terça-feira, 27 de setembro de 2016

Jonathan Bowden: O Japão, o Ocidente e a Filosofia de Yukio Mishima

Por: Jonathan Bowden
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




Nota do editor: o texto a seguir é uma transcrição da leitura de de Jonathan Bowden, do movimento Nova Direita, realizada em Londres, em 10 de dezembro de 2011. Quero agradecer Michèle Renouf por fazer com que o registro fosse disponível.


A vida de Mishima foi dedicada ao retorno do espírito do samurai e à crença nos ideais do livro de Yamamoto Jōchō’s, intitulado Hagakure, que é, parcialmente, a "Bíblia" dos samurais do século XVII, com referenciais de moralidade, diante dos quais a vida é transfigurada pela morte, e a noção do guerreiro como alguém que é também um intelectual e uma figura literária, bem como um cruzado espiritual, um sacerdote que mata, um ideal supremo.

A cultura japonesa é distinta de quase todas as outras culturas na Terra, e ainda é difícil de ser compreendida e conceitualizada para muitos ocidentais. Um dos fatos mais deslumbrantes sobre o Japão é que materiais que são comumente banidos no Ocidente são largamente disponíveis por lá, particularmente em termos de pornografia, sobre a qual há muito pouca restrição em geral. Mesmo o manga, ou os quadrinhos japoneses, que são comumente incríveis e muito "duros", num nível hardcore para os padrões ocidentais. 

O Japão é uma sociedade estranha, pois a dialética que move seu interior é oposta e altamente diferenciada daquelas presentes no Ocidente. Provavelmente, é verdade que a maioria das pessoas que se identificam com as tradições ocidentais também admirem alguns dos elementos do Japão, particularmente do Japão imperial. Há um nível para o qual não há muita simetria enquanto um elemento de significado assimétrico, pelo qual os japoneses sejam vistos como um povo que deseja ser ele mesmo, do seu próprio modo.

O pensamento japonês é influenciado pelo confucionismo, o xintoísmo, o budismo, o budismo zen, o taoismo e uma miscelânea de elementos que formam a base daquilo que é ser japonês.Uma das visões cardinais é a de que a vida é dominada pelos espíritos dos ancestrais, e há a noção do culto aos ancestrais, que faz da família e da linha de herança familiar coisas extremamente importantes.

Esses espíritos são chamados de kami e há a noção de que eles intervêm na vida atual. Essas são ideais sobrenaturais; mas um dos truques da cultura japonesa, que é muito semelhante ao conceito dos antigos gregos nesse aspecto, é o de que todas as ordens de opinião podem aceitar essas crenças, já que há interpretações seculares e ateístas desses sistemas de crenças, assim como há opiniões puramente religiosas.

Assim como na Grécia antiga, uma mulher poderia se ajoelhar ou mentir diante da estátua de um deus, e, ainda assim, intelectuais racionalistas, na mesma civilização, poderiam considerar os mitos e estórias divinas como coisas inteiramente metafóricas. E, ainda assim, ambos seriam considerados como gregos. E todos eles seriam aceitos como definições diferentes daquilo que era ser grego ou membro de uma cidade-Estado grega. Mishima era obcecado pela Grécia, particularmente pela Grécia antiga, e incorporou algumas das odes e éticas gregas em seus livros.

Mishima nasceu numa família de classe média alta, em Tóquio, e foi separado de seus outros irmãos por sua avó, ainda cedo. Um garoto fraco e afeminado, que havia sido separado do contato com outros garotos por ordens da avó, se tornou obcecado com a morte e construiu uma visão mais mórbida das coisas, e esteve, ele mesmo, muito proximamente relacionado aos membros-chave da aristocracia japonesa. Mishima teve uma infância estranha, bastante obscura, até os 12 anos de idade, quando sua avó morreu e ele foi reintroduzido ao restante de sua família.

Interpretações modernas e, de algum modo psicoanalíticas sobre a conduta tardia de Mishima e seu ritual de suicídio como um gesto político no fim de sua vida, se concentram nesses anos iniciais como as pedras de fundação do culto da morte vivente que a adoração dele pelo samurai iria perpetuar. 

Então, Mishima havia começado a escrever aos 12 anos de idade (talvez, até mesmo com 6 anos de idade), e teve sua primeira novela produzida quando ele ainda tinha entre 16 e 18 anos, tendo sido escrita em papéis de panfletos militares. Seu primeiro livro publicado foi intitulado "Confissões de uma Máscara", mas houve um livro anterior a este que é largamente esquecido hoje, e que aborda a adoração à natureza.

Mishima escreveu um grande número de livros. Ele escreveu peças, que são tanto modernas quanto clássicas de acordo com a tradição japonesa. Teatro Noh, como é chamado. O teatro Kabuki é uma tradição clássica no Japão. Há também um teatro de bonecos em relação à segunda cidade mais importante depois de Tóquio, Osaka e as províncias. 

Essa tradição, sendo externa à Tóquio, usa as marionetes ao invés do corpo. Em Tóquio, o corpo é usado ao invés das marionetes. Ele também escreveu duas peças modernas. Uma delas é chamada de "Madame de Sade", que fala sobre o marquês de Sade e o longo sofrimento de sua esposa durante os primeiros anos de seu casamento. Este é o marquês Donatien Alphonse François de Sade, que viveu entre 1740 e 1814. Ele também escreveu uma peça chamada "Meu amigo Hitler", que é um trabalho bastante controverso e que foi publicado em inglês, creio eu, no ano de 1966.

Seu trabalho mais famoso, que foi amplamente levado em consideração fora do Japão, é uma tetralogia produzida no fim de sua vida, chamada de "O Mar da Fertilidade", e que fala sobre a crescente insignificância da civilização japonesa como ele a enxergava, dominada por um excesso de materialismo que era estranho para ela.

O Japão começou a se modernizar partindo daquilo que os ocidentais chamariam de tipo de vida feudal para a submissão a um padrão de modernização extraordinária iniciada nos anos 1860. Assim, o Japão se transformou na primeira sociedade asiática ocidentalizada, híbrida ou ocidentalmente direcionada, vista em termos ocidentais. Digo "vista em termos ocidentais", pois os ocidentais só podem ver coisas por seus próprios termos. É extremamente difícil sair da própria cultura para visualizar outra cultura que é grandemente avançada e tecnocraticamente proficiente, bem como ter uma maestria que se estende desde os séculos passados (se não em mil anos ou mais) e, ainda assim, seja baseada em axiomas que são fundamentalmente diferentes dos seus próprios.

Para dar um exemplo, há espécies de livros cômicos violentos, os mangás, como são chamados no Japão, que são extremamente sádicos e eróticos, e uma dessas publicações é chamada de Rapeman, num neologismo semelhante ao Spider-man ou ao Superman, e é direcionada a um público similar. A incidência de estupro no Japão é extraordinariamente pequena quando comparada com outras sociedades avançadas, meritocráticas e pós-industriais - como os Estados Unidos -, pois a visão japonesa é a de que você deve exteriorizar fantasias perigosas, demarcando sua existência, mais do que reprimindo-as.

