável amarrou seu prestígio com o acúmulo subsequente de erros... uma crise é iminente [na União Soviética] com uma sequência de consequências tais como o fechamento forçado de empresas e o desemprego.”.
- Economia Soviética em Perigo, 1932.

Os trabalhadores húngaros [na União Soviética] estão insatisfeitos com as políticas do partido. O partido está insatisfeito com a liderança. Os camponeses estão insatisfeitos com a industrialização, com a coletivização das terras, com as cidades.”.
- Artigo na Militância (EUA), 4 fevereiro de 1933

O primeiro choque social, externo ou interno, pode derrubar a sociedade soviética atomizada e jogá-la na guerra civil.”.
- A União Soviética e a Quarta Internacional, 1933

Seria infantilidade pensar que a burocracia de Stalin pode ser removida através do Partido ou do Congresso Soviético. Meios normais e constitucionais não são mais suficientes para remover o governo atual... Eles podem ser compelidos a abandonar o poder e dá-lo à vanguarda proletária somente pelo uso da FORÇA.”.
- Boletim da Oposição, outubro de 1933

“A crise política converge para uma crise geral, algo que já se rasteja lentamente para seu cumprimento.”.
- O Assassinato de Kirov, 1935

“Dentro do Partido, Stalin colocou a si mesmo acima de toda a crítica e do próprio Estado. É impossível removê-lo, exceto através de assassinato. Cada oposicionista se torna, ipso facto, um terrorista.”.
- Apontamentos da entrevista com o jornal New York Evening, de William Randolph Heart, 26 de janeiro de 1937.

“Podemos esperar que a União Soviética saia dessa grande guerra sem a derrota? Para essa questão francamente colocada, nós responderemos de modo igualmente franco: Se a guerra continuar como uma simples guerra, a derrota da União Soviética seria inevitável. Num sentido técnico, econômico e militar, o imperialismo é incomparavelmente mais forte. Se não for paralisado pela revolução no Ocidente, o imperialismo poderá varrer o regime atual.”.
- Artigo publicado no American Mercury, março de 1937.

“A derrota da União Soviética é inevitável no caso de uma nova guerra não provocar uma nova revolução... Se nós admitirmos teoricamente que pode haver uma guerra sem uma revolução, então a derrota da União Soviética é inevitável.”.
- Testemunho publicado em Discursos no México, abril de 1937.


2. Encontro em Berlim

Do momento em que Trotsky deixou o solo soviético, agentes de serviços de inteligência estrangeiros começaram a contatá-lo para fazer uso de sua organização internacional anti-soviética. O grupo polonês Defensiva, o grupo fascista italiano Ovra, a Inteligência Militar Finlandesa, os “Russos Brancos” que dirigiram serviços secretos anti-soviéticos na Romênia, Iugoslávia e na Hungria e também elementos reacionários como o Serviço Britânico de Inteligência e o Français Deuxiéme Bureau estavam todos preparados para lidar com o “inimigo público número um da Rússia”, usando-o para seus próprios propósitos.

Fundos, assistentes, uma rede de espionagem e de serviços estavam à disposição de Trotsky, para a manutenção e a expansão de suas atividades de propaganda anti-soviética e para o apoio e reorganização de seu aparato conspiratório instalado dentro da União Soviética.  

O mais importante de tudo é que Trotsky estava ganhando intimidade crescente com a Inteligência Militar Alemã (Seção 111B), a qual, sob o comando do coronel Walther Nicolai, já estava colaborando com a Gestapo de Himmler. Em 1930, um agente de Trotsky, Krestinsky[4], recebeu aproximadamente 2 milhões de marcos de ouro do Reichswehr[5] alemão, para financiar atividades trotskistas na Rússia Soviética, em troca de informações de espionagem entregues à Inteligência Militar Alemã por trotskistas.

Mais tarde, Krestinsky revelou: “No início de 1923 até o ano de 1930, nós recevemos anualmente o valor de 250.000 marcos alemães em ouro, aproximadamente 2.000.000 de marcos de ouro. Até o fim de 1927, as estipulações desse acordo foram executadas principalmente em Moscou. Depois disso, de 1927 a até quase o fim de 1928, no curso de quase 10 meses, havia uma interrupção no pagamento, já que o trotskismo havia sido esmagado. Eu estava isolado, e eu não sabia dos planos de Trotsky. Eu não recebia informação ou instruções dele. As coisas ficaram assim até outubro de 1928, quando eu recebi uma carta de Trotsky, que, naquele tempo, estava exilado em Alma Ata... Essa carta continha instruções de Trotsky, me informando de que eu deveria receber dinheiro dos alemães, dinheiro esse que deveria ser enviado para Maslow ou para os amigos de Trotsky na França, como Roemer, Madeline Paz e outros. Eu tive contato com o general Seeckt. Naquela época, ele havia resignado e não ocupava posto algum. Ele se voluntariou para conversar com Hammerstein para obter o dinheiro. Ele obteve o dinheiro. Hammerstein era, naquele tempo, chefe de equipe do Reichswehr, e em 1930 ele se tornou comandante-em-chefe do Reichswehr.”.

Em 1930, Krestinsky foi apontado como comissário assistente de assuntos estrangeiros e transferido de Berlim para Moscou. Sua remoção da Alemanha, juntamente com a crise interna que estava ocorrendo dentro do Reichswehr como resultado do poder crescente do nazismo, deteve temporariamente o fluxo de dinheiro alemão para Trotsky. Mas Trotsky estava para entrar num novo e mais extenso acordo com a Inteligência Militar Alemã. 

Em fevereiro de 1931, o filho de Trotsky, Leon Sedov, alugou um apartamento em Berlim. De acordo com seu passaporte, Sedov estava na Alemanha como “estudante”; ostensivamente, ele foi à Berlim para comparecer ao “Instituto Científico Alemão”. Mas havia razões mais urgentes para a presença de Sedov na capital alemã naquele ano...

