segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A História da Honra - Parte I


O que é honra?

Através do tempo e cultura, honra e virilidade estiveram indissociavelmente interligadas. Em diversos casos, essas palavras foram sinônimos. Honra perdida, masculinidade perdida. Dado que honra era um aspecto central na identidade masculina, homens costumavam ir a grandes aventuras para ganhar honra ou para evitar sua perda.

Se dermos uma olhar superficial na História, perceberemos que a honra acaba surgindo diversas vezes como um tema central na literatura e na vida. Os poemas épicos de Homero são primariamente sobre honra e a busca do homem para alcançá-la e mantê-la. Se você ler as peças de Shakespeare de forma atenta, descobrirá que honra e masculinidade são temas recorrentes. Durante o século XVII ao XX, homens da elite regularmente se envolviam em duelos de "campos de honra" para defender sua masculinidade. Ao assinar a Declaração da Independência, os Pais Fundadores da América disseram "nós mutuamente prometemos uns aos outros as nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra”.

Mas, o que exatamente é honra?

Poderíamos pesquisar no dicionário, em nosso léxico moderno, sua origem etimológica e ainda restariam dúvidas. Ao questionar alguém sobre "o que é honra?", a maioria não conseguiria dar uma resposta objetiva. Achamos que sabemos o que é, mas teríamos dificuldade em descrevê-la. A maioria poderia argumentar que honra é ser fiel a um conjunto de ideais pessoais ou ser um homem íntegro.

Honra é igual a integridade? Essa é a definição geral em nossa sociedade. Na verdade, é como definimos a honra em nosso livro

Essa definição de honra, enquanto correta em nosso uso moderno na sociedade, não se encaixa realmente no significado de honra que Homero descreveu, o significado pelo qual diversos guerreiros morreram com orgulho em campos de batalha ou o significado que diversas nações idealizavam. Com exceção d'alguns grupos masculinos remanescentes como os militares, policiais, artistas marciais, gangues e facções criminosas, praticamente não existe mais o entendimento de honra que tinham nossos antepassados. Geralmente a honra é vangloriada e idealizada ou ridicularizada e ironizada.

Mas ninguém consegue responder: O que é honra?

E, embora haja certamente alguns aspectos muito preocupantes sobre como a honra era entendida no passado (iremos entender posteriormente) acredito que parte do declínio da masculinidade pode ser atribuída em parte à falta duma noção positiva e realista sobre a honra que existia nas antigas civilizações.

Neste artigo iremos explorar o conceito de honra – o que é, sua história, seu declínio e seus dilemas morais. Também iremos investigar como podemos revivê-la numa cultura que ridiculariza, suprime a zomba do conceito de honra. 

Neste capítulo iremos explorar o que é honra. Uma vez que você for além da definição superficial... perceberá que honra não é um assunto de fácil entendimento... na verdade é um assunto complexo, exigindo que você ligue suas engrenagens cognitivas. Surpreendentemente, pouco se tem escrito sobre um assunto tão importante, e os antropólogos, sociólogos e historiadores que dissertaram sobre esse assunto não chegaram num consenso maduro, sempre dizendo que honra é apenas uma visão idealizada. Por exemplo, James Bowman, fez um estudo que contém uma visão fascinante sobre a história da honra, mas no fim, parece que o próprio Bowman não concluiu o quê era honra. É simplesmente muito difícil de recuperar e descrever algo que uma vez foi tão intrínseco à civilização e que atualmente ninguém sente a necessidade de entendê-la. Eu não posso descrever a honra melhor que os acadêmicos que vieram antes de mim, mas eu tenho tentado sintetizar e destilar os pontos mais importantes para entender sobre a ideia de honra e o que isso significa para a masculinidade.

O antropólogo Frank Henderson descreve a honra em dois tipos. 

Honra horizontal


Honra horizontal é definida como o "direito de respeito entre uma sociedade exclusiva de iguais."

Honra horizontal = respeito mútuo. Mas não deixe o termo "respeito mútuo" enganá-lo. Nós não estamos falando do pensamento "respeite-me simplesmente porque eu sou um ser humano", típico pensamento que permeia nossa cultura moderna. Na honra horizontal, para se ter respeito é necessário ser subordinado a certas normas inflexíveis, a fim de manter a honra dentro do grupo.