A ideia de que a vida é tão ordenada e estruturada de acordo com o organicismo social do Japão é baseada no ideal confucionista de que você deve eventualmente deixar algo fluir, aliviando sua pressão, e um dos modos de fazer isso é por meio de materiais que serão considerados como sugestivos, extremistas, anti-familiares ou altamente perigosos para os padrões ocidentais. Então, você tem uma cultura de extrema restrição e de possibilidade de violência radical, coexistindo no mesmo contínuo, pois muito da ética japonesa e da ética superabundante, a meta ética de uma sociedade, se relaciona com a manutenção de elementos contrários num estado de força dinâmico.

Muito do mundo ocidental se tornou consciente da militância crescente da nação-Estado imperial japonesa ao redor do início do século XX, quando o Japão lutou sua primeira guerra bem-sucedida contra a sociedade europeia ou Ocidental, quando os japoneses essencialmente haviam derrotado o Império Russo. 

Essa foi a guerra russo-nipônica, que conduziu ao cenário de um poder europeu (a Rússia seria considerada como um grande poder europeu nessas circunstâncias, já que seu território continental atinge a própria Ásia) derrotado por um rival não-ocidental. Essa foi a primeira intimação da coragem moderna do Japão, um aviso de que o país estava preparado para competir com as principais sociedades ocidentais na luta pela hegemonia mundial.          

As doutrinas que governaram o Japão são essencialmente aquelas da monarquia imperial, mas isso sempre variou por conta da ideia sobre o xogun ou o xogunato, sendo essencialmente senhores feudais militaristas, representados por clãs de samurais de diferentes partes do Japão, e que exercitaram um papel de aconselhamento imperial sob uma sobreposição monárquica. 

O monarca era visto como alguém apontado por Deus, visto como um ser divino. É importante compreender que, para a maioria dos japoneses até meados do século XX, logo após a derrota, a divindade do imperador era sacrossanta e inegociável, e não estava sujeita à discussão.

Nos círculos de extrema-Direita do Japão, uma das várias razões pelas quais Mishima é uma figura controversa é o fato de ele ter criticado o imperador Hirohito no fim da Segunda Guerra Mundial quando, de fato, ele não havia abdicado e acabou concordando com as propostas estadunidenses de que a constituição japonesa devia ser fundamentalmente alterada.

Em termos ocidentais, é difícil imaginar um ser humano que é adorado como um deus. Imperadores romanos eram adorados como deuses, mas apenas fora da Itália, apropriadamente, e somente em partes mais recuadas e remotas do império. Mesmo os líderes totalitários das nações ocidentais no século XX, que desenvolveram ao redor de si uma anima ou uma aura que poderia ser considerada como espírita, formando um tipo de elite que nunca havia sido adorada como deuses no sentido formal do termo.

A anti-divinização da liderança japonesa durante o pós-guerra foi parte da reformulação estadunidense do Japão, para que esse país nunca mais representasse uma ameaça. O Japão possui um dos exércitos mais poderosos do mundo, em proporção à sua população, e tudo o que esse exército faz é guardar o território do Japão e patrulhar as várias ilhas que constituem sua massa terrestre.

Há um nível para o qual a Força Japonesa de Autodefesa, como é chamada, nunca intervem no restante do mundo, e você vai perceber que, proscrições da ONU à parte, os EUA não foram capazes de persuadir o Japão a segui-los em suas várias "escapadas" e formas de aventura que caracterizaram tanto a Guerra Fria quanto os últimos vinte anos imediatos após a desestabilização da União Soviética e a emergência da Federação Russa em seu lugar. Nesse período, o Japão não tomou nenhum papel, nem mesmo na guerra do Vietnã. Os estadunidenses teriam amado se o Japão tivesse lutado na Guerra do Vietnã, por conta de sua proximidade - mas o Japão se recusou a fazer isso.

Há uma forte cultura de pacifismo cívico no Japão, enraizada no desespero niilista e na vaporização das armas atômicas que nós usamos neles. Há até mesmo uma forma de revisionismo no Japão, que é parcialmente induzida pelo Estado, e que não é compatível com outras formas de revisionismo histórico em outras partes do mundo. Essa é a ideia de que certas fontes e canais oficiais da mídia mainstream no Japão minimizam o tipo de ferocidade atual e de eventos horríveis relativos ao uso de armas atômicas, pois eles não querem chamar atenção para a guerra de aniquilação, para a dominação imperial e os desejos de esculpir um imenso império econômico na Ásia, coisas nas quais o Japão não deve estar engajado.

Isso significa que as vítimas dos bombardeios - e há um número imenso de sobreviventes nas duas cidades - culpam seu próprio governo pela perpetuação da guerra contra os Estados Unidos e seus aliados ocidentais, e por conta da aliança do Japão com a Alemanha nazista e a Itália fascista. Isso é ideologia ocidental, que foi agarrada pelas vítimas dos ataques atômicos e que é usada muito poderosamente dentro do Japão.

Então, você tem essa ideia paradoxal de que o revisionismo é coisa do Estado inferiorizando Hiroshima e Nagasaki para, assim, derrotar o neo-pacifismo  de um movimento largamente budista, que procura manter o governo japonês como co-responsável pelo uso das armas atômicas (quando, de fato, a lógica simples é a de que os estadunidenses usaram as armas atômicas).

Isso é parte de um dispositivo que é usado no Japão para regular e moderar o anti-americanismo, que ainda é uma força latente e poderosa na sociedade nipônica, dada a nova redação da constituição e a criação de um novo Japão cívico no pós-guerra. 

Basicamente, o Japão foi mudado pelo advento da Segunda Guerra Mundial e sua consequência ligada ao evento nuclear, de um modo muito maior do que a própria Alemanha foi no período da sucessão de Adenauer, entre 1945 e 1948. A Alemanha Ocidental foi largamente construída com base - de algum modo rudimentar - na Alemanha de Weimar, que poderia ser considerada como sua precursora natural.

Há também um grau para o qual as normas da Alemanha Ocidental e sua dominação pela estrutura de poder do partido Democrata Cristão e do partido Social-Democrata, alternada por eleições periódicas e por um sistema federal baseado, inicialmente, em Bonn, antes da reunificação que se ramificou em muitos outros estados ao redor da Alemanha, em toda a Europa. O Japão tinha de mapear um curso totalmente novo após a Segunda Guerra Mundial.

Você vai perceber que o Japão é dominado ou foi dominado, até um período relativamente recente, por um só partido político. A despeito das numerosas eleições, apesar das várias tentativas de importar o modelo ocidental para o Japão, o sistema de democracia bipartidária nunca foi realmente posto em prática.

Um partido, de algum modo chamado - sem qualquer sentido - de Partido Liberal Democrata, talvez para agradar os gostos neoimperialistas estadunidenses, conseguiu dominar o país desde as explosões nucleares e a anti-divinização do imperador, como resultante da capitulação das forças armadas, das quais a maioria dos integrantes não praticaram o ritual de suicídio após o evento da derrota do Japão, pois o próprio imperador havia ordenado que eles não o fizessem.