Poucos meses antes, Trotsky havia escrito um panfleto com o título de “Alemanha: A Chave para a Situação Internacional”. Cento e sete deputados nazistas foram eleitos no Reichstag[6]. O Partido Nazista recebeu 6.400.000 votos. Quando Sedov chegou a Berlim, um humor de expectativa febril e de tensão se alastrou pela capital alemã. Militantes com camisas marrons, cantando a “Horst Wessel[7]” desfilavam nas ruas de Berlim, destruindo lojas de judeus e atacando casas e clubes de liberais e comunistas. Os nazistas estavam confiantes: “Nunca em minha vida inteira estive tão bem disposto e tão internamente contente quanto nesses dias”, escreveu Adolf Hitler nas páginas do Volkischer Beobachter[8].
   
Oficialmente, a Alemanha ainda era uma democracia. O comércio entre a Alemanha e a Rússia Soviética estava no auge. O governo soviético estava comprando maquinário de empresas alemãs. Técnicos alemães conseguiam grandes cargos nos projetos de mineração e eletrificação da União Soviética. Engenheiros soviéticos visitavam a Alemanha. Representantes soviéticos, compradores e agentes comerciais iam continuamente de Berlim a Moscou e de Moscou a Berlim para realizar acordos relacionados ao Plano Quinquenal. Alguns desses cidadãos soviéticos eram seguidores ou ex-adeptos de Trotsky.

Sedov estava em Berlim como representante do pai, para fazer acordos conspiratórios. “Leon sempre à espreita - escreveu Trotsky, mais tarde, em seu panfleto intitulado ‘Sedov: Filho-Amigo-Lutador’ – avidamente procurando por conexões com a Rússia, procurando por turistas que retornavam de visitas de lá, estudantes soviéticos com visto de entrada no país ou funcionários simpáticos nas representações estrangeiras”. As principais atribuições de Sedov em Berlim eram fazer contato com membros mais antigos da oposição, comunicar a Trotsky instruções dadas a eles, ou coletar mensagens importantes deles para seu pai.

Para evitar o comprometimento de seu informante” e “para evitar espiões da GPU[9]”, escreveu Trotsky, Sedov “procurava por ele durante horas pelas ruas de Berlim”. Alguns trotskistas importantes conseguiram postos na Comissão Soviética de Comércio Externo. Entre eles, estava Ivan N. Smirnov[10], um ex-oficial do Exército Vermelho e ex-membro da Guarda Trotskista. Depois de um curto período em exílio, Smirnov seguiu a estratégia adotada por outros trotskistas, denunciando Trotsky e pedindo readmissão ao Partido Bolchevique. Engenheiro por profissão, Smirnov logo obteve um cargo menor na indústria de transportes. No começo de 1931, Smirnov foi apontado como engenheiro consultor numa missão comercial que se dirigiria para Berlim.
   
Depois de sua chegada à Berlim, Ivan Smirnov foi contatado por Leon Sedov. Em reuniões clandestinas no apartamento de Sedov e em bares e cafés de subúrbio, Smirnov aprendeu sobre os planos de Trotsky para a reorganização de uma oposição secreta em colaboração com agentes da Inteligência Militar Alemã.

Daí em diante, Sedov disse à Smirnov que a luta contra o regime soviético deveria assumir o caráter de uma ofensiva completa. As velhas rivalidades e diferenças políticas entre trotskistas, bukharinistas, zinovievitas, mencheviques, social-revolucionários e outros grupos anti-soviéticos e facções deveriam ser esquecidas. Uma oposição unida deveria ser formada. Depois, a luta deveria assumir, a partir dali, um caráter militante. Uma campanha nacional de terrorismo e sabotagem deveria ser iniciada contra o regime da União Soviética. Isso deveria ser executado em cada detalhe. Através da difusão de explosões cuidadosamente sincronizadas, a oposição seria apta a derrubar o governo soviético e lançá-lo na confusão desesperada e na desmoralização. A oposição, então, tomaria o poder.

A missão imediata de Smirnov era transmitir as instruções de Trotsky acerca da reorganização de um trabalho secreto e das preparações para as ações de terrorismo e sabotagem aos membros mais confiáveis da oposição em Moscou. Ele também deveria fazer preparativos para o envio regular de “dados de informação” para Berlim, entregues por militantes trotskistas e repassados para Sedov, que deveria, então, retransmitir os dados para seu pai. A senha pela qual os informantes se identificavam era “eu trago saudações de Galya”.

Sedov pediu que Smirnov fizesse mais uma coisa enquanto ele estivesse em Berlim. Ele deveria entrar em contato com o chefe da Missão Soviética de Comércio, que havia chegado recentemente a Berlim e informá-lo de que Sedov estava na cidade e desejava vê-lo com a maior urgência possível, para tratar de um assunto da “mais alta importância”.

O chefe da Missão Soviética de Comércio que havia chegado a Berlim era um antigo seguidor de Trotsky e um de seus mais devotados admiradores. Ele era Yuri Leonodovich Pyatakov[11]. Magro e alto, bem vestido, com uma testa inclinada, uma tez pálida e pura e um cavanhaque avermelhado, Pyatakov parecia mais com um professor de nível médio do que com o conspirador veterano que era. Em 1927, após a tentativa de golpe, Pyatakov foi o líder trotskista a romper com Trotsky e procurar a readmissão no Partido Bolchevique. 

Um homem de habilidade imensa no gerenciamento de negócios e na organização, Pyatakov ocupou vários trabalhos importantes nas indústrias soviéticas que estavam em rápida expansão, até mesmo quando esteve em exílio na Sibéria. No fim do ano de 1929, ele havia sido readmitido no Partido Bolchevique condicionado à provação. Ele manteve uma sucessão de cargos internos de presidência em projetos de planejamento de indústrias químicas e de transportes. Em 1931, ele recebeu um assento no Conselho Econômico Supremo, a mais alta instituição de planejamento soviético; e, naquele mesmo ano, ele foi enviado a Berlim como chefe de uma missão especial de comércio para comprar equipamento industrial alemão para o governo soviético.

