terça-feira, 31 de maio de 2016

Saul Ramos: A agricultura e seu papel na libertação dos povos

Por: Saul Ramos de Oliveira*


‘’Se as cidades pegarem fogo, restarão os campos; mas, se os campos se incendiarem, as cidades morrerão de fome’’ - Abraham Lincoln

Há cerca de 10.000 mil anos, um órgão vegetal foi responsável por uma revolução na pré-história que iria mudar radicalmente a vida do homem. Através desse órgão, um novo sistema sócio-econômico nasceu, permitindo avanços tecnológicos e culturais que serviram de base para o surgimento da sociedade como a conhecemos. Este órgão se chama semente.

O homem, antes da agricultura, era caçador-coletor, vivendo num sistema itinerante, nômade, que se deslocava através de grandes extensões, caçando animais silvestres e coletando frutos para se alimentar. Pesquisas apontam que, além dos frutos, os caçadores coletores também consumiam sementes. A relação com as sementes levou essas sociedades, um dia, a observar sua germinação e consequentemente o nascimento de uma planta.

Esse fato marcou o fim do sistema de caça e coleta, pois, através dessa observação, os homens passaram a cultivar seu próprio alimento, nascendo assim a agricultura, que pôs um fim em suas exaustivas andanças provocando sua sedentarizarão. O ponto certo dessa transição do homem de nômade a sedentário continua sendo um ponto ainda intrigante e não muito claro para várias ciências como a etnobotânica, ecologia humana, antropologia, arqueologia, dentre outras.

Com o advento da agricultura que proporcionou a abundância de alimentos, a população aumentou, saindo das cavernas, e vilas começaram a ser formadas, o que se cristalizou na primeira forma de organização social do homem. Associado a isso, a sedentarizarão foi acompanhada de avanços tecnológicos. Surgiram vários utensílios para facilitar a prática da agricultura como; foices e machados de pedra e osso, moinhos primitivos, panelas primitivas, etc. A formação de vilas também necessitou de avanços no domínio da construção, usando madeira para fazer as primitivas casas. A agricultura neolítica (mesmo sem saber) serviu de base para duas áreas chaves das ciências agrárias, a genética, através da domesticação das plantas cultivadas e dos animais silvestres criados, e a Zootecnia, através da criação de animais para fins de alimentação.

A primeira forma de organização social do homem foi responsável não só por avanços na agricultura e tecnologia, mas também, está associada ao nascimento das primeiras estruturas de ordem que irão determinar rotinas, comportamentos e as mais diversas relações entre os indivíduos. Um exemplo clássico disso é o Totemismo, um fenômeno que relaciona a mística com os objetos naturais. 

Emile Durkheim explicou de forma categórica o fenômeno do totemismo ao estudar as religiões primitivas. Para ele, a religião se forma através das relações de sagrado e profano, ou seja, de crenças e práticas. Sendo a agricultura uma prática importante para as sociedades primitivas, a planta, em si, representou um fundamental totem da qual ligou os homens ao sobrenatural, fundando práticas religiosas, culturais e ajudando a sociedade a evoluir suas relações e subjetividades.

Para alguns pesquisadores, o nascimento da agricultura livrou o homem da extinção, garantindo sua segurança alimentar, para outros, o sistema de caçadores e coletores mesmo com suas dificuldades, garantia a sobrevivência dos homens ao ponto de não permitir sua extinção. 

Polêmicas antropológicas acadêmicas a parte, o fato é que a agricultura possibilitou o nascimento das vilas e posteriormente das cidades, uma organização social, relações místicas religiosas que ocasionou amadurecimento e evolução social,  estimulando  maior exploração da criatividade humana, pois, o sedentarismo proporcionou tempo a os homens para se dedicarem à outras atividades como, a fabricação de ferramentas, cerâmicas, casas, além de atividades artísticas e comerciais.

A agricultura foi a responsável pela maior explosão demográfica vista no planeta. A acumulação de alimentos possibilitou não só o aumento da população como também sua expansão geográfica. Vários sistemas de produções agrícolas foram os grandes responsáveis por isso, os egípcios e os mesopotâmios com suas agriculturas de vazantes nas beiras dos rios, os chineses e Ameríndios com seus complexos sistemas hidráulicos e os Europeus com o sistema de alqueiva (preparo do solo ao longo de um tempo para melhorar sua fertilidade). 