Mishima representa a cultura dos corpos de oficiais imperiais, que lutaram na guerra imperial nipônica, primeiramente contra a China, e depois contra os poderes Ocidentais. É importante reconhecer que o Japão, inicialmente, pensou sobre a hipótese de um ataque à União Soviética - à Rússia, mais especificamente - mais do que num ataque aos EUA. Parcialmente, isso aconteceu porque o Japão havia lutado uma guerra bem-sucedida contra a Rússia no início do século XX, mas também porque uma parte significativa dos corpos de oficiais samurais de Direita desejavam atacar o ventre da União Soviética.

Não se esqueça: temos uma situação nos anos 1930 onde grandes seções da China haviam sido ocupadas pelo Japão, particularmente a área industrial da Manchúria. Também havia, em termos ocidentais e humanistas, uma extrema depredação e ferocidade e aquilo que é chamado de atrocidade por parte das tropas japonesas, nas áreas que elas haviam dominado.

Se o Japão tivesse invadido o "ventre macio" da União Soviética e avançado até as repúblicas asiáticas daquilo que era então a URSS, no tempo da máxima tensão na União Soviética e durante um período onde ela estava sob um ataque extremo, chegando ao ponto da derrota próxima pelas forças da Alemanha nazista, então a União Soviética poderia ter sido, provavelmente, destruída e derrotada, e toda a história do mundo teria sido diferente.

Assim, de 1934 a 1936, houve uma revolta conduzida por 4000 oficiais, todos creditados como samurais, ocorrida em Tóquio, e que exigia que os generais pessoais do imperador orientassem um esforço ofensivo contra a União Soviética, tanto por razões patrióticas quanto geopolíticas e históricas. Isso também se explica pelo fato de que o comunismo era visto como uma grande ameaça ao sistema imperialista e dinástico que governou o Japão. 

Os samurais são um tipo de elite militar que existiu também em outras culturas ao redor do mundo, mas que foi raramente concretizada ao ponto que o foi no Japão. Algumas vezes, na história japonesa, considerava-se que 10% da população era composta por samurais, inclusive por mulheres que eram casadas com membros dos clãs samurais. Os samurais foram criados para serem guerreiros experientes, intensificados pela tradição budista, que, de alguns modos nos termos ocidentais, é uma tradição suavemente pacifista,mas que também possui uma rígida disciplina de artes marciais, que os samurais aprendem em seu treinamento inicial.

Samurais são subordinados - a menos que eles sejam independentes de todos os senhores - a um senhor ou a um barão feudal (em termos ocidentais), e formam clãs, enclaves inter-étnicos ou formas de identidade que se identificam com senhores feudais em particular, que se opõe a outros senhores. Então, você constrói essa base num xogunato por meio de um líder imperial e sua esposa (ou esposas), pois a maioria dos casamentos da elite japonesa são casamentos encomendados. Você tinha relacionamentos com esposas, e você tinha possíveis relacionamentos com gueixas de diferentes tipos, e você também tinha a possibilidade de ter múltiplas esposas e múltiplas famílias para alguns dos homens japoneses pertencentes à classe governante e à elite.

Algo importante para  se lembrar sobre o Japão é o fato de que esse país é a sociedade que rejeitou o Cristianismo desde cedo e de um modo extremado. Há um nível para o qual poucas sociedades na Terra haviam começado uma conversão parcial para o Cristianismo e, então, reverteram o processo negando-o, o que envolveu o massacre de muitos cristãos e missionários cristãos. Expostos aos portugueses e aos Impérios espanhóis, os japoneses hesitaram quanto a adoção do Cristianismo, e até mesmo clãs samurais inteiros chegaram a se converter à fé cristã, em várias partes do Japão. Posteriormente, isso foi desfeito por xogunatos subsequentes, que fizeram um retorno ao Xintoísmo ou ao paganismo nativo japonês. 

Esse sistema de fé acredita que os japoneses são os únicos escolhidos na Terra, e que são filhos do Sol representados pelo governo e pelas instituições, e, metafisicamente, por um deus-Sol vivente que é seu imperador.

O dever do samurai é matar com amor e compreensão, de acordo com uma serenidade completa num caminho semi-religioso em favor de seu autocrata divino ou de seu líder, mesmo que sua vontade seja interpretada por uma figura bismarckiana como um xogum. Novamente: é difícil alguém compreender os elementos da mentalidade japonesa por meio de metáforas ocidentais, pois é muito raro que esse tipo de formulação exista na cultura ocidental. 

Os templários e os hospitalários, durante a Idade Média, podem ser considerados como "simulacros de samurais" na tradição ocidental, pois eram guerreiros cristãos de elite criados num padrão patriarcal ascético de masculinidade; e aqueles que acreditam ideologicamente nas cruzadas contra o Islã, por exemplo, o fazem em defesa da fé e parecem acreditar genuinamente nelas quando esses cavaleiros professam suas visões.

Possivelmente, há elites em todos os exércitos, como a elite pretoriana nas legiões romanas, o sistema de bravura baseado na luta terrestre dos espartanos e o sistema naval dos atenienses (que, ambos, forneceram o equilíbrio ao poderio militar grego e que lhes permitiu resistir à invasão persa). Mas o cultivo de uma casta sacerdotal que também é uma máquina de matar, que é justamente aquilo que os samurais foram, é algo difícil de compreender em termos ocidentais.

De acordo com o Hagakure, o samurai nunca deve mostrar fraqueza, mesmo que esteja fraco, e nunca deve falar de um modo que enfraqueça seu sentido próprio ou sua lealdade para com seu senhor e mestre. O samurai deveria se esforçar para obter a combinação de fanatismo, frieza, claridade de pensamento e serenidade de temperamento. O samurai não deveria sentir culpa por matar, e o outro lado desse pensamento é o fato de que ele também deve estar sempre pronto para matar a si mesmo diante de um sistema de honra.

No sistema tradicionalista de crenças japonesas, o suicídio é moralmente meritório, o que, para as mentes ocidentais, é algumas vezes difícil de compreender. Isso ocorre pois o Xintoísmo prega a noção de reencarnação direta como um fato, mais do que uma simples ideia que pode ser espiritualmente postulada. Na retórica e na lei samurai, essas ideias possuem força de lei para essa elite pré-existente no Japão; se você fosse morto ou cometesse ritual suicida, você renasceria no ventre de uma mãe, depois de 40 dias, como um novo ser humano. 

Isso significa que a concepção deles sobre o auto-suicídio é de que ele não era o fim.  A maior parte dos maiores e mais gloriosos personagens da cultura japonesa cometeram suicídio e são honradas por isso, tanto em sua própria época quanto na posteridade. Todos os suicidas tiveram de escrever um poema antes da morte, poemas que são chamados de poemas de morte, e que são uma forma de haiku, um tipo minimalista e condensado de poesia que lida com temas de cavalheirismo e perdão diante da derradeira forma de morte.

