quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A História da Honra - Parte II

por Brett Mckay

A Tentação de Sir Percival, quadro de Arthur Hacker


A decadência do conceito de honra no Ocidente

No post anterior entendemos a definição clássica de honra: ter uma reputação digna de respeito e admiração em um grupo de semelhantes. Essa reputação consiste tanto na sua aceitação como membro pleno do grupo (honra horizontal) como na estima que você recebe sobre sua primazia mais do que outros membros do grupo (honra vertical). Esse tipo de honra tradicional é algo muito público e externo. Ela exige que um homem pertença a um grupo e sofra as consequências sociais por não viver o código do grupo. Nossos antepassados entediam a honra dessa forma.

Ao longo dos séculos, por uma variedade de razões, o ideal e conceito de honra foi modificado e nesse apartado iremos explorar o porquê a ideia de honra pública e externa se tornou privada e interna  um tipo de honra, muitas vezes usada como sinônimo de "caráter" e "integridade". Hoje, a honra de um homem não é determinada por um grupo de semelhantes, invés disso, é determinada somente pelo homem. Pelo contrário, é uma coisa muito pessoal julgada apenas por si mesmo. No século XIX, o estadista alemão Otto von Bismarck capturou essa ideia de honra privada perfeitamente quando ele disse em um discurso:

Cavalheiros; minha honra não está nas mãos de ninguém, mas em minha própria, e não é algo que outros possam dedicar a mim; a minha própria honra, que eu carrego em meu coração, me basta inteiramente, e ninguém é capaz de decidir se eu a tenho. Minha honra diante de Deus e dos homens é minha propriedade, eu me dou tanto, eu acredito que eu merecia, e eu renunciaria qualquer extra.

Nesse post iremos explorar o porquê dessa mudança ter ocorrido. A transformação foi um processo longo e complexo, que envolveu diversas mudanças políticas, filosóficas e sociológicas no Ocidente. 

Um breve roteiro sobre o porquê dessa mudança

Antes de partirmos nessa traquinagem através da história da honra, creio que seja benéfico explanar uma pequena cartilha sobre como todos esses fatores estão entrelaçados.

Há dois principais fatores que enfraqueceram a ideia tradicional de honra. Primeiro, ao longo do tempo, honra foi baseada não na força e coragem, mas nas virtudes morais. A honra poderia ter continuado nesse estado – sua reputação pública poderia ter sido baseada no julgamento do seu grupo sobre como você estava vivendo sua vida moral (este estado de honra foi visto pela última vez durante o tempo do cavalheirismo vitoriano, que discutiremos no próximo artigo). Nessa evolução do conceito de honra, ela não apenas começou a ser baseada nas virtudes morais, como também se tornou algo privado – todo homem poderia criar seu próprio código pessoal de honra e somente ele poderia julgar se ele estava ou não fazendo jus ao seu próprio código. Foi dissolvido qualquer senso de código de honra partilhada, não havia mais qualquer consequências para ostentar o código de honra.

Grécia antiga

Embora seja fácil supor que o declínio da honra pública e a ascensão da honra privada é apenas um fenômeno recente, as sementes da transformação da honra de um conceito público para privado foram realmente plantadas no início da civilização ocidental.

Em sociedades sem sistemas jurídicos formais, a honra serve como um executor áspero da justiça. Assim, a democracia e o Estado de direito, dois acontecimentos importantes provindos da Grécia antiga, são em alguns aspectos, contrários à honra tradicional e torna seu exercimento menos importante para o funcionamento duma comunidade.

Esse conflito inicial entre a honra tradicional e ideais democráticos era, na verdade, o principal tema na trilogia de tragédia grega de Ésquilo. A Oresteia relata a maldição que recai sobre a família do rei Agamenon depois dele retornar para casa pós a Guerra de Troia. Uma série de assassinatos interfamiliares, tudo em nome da vingança e defender a honra dos membros da família assassinados, chegando ao fim quando a deusa Atena estabelece um julgamento com júri para tentar Orestes pelo assassinato de sua mãe. A honra pessoal e familiar é substituída pela obediência da lei democrática como a força dominante na sociedade grega. Isso não quer dizer que honra e vingança cessaram após o estabelecimentos de júris democráticas, mas eles passaram a ser reprovados. 

Dramaturgos não foram os únicos que questionaram a ideia tradicional de honra pública. Os filósofos Sócrates e Aristóteles levantaram preocupações sobre o ideal em alguns de seus ensinamentos. Para Sócrates, era melhor para o coletivo que ele fosse sujeito à regras de leis estaduais injustas do que manter sua honra ou reputação entre os seus camaradas por escapar de sua execução. De acordo com Sócrates, a preocupação com a reputação era algo apenas para os homens impensados. O que importava para o grande filósofo não era a opinião dos outros (a base da honra tradicional), mas, invés disso, saber que ele viveu de acordo com o que ele pensava que era justo. Dito doutra forma, Sócrates escolheu a integridade como seu ideal pessoal sobre a honra pública de seus seguidores.

