sábado, 23 de abril de 2016

O feminismo pós-moderno como ferramenta imperialista




Recentemente, uma matéria veiculada pela revista Veja (reconhecidamente polêmica e oportunista, um canal de mídia que exemplifica a prostituição da nossa imprensa, disfarçada de "liberdade de expressão") causou furor em diversos grupos e militâncias "feministas".


Antes de iniciar nossa análise sobre isso, cabe ressaltar um ponto crucial: o feminismo de que falamos aqui é o feminismo pequeno-burguês, que serve ao imperialismo, o feminismo individualista e "igualitário", o feminismo universalista que enxerga na mulher uma ferramenta de militância, e nada além disso.

É preciso fazer uma distinção clara entre esse feminismo (sim, existem outros "feminismos") e os feminismos autênticos: identitários, coletivistas, diferencialistas. Uma zapatista, por exemplo, está no segundo grupo; uma adolescente mimada de classe média alta que encontra no exibicionismo uma forma de "luta política" está no primeiro grupo.

O feminismo que esteve na linha de frente da conquista dos direitos civis da mulher, de sua liberdade de expressão, do amparo às trabalhadoras e aos trabalhadores, contra as formas de imperialismo, esse tem nosso respeito. Aquele que enxergava na mulher um ser forte e capaz de lutar, esse tem nosso respeito.

O feminismo vazio que fala de "empoderamento" enquanto adota uma retórica vitimista superficial, cujo único propósito é degradar e degenerar as mulheres tomando como parâmetro o mais baixo e vil comportamento masculino, esse tem nosso desprezo. Esse feminismo não serve às mulheres, não serve aos trabalhadores: serve ao capital mundial, ao globalismo, ao imperialismo. É um produto mal-acabado dele.

É interessante notar como esse mesmo feminismo recebe apoio e voz nos grandes canais de comunicação. É tolerado, permitido e até mesmo incentivado em larga escala. Oras, quando um organismo é verdadeiramente contestador e ameaça o sistema, ele não é incentivado, ele é perseguido. 

As "feministas" (leia-se narcisistas com problemas de identidade) repudiaram a matéria da Veja, argumentando que ela estabelece um "padrão" e menospreza outros estilos de vida, e que não há estilos superiores aos outros. Oras, a matéria (comprada, por sinal) não faz apologia a nada, apenas descreve uma situação, glorificando a vida de uma socialite casada com um grande oligarca milionário, que provavelmente já conduz o país junto com outros grandes barões parasitas.

Um estilo de vida alimentado pelo sangue, suor e impostos dos trabalhadores - e de milhões de mulheres trabalhadoras. As "feministas" poderiam ter atacado esse ponto, o cerne da questão. Mas nem sequer tocaram no assunto, por que seu individualismo já as deixou cegas para qualquer pauta verdadeiramente real e popular.

Em meio ao caos na educação, o que sai da boca delas é "vai ter shortinho sim"; em meio ao caos na infraestrutura e na saúde pública, exigem "cirurgia de mudança de sexo gratuita" e "banheiros específicos para o terceiro sexo". Esse "feminismo" nada mais é do que a análise de problemas de primeiro mundo num país subdesenvolvido como o nosso. Pode servir bem na Escandinávia, mas não serve para o Brasil.

Ficou evidente o desdém que esse "feminismo" tem pela figura materna e do lar. Dizem que a mulher é livre para escolher ser o que quiser; mas, caso escolha a vida doméstica e a maternidade, e faça qualquer propaganda positiva disso, é taxada instantaneamente de "retrógrada" e é marginalizada pelo próprio "movimento". 

Há estilos de vida superiores SIM. Uma mulher que é responsável em seu trabalho, busca suas conquistas de maneira saudável, cuida de seus filhos e auxilia sua família é sim superior a indivíduos narcisistas, exibicionistas, cuja única luta política é o sexo desenfreado, o vício em drogas e em álcool. Dizer que estes dois estilos de vida estão no mesmo patamar é menosprezar e rebaixar as mulheres que verdadeiramente fazem valer seus espaços.