Mishima acreditava que esse era o modo pelo qual o Japão existia e poderia voltar a existir, e acreditava que o espírito do samurai, tanto masculino quanto feminino, flutuava sobre o Japão, e que poderia ser trazido de volta num período onde ele havia sido relaxado até o ponto do semi-esquecimento durante os anos 1940, 1950, 1960 e também em 1970, ano onde Mishima deu fim à sua própria vida ao cometer o seppuku, no dia 25 de novembro, de um modo que causou consternação.  

No Ocidente, não há paralelo para esse tipo de coisa. Se você quiser, podemos tomar como paralelo o mais proeminente novelista britânico do pós-guerra, William Golding, que escreveu a obra "O Senhor das Moscas". É como se William tivesse cometido suicídio na Downing Street, depois de ter exigido do primeiro ministro britânico um caminho diferente daquele oferecido pelos Trabalhistas ou Conservadores e depois de ter gasto toda sua vida em atingir um aperfeiçoamento físico ao ponto de atingir a perfeição militar, tudo isso ao invés de ter morrido de velhice como um tipo de guardião esteta flácido, que é o que ele essencialmente foi.



É também sugestivo o fato de um homem ter possuído seu exército particular, o qual Mishima desenvolveu para seu próprio uso. Essa foi uma sociedade chamada de "Sociedade do Escudo", que consistia de recrutas e novatos militares; eram cerca de 100 membros que foram coordenados por Mishima como uma força semi-paramilitar e que tiveram permissão para treinar em campos militares japoneses depois de 1966. O ritual de suicídio de Mishima aconteceu num campo militar em 1970.

As interpretações liberais ocidentais sobre a vida de Mishima são uma tentativa falha de retorno às verdades samurais da antiguidade, verdades que permanecem concorrentes com a produção literária que é grandemente reverenciada no Ocidente fora do Japão. Ocidentalistas, bem como orientalistas, colocam Mishima no topo por conta das três citações dele ao Nobel no período pós-guerra, mesmo que ele nunca tenha ganho nenhuma delas, parcialmente porque outro escritor japonês, que havia sido um grande patrocinador dele, ganhou o prêmio em 1968, e também pelo fato de que a compreensão da cultura japonesa é muito difícil para as perspectivas ocidentais, o que fez com que se sentisse que nenhum outro japonês ganharia o prêmio depois que um deles já houvesse ganho.        

Então, Mishima se tornou gradativamente atento ao fato de que ele teria de esperar por isso. Acredita-se largamente que ele merecia o prêmio, bem como um grande número de grandes escritores ocidentais o haviam merecido, mas que nunca o receberam.

A produção literária de Mishima é dividida em dois períodos, um dos quais lida - se você gostar - com temas bastante decadentes em certos aspectos. Mishima vai nos extremos, e no livro "Confissões de uma Máscara" ele desenha extremos de automutilação e sacrifício próprio, colocando o uso de máscaras como parte da identidade social. O conceito da máscara é primordial para aquilo que é ser japonês. Os japoneses são tão amedrontados com a possibilidade de que qualquer ofensa possa levar à violência extrema entre os indivíduos e/ou entre grupos, que uma cultura de extrema polidez formal é institucionalizada onde quer que alguém deseje não perder a postura diante de um rival, um membro familiar, um competidor ou alguém com o qual eles se associam nos negócios, no comércio ou na prática de Estado.

Isso é bastante diferente da crença pós anos 1960 presente no mundo de autenticação emocional do Ocidente, onde as pessoas são estimuladas a expressar suas emoções particulares em público. De outro modo, eles serão ridicularizados sob falsa consciência ou serão internamente divididos ou prejudicados. Na psicanálise junguiana ou na psicologia analítica, há a crença de que todas as pessoas possuem uma sombra que é seu lado mais negativo, feroz e opositor, e, para que alguém consiga ser inteiramente humano, deve integrar essa parte na personalidade. No modo de pensar japonês, essa parte já é integrada à personalidade e não precisa ser exibida, porque isso provocaria um conflito de um modo muito bárbaro.

Há uma tensão extrema na sociedade japonesa, e há aspectos fortemente sadomasoquistas - de um ponto de vista ocidental - numa sociedade que se mantém tensa e rígida, quase como um homem que pratica atira com um arco e que está prestes a soltar a flecha. E, ao mesmo tempo, há uma maciez e uma gentileza num decoro estético especialmente relacionado às atitudes tradicionais japonesas que atingem os ocidentais como uma crença numa perfeição e numa estilização. Essa habilidade de deslizar da estilização - a cerimônia do chá, por exemplo, que é um ritual samurai chave imitado pelo restante da cultura e que deve ser separado do simples ato de beber chá numa espécie de hábito inglês repetido às quatro e meia da tarde - para a possibilidade da extrema violência, que é sempre o legado da tradição samurai e que reside no coração de muitas noções japonesas.

A cultura do mangá ou do filme em papel que são os quadrinhos - que, no Ocidente, é essencialmente considerado como uma forma de arte para crianças e adolescentes que devem crescer, amadurecendo o gosto para os livros apropriados e a versão adulta da qual o filme deve superar os quadrinhos - é bem presente. No Japão, alguns dos artistas e das figuras políticas mais importantes da sociedade são pessoas que escrevem livros de HQ's, que são considerados como uma forma cultural principal e que são vendidos em milhões ou em dezenas de milhões de exemplares.

Uma enorme subcultura dentro do mangá, que lida com cada tópico da Terra, da cozinha, do romance e da adoração à guerra, é o gênero samurai que transborda para a TV, os filmes e os livros. Muitas das novelas e peças samurais atingem o público ocidental como estereótipos, mas um paralelo ocidental para isso seria a fantasia ocidental dos Estados Unidos. Provavelmente, todo mundo já assistiu o filme "Por um punhado de dólares", com Clint Eastwood, ou o filme "Sete Homens e um Destino", ou mesmo qualquer um desses tipos de filmes de cowboys, todos baseados nos filmes japoneses sobre samurais e abstrações culturais desse tipo. 

Um dos mais memoráveis filmes sobre samurais, de todos os tempos, foi produzido pelo maior dos diretores japoneses, como muitos concebem dentro e fora do Japão desde a Segunda Guerra Mundial, um homem chamado Kurosawa, que foi o criador do filme "Ran", que significa "Caos", que é a versão samurai de "Rei Lear", peça que, juntamente com "Hamlet", é proeminente para o papel de Shakespear e possivelmente tão importante quanto Macbeth, Othello e tantas outras mais.

Essa "versão japonesa" do Rei Lear, que é uma peça de trabalho extraordinária e que dura cerca de 4 horas, e uma tentativa de destilar a ética samurai usando uma estória ocidental. Isso ainda é algo controverso no Japão. Apesar de muitos artistas japoneses terem se tornado famosos fora do Japão, a crença na exclusividade étnico-cultural é muito extrema no Japão se analisada por padrões ocidentais, mesmo nos dias atuais. 