Seguindo as instruções de Sedov, Ivan Smirnov procurou Pyatakov em seu escritório em Berlim. Smirnov disse a Pyatakov que Leon Sedov estava em Berlim e tinha uma mensagem importante para ele, enviada por Trotsky. Dias depois, Pyatakov se encontrou com Sedov. Aqui estão os apontamentos do próprio Pyatakov sobre o encontro:
Há um café conhecido como ‘Am Zoo’, não muito longe dos Jardins Zoológicos do bairro. Eu fui até lá e vi Lev Sedov sentado numa mesa pequena. Nós nos conhecíamos muito bem, há muito tempo. Ele me disse que não estava falando comigo em seu próprio nome, mas em nome de seu pai – Trotsky, e que Trotsky, sabendo que eu estava em Berlim, havia lhe dado ordens categóricas para me procurar, se encontrar pessoalmente comigo e falar comigo. Sedov disse que Trotsky não havia abandonado a ideia de resumir a luta contra a liderança de Stalin por um só momento sequer, e que havia apenas uma calmaria temporária, parcialmente por conta das mudanças repetitivas de Trotsky de um país para outro, mas que a luta era agora mais simples, luta essa sobre a qual agora Trotsky me informava por esse meio... Depois disso, Sedov me fez uma pergunta à queima-roupa: ‘Trotsky pergunta, de você, Pyatakov: pretende dar-lhe as mãos nessa luta?’. Eu dei meu consentimento”.

Então, Sedov prosseguiu para informar Pyatakov sobre as linhas através das quais Trotsky propunha reorganização a oposição:
“...Sedov começou a falar da natureza dos novos métodos de luta: não poderia haver qualquer forma de questionamento sobre o desenvolvimento da luta de massas, da organização de um movimento de massas; se nós adotássemos qualquer tipo de trabalho de massas, então nós ficaríamos imediatamente aflitos; Trotsky era fortemente favorável à derrubada forçada da liderança de Stalin, por meio de métodos de terrorismo e destruição.”.

Mais tarde, Sedov disse que Trotsky estava atento ao fato de que uma luta confinada a um só país seria absurda, e que a questão internacional não poderia ser evitada. “Nessa luta, nós devemos também ter a solução necessária para o problema internacional, ou melhor, o problema inter-Estados”, disse ele. “Quem tentar apagar essas questões” – disse Sedov – “relativas ao que Trotsky disse, assina seu próprio testimonium pauperatis[12]”.

Uma segunda reunião entre Sedov e Pyatakov aconteceu pouco tempo depois. Nesse tempo, Sedov disse a ele: “Você entende, Yuri Leonodovich, que, enquanto a luta for resumida, dinheiro será necessário. Você pode prover os fundos necessários para a luta”. Sedov informou Pyatakov de que isso poderia ser feito. Em sua capacidade como representante oficial do governo soviético na Alemanha, Pyatakov tinha de organizar tantas ordens quanto lhe fosse possível com duas firmas alemãs, a Borsig e a Demag. Pyatakov não deveria ser um “particularmente exigente quanto aos preços” ao lidar com esses assuntos. Trotksy tinha um acordo com a Borsig e a Demag. “Você vai ter de pagar preços altos”, disse Sedov, “mas esse dinheiro vai servir pro nosso trabalho[13]”.

Haviam dois outros oposicionistas secretos em Berlim no ano de 1931, os quais Sedov colocou para trabalhar no novo aparato trotskista. Eles eram Alexei Shestov[14], um engenheiro que fazia parte da missão de comércio de Pyatakov, e Sergei Bessonov[15], um membro da Representação Comercial da URSS em Berlim.

Bessonovo, um ex social-revolucionário, de porte atarracado e de pele escura, já na casa dos quarenta anos. A Representação Comercial de Berlim, da qual Bessonov era membro, era a principal agência comercial soviética na Europa, e conduziu negociações de comércio com dez países diferentes; o próprio Bessonov estava permanentemente fixado em Berlim. Ele foi, anteriormente, equipado idealmente para servir como um “ponto de ligação” entre os russos trotskistas e seu líder exilado. Estava acordado que as comunicações trotskistas secretas da Rússia deveriam ser entregues a Bessonov em Berlim, que, então, as conduziria ou para Sedov ou para Trotsky.

Alexei Shestov foi uma personalidade diferente, e seu trabalho era condizente com seu temperamento. Ele iria se tornar um dos organizadores chefes da espionagem trotskista alemã e das células de sabotagem na Sibéria, onde ele havia sido membro do Conselho de Carvão da Sibéria Oriental. Shestov estava apenas no início dos seus trinta anos de idade. Em 1923, enquanto ainda era apenas um estudante em Moscou, no Instituto de Mineração, Shestov havia se juntado à oposição trotskista e, em 1927, liderou uma das prensas secretas em Moscou. Um jovem magro e de olhos pálidos com uma disposição intensa e violenta, Shestov seguiu Trotsky com devoção fanática. “Eu me encontrei Trotsky muitas vezes, pessoalmente”, era o que ele gostava de repetir. Para Shestov, Trotsky era “o líder”, e era dessa forma como ele quase sempre se referia a ele.
     
“Não adianta de nada ficar sentado esperando e assoviando por um tempo justo”, disse Sedov a Shestov quando eles se encontraram em Berlim. “Nós devemos agir com todas as forças e com todos os meios que estão à nossa disposição para uma política ativa de desacreditar a liderança de Stalin e a política dele”, disse Sedov. Trotsky dizia que “o único modo correto, um modo difícil, mas certo, era remover Stalin forçosamente e também remover os líderes do governo através do terrorismo”. 

“Nós realmente chegamos num ponto cego”, Shestov prontamente concordou. “É necessário ou desarmar ou mapear um novo caminho para a luta!”. Sedov questionou Shestov se ele conhecia um industriário alemão conhecido como Herr Dehlmann. Shestov disse que o conhecia por conta de sua reputação. Dehmann era um diretor da firma chamada Frölich-Klüpfel-Dehlmann. Muitos dos engenheiros dessa firma eram empregados nas minas ocidentais da Sibéria, onde o próprio Shestov havia trabalhado.