Essas mulheres sim lutam contra o capitalismo, recusando a submissão a um sistema injusto de trabalho e ao carreirismo vazio. Mantém suas tradições e sua cultura. Do outro lado, o "feminismo" moderno atua como uma ferramenta anti-identitária, de destruição das culturas, do valor espiritual e religioso e daquilo que é verdadeiramente popular. Isso fica explícito com o esforço cada vez maior em copiar comportamentos e pautas de países imperialistas - os mesmos países que dizem odiar.

Marcela Temer não representa a mulher "recatada e do lar". Essas mulheres são em sua maioria pobres, lutam por sua sobrevivência e de seus filhos. Não levam uma vida de luxos, uma vida burguesa. Batalham dia após dia. Veja é um canal oportunista, e soube bem condensar o ódio dos dois lados: a Direita e seu ideal feminino vitoriano romantizado e a Esquerda e seu ódio a qualquer menção de atributos positivos.

A mulher "bela, recatada e do lar" não é um instrumento passivo, dominado, retrógrado. É a garantia do futuro, é a porta das novas gerações. É guerreira e deve ser valorizada como tal. Essas sim são anti-imperialistas, as verdadeiras revolucionárias, pois enfrentam o julgamento de tudo e de todos e a constante pressão do sistema. 

Não adianta se desfigurar, se expor, se exibir, adotar uma estética "transgressora" e "revolucionária" se, no final das contas, você está perfeitamente alocada como uma das engrenagens do sistema. E o "feminismo" moderno é isso: o conjunto de milhões de pequenas engrenagens no grande relógio do sistema mundial.

Não adianta falar em "empoderamento" se, no final das contas, você serve a interesses de grandes magnatas, do grande capital financeiro global, adotando um comportamento condicionado de massas, totalmente manipulável e perfeitamente adestrada por esses mesmos interesses maiores.
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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Rômulo Cézar: Marx como crítico da Esquerda de seu tempo


“Semeei dragões, mas colhi pulgas”
(Karl Marx)



A esquerda hegeliana distorceu Hegel (o filósofo do Idealismo Absoluto), tanto por separar a dialética do Sistema (os jovens hegelianos identificavam a dialética como o aspecto progressista da filosofia de Hegel, e o Sistema seria o aspecto reacionário, conservador), quanto por trocar o conceito de Espírito (Geist), ou a Ideia Infinita, pelo de matéria. O que os hegelianos de esquerda fizeram não foi outra coisa a não ser uma fragmentação, motivada ideologicamente ou por comodismo, da filosofia de Hegel, vez que a apreensão do todo de sua filosofia é trabalho de uma vida de estudo, e não somente do hegelianismo, é preciso conhecer razoavelmente bem os filósofos que embasaram o idealista alemão.

Karl Marx tem destaque entre os estudiosos de Hegel, por ter empreendido uma leitura forte do Sistema e uma revisão crítica [1]. Marx se mantém fiel a Hegel no quesito de priorizar o todo sistêmico: assim como em Hegel, as coisas, entende Marx, têm sentido apenas na totalidade. Afirmava: “Porque é mais fácil estudar o organismo, como um todo, do que suas células” (Marx, O Capital, livro 1). A crítica de Marx e Engels, por sinal, à juventude hegeliana – movimento da esquerda hegeliana –, em A Ideologia Alemã (expõe a filosofia mais desenvolvida de Marx), é principalmente no sentido de que os jovens hegelianos, que estariam presos a ilusões ideológicas, fragmentaram a filosofia de Hegel, tomaram uma parte pelo todo de sua filosofia, assim, desejando concluir a Realidade a partir dessas ideias fragmentárias e parciais. Nesse sentido, Marx, do mesmo modo que Engels, defendeu a filosofia hegeliana, ainda que o revolucionário socialista comunista tenha sido um dos maiores críticos de Hegel. 