Kurosawa foi muito criticado por usar um modelo ocidental para transmutar um significado e uma forma japoneses. Ainda há controvérsia mesmo quanto ao uso de formas extra-japonesas no uso nipônico clássico, mesmo hoje. Mishima esteve ao redor disso ao trasmutar parcialmente as formas japonesas em modos que os ocidentais pudessem compreender. Em sua novela chamada "O Templo do Pavilhão Dourado", ele lida com o incêndio de um santuário budista por um psicopata excêntrico que era um clássico outsider, em termos com os quais as audiências tanto ocidentais quanto orientais pudessem compreender, mas com as quais não iriam necessariamente simpatizar.     

O livro causou consternação no Japão e foi baseado num caso verídico. O paralelo mais próximo no qual consigo pensar é a novela de não-ficção criada por Truman Capote, chamada "Sangue Frio", que fala sobre o assassinato de uma família do Kansas por dois andarilhos de meia-idade, cujos tormentos psicológicos e ansiedades internas são abordados por Capote numa extensão extrema, até desembocar na execução dos dois pelo sistema federal estadunidense, numa penitenciária do Iowa nos fins dos anos 1960, creio eu.

Mishima acreditava que uma cultura deveria ser exclusiva, e que a vida japonesa e suas circunstâncias eram singulares e exigiam respostas únicas dentro do próprio Japão, respostas que fossem puramente japonesas. Como todos os artistas, sua forma de nacionalismo foi do tipo que não necessariamente apela aos nacionalistas de Direita dentro do Japão.

O filme de Paul Schrader, que é um filme hollywoodiano bastante famoso - e, para um filme hollywoodiano, ele é muto bom -, é a obra chamada "Mishima: Uma Vida em Quatro Capítulos". O filme mais famoso de Schrader, principalmente por conta de sua violência extrema, suas escoriações e a transgressão dos valores estadunidenses, é "Taxi Driver", um filme que muita gente já assistiu ou ao menos já ouviu falar. Agora, em seu filme sobre Mishima, três das novelas de Mishima, uma da tetralogia de "O Mar da Fertilidade", são reconfiguradas como estórias externas à vida de Mishima, mas às quais ele dá valor literário para ser uma virtude de sua própria biografia. O quarto quadrante do filme é biográfico/autobiográfico e lida com a vida de Mishima em si.

Na peça de Schrader, Mishima é visto como um homem cuja morte é predita pela natureza da ideologia que ele havia adotado. Uma ideologia que é emocional, literária, especulativa, marcial e intelectual. O tipo de ideologia que Mishima propôs em suas novelas e peças foi similar àquela proposta por D. H. Lawrence no Ocidente, e ainda assim é diferente contendo elementos similares aos do pensamento de Friedrich Nietzsche no final do século XIX - e, ainda assim, é distinta. 

Há algo também irredutível de "outro" e de "japonês" que os ocidentais não podem agarrar completamente. Penso que há algo na tradição do Ocidente que, apesar de não se assustar com suicídio, trata-o com certo nível de desrespeito. Certamente, a ideia de que o suicídio pode ser belo e uma apoteose da vida e um momento de intensidade religiosa não é algo estranho ao Ocidente, mas é relativamente estranho nele e atraiu poucos adeptos ideológicos na maior parte das formas da história ocidental.

O principal grupo ocidental que prega o suicídio, no momento, é o grupo ítalo-americano da máfia siciliana, onde um membro da máfia é cercado por seus colegas e não tem para onde ir, e deve, assim, cortar suas veias numa sauna quente, ritual já praticado durante a república e o império de Roma, onde senadores e outros líderes romanos faziam esse tipo de ritual no mundo ocidental. Entretanto, a visão ocidental sobre o guerreiro é a de sempre tentar sobreviver para que, assim, você possa continuar lutando.

Terroristas ocidentais raramente matam a si mesmos, não importando o quão violentos ou aficionados sejam suas lógicas paramilitares e sua própria linguagem. Membros do IRA e da UDA, independente do quando tenham sido atingidos por dor ou por violência, tentam sempre se safar depois de um combate, e essa é a ética ocidental numa batalha. A ideia de deliberadamente sacrificar a si mesmo ocorrerá num assassinato, de todo modo, já que a vida de soldado num treinamento militar é parcialmente a ação de ser treinado para a morte, algo que todas as estruturas de comando militar compreendem - já que a vida militar é onde as emoções são intensificadas num nível no qual a vida civil não pode suportar, particularmente em relação às questões morais que a vida militar exige.

A versão ocidental mais próxima de um homem como Mishima que, de certo modo, o suplantou (principalmente por ter uma experiência militar com a qual Mishima não poderia ostentar e por conta da fraqueza corporal de Mishima quando ele foi comissionado ao Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra), foi Ernst Jünger, que é, provavelmente, o exemplo supremo de um artista, um literato e um espiritualista secular, e também de um soldado extremo que lutou durante a Primeira Guerra Mundial durante quatro anos, de 1914 a 1918, e que foi condecorado com duas Cruz de Ferro, bem como com a mais alta medalha de valor, a Pour Le Mérite, pelo Exército Prussiano Imperial, e que foi ferido em combate quatorze vezes no front para o qual ele retornou e do qual só saiu após a rendição das forças imperiais alemãs com o armistício assinado ao fim do conflito, em 1918.

Se você ler livros como "Fogo e Sangue", do tipo que só existe na Alemanha, ou "A Batalha como Experiência Interna", disponível apenas na Alemanha, ou as duas versões de seu épico de guerra, que está disponível em inglês, intitulado "Tempestade de Aço" e "O Bosque 125", você terá contato com um homem que possui uma visão espiritual da guerra e que poderia ser descrito como um "samurai do Ocidente".

A tradição samurai acredita, basicamente, que o potencial de um soldado deve ser mais elevado do que baixo. Essa é a combinação de um professor universitário, um bodybuilder das artes marciais e um guerreiro extremo. Essa é uma combinação incomum, que, na maioria das sociedades, ficou restrita a pequenas elites militaristas que guardam uma figura imperial ou semi-divina. A guarda pretoriana, os imortais da Pérsia (uma organização que foi parcialmente revigorada pelo xá do Irã durante seu período de poder), a SS e outras organizações similares que hoje seriam consideradas como força especiais são aquilo que há de mais próximo à ética samurai na tradição ocidental. Mas, mesmo o homem médio do SAS dificilmente poderia ser descrito como um intelectual ou um erudito. Nem se deve insistir nisso.

Contudo, o nível de coragem física, dureza, retidão e prontidão para o conflito marcial que a Delta Force, os Navy SEALs nos EUA, as forças Spetsnaz na Rússia pós-soviética, o Regimento  de Serviço Aéreo e o Regimento de Serviço Naval, e também os esquadrões de elite dos exércitos da Alemanha e da Itália, e provavelmente a elite francesa da Força Legionária Estrangeira, bem como os grupos que podem ser ditos como condutores nas missões neo-imperialistas do Ocidente pelo chamado Terceiro Mundo até os dias de hoje, são o que há de mais próximo que você vai conseguir no treinamento militar infindável e na subserviência daquilo que é a autoridade que os samurais tiveram de evidenciar.

Há também a combinação de um nível de individualismo, já que esses guerreiros que estavam sujeitos a lutar por conta própria contra as linhas inimigas, e isso é perceptível na enorme literatura que prevalece na Bretanha moderna, ou na Bretanha pós-moderna, nos guerreiros do SAS, nas subculturas de Andy McNab e todas seus infinitos incidentes e em suas várias mídias por onde os homens do SAS e seus equivalentes são tratados com certa adoração, principalmente por conta da obtenção do heroísmo e do retorno aos elementos de masculinidade heroica que é adqurida por meio da individualidade. 

Mas, novamente, apesar de toda a coragem e preponderância militar, esse tipo de guerreiro individual e de individualismo mostrarão que não há uma cultura refinada de ética ou beleza, nem sensibilidade religiosa, nem o culto ao intelecto, que, apesar de obtido apenas por uma minoria de samurais, teria evidenciado em sua própria era o valor desses homens, elementos que nunca foram a ideologia principal desses grupos citados. A combinação do guerreiro com o esteta não é algo exclusivamente japonês, mas a ideologia que os unificava o era, e numa certa extensão, ainda é algo tipicamente japonês.

Depois de o Japão ter modernizado sua sociedade nos anos 1860, a classe imperial japonesa dominante adotou o sistema de conscrição nacional de acordo com os padrões ocidentais, mas todo o corpo de oficiais e toda a elite do exército japonês, após a derrota do xogunato (que envolveu a restauração monárquica em termos conceituais após os anos 1860), eram samurais em termos de ordem e orientação. Por sua vez, isso nos leva à área controversa na qual muitos estudos de Mishima, que tendem a ser puramente literais em suas formas, tendem a ser rejeitados. Esse era o tratamento dos prisioneiros ocidentais feitos pelo Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial.

Muitos ocidentais ainda se lembram das desfigurações, da má-nutrição e do tratamento inadequado dado aos prisioneiros tanto ocidentais quanto orientais, por parte do Exército Imperial Japonês. Os "Mishimas" desse mundo nunca comentaram realmente sobre esse tema pois seu sistema de éticas e moral sobre isso é, de algumas maneiras, diferente de um sistema dualista, maniqueísta, cristão, cristianizado ou pós-cristão.

O conceito de Mishima sobre o mundo, sem falar por ele de modo indevido (apesar de que exista em textos como "O Caminho do Samurai" e "Sol e Aço", e em "O caminho do Samurai é a Morte", e livros sobre mártires heroicos do Exército Imperial Japonês), é o de que a dor e a crueldade são parte da vida e são uma continuidade com a paz e a benignidade; então, há um nível para o qual não há uma alma moral procurando sobre aquilo que é considerado como mal em outras trajetórias espirituais, apesar de que não haveria negação de que o mal possa existir e que o homem em batalha possa perpetuá-lo.

O elemento importante sobre esse tipo de moralidade pagã nos samurais evidencia que havia uma muito mais uma hierarquia do que uma dualidade. Mais do que se comportar bem ou mal, uma sociedade como essa ou uma casta como essa (que provavelmente não representam plenamente tais elites como elas são) possui a noção de moralidade, onde a honra e a estima que alguém mantém em relação aos guerreiros é mais importante do que as preparações dualistas. 

Então, um samurai que desobedece uma ordem, que é pego num ato covarde ou que recuou diante de um inimigo será ordenado a cometer suicídio ritual instantaneamente. Instantaneamente! Isso mesmo, e com pouca preparação. O samurai só precisa estar mentalmente preparado pra isso. Tradicionalmente, o samurai tinha de cortar as pontas de seus dedos por conta de falhas menos graves e por infrações mais leves relativas a várias regras de seu sistema baseado em honra, chamado de bushido.

Há uma espécie de cultivo do masoquismo da carne, bem como um extremismo de violência externalizada (que é uma tradição japonesa) e que afeta essencialmente suas atitudes em todas as áreas da estética, da literatura, da poesia, da religião, da sensualidade e do sexo. Então, a cultura japonesa contém alguns postulados metafísicos bastante extremos, que são abertamente expostos, apesar de que, em muitas sociedades, esses elementos são ocultos ou tratados com um certo nível de discrição.

O radicalismo do exército japonês durante sua fase expansionista e sua ferocidade para com seus inimigos, bem como seu profundo senso de disciplina e autocontrole, foram coisas comentadas por mutos povos da época. Assim, no Estupro de Nanking, por exemplo, um embaixador alemão (numa sociedade com a qual a Alemanha estava, na época, fazendo um alinhamento entre Ocidente e Oriente) descreveu a conduta das tropas japonesas como algo "bestial", visto em termos ocidentais tradicionais. E essa era a visão de um alemão que participava como um "anexo" numa China cuja embaixada, na época, havia sido invadida pelo Exército Imperial Japonês.

Há um nível para o qual Mishima - como Jünger em relação aos excessos que a tradição prussiana conduziu em certas ocasiões - permaneceu em silêncio acerca desse tipo de assunto, chegando ao extremo de causar raiva à moral e ao humanismo dos críticos ocidentais. Isso ocorre porque a visão deles sobre a vida é esteticamente diferente e super carregada em relação àquilo que é parte corrente da civilidade atual.

Uma das observações de Mishima sobre sua própria civilização foi sobre sua afeminação, que era algo que grande parte dos críticos de Direita de suas próprias sociedades levaram em consideração no período pós-guerra. É bem verdade que o exército e a tradição militar abandonaram completamente o espaço civilizado e cívico em praticamente todas as sociedades ocidentais, incluindo os Estados Unidos. Exércitos são puramente profissionais e não são mais compulsórios (em grande parte). A maioria massiva da população nunca se aproxima dessas forças nem da utilização delas.

Homens jovens ocidentalizados nunca se atraem pelo treinamento militar. Um dos últimos países ocidentais a abandonar o treinamento militar dos jovens foi a França. Isso sempre é feito por conta dos custos de manutenção das linhas e porque os militares não desejam um grande número de recrutas, recrutas que eles consideram como tropas abaixo dos padrões que eles precisam manter em forma por razões sociológicas - e que não seriam muito bons em termos marciais.

Essa é a razão de você ter uma confluência de corte de gastos, de políticos neoliberais e de um exército, uma marinha e uma aeronáutica coordenadas por tecnocratas que desejam se livrar de exércitos de recrutas. É interessante que, no caso da França, os dois últimos partidos políticos que votaram pela tradição do militarismo de massas foram o Front National e o Partido Comunista da França. Todos os outros partidos, mesmo os de centro (s você preferir assim), votaram por um exército pago e patriótico composto de voluntários que não desejassem interferir nos negócios da vida militar.


É sempre verdade, é claro, que os exércitos são constelações que giram em torno de elites, e mesmo um exército de vanguarda profissional composto por gente que deseja lutar em tal força, em benefício de seu próprio Estado-nação ou de sua confederação, acabam formando elites em relação à massa de civis; entretanto, nunca antes essa massa civil foi tão enfraquecida em relação à vida militar.

Mishima não pregava uma militarização da vida japonesa, coisa que alguém como Ernst Jünger pregava no período entre-guerras da Alemanha nos anos 1920 e 1930. Há um nível para o qual a crença de Mishima era a de que o exército devesse novamente servir como modelo para a vida civil nipônica, e que devesse se tornar um modelo para o Japão pós-guerra (o Japão que passou pela derrota atômica) relacionado ao Japão pré-guerra.

Depois de escrever a melhor parte da centena de novelas e peças e de trabalhos não-ficcionais, dos quais ao menos 40 deles permanecem como itens puramente literários - o Ocidente logo aproveita esses itens para fazer dinheiro -, Mishima propôs uma solução para o dilema do Japão pós-guerra.

O Japão foi crucificado politicamente (em certos aspecto) desde a Segunda Guerra Mundial, assim como a Alemanha. Um país muto poderoso economicamente, e ainda assim um país praticamente sem qualquer recurso militar para fora de seus territórios ou suas fronteiras, onde o povo teme adotar qualquer política externa que possa gerar conflitos com os pré-requisitos globais estadunidenses. 


Há um nível no qual o Japão da era pós-guerra se manifesta como uma sociedade politicamente humilhada e uma sociedade militarmente humilhada, enquanto, ao mesmo tempo, é uma super potência econômica. A Alemanha, certamente, em relação ao restante da União Europeia, está praticamente na mesma situação. Os dois países internalizaram suas derrotas massivas na segunda conflagração global no século XX. Os dois países relacionam suas derrotas em diferentes modos. Ambos se engajaram em políticas infindáveis de apologia e ausência de autodefesa em relação àquilo que os historiadores ocidentais hostis tendem a chamar de passado "indomado".

Não devemos nos esquecer de que, apesar de ser considerada como obscura pela maior parte dos ocidentais, toda a liderança militar japonesa, mesmo que de um modo simbólico, foi posta sob julgamento depois da Segunda Guerra Mundial. Julgamentos massivos de crimes de guerra foram conduzidos em Nuremberg, mesmo a despeito do fato de que armas atômicas tenham sido usadas para finalizar o conflito na península japonesa. A elite japonesa internalizou a ideia de que o uso de armas atômicas foi justificado pela possibilidade de um confronto direto ocasionar muitas milhões de mortes, que poderiam ter sido intensificadas por guerreiros baseados numa ética samurai que lutariam no próprio país em nome de um deus-rei, já que percebiam isso como um culto ao império, o que teria causado devastação e morte de um número enorme de estadunidenses e outros aliados ocidentais, que pagariam o preço em termos de contagem de corpos.

Por essa perspectiva em relação às coisas e por nosso ponto de referência, a tradição historiográfica do Ocidente considera o uso de armas atômicas como algo válido, já que foi a única vez na qual esse tipo de arma foi usada pela fúria de um Estado-nação contra outro, o que é parcialmente justificado por ter "evitado" um caos muito maior e um rancor que teria ocasionado uma invasão convencional do Japão.

Apesar de que há sim um profundo sentimento de raiva no Japão por conta do uso dessas armas, no estilo típico japonês muitas dessas coisas foram internalizadas e contidas na cultura japonesa, principalmente em relação ao uso pacifista na vida pública, à possível afeminação da vida masculina, à tradição samurai e aos termos marciais - em termos de tradição budista.

Há pouca raiva social para com os Estados Unidos num sentido publicamente acessível, e isso ocorre pelo fato de os Estados Unidos terem dominado completamente e ter invadido moral e mentalmente o Japão do pós-guerra, num nível que a maioria dos ocidentais sequer pode perceber. Isso só ocorreu porque a cultura japonesa é tão distinta e tão resistente à ocidentalização em alguns de seus próprios termos, que os ocidentais não compreendem o quanto o Japão do pós-guerra conseguiu ser ocidentalizado de acordo com a imagem norte-americana. 

Agora, há a crença de que um autor como Ezra Pund (em relação à Itália fascista como em relação às estruturas de poder governamentais e econômicas dos EUA) poderia ter mudado essa parte da fantasia de que uma escritor literário importante - particularmente um que acredite na tradição bárdica. Essa é a ideia de que escritores falam por um povo como um todo ou que falem por algo mais importante do que eles mesmos. O conceito liberal sobre os escritores é, essencialmente, o de uma criatura solitária digitando num computador, numa sala cujos produtos são comprados e vendidos como qualquer outra commodity por aqueles que ocupam um mercado cultural. 

Porém, a tradição dos bárdica afirma que os artistas criam coisas em benefício de todo um povo, e que ao menos tentam falar em nome de largas proporções desse povo em momentos-chave. A luta de Mishima consigo mesmo e com a literatura chegou a um ponto final com a trilogia da obra "O Mar da Fertilidade", publicada nos anos 1960, e que fala sobre um grande acordo entre pequenos grupos conspiratórios de Direita, que maquinavam com elementos do militarismo japonês pós-imperial e com a equipe de generais que iriam derrubar as grandes empresas, a elite corporativa e política composta por liberais e democratas, restituindo a adoração ao imperador. Num desses ensaios, Mishima faz a seguinte questão: "Por qual razão o imperador foi transformado num simples humano?". Ele fez essa indagação porque, tradicionalmente, o imperador não era considerado como um humano no Japão, até 1945 e 1946, mas o foi posteriormente.

Mishima deu esse último posicionamento numa base militar na porção oriental de Tóquio, em 25 de novembro de 1970, onde, com outros três ou quatro acólitos de seu grupo Sociedade do Escudo, vestidos em trajes japoneses imperiais pré-1945 e em uniformes militares desenhados por ele mesmo, com mensagens inscritas neles, contendo declarações enérgicas sobre as intenções marciais que os guerreiros japoneses tradicionalmente vestiam.

Se você perceber, em muitas casas asiáticas há slogans ou peças de escrituras budistas que são escritas caligraficamente nas paredes, ou postas em bandeiras ou outras formas de arte, e que essencialmente adotam a posição da pintura na parede. Algumas vezes, os guerreiros japoneses escrevem slogans como "a morte é a realidade principal" ou algo desse tipo, frases retiradas do próprio Hagakure e colocadas em faixas amarradas nas cabeças, com o emblema imperial do Japão, que é o Sol.

A Sociedade do Escudo, que foi a pequena sociedade militarista criada por Mishima (com cerca de uma centena de membros, todos os quais portadores de um físico supremo, todos os quais eram homens, todos praticantes de artes marciais), teve como símbolo dois elmos imperiais japoneses do século XVII, pintados de vermelho e posicionados de frente um para o outro. 