A existência da honra horizontal se baseia em três elementos:

Um código de honra

Um código de honra estabelece as normas que devem ser alcançadas para que uma pessoa receba o respeito dentro dum grupo. Estas regras definem o que é preciso para obter honra (ou respeito), e como ela pode ser perdida. Essa última regra é essencial: honra que não pode ser perdida não é honra.

Códigos de honra muitas vezes colocam padrões rígidos para o grupo, mas apesar de sua dificuldade, códigos de honra são sempre vistos como padrões mínimos para a inclusão no grupo. Se você não tem, então será visto como desonroso para o grupo.

Um grupo honrado

Um grupo honrado é composto por indivíduos que entendem e se comprometem com o código de honra do grupo. Honra depende do respeito, um grupo deve ser uma sociedade de iguais. Honra é baseada no julgamento doutros membros do grupo e, por conseguinte, a opinião desses membros deve importar para você. Homens desonrosos exibem um descaso patente pela estima do seu grupo. A desonra é o desinteresse aberto pela sua reputação no grupo. Respeito é uma via de mão dupla. Enquanto é fácil respeitar alguém acima de você na hierarquia social, é difícil respeitar alguém – que você ache que está – abaixo de você na hierarquia social (na hierarquia do grupo). 

O grupo também deve ser exclusivo. Se todos e qualquer um podem ser parte do grupo, independente se eles vivem pelo código ou não, então a honra se torna sem sentido. Igualitarismo e honra não podem coexistir.

Finalmente, o grupo precisa ser coeso e privado. Um grupo regido pelo respeito mútuo requer que todos se conheçam. Honra não pode existir em um grupo onde o anonimato domina.

Desonra

Uma pessoa que não consegue viver de acordo com o código do grupo perde sua honra – seu direito ao respeito doutros membro do grupo como iguais. Um sentimento coletivo de vergonha do grupo perante o homem desonroso ou o reconhecimento de que uma pessoa não foi capaz de viver de acordo com o código do grupo é necessário para a honra parar de existir. Quando os indivíduos param de se importar se eles têm uma boa reputação ou que independente do que façam podem gozar dos privilégios de estar no grupo, a honra perde seu poder de policiar o comportamento dos indivíduos.

Honra horizontal é um jogo de tudo ou nada. Você quer ter o respeito de seus camaradas ou não? Trazer desonra sobre si mesmo por não cumprir os padrões mínimos do grupo (ou mostrando desdém ou indiferença para essas normas) significa a exclusão do grupo, bem como a vergonha. Assim, num grupo, gangue, equipe, tribo ou clã, a honra horizontal serve como uma linha divisória entre "eles" e "nós", entre o honroso e desonroso.

Partilho da ideia de que a honra horizontal é similar a uma carteirinha de sócio dum clube. Para obter a carteirinha, você precisa atender a uma série de critérios. Quando você apresenta o cartão na entrada do clube, você tem acesso a todos os direitos e privilégios que vem sendo membro desse clube. Para manter seu status e inclusão no clube, você deve estar em conformidade com as regras do clube. A falta de conformidade resulta na perca do cartão e invariavelmente ao acesso aos direitos do clube.

Honra vertical



Honra vertical, por outro lado, não é sobre respeito mútuo, mas sim sobre a consagração e estima para aqueles "que são superiores, seja em virtude de suas habilidades, sua classificação, seus serviços à comunidade, seu sexo, seu parentesco, seu trabalho, ou qualquer outra coisa." Honra vertical, pela sua natureza, é hierárquica e competitiva. Transmite a ideia que o homem não vive apenas pelo código de honra, mas que ganha estima (é valorizado) ao fazê-lo.

Assim, honra vertical = consagração, estima, admiração.

Alexander Welsh diz que para a honra vertical existir, a honra horizontal deve primeiro estar presente. Sem uma base de respeito mútuo entre os pares iguais (honra horizontal), consagração e estima (honra vertical) significa muito pouco.

Para dissertar sobre esse ponto, usemos outra analogia. Imagine você escrevendo um romance. Sua família lhe diz que é o melhor que leram em sua vida. Alguns romancistas também o lêem e o elogiam. Qual elogio significa mais para você?

O elogio dos romancistas, é claro.

Claro, a admiração de sua família é excelente, mas a opinião deles não significa tanto para você, porque você não os enxerga como colegas escritores. Agora, obter elogios de seus colegas de trabalho? Isso significa muito. Pois num ambiente de trabalho competitivo é onde existe a estima e respeito daqueles que são bons. Receber essa estima dentro desse contexto é mais importante pra você.