A critica marxista aos jovens hegelianos é ainda com relação à atitude crítica deles, uma “crítica roedora de ratos”. Os jovens hegelianos não realizariam a verdadeira crítica, científica, apreciação dialética, mas uma mera negativa, queriam, por exemplo, eliminar algo sem realização deste algo. É por isso que Marx compreendia, e isso desde a sua juventude em que já trabalhava com a ideia da “realização-abolição”, que somente o filósofo realizado poderia suprimir a filosofia (a busca teórica do sentido universal). Realizar a filosofia é superá-la. Não chegar a uma filosofia crítica, como ainda uma crítica da filosofia. Portanto, a “crítica” em Marx é, de fato, uma análise crítica, o que significa, uma abstração racional e depuração dialética dos acontecimentos conhecidos. Não é uma negação pela negação.

Além disso, os jovens hegelianos são criticados por se esforçarem em demolir teoricamente a religião. Por exemplo, Feuerbach, materialista e coletivista ateu, pensava que a religião revela a essência do homem, ainda que de forma alienada. Cabe ao sujeito, portanto, empenhar-se na crítica demolidora da religião, fugindo assim do modo alienante e buscar pensar o homem concreto e real (projeto da “filosofia do futuro” que tem início com a sua crítica do idealismo de Hegel). Feuerbach pretende a dissolução da teologia em antropologia. Já outro jovem hegeliano que se colocou na luta contra a religião foi Bruno Bauer, combatido por Marx em A Ideologia Alemã. Bauer chegou a ter a sua licença de professor cassada pelo Estado prussiano dado o seu ateísmo militante. O seu objetivo era, como ele mesmo diz, “arrebentar” com todas as faculdades de teologia.


É claro que a crítica de Marx à esquerda de seu tempo não se fixa na juventude hegeliana. Marx era crítico impiedoso dos liberais (vistos como de “direita” nos dias de hoje, mas originalmente de “esquerda”), anarquistas vários, e mesmo socialistas [2].

Hoje, Marx e Engels realizariam a crítica dos autodenominados “marxistas”. Marx, em realidade, já havia feito a crítica desse tipo de “seguidor”. Os marxistas, sobretudo os atuais, têm mais da esquerda hegeliana, se bem que esta tinha maior erudição filosófica, do que da “filosofia” socialista e comunista de fato [3]. Marxistas atuais, de porta de universidade pública, não compreendem o ideal revolucionário e a questão dialético-histórica, pensam em aniquilar o passado e fundar o completamente “novo”, quando a superação dialética (suprassunção) também significa a manutenção da coisa anterior superada.

Tomar textos e fragmentos soltos de livros de Marx, como fazem esquerdistas típicos, não vai trazer esclarecimento sobre as questões levantadas por ele; nenhum filósofo é compreendido por partes. Com isso, você obterá uma visão supérflua ou, na melhor das hipóteses, intuições básicas, que têm sua importância, inegável, de sua teoria revolucionária, que para ele é a única verdadeiramente “científica”, já que as ciências de sua época partiam de uma consciência determinada historicamente, no caso, a burguesa. No entanto, Marx & Cia. não rompeu com a mentalidade burguesa e liberal [4]. A filosofia marxista, ou o socialismo científico como Marx gostava de chamar, é burguesa em vários sentidos, entre eles: por dividir burgueses e não-burgueses, dualismo inventado pela denominada classe burguesa após o seu levante por meio das revoluções monumentais, pelo internacionalismo dos povos, negação das identidades locais, por conta do materialismo e ateísmo, pela contrariedade à família tradicional etc. etc. etc.

O marxismo (termo rejeitado por Marx, com toda razão) se edificou com a crítica não somente da classe burguesa e doutrina política e econômica do liberalismo, como ainda de todas as demais teorias vigentes na época; é inegável que o marxismo tem um humor do combatente do mesmo modo que aqueles cristãos que criticam tudo e todos e são acusados, hipocritamente, de chatos (e o são) por esses mesmos sujeitos de “esquerda” que se arrogam críticos (são tão críticos quanto ofendidos, e não se verifica pensar dialético).  Ao contrário do que ocorre em uma filosofia de crítica bem realizada, o marxismo cometeu o erro dos excessos críticos, sem quase nenhuma apreciação do positivo, do valor, em teorias filosóficas distintas.

_________________________

[1] Críticos, como Eric Voegelin, apontam que Marx não compreendeu Hegel, que há erros interpretativos por parte do primeiro em relação ao último.

[2] A título de curiosidade, Karl Marx começou como um crítico do socialismo e do comunismo, que entendia como sendo “abstrações doutrinárias”. Só depois de estudar mais a fundo e participar de movimento social operário, clandestino, na França que a sua concepção de comunismo muda.

[3] Marx não via o comunismo como uma filosofia.

[4] O comunismo é entendido pela Igreja Romana como um liberalismo no fim das contas. Não há oposição fundamental de liberalismo e comunismo, é somente estudar a base principiológica do liberalismo, de como o comunismo é continuação teórica do liberalismo, uma teoria econômico-social erigida em cima de pressupostos básicos da doutrina liberal.

Se formos partir de filósofos como Martin Heidegger, observaremos que a metafísica, a grosso modo e ligeiramente, uma filosofia do Fundamento, de liberalismo e comunismo, e ainda de outras ideologias, é a mesma, a metafísica da subjetividade (que designa a "metafísica" moderna), uma metafísica que tem como "absoluto" o "sujeito".
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segunda-feira, 11 de abril de 2016

José Primo de Rivera: As vantagens de ser pistoleiro


_ Dom José...

     Fui agarrado pelo braço. Não tive outra opção além de me deter. E encontrei, frente a mim, fechando-me o passo, aquilo que era uma estranha figura. Tratava-se de um homem mais alto, musculoso, sem pescoço nem gravata, mal aparentado, cuja cara se contraía, debaixo da viseira do gorro, em um sorriso ladino e feroz.