Sedov, então, disse a Shestov que ele deveria entrar em contato com Dehlmann antes de retornar à Rússia. A firma de Dehlmann, explicou Sedov, poderia ser muito útil à organização trotskista para o propósito de “destruir a economia soviética” na Sibéria. Herr Dehlmann já estava ajudando a traficar propaganda e agentes trotskistas para dentro da União Soviética. Em retorno, Shestov poderia suprir Herr Dehlmann com certas informações sobre as novas minas siberianas e as novas indústrias, nas quais o diretor alemão estava particularmente interessado.

“Você está me pedindo para fazer um acordo com a firma?”, perguntou Sedov. “O que há de tão terrível nisso?”, replicou o filho de Trotsky. “Se eles estão nos fazendo um favor, por qual motivo não deveríamos nós tam´bem fazer-lhes um favor e fornecer-lhes certas informações?”. “Você está simplesmente propondo que eu me torne um espião!”, replicou Shestov.

Sedov balançou os ombros. “É absurdo usar palavras como essa”, disse ele. “Numa luta, é inadmissível ser tão esguio assim. Se você aceita terrorismo, se você aceita a destruição da indústria, então eu falho absolutamente em compreender por que motivo você não concorda com isso”.
 
Poucos dias depois, Shestov viu Smirnov e disse a ele o que o filho de Trotsky havia lhe falado. “Sedov ordenou que eu estabelecesse conexões com a empresa Frölich-Klüpfel-Dehlmann”, disse Shestov. “Ele me disse que eu deveria estabelecer conexões com uma empresa engajada em espionagem e sabotagem na região do Kuzbas. Nesse caso, eu seria um espião e sabotador”.
 
“Pare de choramingar sobre palavras como ‘espião’ e ‘sabotador’!”, replicou Smirnov. “O tempo está passando e é necessário agir... Por que você se surpreende tanto em considerar possível a derrubada da liderança de Stalin por meio da mobilização de todas as forças contrarrevolucionárias na região do Kuzbas? Por que você acha tão terrível contratar agentes alemães pra fazer esse trabalho? Não há outro meio. Nós temos de concordar com isso”.
 
Shestov ficou em silêncio. Smirnov lhe perguntou: “Bem, como está o seu humor?”. “Eu não tenho humor particular”, disse Shestov. “Eu faço aquilo que Trotsky, nosso líder, nos ensinou – permanecer atento e esperar por ordens”. Antes de deixar Berlim. Shestov se encontrou com Herr Dehlmann, o diretor da empresa alemã que estava financiado Trotsky. Shestov foi recrutado pela Inteligência Militar Alemã, sob o codinome “Alyosha”.

Mais tarde, Shestov disse: “Eu me encontrei com o diretor dessa firma, o senhor Dehlmann, e também com seu assistente Koch. A essência da conversa com os chefes da firma Frölich-Klüpfel-Dehmann foi a seguinte: primeiro, falamos sobre o fornecimento de informações secretas através de representantes dessa empresa que trabalham na Kuznetsk Basin e na organização de trabalhos de sabotagem e ações diversas juntamente com os trotskistas. Também falamos que a firma, em retorno, deveria ajudar-nos e que eles também poderiam enviar mais gente quando nossa organização demandasse... Eles deveriam ajudar os trotskistas a chegar ao poder por doso os meios possíveis[16]”.

Em retorno à Rússia Soviética, Shestov trouxe de volta uma carta que Sedov havia lhe dado para ser entregue a Pyatakov, que havia retornado à Moscou. Shestov escondeu a carta na sola de um de seus sapatos. Ele entregou essa carta para Pyatakov, enviada de Prinkipo. Ela sublinhava as “tarefas imediatas” confrontando a oposição na Rússia Soviética.

A primeira tarefa era “usar todos os meios possíveis para derrubar Stalin e seus associados”. Isso significa terrorismo. A segunda tarefa era “unir todas as forças anti-Stalin”. Isso significava colaboração com a Inteligência Militar Alemã e com qualquer outra força anti-soviética que pudesse trabalhar juntamente com a oposição. A terceira tarefa era “atacar todas as medidas do governo soviético e do Partido, particularmente no campo econômico”. Isso significava sabotagem.

Pyatakov deveria ser o tenente chefe no encargo do aparato conspiracionista dentro da Rússia Soviética.

3. Os Três Níveis

Por volta de 1932, o futuro da Quinta Coluna na Rússia começou a tomar uma forma concreta no submundo da oposição. Em pequenas reuniões secretas e conferências furtivas, os membros da conspiração tornaram-se atentos à nova linha de ação e ficaram instruídos em suas novas tarefas. Uma rede de células terroristas, células de sabotagem e sistemas de mensageiros foi desenvolvida na Rússia Soviética.

Em Moscou e em Leningrado, no Cáucaso e na Sibéria, no Donbas e nos Urais, organizadores trotskistas mantinham reuniões secretas mesmo entre grupos rivais, mas todos inimigos do regime soviético – social-revolucionários, mencheviques, esquerdistas, direitistas, nacionalistas, anarquistas e fascistas russos Brancos, além de monarquistas. A mensagem de Trotsky foi espalhada através do submondo dos oposicionistas, dos espiões e dos agentes secretos; uma nova ofensiva contra o regime soviético estava para acontecer.

A exigência enfática de Trotsky para a preparação de atos de terror inicialmente assustou alguns dos intelectuais trotskistas mais antigos. O jornalista Karl Radek mostrou sinais de pânico quando Pyatakov o instruiu acerca da nova linha de ação. Em fevereiro de 1932, Radek recebeu uma carta pessoal de Trotsky por meio de um mensageiro secreto, do mesmo modo como todas as outras comunicações trotskistas de caráter confidencial eram feitas.

“Você deve ter em mente”, escreveu Trotsky para seu seguidor indeciso, Radek, “a experiência do período precedente e compreender que, para você, não pode haver retorno ao passado, e que a luta entrou numa nova fase e, também, que um novo conceito nessa fase é o de que ou nós devemos ser destruídos juntamente com a União Soviética, ou devemos levantar essa questão da remoção da liderança”.