Mishima preparou bandeiras e uma proclamação que deveria ser lida para todos os soldados. Ele se encontrou (sob um pretexto de falsidade política) com o general Mashita, que estava em comando da base militar oriental de Tóquio, particularmente. Espadas e adagas - tradicionalmente, os samurais possuíam uma espada longa, juntamente com duas  pequenas adagas. Na vida militar samurai, a cultura da guerra moderna, onde se mata à distância, é desprivilegiada de honra; não se preocupam se o Japão, é claro, tenha uma máquina de guerra moderna altamente organizada e mecanizada, capaz de se preparar plenamente para usar suas armas modernas como qualquer outro exército.

Porém, de modo interessante, eles encaixam esses ideais antigos e modernos no culto de suicídio e de morte pessoal imprudente, em nome de uma missão popular e imperial. O culto aos pilotos kamikaze, por exemplo, que jogavam seus aviões contra navios estadunidenses, causando explosões massivas nesses navios (incapacitando-os para o combate, destruindo-os no teatro de guerra do Pacífico), foi parte de uma parcela desse empenho em particular.

Mishima e seus colegas invadiram o escritório de Mashita, desarmaram o general, amarraram-no, escreveram alguns slogans em faixas que penduraram nas janelas da varanda do escritório, e então saíram para falar às tropas. Cerca de 1000 soldados japoneses se alinharam, e o acontecimento se espalhou como fogo; diziam que Mishima ou alguém estava agindo de modo estranho ou de um modo possivelmente terrorista na base militar. No final do discurso de Mishima para as tropas, que foi relativamente curto, helicópteros sobrevoavam numa tentativa de atrapalhar aquilo que ele estava dizendo.

Em seu discurso às tropas, que, à parte de sua fase inicial quando as tropas permaneceram em um silêncio chocante, vaiavam em sua maioria, ele exigiu que o Império do Sol retornasse. Ele exigiu que o imperador do pós-guerra fosse declarado como Tennō, que ele fosse declarado como deus novamente, declarado como deus para o povo japonês. Ele também argumentou que o exército deveria deixar de agir como mercenários dos estadunidenses, enquanto clamava pelo retorno de sua missão tradicional como alma do Japão. Basicamente, ele argumentou em favor de uma restauração da guerra japonesa que havia morrido, e implicitamente defendeu o ponto de que o imperador japonês Hirohito, no tempo da rendição de 1945, nunca deveria ter negado sua divindade ou ter sido forçado a fazê-lo pelos estadunidenses, e que ele deveria ter aceito sua responsabilidade pelas vias budistas ao fim da guerra.

Essencialmente, ele exigia um revisionismo, a revisão do passado e um tipo de base moral de vitória na derrota, que permitira o retorno do Japão tradicional e uma forma de conquista espiritual, mesmo após a falência da derrota física pelas armas atômicas usadas contra suas cidades em 1945. Mishima estava realmente pedindo pelo impossível e exigindo demandas contra as quais todo o Japão (exceto por alguns grupos marginais de Direita e de samurais) havia dado a costas.

Por qual razão Mishima pediu por essas medidas impossíveis que, para inventar um termo ou um neologismo, poderiam ser descritas como medidas impossibilistas? Muitos historiadores e eruditos ocidentais acreditam que Mishima simplesmente queria morrer, e que ele desejava cometer suicídio naquele tempo, e que usou o chamado às armas para um Japão imperial remanescente, baseado na adoração a um imperador divinizado, e um retorno ao kami do passado como desculpa para cometer um hari-kari ou um seppuku, seja em termos ocidentais ou em termos japoneses.

Isso pode conter alguma verdade psicológica. Mishima era obcecado com a morte e com as subcorrentes da vida, e também com o culto samurai de auto-eliminação, tudo isso desde a infância. Ele certamente havia planejado seu suicídio, e seu próprio testamento havia sido feito um ano antes de sua morte. Cada elemento desse ato foi premeditado esteticamente.

Depois de seu discurso ter sido rejeitado pela maioria dos soldados, ele voltou para o escritório e recitou várias orações xintoístas, junto com seus três ou quatro colegas. Então, ele se ajoelhou e cortou a barriga com a adaga samurai mais curta, que serve para o início de rituais suicidas na cultura de guerra japonesa. Ao final do ato, sua cabeça foi literalmente cortada por outro samurai que estava em pé, atrás dele. A cabeça então foi erguida e orações foram proferidas sobre ela. Seu amigo cometeu um ritual suicida semelhante.
Há também um nível para o qual, como acontece na vida real, o escolhido para ajudar no suicídio também comete suicídio, e não poderia fazê-lo sem a ajuda de um terceiro elemento, que, então, cortava as duas cabeças. As duas cabeças eram posicionadas uma junto à outra, e orações rituais budistas e xintoístas eram proferidas sobre elas. Isso acontecia porque, segundo o sistema de crença deles, é claro, você reencarnaria numa nova vida depois de 40 dias, e aquele não era o fim. Era a perpetuação de um prospecto e de um novo começo.

É verdade que esse ritual de suicídio e sua demanda por uma revisão cultural e por uma nova emergência nacional causaram consternação no Japão. Você deve compreender que ele estava lidando com a mídia oriental e ocidental no Japão, durante muito tempo. Seus trabalhos também haviam sido grandemente traduzidos para outras línguas, tudo numa era onde as obras dos escritores japoneses não eram muto traduzidas, em geral.

Mishima em seu discurso aos soldados japoneses
Ele também foi uma figura profundamente popular dentro do próprio Japão, a despeito de ser um escritor de literatura autoconsciente. Isso tudo realmente causou consternação por ele ter feito essas coisas. Sua revisão e sua análise interpretativa do Hagakure, a "Bíblia" dos samurais criada há três ou quatro séculos atrás, se tornou um best-seller no Japão logo após seu funeral. Dez mil japoneses ordinários, não associados a grupos de Direita nem associados a causas nacionalistas ou correntes samurais, dentro ou fora do exército japonês da época, nem a círculos literários, compareceram ao funeral de Mishima, um efeito que sequer havia sido anunciado anteriormente pela mídia ou pela cultura japonesa da época.

Basicamente, esse evento causou um enorme choque cívico e psicológico no Japão. Mishima estava seguindo uma trajetória propriamente sua? Ele representou a alma de seu povo, como ele acreditava? Seu ato foi um ato masoquista e isolado, totalmente contrário ao Japão pós-moderno e ocidentalizado? Ou isso foi um tipo de retorno, como ele gostaria de configurar o evento, numa verdade fundamental daquilo que era o ser japonês em comparação a qualquer outra nacionalidade na Terra?

Ninguém pode realmente responder essas perguntas. Possivelmente, uma resposta é apenas uma miscelânea para todas essas questões colocadas numa declaração. Um ocidental, certamente, é estranho ao perdão da força e do fogo, do círculo do sol que é necessário à ponderação dessas questões.




Artigo original em: Counter Currents

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3 comentários:

  1. O QUE VC CHAMA DE HARD?HENTAI?YAOI?MONSTER?ISSO É BIZARRICE

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