_ O senhor não se lembra de mim, dom José?
_ Sim, sim... Você me parece...
_ Quem eu sou?
     Meu interlocutor não era amável. Não há nada pior do que dizer “quem sou?” a alguém que, no rosto, se nota não nos ter reconhecido. Titubeei. E, então, o facínora que tinha diante de mim deu-se a conhecer, com uma gargalhada sardônica:
_ Sou Emerenciano Bizco, “O Clandestino”. Não te lembras? Você teve como trabalho me defender diante do tribunal, há cinco anos, numa causa por roubo.
_ É verdade! Por certo que minha defesa, segundo pareço me lembrar, valeu de pouco: condenaram-te.
_ Sim; mais do que tudo por ser quatro vezes reincidente. Mas saí pronto da cadeia. Tive tantos indultos...
_ Me alegro.
     Aqui eu poderia ter dado por terminada a conversa. Mas não soube resistir a uma coceira catequista recompensadora.
_ Estou certo, Emerenciano – disse – de que o senhor irá pelo bom caminho. Assim deve ser. Não há nada como viver dentro da moral para levar uma existência feliz e tranquila. A moral e a lei devem presidir nossos atos. Repare em mim – me aventurei a aludir, sem a menor modéstia -: sabe aonde vou? Vou entregar às autoridades a única arma que possuo: um antigo revólver, grande como um trabuco, que foi do meu avô. Veja bem: esse revólver não é, para mim, apenas uma forma de defesa; é, também, uma lembrança de família. Sem dúvida, basta que um Decreto seja ditado, ordenando-me entregá-lo, para que imediatamente eu o entregue.
     Esperava os efeitos edificantes do meu discurso no espírito de Emerenciano. Este, não obstante, limitou-se a me favorecer outra vez com seu sorriso horrível, e me disse:
_ Vá o senhor fazer isso primeiro, dom José.
_ Como?
_ Eu tenho cinco pistolas.
_ Cinco pistolas?
_ Sim. E mais, te direi... Mas – requereu, baixando a voz -, a partir desse momento te exijo segredo profissional.
_ Conte com ele.
_ Tenho cinco pistolas, e já as usei!
_ O que você me disse?
_ Sim, dom José; por sorte ou por desgraça, eu não entrei pelo bom caminho, como você acreditava. Desde que saí da prisão, tomei parte no assalto de dois bancos. Em um deles, tive até que matar o caixa do banco. Má sorte!
_ Isso não o envergonha, Emerenciano?
_ O que o senhor quer? A essa altura, não se poder ter vergonha. O que faz falta é ter pistolas. Se as recolhem, dom José, perdoe-me por dizer isso, o senhor não faz ideia do que acontece. Mas como alguém pode saber que eu tenho cinco pistolas? Aos senhorezinhos, descobririam, pois, como eles mostram suas guias e licenças, a polícia sabe a todo o momento que eles têm armas. Mas eu, como o senhor já percebeu, não tenho licença alguma.
_ Ou seja, Emerenciano: o senhor trata de me convencer que é melhor ter armas sem autorização, do que procurar ajustar-se à lei. O senhor quer, nem mais nem menos, aconselhar que se viva fora da lei.
_ Não, eu não me meto em filosofias – contestou Emerenciano -. Só digo o que acontece.
_ E se eu, por exemplo, quisesse ter armas na minha casa, sem autorização, o que aconteceria comigo caso eu fosse descoberto?
_ Iriam te cansar: poderiam te cobrar uma multa de dez mil pesetas, ou te confinar num povoado e até te meter na cadeia por vários meses.
_ A você também, "Clandestino”.
_ O senhor se engana. Dez mil pesetas de multa, pra mim?
_ Mas, e a cadeia?
_ Ui, a cadeia! Eu devo à Justiça vinte e tantos anos de prisão por aqueles assaltos. Estou declarado em situação de rebeldia por duas Audiências. Se me pegam, então meu cabelo cai. Mas, nesse caso, o que me importa que, por ter as pistolas, me prendam por uns meses mais? De perdidos, ao rio. Para o senhor, seis meses de cadeia seriam um transtorno; para mim, esses meses são um tempinho sem importância, perto dos vinte e tantos anos que devo.
_ Então, o senhor não pensa em entregar as pistolas?
_ Nem em sonho.
_ Pois eu sim vou entregar meu revólver.
_ Faz bem. Mas... Ouça o senhor – disse-me Emerenciano, prontamente, novamente olhando para mim -: tens a guia desse revólver?
_ Não... Creio que não; está em casa há tantos anos! Desde antes de existirem as guias.
_ Então – aconselhou o “Clandestino” com gravidade -, não entregue. O senhor vai se expor ao desgosto.
_ Por quê?
_ Porque, ao ter esse revólver sem guia, o senhor já está cometendo o delito de posse ilícita de armas. Pode ser que até o processem.
_ É verdade! O senhor conhece as leis melhor do que eu.
_ Um pouco de prática, nada mais – aludiu meu interlocutor, com modéstia.
_ O que eu posso fazer, então? – perguntei, chateado – Se entrego o revólver, descobrem que o tenho ilicitamente, e se não entrego, e o encontram, caio debaixo da Lei de Defesa da República. Aconselhe-me o senhor, Emerenciano Bizco.
_ Quer que eu te aconselhe? Pois, então olhe: dê-me o revólver.
_ O que o senhor disse?
_ Que me dê o revólver; é o melhor. O senhor sai de seu compromisso, e eu já não temo arriscar nada.
     Olhei-o, comovido. Aquele homem abria as portas da salvação para mim.
_ Aproxime-se – eu lhe disse.
     Colocou-se do meu lado; seu bolso junto do meu bolso, com a exatidão de um expert. Saquei o enorme revólver antigo, e o deslizei entre as roupas do “Clandestino”. Logo olhei com sobressalto ao nosso redor. Creio que ninguém nos viu. Murmurei:
_ Obrigado, Emerenciano; nunca me esquecerei desse favor.
_ De nada, Dom José. Até a próxima.