A carta de Trotsky, juntamente com a insistência de Pyatakov, finalmente convenceu Radek. Ele concordou em aceitar a nova linha de ação – terrorismo, sabotagem e colaboração com “poderes estrangeiros”.

Entre os mais ativos organizadores das células de terrorismo, que agora haviam sido construídas através da União Soviética, estava Ivan Smirnov e seus velhos camaradas da Guarda Trotskista: Serge Mrachkovsky[17] e Ephraim Dreitzer[18]. Sob a direção de Smirnov, Mrachkovsky e Dreitzer começaram a formar pequenos grupos de atiradores profissionais e ex-associados trotskistas que já haviam lutado na guerra civil, e que, agora, estavam prontos para métodos violentos.

As esperanças que nós colovamos no colapso da política do Partido”, disse Mrachkovsky a um desses grupos terroristas sediados em Moscou, em 1932, “devem ser consideradas como condenadas. Os métodos de luta usados até agora não produziram qualquer resultado positivo. Só resta um caminho para a luta, e esse caminho é a remoção da liderança do Partido por meio da violência. Stalin e os outros líderes devem ser depostos. Essa é a principal missão!”. 

Enquanto isso, Pyatakov estava engajado em procurar conspiradores em posições-chave da área industrial, especialmente na indústria de guerra e de transporte, e recrutá-los para toda a campanha de sabotagem que Trotsky desejava lançar contra a economia soviética.

No verão de 1932, um acordo para suspender rivalidades e diferenças do passado, e para garantir o trabalho conjunto sob o comando supremo de Trotsky, estava sendo discutido entre Pyatakov, que atuava como tenente de Trotsky na Rússia, e Bukharin, o líder da oposição de Direita. O grupo menor, liderado por oposicionistas veteranos, Zinoviev e Kamenev, concordou em subordinar suas atividades à autoridade de Trotsky. Descrevendo suas negociações que estavam crescendo entre os conspiradores daquele tempo, Bukharin disse, mais tarde:

Eu tive conversas com Pyatakov, Tomsky e Rykov. Rykov teve conversas com Kamenev, Zivoniev e Pyatakov. No verão de 1932, eu tive uma segunda conversa com Pyatakov no Comissariado do Povo para a Indústria Pesada. Naquele tempo, isso era uma tarefa bem simples pra mim, já que eu estava trabalhando para Pyatakov. Naquela época, ele era meu chefe. Eu tinha de ir até o escritório particular dele para tratar dos negócios, e eu podia fazer isso sem levantar suspeitas... Nessa conversa, que aconteceu no verão de 1932, Pyatakov me contou sobre sua reunião com Sedov acerca da política de terrorismo estabelecida com Trotsky... Nós decidimos que deveríamos encontrar uma linguagem comum rapidamente, e que, assim, poderíamos superar nossas diferenças na luta contra o poder soviético.”.

As últimas negociações foram concluídas numa reunião secreta, realizada numa dacha deserta, uma casa de verão nos subúrbios de Moscou. Sentinelas foram posicionadas pelos conspiradores, ao redor da casa e ao longo das estradas que conduziam ao local, para guardar o evento de qualquer eventualidade e para assegurar sua absoluta discrição.

Nessa reunião, algo como um tipo de Alto Comando de forças combinadas da oposição havia sido formado para dirigir as campanhas que estavam para acontecer, campanhas de terror e sabotagem através da União Soviética. Esse Alto Comando da oposição foi chamado de “Bloco de Direitistas e Trotskistas”. Esse bloco foi construído em três diferentes níveis. Se algum dos níveis fosse exposto, os outros seguiriam adiante.

O primeiro nível, o Centro Terrorista Trotskista-Zinovievita, liderado por Zinoviev, era responsável pela organização e direção das ações de terrorismo. O segundo nível, o Centro Trotskista Paralelo, chefiado por Pyatakov, era responsável pela organização e direção de atos de sabotagem. O terceiro e mais importante nível, o atual Bloco de Direitistas e Trotskistas, encabeçado por Bukharin e Krestinsky, compreendia a maioria dos líderes e membros de alto nível das forças combinadas de oposição.

Todo o aparato consistia de nada mais do que poucos milhares de membros, e algo entre vinte ou trinta líderes que mantinham posições de autoridade no exército, no Escritório Estrangeiro, no serviço secreto, na indústria, nas uniões de comércio, no Partido e nos departamentos do governo.
   
Desde o início, o Bloco de Direitistas e Trotskistas foi penetrado e liderado por agentes de serviços de inteligência estrangeiros pagos para isso, especialmente oriundos da Inteligência Militar Alemã. Estes eram alguns dos agentes estrangeiros que lideravam membros do novo bloco conspiratório:

Nicolai Krestinsky: trotskista e também comissário assistente de negócios externos, ele foi um agente da Inteligência Militar Alemã que atuava desde 1923, quando as primeiras missões de espionagem foram estabelecidas pelo general Hans von Seeckt[19].

Arkady Rosengoltz: trotskista e comissário do povo para negócios de comércio externo, ele já atuava em ações de espionagem para o Alto Comando Alemão desde 1923. “Minhas atividades de espionagem começaram já em 1923”, disse Rosengoltz mais tarde, “quando, sob instruções de Trotsky, eu forneci várias informações secretas ao comandante-em-chefe do Reichswehr, o general Seeckt, e também ao chefe do Gabinete Geral Alemão, Hasse.”. Em 1926, Rosengoltz começou a trabalhar para o Serviço Britânico de Inteligência, enquanto mantinha suas conexões com a Alemanha.

Christian Rakovsky: trotskista e ex-embaixador da Grã-Bretanha e da França, agente do Serviço Britânico de Inteligência desde 1924. Nas palavras do próprio Rakovsky: “Eu estabeleci conexões criminosas com o Serviço Britânico de Inteligência em 1924”. Em 1924, Rakovsky também se tornou um agente do Serviço de Inteligência Japonês.
 