Aristóteles mostrou um desinteresse similar a respeito da opiniões dos outros. Enquanto ele falava sobre honra como um bem externo em Ética a Nicômaco, ele estava desconfortável com a ideia de se basear exclusivamente na opinião dos outros. Invés disso, Aristóteles criou uma tentativa de argumento de que a honra deve ser baseada no alcance da virtude pessoal. Excelência significa cumprir o seu potencial. Em vez de ser leal ao código dum grupo, era mais virtuoso (segundo ele) ser fiel a própria virtude.

O Cristianismo primitivo

Três aspectos da ascensão e propagação da filosofia cristã tiveram um enorme impacto no enfraquecimento da honra como uma força cultural no ocidente: 1) inclusivo e universal; 2) sua ênfase é focada no interior invés das aparências; 3) seu pacifismo.

A honra tradicional é exclusiva

Nem todo mundo é bem-vindo no clube e o código de honra não se aplica a todos – apenas a membros. O cristianismo ensinava uma doutrina que era exatamente o oposto disso: inclusivo e universal. Aberto a qualquer um que cresse. Essa ideia de inclusão e universalidade é sintetizada bem em Gálatas quando Paulo diz: 

Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. Gálatas 3:28 

Intenção interior sobre aparências

A honra tradicional é baseada em sua reputação pública. O Cristianismo ensina que o pensamento sobre os outros de sobre ti não é tão importante quando o que Deus pensa sobre você. Além disso, enfatiza a importância da intenção privada e da fé. A câmara da mente e do coração dum homem somente pode ser visto por ele, só o indivíduo (e Deus) pode julgar sua intenção e se sua fé é adequada. 

Pacifismo

Enquanto incontáveis guerras foram travadas pela cruz. O cristianismo também inspirou muitos de seus fiéis para adotar o pacifismo devotado. 

Mas eu digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir numa face, ofereça-lhe também a outra. Mateus 5:39 

Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem. Mateus 5:44 

Isso se tornou a noção de honra para um cristão. Um cristão poderia encontrar um amplo apoio nas escrituras sabendo que ele era honrado ao não retaliar insultos ou contra-atacar quando atacado. O exemplo de Jesus Cristo se submeter voluntariamente na cruz iria inspirar incontáveis mártires cristãos para sacrificar suas vidas ao invés de lutar por elas.

Europa Medieval

Como o Cristianismo se espalhou e se tornou a religião do Estado de reinos e impérios, as demandas conflitantes da cultura da honra tradicional e da fé criaram um dilema moral e filosófico. A honra ainda ressoava como um instinto primal nos homens, mas, os elementos de sua nova religião pareciam totalmente contrários a ela. Para colmatar esse fosso aparentemente intransponível, governantes cristãos durante Idade Média, cristianizaram a honra tradicional através do desenvolvimento do código da cavalaria aristocrata. Cavalheirismo unido a honra primitiva criando ênfase na reputação pública, mas, acrescentando novas virtudes morais para o código que tinham de ser mantidas pela reputação, e assim, manter a honra de seus iguais.

A honra tradicional encontrou um lugar entre a religião cristã pacifista pela triagem da honra histórica enfadando as suas qualidades de força e coragem para a defesa dos indefesos. Os cavaleiros fizeram juramento para proteger os fracos e indefesos, especialmente as mulheres. Honestidade, pureza, generosidade e misericórdia – virtudes ensinadas pelos evangelhos – eram parte do código da cavalaria. De acordo com a admoestação do Cristianismo para estabelecer o seu tesouro não na Terra, mas no Céu, alguns grupos, como os Templários, faziam voto de pobreza.

Para além dessas pequenas adaptações, a cavalaria cristã medieval ainda era primariamente um código tradicional de honra. Cavaleiros prometiam defender sua própria honra e a honra de seus colegas. Se sua honra, ou reputação, foi manchada por um igual, o cavaleiro tinha o dever de revidar.

Um cavaleiro poderia de fato ser carente de virtude, mas contanto que ele pudesse derrotar aquele que trouxe luz a seu defeito moral em um combate, ele continuaria sendo um homem de honra (no ponto de vista dele). A história do relacionamento adúltero de Sir Lancelot com a esposa do Rei Arthur, a Genebra, ilustra isso de forma precisa: quando os outros cavaleiros descobriram seu pecado, Lancelot insistiu que sua levianidade não existia, dado que ele foi capaz de lutar melhor que seus acusadores.

Renascimento

Na Itália do século XIV, o Renascimento foi um período de grandes avanços nos campos da arte, ciência e filosofia. Paralelamente a essas evoluções, houve uma transformação na mentalidade ocidental que acabaria eventualmente enfraquecendo bastante o conceito clássico de honra: o desenvolvimento da ideia de sinceridade.

Sinceridade demanda duma pessoa falar e agir de acordo com seus pensamentos, sentimentos e vontades. No entanto, antes do século XVII, as pessoas não se preocupavam em ter uma vida interior tal como a entendermos hoje – em que você atomiza e analisa todos os seus sentimentos, emoções e motivações. Nesse período os homens começaram a sondar o conteúdo através de seus sentimentos e corações, eles criaram uma nova ideia relacionada a vida interior, contradizendo o conceito de honra tradicional, dado que muitas vezes ter honra exigia dum indivíduo colocar a lealdade do grupo em primeiro lugar. 

