terça-feira, 5 de julho de 2016

Você não é mais importante do que seus pais e avós



Por Jean Augusto G. S. Carvalho

A geração moderna, cult, informada, mente aberta, tolerante, indie e hipster, que supostamente gosta de tudo e aceita tudo (a geração eclética), que adota o mantra do "nada é melhor nem pior" e que testa uma droga nova todos os anos é, talvez, o ápice do desdém pelos mais velhos, pelas gerações anteriores - eles são mais "revolucionários" do que Che Guevara e mais politizados do que Karl Marx. Essa geração foi muito bem representada pela trupe de humoristas Hermes & Renato.

Uma das características mais marcantes da massa disforme e diluída pelo liberalismo é a busca interminável por "singularidade", "personalidade" e "individualidade" (que, obviamente, não deve ser confundida com individualismo). Isso é manifesto essencialmente entre jovens que, motivados pela imaturidade e pelo imediatismo (e sem uma identidade totalmente consolidada) se tornam mais volúveis e atraídos pelas ideias de "olhe, eu sou diferente e mais especial do que todo mundo".  

O mantra é: "o mundo gira em torno de mim, e eu sou importante demais pra ser ignorado(a)". As gerações mais novas se consideram superiores às gerações mais antigas. É bem verdade que os mais velhos também se consideram melhores do que os mais jovens e também consideram que a geração à qual pertenceram era melhor do que as gerações mais novas.  Entretanto, há uma vantagem para aqueles que estão cheios de rugas: em geral, eles viveram mais, possuem mais experiência e realizaram mais coisas do que a casta jovem imatura, prepotente e cuja única realização máxima é conseguir sobreviver às maratonas intermináveis de seriados no Netflix ou se recuperar de alguma ressaca depois de uma rave.

Enquanto os velhos têm motivos de sobra pra se tornarem ranzinzas, teimosos e orgulhosos de si mesmos, o que os jovens modernos têm em comparação? Que grandes realizações fizeram? Quais os seus méritos? O orgulho é danoso em todas as idades, mas é injustificável na juventude, quando há a ausência de fatores que o justifiquem. 

É interessante notar como patricinhas burguesas de shopping e playboyzinhos "desconstruídos" de classe média alta se enxergam como superiores aos próprios antepassados, especialmente aos país e avós - esses dinossauros ultrapassados e retrógrados que os sustentam. Enquanto eles já decoraram os mais de 35 tipos de "gênero" e sexualidade, os avós ainda permanecem com aquele "papo" de que, veja bem, só existem homem e mulher. Enquanto os pais falam em responsabilidade e compromisso, esses jovens descolados já pensam em "revolução" (uma "revolução" que não se manifesta na organização dos próprios quartos).   

Os velhinhos não mudam a escrita com coisas como "td@s" e "todxs". Em geral, isso é manifestação de revolta contra as mães e avós que obrigavam esses grandes gênios do século XXI  a frequentar a missa ou o culto nos domingos de manhã quando ainda eram crianças (estágio biológico que eles insistem em manter mentalmente).

As gerações anteriores cometeram um monte de erros sim. Velhice, por si só, não faz de ninguém um santo. Pais e avós falham na educação de seus filhos, por melhor que essa educação seja e por maior que tenha sido o esforço deles (inclusive, uma das falhas dessa educação moderna parece ser a de não ensinar os filhos a como capinar um lote). Mas eles te pariram, eles cuidam de você e deram absolutamente tudo o que você tem - especialmente aqueles que passam dos 20, 30 ou até mesmo 40 anos e continuam estabelecendo uma relação vampírica com os próprios pais, vivendo como parasitas, carrapatos grudados a um boi gordo.

Colocar uma mandala na cabeceira da sua cama, tatuar seu signo (ou uma borboleta, ou o símbolo do infinito, uma fada atrás da orelha ou uma tatuagem tribal na região do cóccix - ou pior, o nome da sua "alma gêmea"), mostrar o quão "inclusivo" você é e participar de dezenas de "coletivos" e movimentos juvenis de partidos cheios de retórica e vazios de ação não te faz melhor do que seus avós e seus pais. 

Seu avô que ri de piadas politicamente incorretas fez mais do que você. Sua avó que vê na família o cerne da vida e que adora cozinhar é muito mais livre do que você será em qualquer "coletivo feminista". Seu pai que parece se preocupar só com dinheiro o faz pois teme o dia em que a família não tenha o que comer. Sua mãe que simpatiza com figuras políticas estranhas deseja um país melhor tanto quanto você - só que, diferentemente de você, ela procura expressar isso em opiniões verbais, e não em demonstrações genitais. 

Considerar tudo o que é velho como inútil, inclusive pessoas, é etarismo. Como se diz, etarismo é julgar algo ou alguém pela idade cronológica que tem. E você, o "desconstruído", a "empoderada" esclarecida, é justamente quem mais faz isso. Se há alguém que adore etarismo é o tão chamado "justiceiro social".

Qualquer sociedade saudável trata seus membros mais velhos e seus antepassados com a honra que merecem, a honra merecida por alguém que já se encontra nos últimos estágios dessa vida e que contribuiu com o país, com a família e com a cultura da nação. Alguém que ensinou algo aos membros mais jovens (mesmo que tenha ensinado aquilo que não se deve fazer) e que merece ser reconhecido por isso. Mas agora vivemos numa época de imbecis que acreditam verdadeiramente ter encontrado todas as respostas do mundo e da vida no auge de suas alucinações oriundas de uso contínuo de maconha, prontos a jogar todos os milênios anteriores no lixo e construir, do zero (literalmente) um Admirável Mundo Novo


Se você quiser construir algo, humildade é o primeiro passo. E se você deseja mostrar o quão superior é a sua geração, tente anular o defeito básico que você encontra nos seus parentes e que parece insistir em repetir: a presunção. Somos mais jovens do que o mundo e a chance de estarmos errados é muito maior do que a chance de o mundo inteiro estar equivocado, e mudar a si mesmo talvez seja uma opção muito melhor do que tentar salvar o planeta - e todas as minorias que você diz amar, mas às quais você sequer pertence.


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2 comentários:

  1. Realmente, a juventude precisa aprender a valorizar sua família, que é o cerne da sociedade. Excelente texto, muito esclarecedor!

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