Stanislav Rataichak: trotskista e chefe da Central Administrativa da Indústria Química; agente da Inteligência Militar Alemã. Ele havia sido enviado à Rússia Soviética pelos alemães imediatamente após a Revolução. Ele praticou atos de espionagem e sabotagem nas indústrias que estavam sendo construídas pelo governo soviético nos Urais.

Ivan Hrasche: trotskista, executivo da indústria química soviética, ele chegou à Rússia Soviética como um espião do Serviço Tcheco de Inteligência em 1919, disfarçado como um prisioneiro russo que havia retornado da guerra. Hrasche tornou-se agente do Serviço de Inteligência Alemão. 

Alexei Shestov: trotskista e membro da Comissão de Carvão da Região Ocidental da Sibéria, ele se tornou um agente do Serviço de Inteligência Alemão em 1931, trabalhando para ela em nome da firma Frölich-Klüpfel-Dehlmann e praticando missões de espionagem e sabotagem na Sibéria.

Gavrill Pushin: trotskista e executivo da Gorlovka Trabalhos Químicos, ele se tornou um agente da Inteligência Militar Alemã em 1935. De acordo com seu próprio depoimento dado às autoridades soviéticas, ele forneceu aos alemães os seguintes itens: primeiro, informações sobre os empreendimentos de todas as empresas química soviéticas durante 1934; segundo, o programa de trabalho de todas as empresas soviéticas do ramo químico, no ano de 1935; terceiro, o plano de construção de trabalhos de nitrogênio e as instalações que seriam colocadas em atividade no ano de 1938.

Yakov Livshitz: trotskista e oficial da Comissão Ferroviária Soviética do Extremo Oriente, ele atuou como agente da Inteligência Militar Japonesa e transmitiu ao Japão, regularmente, informações sobre as ferrovias soviéticas.

Ivan Knyazev: trotskista e executivo do sistema ferroviário dos Urais, ele foi um agente do Serviço de Inteligência Japonês. Sob sua supervisão, foram realizadas atividades de sabotagem na região dos Urais, mantendo a entrega de informações sobre o sistema soviético de transportes ao Alto Comando Japonês.    

Yosif Turok: trotskista e gerente assistente do Departamento de Tráfego Ferroviário no Perm e nos Urais; atuou como agente do Serviço de Inteligência Japonês. Em 1935, Turok recebeu 35.000 rublos dos japoneses, como pagamento por missões de espionagem e sabotagem conduzidas por ele nos Urais.

Mikhail Chernov: membro do Comissariado da URSS pelos Direitos do Povo e pela Agricultura; foi um agente da Inteligência Militar Alemã desde 1928. Sob a supervisão dos alemães, Chernov executou sabotagem extensiva, bem como missões de espionagem na Ucrânia.

Vasily Sharangovish: membro do Secretariado dos Direitos do Comitê Central do Partido Comunista da Bielorrússia, ele havia sido enfiado para a União Soviética como um espião polonês em 1921. Durante os anos seguintes, ele continuou a trabalhar sob a supervisão do Serviço de Inteligência Polonês, fornecendo-lhes informações obtidas através de espionagem. Ele também realizou atividades de sabotagem na Bielorrússia.

Grigori Grinko: membro da Direita e oficial do Comissariado de Finanças do Povo, ele foi um agente dos serviços de inteligência da Alemanha e da Polônia, desde 1932. Ele era líder do movimento fascista nacionalista ucraniano, e ajudou a contrabandear armas e munição para a União Soviética, além de realizar atividades de espionagem e sabotagem para os alemães e poloneses.

O aparato conspiratório dos trotskistas, dos direitistas e dos zinovievitas era, de fato, a Quinta Coluna[20] do Eixo dentro da União Soviética.


- Notas com um asterisco (*) foram adicionadas ao artigo pelo tradutor.





[1] Andreas Nin Pérez foi um sindicalista e ativista espanhol, fundador do Partido Trabalhador da Unificação Marxista. Andreas foi uma das figuras mais marcantes do marxismo revolucionário na primeira metade do século XX*.

[2] Harold Sidney Harmsworth, 1º Visconde de Rothermere, foi um importante magnata britânico, proprietário do jornal Associated Newspapers ltd. É considerado como pioneiro do “jornalismo popular” *.

[3] William Randolph Hearst foi um grande magnata estadunidense do ramo de editoras. Ele criou uma imensa rede de imprensa, sendo dono de vários jornais*.

[4] Nikolai Kretinski foi um partidário bolchevique. Foi membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, de 29 de novembro de 1919 a agosto de 1918. Kretinski deixou o bolchevismo e se aliou a Trotsky entre 1920 e 1921, após a Guerra Civil Russa*. 

[5] Reichswehr era o órgão que reunia todas as forças militares alemãs. Em 1935, foi renomeada para Wehrmacht*.

[6] Reichstag é o nome do prédio onde funciona o Parlamento Federal da Alemanha (também chamado de Bundestag)*.

[7] Horst-Wessel Lied (ou Die Fahne Hoch – “ Levante alto a Bandeira”) foi a música que serviu como hino oficial das tropas SA. Foi também usado como hino oficial do Partido Nacional Socialista Dos Trabalhadores Alemães. A música leva o nome de seu compositor, Horst Wessel, que atuou como partidário do nazismo nos primeiros anos do regime na Alemanha. Depois da queda do regime hitlerista, em 1945, a canção foi oficialmente proibida*.

[8] Völkischer Beobachter (Kampfblatt der Nationalsozialistischen Bewegung Großdeutschlands - Jornal de Luta do Movimento Nacional Socialista da Grande Alemanha) era o jornal oficial do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, distribuído semanalmente e, posteriormente, em tiragens diárias. Dietrich Eckartque, um dos participantes do da tentativa de golpe do Putsch da Cervejaria de 1923, um dos primeiros a utilizar o termo “Terceiro Reich”, foi o primeiro editor do jornal.

[9] GPU é uma das siglas para Diretório Político de Estado (ou Administração Política Estatal), o serviço de inteligência da República Federativa Soviética Russa (RFSR), e, posteriormente, da União Soviética (URSS), formada por integrantes do órgão anterior, a Cheka*.

[10] Ivan Nikitich Smirnov, nascido em 1881 em Gorodishche, foi um importante membro do Partido Bolchevique. De 1920 a 1923, ele atuou como membro do Comitê Executivo do Partido Comunista Russo. Ele também ocupou um cargo na Comissão Revolucionária da Sibéria e foi membro do Serviço de Inteligência do Partido Comunista Russo. Ele participou dos massacres contra camponeses rebeldes em Tyumen e nas montanhas de Altay. Teve contatos próximos com Grigory Zinoviev. Em abril de 1922, ele participou como membro do Fórum Supremo da Economia Nacional Soviética. No ano seguinte, ele se tornou um membro ativo da oposição trotskista. Ele defendeu abertamente a deposição de Stalin após a morte de Lênin, e assinou a chamada Declaração dos 46, uma declaração oposicionista. Em novembro 1927, ele foi afastado de seu cargo no Comissariado do Povo. No mês seguinte, foi removido do Partido Comunista. Em dezembro de 1927, ele foi condenado a três anos de exílio. Em outubro de 1929, Smirnov “rompeu com o trotskismo” e foi readmitido no Partido Comunista em maio de 1930. Depois disso, chegou a ocupar alguns cargos menores na administração soviética. O “arrependimento” dele durou pouco: Smirnov continuou ativo em trabalhos de espionagem e sabotagem, participando da organização trotskista. Em 14 de janeiro de 1933, ele foi novamente preso e expulso do partido no mês seguinte. Em 14 de abril de 1933, ele foi julgado e sentenciado a cinco anos de trabalhos forçados. Novamente julgado no chamado “Processo de julgamento do caso da oposição anti-soviética unida, trotskista-zinovievita”, foi sentenciado à morte em 24 de agosto de 1936. Smirnov foi executado no dia seguinte*.

[11] Georgy Leonodovich Pyatakov foi um revolucionário bolchevique, nascido em 6 de agosto de 1890. Iniciou sua vida política e seu ativismo como um anarquista, participando, depois da chamada Oposição de Esquerda ao governo de Stalin. Georgy foi um membro muito ativo da organização de sabotagem trotskista. Georgy foi um dos mais ferrenhos opositores de Lênin. Foi expulso do partido por pertencer ao bloco trotskista-zinovievita, mas foi readmitido em 1928 após “renunciar ao trotskismo”, tornando-se deputado das Indústrias Pesadas. Em 1936, é novamente acusado de atividades anti-partidárias e anti-soviéticas, sendo expulso do partido. Acusado de conspiração junto a Trotsky para a derrubada do governo de Stalin, foi também apontado como participante de conspirações com os nazistas, na intenção de derrubar o poder da União Soviética, prometendo recompensas aos nazistas na forma de concessões territoriais soviéticos a eles. Ficou comprovado que ele manteve encontros secretos com Trotsky na Normandia, por conta desses propósitos. Em 30 de janeiro de 1937, ele foi julgado, condenado como culpado e executado*.

[12] Testimonium pauperatis é uma expressão em Latim usada para designar imperfeição, mancha, defeito ou desgraça*.

[13] As empresas Borsig e Demag eram “fronts” da Inteligência Militar Alemã. Ao lidar com essas empresas, Pyatakov estava apto a estabelecer somas consideráveis que eram colocadas à disposição de Trotsky. Uma testemunha independente, o engenheiro americano John D. Littlepage, observou pessoalmente as negociações de Pyatakov com essas firmas alemãs. Littlepage havia sido empregado pelo governo soviético como um expert nas indústrias de ouro e cobre. Numa série de artigos sobre suas experiências na Rússia Soviética, ele publicou o seguinte, no Saturday Evening Post, em janeiro de 1938:

“Eu fui a Berlim na primavera de 1931, com uma comissão de compras liderada por Pyatakov; meu trabalho era oferecer conselhos técnicos nas compras de maquinário de mineração... Dentre outras coisas, a comissão em Berlim deveria comprar muitas dezenas de equipamentos de mineração, que variavam de 100 a 1000 cavalos de potência... A comissão pediu por cotas na base de pfenings por quilograma. Depois de alguma discussão, os representantes alemães da Borsig e da Demag reduziram seus preços para algo entre 5 e 6 pfenings por quilograma. Quando eu estudei essas propostas, descobri que essas firmas substituíram as bases de ferro, que pesavam várias toneladas, por bases de aço leve providenciadas nas especificações, o que reduziria o custo de produção por quilograma, mas aumentava o peso, e, contudo, aumenta os custos ao comprador. Naturalmente, eu fiquei satisfeito em fazer essa descoberta, e comuniquei isso aos membros da comissão com um sentimento pessoal de triunfo... O assunto já estava tão acertado, que Pyatakov poderia ter ido de volta a Moscou e mostrado que ele havia sido bem sucedido em conseguir preços menores, mas, ao mesmo tempo, teria de pagar  custos adicionais por conta de um monte de peças sem valor, feitas de ferro, o que teria feito com que os alemães lhe dessem gastos adicionais substanciais. Ele se safou com o mesmo truque em algumas outras compras de equipamentos para mineração, apesar de eu ter evitado esse prejuízo em específico.”.

Mais tarde, Littlepage observou que haviam vários níveis de sabotagem industrial nos Urais, onde, por conta do trabalho de um engenheiro trotskista chamado Kabakov, a produção em certas minas era mantida deliberadamente baixa. Em 1937, como Littlepage aponta, Kabakov havia sido “preso por acusações de sabotagem industrial”. “Quando eu soube da prisão dele, eu não me surpreendi”. Ainda em 1937, Littlepage encontrou outras evidências de sabotagem na indústria soviética, dirigidas pessoalmente por Pyatakov. O engenheiro americano havia reorganizado certas minas valiosas no sul do Cazaquistão e deixou instruções detalhadas por escrito, para que os trabalhadores soviéticos pudessem segui-las, assegurando a produção máxima.

“Bem”, escreveu Littlepage, “um dos meus últimos trabalhos na Rússia, em 1937, era atender a um chamado urgente nessas mesmas minas. Milhares de toneladas de minério enriquecido haviam sido perdidas, impossíveis de serem recuperadas, e, em poucas semanas, se nada tivesse sido feito naquele período, o depósito inteiro poderia ter sido perdido. Eu descobri que uma comissão veio do quartel de Pyatakov. Minhas instruções haviam sido jogadas no lixo, e um sistema de mineração havia sido introduzido através daquelas minas, o que havia sido a causa certa da perda de grande parte daquele estanho em tão poucos meses”. Littlepage achou “exemplos flagrantes de sabotagem deliberada”. Antes de deixar a Rússia, e depois de ter submetido um relatório completo sobre suas descobertas às autoridades soviéticas, muitos membros da sabotagem trotskista já haviam se evadido. Littlepage descobriu que os sabotadores haviam usado suas instruções como “a base para a degradação deliberada da produtividade da mina”, ao fazerem exatamente o contrário daquilo que ele havia recomendado.

Os sabotadores admitiram, segundo Littlepage observou mais tarde, que “eles haviam organizado a conspiração contra o regime de Stalin reunindo comunistas opositores, convencendo-os de que eles eram fortes o bastante para derrubar Stalin e seus associados e tomar o poder para eles mesmos”.

[14] Há poucas informações sobre Shestov. Seu nome completo era Alexei Alexandrovich Shestov, nascido em 1896. Atuou nas organizações trotskistas de sabotagem, e foi provavelmente julgado, condenado e sentenciado à execução pela justiça soviética no expurgo anti-trotskista realizado por Stalin*.

[15] Sergei Alekséyevich Bessonov foi membro do partido Bolchevique, tendo servido no Exército Vermelho durante a Revolução Russa. Mais tarde, aliou-se a Trotsky. Tendo sido expulso por Stalin e readmitido posteriormente, atuou como espião infiltrado na comissão comercial soviética na Alemanha. Foi detido e julgado pelo Colégio Militar da Corte Suprema da URSS em 13 de março de 1938 (por traição, espionagem, sabotagem e conspiração contra o regime soviético), e executado na floresta de Medvédev, nas proximidades de Oriol, em 11 de setembro de 1941, por fuzilamento*.

[16] Os alemães estavam particularmente preocupados sobre a nova base industrial que Stalin estava construindo na longínqua parte para além da porção ocidental da Sibéria, nos Urais. Essa base estava fora de alcance de bombardeios e, no caso de uma guerra, poderia ser extremamente útil a favor do lado soviético. Os alemães desejavam penetrar nessa base por meio de espiões e sabotadores. Borsig, Demag e a firma Frölich-Klüpfel-Dehlmann, que já tinham contratos com o governo soviético, fornecendo maquinário e assistência técnica ao Plano Quinquenal, foram usadas como instituições de fachada pela Inteligência Militar Alemã. Espiões alemães e sabotadores foram enviados à Rússia para atuar como “engenheiros” e “especialistas”. 

A Inteligência Militar Alemã também recrutou agentes dentre engenheiros soviéticos na Alemanha, que eram suscetíveis ao suborno e extorsão. Um desses engenheiros soviéticos, Mikhail Stroilov, foi alistado como espião alemão em Berlim, em dezembro de 1930, e foi subsequentemente recrutado para a organização trotskista na Sibéria, conforme ele mesmo afirmou num depoimento a um tribunal soviético após sua prisão em 1937:

“Este negócio começou gradualmente com meu encontro com o espião alemão Berg. Ele falava Russo excelentemente bem, já que ele havia vivido na Rússia, em São Petersburgo, 15 ou 20 anos antes da Revolução. Esse homem visitou a Inteligência Técnica muitas vezes e teve conversas comigo sobre questões de negócio, particularmente sobre ligas manufaturadas pela firma de Walram. Berg disse que eu deveria ler o livro ‘Minha Vida’, de Trotsky. Em Novosibirsk, especialistas alemães começaram a vir até mim com passaportes. Até o fim de 1934, seis homens vieram me ver: Sommeregger, Worm, Baumgarten, Maas, Hauer e Flessa (‘engenheiros’ empregados pela firma alemã Frölich- Klüpfel-Dehlmann. Meu primeiro relatório, feito em janeiro de 1932 através do ‘engenheiro’ Flessa, dizendo sobre o vasto plano de desenvolvimento que estava sendo feito na base de Kuznetsk, era, com efeito, espionagem. Eu recebi instruções de que eu deveria prosseguir com a ação de degradação decisiva e destrutiva. O plano para a deterioração econômica e o trabalho destrutivo estava sendo desenhado pela organização trotskista da Sibéria ocidental”.

[17] Serge Mrachkovsky é uma personalidade obscura. Sabe-se que foi um dos líderes da chamada “Oposição de Esquerda” dentro da União Soviética, que reunia diferentes grupos de Esquerda contra Stálin. Fez parte da chamada Quinta Coluna Trotskista na Rússia Soviética. Morreu em 1936, provavelmente executado*.

[18] Pouco se sabe sobre Ephraim Dreitzer. Ele foi um dos líderes do movimento trotskista, tendo sido posteriormente preso sob as acusações de conspiração contra o sistema soviético, sabotagem e espionagem*.

[19] Hans von Seeckt foi um militar e estrategista alemão. Durante a Primeira Guerra, atuou na frente Leste. Ainda durante a República Weimar, Seeckt fez acordos com Trotsky, quando este ainda era chefe do Gabinete de Guerra. É considerado como um dos pais teóricos da tática de guerra da Blitzkrieg. Morreu em 1936*.

[20] Quinta Coluna é um termo para referir-se a grupos de sabotagem e propaganda recrutados dentro de um país, contra seu próprio governo*.
Share:

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook