terça-feira, 10 de maio de 2016

Vinicius Spiger: A crítica de Scruton ao conservadorismo

Por Vinicius Spiger




"[..] a causa conservadora foi poluída pela ideologia do grande capital, por ambições globais das empresas multinacionais e pela supremacia da economia sobre o pensamento dos políticos modernos. Esses fatores têm levado os conservadores a firmar aliança com pessoas que consideram fútil e pitoresco o esforço de conservar as coisas."


Roger Scruton, em "Como ser um Conservador", ao tratar do tema ambiental (comumente renegado pelo atual "conservadorismo"), elucida de forma clara e simples a doença intelectual que corrói muitos dos autoproclamados "conservadores" de nosso tempo. Na tentativa de tornar-se um "brasileiro conservador", muitos são aqueles que subvertem a ideia central do próprio conservadorismo: conservar.

Ao importar as ideias da direita americana, adotam sem escrúpulos um discurso único, desprovido de adaptação cultural e desvinculado da realidade nacional. Este é, aliás, um hábito comum na história intelectual de nossa nação, como bem demonstra Mário Vieira de Mello. O brasileiro tende a aceitar descerebradamente tudo o que vem de fora. Não há necessidade de reflexão ou de pensamento. O que impera é a superioridade da imagem do estrangeiro, pragmática na defesa de uma opinião que lhe seja conveniente. Sacrifica-se a lógica e a moral inerente ao processo de análise do pensamento, para a ado(ra)ção irresponsável do exterior..

Nessa falta de honestidade, que se mistura a vícios como a preguiça e a ingenuidade, o conservadorismo também se perverte: o ideal econômico americano torna-se o nosso. A cultura ideal americana torna-se a nossa. Os valores e os ideais americanos tornam-se os nossos. Por fim, ajoelhamos-nos em prece a uma cultura estrangeira, em verdadeira mímese da tão criticada imitação do pensamento francês, adotada por muitos dos progressistas brasileiros.

Não há nada de conservador nesta abordagem. Por um lado, as coisas boais que deveríamos aprender com os americanos perdem-se em meio à adoção de tantas outras que se tornariam falhas em nossa sociedade. Por outro lado, nossos defeitos tornam-se ainda mais graves, incorporando à nossa cultura os erros de outras nações. Assim, o dito "conservador" acaba nada conservando: destrói a sua cultura e também a cultura alheia, através do não reconhecimento de seus próprios vícios.

Conservar é, antes de tudo, compreender. Ser um conservador exige verdadeira dedicação, através do minucioso cuidado, e não uma simples síndrome messiânica precipitada de tentar salvar o Brasil, originária da soberba e da arrogância. Ao adotar uma postura séria e honesta, temos a capacidade de herdar de outras nações o que nos é necessário, sem adotar os inconvenientes que não nos pertencem. Já temos problemas em excesso, não precisamos importar novos vícios.

Assim talvez possamos ter a abordagem séria, honesta e profunda, que certos indivíduos julgam ter, ao passo que se limitam a repetir aqueles mesmos erros por eles apontados em seus opositores.
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