A revolução agrícola do neolítico serviu de base para as novas revoluções que iriam beneficiar o campo e sociedade como um todo. Descrever todos os avanços tecnológicos no meio rural e seu impacto na sociedade seria uma tarefa difícil e longa, mas, podemos destacar as inovações criadas em três grandes revoluções agrícolas: 

1- Revolução agrícola da Idade Média, que teve como principais inovações o cultivo com tração pesada (uso de animais como força motriz), a criação de uma série de ferramentas que auxiliaram à agricultura como, o charrua, charretes, enxó, moinhos de ventos e de água, além de carpintaria e siderurgia básica. Isso tudo propiciou uma grande explosão demográfica na Idade Média, pois os europeus passaram a comer mais e melhor. Outra característica importante dessa revolução foi a possibilidade de criar e comercializar excedentes, provocando expansão comercial. 


2- Mecanização dos transportes agrícolas, ocorreu nos séculos XVIII e XIX. Foi nessa revolução que equipamentos como, arados metálicos, colheitadeiras, semeadeiras, entre uma série de outras máquinas foram criadas. Associado a isso, surgiram as máquinas a vapor, seja terrestres ou marítimas, que serviram nas logísticas dos escoamentos dos produtos agrícolas. A produção de alguns fertilizantes como o potássio e fosfatos também passaram a ser explorados e utilizados na agricultura. Essa revolução trouxe, até o final do século XIX, uma série de benefícios como o aumento da produção em escala, disponibilidade maior de matérias primas para as crescentes indústrias, inovações tecnológicas e uma maior consolidação do sistema capitalista de produção. 

3- Modernização da agricultura (Motomecanização e Revolução verde), aconteceram entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial e foi simplesmente a fabricação e expansão de máquinas agrícolas mecanizadas como tratores. Essas máquinas aumentaram a produção devido sua alta capacidade de trabalho por agregar diversos implementos agrícolas.

A revolução verde teve início entre as décadas de 50 e 60 e consistiu na adoção de um pacote tecnológico que visava aumentar a produção agrícola colossalmente. Entre esses insumos, estavam fertilizantes, defensivos agrícolas, sementes transgênicas e mecanização intensiva. Esse pacote fez aumentar a produção de alimentos no mundo inteiro, além de trazer uma série de inovações tecnológicas em relação à pesquisa agronômica.

Para muitos autores essas revoluções tiveram vários impactos negativos, realmente tiveram. A segunda e a terceira revolução mencionada foram responsáveis por um aumento da produção de alimentos, o que gerou um barateamento dos produtos agrícolas, levando ao colapso inúmeros pequenos e médios produtores por não poderem concorrer com a produção em escala.

A revolução verde foi, ainda, mais danosa. Foram ocasionados vários impactos ambientais devido ao uso excessivo de fertilizantes e defensivos. Entre eles, o surgimento de pragas e doenças, contaminação de águas, degradação dos solos, erosão genética, entre outras. Os impactos sociais foram ainda piores, êxodo rural, concentração fundiária e pobreza rural. A revolução verde teve um caráter extremamente conservador onde os pequenos e médios produtores não usufruíram de todas as tecnologias e ganhos produtivos que ela gerou, pelo contrário, muitos sistemas de produção familiar desapareceram.

Em poucos anos, a principal lógica da revolução verde que era produzir mais alimentos em menor érea e alimentar a crescente população, ironicamente, teve seu conceito totalmente invertido. A produção de gêneros alimentícios perdeu espaço para os produtos de exportação, como, soja, milho, cana-de- açúcar, e consequentemente sua produção foi reduzida, não conseguindo erradicar a fome.

Acredito que não foram as revoluções que ocasionaram tais flagelos, e sim, as formas que foram implantadas e regidas. Com a entrada do capital financeiro na agricultura e a formação de monopólios rurais monocultores, a agricultura deixa, cada vez mais, sua função de alimentar o homem para apenas gerar lucro. A atividade monocultora aglutinou terras, utilizou de seu poder para cooptar mais recursos dos Estados e foi drasticamente irresponsável em relação ao meio ambiente, tudo isso, devido a um não controle das ações por parte de vários países, em especial, os subdesenvolvidos.

Se as inovações tivessem sido estendidas para todos (pequenos, médios, e grande produtores), se os países tivessem adotado politicas de proteção de preços dos produtos agrícolas e uma política de reforma agrária para ajudar os pequenos produtores, bem como, mais responsabilidade ambiental baseada na lógica de como, quanto, e quando usar os defensivos e fertilizantes, teríamos, hoje, uma agricultura tecnificada de forma global, sustentável e extremamente produtiva.

Outro aspecto importante da agricultura é seu papel na economia e no desenvolvimento nacional. O Brasil tem nas exportações de commodities agrícolas importantes ganhos para sua economia, principalmente, por essas exportações cobrirem os déficits de manufaturados de nossa industrial nacional insuficiente. Mesmo com seus benefícios, acreditamos que esse modelo não seja o ideal, pois, deixa a economia vulnerável e dependente de exportações de simples matérias primas.

 No entanto, a agricultura só possui um grande potencial de libertação econômica se for acompanhada de um projeto de reforma agrária adequado. Atualmente, no Brasil, o termo reforma agrária se tornou sinônimo de Sem Terra, algo que deu errado e mais recentemente de corrupção. O conceito de reforma agrária, assim como o de campesinato, é algo bastante complexo, além de ser inerente de cada pessoa ou estudioso da área. Discutir esse conceito não é nosso objetivo.

Acredito que a reforma agrária não pode ser apenas uma política de distribuição de terras e acesso a um pequeno crédito como vem sendo feito no Brasil, reforma agrária tem que ser algo bem mais amplo, um projeto que inclua, além da posse da terra, uma política de desenvolvimento regional com uma sincronização entre crédito, produção agrícola, sustentabilidade ambiental, cooperativa, agroindústria, mercado e finalmente, consumidor.

Assim como o grande Manoel Correia de Andrade, também somos a favor de um reforma agrária característica para cada região ou estado, onde se leve em consideração cada povo, cada cultura e cada potencialidade específica de cada local. Verificando as potencialidades e as características de cada região, fica mais simples de traçar um projeto de reforma agrária, pois, saberemos quais culturas agrícolas se incentivar para produzir, quantidade de crédito a disponibilizar, potencial e dificuldades do mercado local, aceitação por parte dos agricultores e etc.

Os benefícios da reforma agrária para a economia são diversos. A agricultura diversificada com o intuito de atender o mercado nacional teria o papel de fornecer matérias primas para vários ramos industriais, como: têxtil, energético, agroindustrial de bebidas e alimentos, moveleiros, dentre outros. Isso seria fundamental para a criação de uma indústria regional e nacional.  Ainda é responsável pela diminuição dos preços dos gêneros alimentícios, sendo de fundamental importância para a transferência de recursos para a indústria devido ser a alimentação muito onerosa para os trabalhadores, sobrando poucos recursos para consumir outros produtos. Quando se inverter esse quadro, automaticamente, milhões de trabalhadores se transformarão em consumidores em potenciais, fazendo crescer a industrial nacional.

Um reforma agrária eficiente foi algo imprescindível para o desenvolvimento das nações desenvolvidas. Existe uma associação entre distribuição de terras, diminuição da pobreza e desenvolvimento. Uma das coisas que as nações desenvolvidas têm em comum são os baixos índices de concentração de terras. Vários países na Europa passaram por transformações em suas estruturas agrárias, mais especificamente, depois das revoluções burguesas. 

Contudo, somente no século XX que a reforma agrária e a unidade de produção familiar passaram a se concretizar como importante ferramenta de desenvolvimento. Grandes exemplos nesse período foram as reformas agrárias ocorridas após a Segunda Guerra Mundial na Coreia do Sul, Japão, Taiwan, onde a agricultura acompanhada de reforma agrária possibilitou a essas nações a emergirem como potências econômicas. Também vale ressaltar o caso da China, onde a transformação das fazendas coletivas em unidades familiares possibilitou transferência de renda para os setores industriais, o que foi de extrema importância para reduzir a pobreza, aumentar o consumo da população rural e fazer a China desenvolver um grande parque industrial. 

Está mais do que claro que a agricultura e a reforma agrária são importantes fatores de desenvolvimento da economia e da libertação dos povos, em especial, de se libertar do sistema semicolonial imposto por grandes potências imperialistas. É necessário entender que a manutenção da concentração fundiária nos países subdesenvolvidos é um plano para estagnar o desenvolvimento dos mesmos, pois, o crescimento da indústria interna depende dos benefícios da reforma agrária. Não é à toa que países subdesenvolvidos possuem pouca ou nenhuma indústria nacional. A manutenção desses países como exportadoras de matérias primas baratas para as grandes potências é algo primordial para suas escravizações.