     Apertamos nossas mãos, e cada um seguiu por seu caminho. Eu já não tenho armas. Estou dentro da lei. Os pistoleiros sim as têm, e as conservarão. Talvez, inclusive, um dia tratem de usá-las contra os bons cidadãos, como eu. Mas irão se equivocar se esperam que nos defendamos pelo mesmo procedimento. O que faremos será depreciá-los com toda nossa alma, como sujeitos desprovidos da mais rudimentar sensibilidade jurídica. E, se eles podem mais do que nós, se nos assaltam, se nos roubam e se nos matam, nós morreremos como morrem aqueles que fizeram um culto à lei.


(José Antonio Primo de Rivera; La Nación, 17 de novembro de 1931)


Tradução: Jean Augusto G. S. Carvalho
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sábado, 9 de abril de 2016

Harlei Nascimento: Nacionalismo popular x Nacionalismo burguês


O nacionalismo emergiu como uma ideia progressista junto da formação e desenvolvimento de cada nação. Porém, ele foi entendido no passado como uma ideologia que defende interesses burgueses. É verdade que nos dias do movimento nacionalista contra o feudalismo, a recém-surgida burguesia, erguendo o estandarte do nacionalismo, esteve na vanguarda do movimento. 

Naquela época, os interesses das massas do povo e da recém-surgida burguesia eram basicamente coincidentes em sua luta contra o feudalismo. Portanto, o estandarte do nacionalismo parecia refletir os interesses comuns da nação. Conforme o capitalismo se desenvolveu e a burguesia se tornou a classe governante reacionária após revoluções burguesas vitoriosas em vários países, o nacionalismo foi usado como meio de defender os interesses da classe burguesa. 

A burguesia disfarçou seus interesses de classe como interesses nacionais, e usou o nacionalismo como um instrumento ideológico para solidificar sua dominação classista. Isso levou o nacionalismo a ser entendido, entre o povo, como uma ideologia burguesa contrária aos interesses nacionais.

Nós devemos distinguir claramente entre o autêntico nacionalismo que ama a nação e defende seus interesses e o nacionalismo burguês que defende os interesses da classe burguesa. O nacionalismo burguês se revela como egoísmo nacional, exclusivismo nacional e chauvinismo imperialista no relacionamento entre países e nações; ele é reacionário na medida em que cria antagonismo e discordância entre países e nações, e põe em cheque o desenvolvimento de relações amistosas entre os vários povos do mundo.
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domingo, 3 de abril de 2016

Chesterton: "O capitalismo destruiu a Família"

"Aquilo que destruiu a família moderna foi o Capitalismo"

"Nunca será suficiente repetir que aquilo que destruiu a família no mundo moderno foi o Capitalismo. Sem dúvidas, isto poderia ter sido feito pelo Comunismo: isso se o Comunismo tivesse tido alguma oportunidade de crescer fora do ambiente semi-mongólico onde atualmente floresceu.  Mas, sobre  aquilo no qual somos tão preocupados, o que realmente causou a quebra do lar e encorajou o divórcio, que tratou as antigas virtudes domésticas com mais e mais desprezo, foi a época e o poder do Capitalismo

Foi o Capitalismo que forçou o feudo moral e a competição comercial entre os sexos; foi ele quem destruiu a influência dos pais em favor da influência do patrão; que conduziu o homem de sua casa à procura de empregos; que forçou-os a viver perto de fábricas e firmas, ao invés de estarem próximos às suas famílias; e, acima de tudo, foi o Capitalismo que encorajou, por razões comerciais, a exibição de publicidade e novidades espalhafatosas, que, em sua própria natureza, são a morte de tudo aquilo que é, por nossas mães e pais. chamado dignidade e modéstia.". 

– G.K. Chesterton

(Traduzido por: Jean Augusto G. S. Carvalho)


Fonte: Three Foes of the Family, páginas 442-445. 
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