Isso poderia contradizer pensamentos, sentimentos e motivações pessoais. Dado que a honra tradicional depende da opinião dos outros, ela não se importa se você se sente um hipócrita ao seguir o código. Enquanto suas aparências externas estão em conformidade com o código do grupo, você mantém sua honra. 

Por essa razão, escritores e pensadores desse período começaram a questionar esse aspecto de honra e passaram a defender a sinceridade como o verdadeiro ideal. Shakespeare era um voraz critico desse conceito de honra e um forte defensor da sinceridade em suas peças. Em diversos de seus escritos, os personagens escolhem ser fieis a si mesmo, invés de se submeter ao código do grupo que estão inseridos.

A grande demanda nascente pela sinceridade durante essa época começou a mudar de forma drástica o conceito de como as sociedades entendiam a honra. Uma honra com base exclusivamente na reputação pública não parecia algo desejável. Você tinha de ser honesto, você tinha que ser verdadeiro para ser o núcleo de seu ser. 

Iluminismo

O foco do Iluminismo na tolerância e igualitarismo diminuiu ainda mais a honra tradicional – que em sua essência é intrinsecamente intolerante e anti-igualitária. 

Se você vive o código de honra do grupo, você terá direitos e privilégios que esse grupo oferece; se você não fizer isso, não será aceito no grupo e será visto como desonroso. Você não ganha respeito e louvor simplesmente por existir – a sua honra deve ser conquistada continuamente, se destacando no grupo. Mas, pensadores do Iluminismo começaram a transmitir a ideia de que todas as pessoas tinham certos direitos inalienáveis que eram naturais delas e não podiam ser retirados. Eles também revitalizaram o antigo ideal grego de democracia como uma forma superior de justiça das recompensas e dos castigos infligidos pelo conceito olho-por-olho. 

Romantismo

Enquanto a filosofia do Iluminismo corroeu o conceito tradicional de honra, a honra pública, outro grupo de pensadores do século XVIII e XIX, os romancistas, pegaram a ideia de sinceridade baseada no Renascimento e passaram a defender um novo tipo de honra, que era baseada na integridade pessoal. Os romancistas, liderado por Jean-Jacques Rousseau, acreditavam que o indivíduo e seus desejos deveriam vir antes das necessidades do grupo. Rousseau argumentou que a honra baseada na opinião dos outros (amour propre) era inferior a uma honra baseada no pensamento individual de si próprio (amour de soi). Para Rousseau e os romancistas, a honra deveria ser individual, interna e privada; não social, externa e pública.

Para justificar essa nova definição de honra, Rousseau e seus camaradas formaram uma teoria do desenvolvimento humano que sentimentaliza a solidão. Antes dos homens viverem formados em tribos, eles viveram independentes em um estado de natureza, preocupados apenas com sua própria felicidade e bem-estar. Essa teoria foi provada falsa posteriormente, obviamente. A humanidade, desde sempre tem sido de animais sociais e preocupada com o grupo. 

Apesar de estar errado sobre a história do desenvolvimento humano, Rousseau e os romancistas criaram um legado que marcou a importância do indivíduo, ideia essa que se intensificou no século XX e acabaria por se tornar o carrasco da honra tradicional. 

Apesar de todos esses empecilhos, a ideia de honra tradicional ainda mantinha uma forte influência na sociedade. Cavaleiros aristocráticos continuavam a desafiar outros homens quando sentiam que sua honra ou reputação era difamada ou julgada (apesar disso ser uma prática ilegal). Jovens soldados, que haviam crescido lendo poemas épicos e contos sobre glória no campo de batalha, entraram na guerra com a esperança de capturar esse senso de honra que Homero e tantos outros descreveram.

Conclusão

Ou seja, tal como podemos ver, a transformação da honra duma ideia pública para privada não é um fenômeno recente. As sementes foram plantadas nos primórdios da civilização ocidental. Ideias como o Estado de direito, a democracia, a sinceridade pessoal, igualitarismo e individualismo fomentaram um ambiente antiético para a honra tradicional. No entanto, foi somente no século XX que o conceito de honra tradicional finalmente se concretizou, mudou de "ter uma reputação pública digna de respeito" para simplesmente "ser fiel aos próprios ideias".

Como foi dissertado no primeiro post, diversas pessoas fazem reflexões sobre a honra, mas realmente não sabem o que ela significa ou como foi vista historicamente. Uma vez que você entenda, você pode pensar que honra não é algo bom. Certamente, muitas das sementes da dissolução da honra, tornaram-se verdades inquestionáveis em nossa cultura moderna, e provavelmente, ressoou em seu pensamento sobre a honra. Mas, nos próximos posts iremos entender que embora pessoal, a honra individual tem um valor laudatório, assim como a honra clássica, ela também pode ser uma força moral e poderosa.
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