Nesse caso, voltando a analogia do clube, honra vertical é como os prêmios, conquistas e troféus que os clubes concedem a seus membros. Para receber os prêmios do clube, você precisa ser um membro do clube; você precisa da carteirinha de sócio (honra horizontal). Mas, ser um membro portador de carteirinha não é suficiente. Para ganhar um troféu, você deve se distinguir de seus pares, superando-os e alcançando a excelência de acordo com o código do clube.

Honra equivale a reputação

Assim, "honra" como nossos antepassados entendiam constituía em duas partes: o respeito pela honra do grupo (honra horizontal) e a estima da honra do grupo (honra vertical). Nessa noção bipartida de honra está implícito que ela depende da opinião dos outros. Você pode ter um sentimento sobre sua própria honra, mas isso não é o suficiente – os outros devem reconhecer sua honra para que ela exista. Ou como Julian Pitt-Rivers disse:

Honra é o valor que uma pessoa tem por si, mas também pela sociedade. É a sua apreciação de quanto vale, da sua pretensão a orgulho, mas é também o reconhecimento dessa pretensão, a admiração pela sociedade da sua excelência, do seu direito a orgulho.

Assim, honra é a reputação digna de respeito.

Masculinidade e honra

Nós descobrimos que honra é uma reputação digna de respeito e admiração (e isso não está relacionado a certo ou errado), e você ganha essa reputação por lealdade a um código de honra. As próximas perguntas que naturalmente surgem são:

Que código de honra um homem deve cumprir para ter o respeito dos homens e ser incluindo no grupo dos homens (honra horizontal)? 

E o que ele deve fazer para ganhar a estima e respeito de seus semelhantes (honra vertical)?

Enquanto o conceito de honra é universal abrangendo homens e mulheres, ele historicamente tem tido seus padrões. Embora os códigos de honra tenham variado ao longo do tempo e culturas, na sua essência, honra significa guerrear para os homens e maternidade para as mulheres. Nessa questão, Jack Donovan disserta de forma convincente sobre a honra e adiciona algumas virtudes táticas que devem ser englobadas para se ter honra (força física, coragem e destreza), argumentando que essa é a noção que constitui o código mais básico dos homens.

Como é que essa ligação entre masculinidade, bravura e honra evoluíram?

Durante o tempo em que o exercício da lei era fraco, e não existiam corpos militares ou policiais públicos, a honra agia como a força moral que regia o grupo e mantinha a sobrevivência. Dos homens era esperado atuar como protetores da tribo, um papel em que a força e a coragem eram vitalmente necessários. Se um homem não era forte fisicamente (genética desfavorável), era esperado dele contribuir doutra maneira com sua destreza numa habilidade (competência) que beneficiaria a tribo – o xamã, o curandeiro, o explorador, ferreiro ou professor. Honra é o que motiva esses homens cumprirem essas expectativas. Se os homens demonstram sua força, coragem e destreza, eles são estimados como honrados (honra horizontal), e com essa honra viam os privilégios de ser um membro pleno da tribo. Se um homem se destacou no código de honra, então é lhe concebido mais status ainda, e, portanto, mais privilégios (honra vertical). Mas, se um homem demonstrar cobardia e preguiça, então será taxado de desonrado, o que invariavelmente o faz perder seu acesso aos privilégios.

Defendendo a honra

Era por isso que defender a honra ou sua reputação era (em diversos casos) uma questão de sucesso e ruína, vida ou morte, para nossos antepassados. Mesmo posteriormente, na sociedade anglo-saxã, onde sua masculinidade era medida em prover um lar, sua honra era essencial para se obter um bom emprego.

Assim, a fim de continuar a usufruir dos privilégios providos pela honra, os homens se mantinham constantemente motivados a sua manutenção de masculinidade para permanecer no lado da honra entre a linha divisória honra/desonra.

Era por essa razão que em muitas culturas (embora não todas) se houvesse qualquer injúria ou insulto à sua honra, que colocasse esta em descrédito, era necessário imediatamente creditá-la novamente. Se você apanhou, bata. Aceitar era desonra. Se você teve coragem de tentar recuperá-la, você não seria tratado com leviandade (pense nos duelos)

Essa honra de retaliação, chamada de honra reflexiva por antropólogos, era ao mesmo tempo inspiradora e preocupante para a sociedade. Se levada ao extremo, a honra reflexiva se tornaria um "concurso irracional", seria puramente o exibicionismo de honra sem valor, o que poderia destruir a sociedade. Por essa razão, que as sociedades modernas se tornaram mais "civilizadas", eles tentaram modelar a base de instinto do homem de recuperar sua honra quando ela era atacada, trocando pela honra reflexiva através duma estrutura moral e ética, e adicionando virtudes como misericórdia e magnanimidade ao código de honra que devia ser mantido. Esse processo de têmpera de honra reflexiva é o que criou o cavalheirismo vitoriano, com suas noções de "jogo justo".