Também vale destacar os benefícios da reforma agrária para a zona urbana. Com a redução do êxodo rural e o possível retorno de pessoas ligadas ao campo, os centros urbanos economizariam gigantescos recursos gastos todos os anos em transporte, saúde, habitação, segurança, etc. As grandes cidades já não suportam mais a grande quantidade de pessoas que diariamente chegam dos vários interiores por falta de oportunidades. Muitos não encontram, ficam vagabundeando sem nada produzir , e pior, muitos entram na criminalidade.

José Gomes da Silva, o maior teórico da reforma agrária brasileira fez um cálculo a fim de saber quanto custa para manter um presidiário em São Paulo. Segundo ele, o Governo paulista, em 1995, gastava cerca de 4 a 4,5 salários mínimos por preso mensais. Os assentamentos Paulistas custaram menos da metade disso! José Gomes ligava ,diretamente, o aumento da violência com o êxodo rural provocado pela a falta de uma reforma agrária e acreditava fielmente que a reforma agrária era peça chave para a resolução da criminalidade.

A agricultura também pode servir para libertar os povos de várias enfermidades. Os estudos e o cultivo de plantas medicinais vêm trazendo inúmeros benefícios para a saúde, seja devido a disponibilidades dessas plantas no mercado, seja por gerar informações científicas para as indústrias farmacêuticas e órgãos do Estado. Dentro da botânica, existe uma área chamada Etnobotânica, essa área trata dos estudos das relações de comunidades tradicionais com plantas. O avanço em pesquisas nesta área traz resultados importantíssimos para a farmacologia, por trazer informações de tratamentos e uso de plantas que a medicina convencional desconhece, realizando uma fusão entre conhecimento tradicional e científico gerando novos medicamentos.

A agricultura, ainda, pode ser uma prática disciplinadora, terapêutica, educacional e de recreação. Como disciplinadora, pode ser utilizada em presídios, nas fundações casas, universidades e escolas. A disciplina é adquirida devido a rotina e os cuidados indispensáveis das lavouras, pois, quando se trata de agricultura, um único dia pode ser suficiente para perder toda a produção devido um ataque de praga, doença, ou forte chuva, etc. 
Como terapêutica, a agricultura tem um grande potencial no tratamento de pessoas depressivas, hiperatividade, entre outras doenças que afetam a psique. Nos tratamentos em viciados em drogas, a agricultura já é utilizada, mas, não na proporção que deveria. O contato com a terra, em a atividade diária, proporciona calma, diminuição da ansiedade e uma experiência longe da agitação dos centros urbanos, coisa necessária no tratamento das enfermidades mencionadas.

Na educação, a prática pode ser largamente utilizada nas escolas para ensinar biologia, química, física, matemática, educação ambiental, entre outras. Além de contribuir na erradicação dos preconceitos com o mundo rural ainda muito frequentes nas grandes cidades. Na recreação, a formação de jardins nas praças, vias públicas, clubes, trazem, não somente, conforto térmico, mas também, bem estar e uma melhor recreação. A vida com agricultura é mais colorida e feliz.

Por fim, a agricultura é fundamental para a necessidade mais básica do homem, que é a de se alimentar. Descrever todos os benefícios da agricultura para a libertação dos povos é uma tarefa difícil, mas, podemos dizer que foi a agricultura quem libertou o homem da extinção, da reprodução limitada e do provincianismo. A agricultura possibilitou libertação tecnológica, explosão demográfica, avanços em várias ciências e a formação das cidades. Foi de grande importância para o maior convívio social dos homens, do amadurecimento das relações sociais, culturas, da criação de práticas religiosas ou até mesmo religiões.

A agricultura foi, e ainda é, uma peça chave para o desenvolvimento das nações, de uma economia soberana, da diminuição da pobreza, da criação de empregos e da indústria nacional. Mesmo com todos os benefícios até hoje criados por ela, sua função ainda está longe de terminar, pois, sua potencialidade para libertar os homens de vários problemas ainda não é bem explorada em todo o mundo.

E necessário que a agricultura não seja apenas uma atividade econômica lucrativa, ela precisa ter uma papel social antes de tudo, precisa que todos os benefícios que advém dela sejam explorados ao máximo, que sua prática seja libertadora e não escravizadora como em muitos casos no mundo. 



* -Saul Ramos de Oliveira é Engenheiro Agrônomo, Mestrando em Horticultura Tropical (ambos pela UFCG) e é membro do Avante da Paraíba.

Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Visitas

Participe do nosso Fórum Online

Siga-nos no Facebook