Um homem honrado, um grupo honrado

A preocupação com a honra era tanto uma busca egoísta quanto altruísta. Por um lado os homens queriam ser reconhecidos como homens e respeitados pelos membros do grupo, e, por conseguinte, obter os privilégios que isso lhes conferia (honra horizontal/vertical). Uma associação com o grupo também equivalia a uma oportunidade de ganhar honra vertical e mais status e privilégios por meio de seus atos dignos. Sua reputação de força, coragem e destreza também evitava outros homens ou grupos de mexer com eles.

Ao mesmo tempo, um homem com uma boa reputação beneficia a tribo como um todo. Quanto mais homens existirem no grupo que tenham grande estima de demais homens, isso invariavelmente causará respeito (ou temor) doutros homens e grupos. Isso adiciona mais prestígio aos homens contidos no grupo. É por isso que os homens que não se importam com sua reputação, com sua honra, são vistos como desonrosos e não são aceitos nos grupos – sua deslealdade coloca todo o grupo em maior risco.

Donovan explica essa dinâmica de honra no grupo:

Os homens que quiserem evitar a rejeição da gangue (grupo) trabalharão arduamente e disputarão entre si o respeito dos outros homens. Aqueles que, por natureza, forem mais fortes, mais corajosos e mais competentes, disputarão entre si para desfrutar de mais prestígio no contexto do grupo. E enquanto houver alguma vantagem em se conquistar uma posição mais elevada na gangue — seja um maior controle, maior acesso a recursos ou apenas a estima de seus pares e o conforto de se estar acima daqueles situados na base da hierarquia — os homens disputarão entre si pelo direito a uma posição mais elevada. Contudo, em razão dos seres humanos serem caçadores cooperativos, aquele mesmo princípio do grupo-subgrupo se aplica aos indivíduos. Assim como subgrupos de homens disputarão uns contra os outros, mas se juntarão se acharem que têm mais a ganhar com a cooperação, também os homens disputarão individualmente com os outros homens do grupo enquanto não houver ameaça externa mais grave, mas deixarão de lado suas diferenças pelo bem do grupo. Os homens não são propensos a combater ou cooperar; eles são propensos a combater e cooperar. 
Entender essa capacidade de perceber e priorizar diferentes níveis de conflito é essencial à compreensão do Código dos Homens e das quatro virtudes táticas. Constantemente, homens passarão de um tipo de conflito para outro: da disputa entre pares à disputa entre grupos, ou à disputa contra uma ameaça externa.
É bom ser mais forte que outros homens de sua gangue, mas também é importante que sua gangue seja mais forte que outras gangues. Os homens desafiarão seus camaradas e porão à prova a coragem uns dos outros, mas sob muitos aspectos esses desafios intragrupais preparam os homens para enfrentar a disputa com outros grupos. Assim como é importante que os homens demonstrem a seus pares que não aceitarão humilhações, a sobrevivência de um grupo pode depender dele estar disposto ou não a rechaçar os outros grupos para proteger os próprios interesses. 
Os homens adoram fazer praça de suas novas habilidades e de dar um jeito de levar a melhor sobre os parceiros, mas a destreza em muitas das mesmas habilidades será crucial nos embates com a natureza e com os outros homens. Os esportes e jogos disputados pelos homens exigem, em sua maioria, o tipo de raciocínio estratégico e/ ou virtuosismo físico que se exigiria na luta pela sobrevivência. A reputação de um homem pode impedir que os outros homens do grupo mexam com ele, e a reputação de um grupo pode fazer seus inimigos pensarem duas vezes antes de criarem alguma animosidade.

Fontes

Honor por Frank Henderson Stewart 

What Is Honor: A Question of Moral Imperatives por Alexander Welsh 

Honor: A History por James Bowman 

The Way of Men por Jack Donovan

Share:

Um comentário:

  1. Excelente dissertação. Compreendi a partir desse texto que a honra é uma trava moral individual e social.

    ResponderExcluir

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook