sexta-feira, 26 de maio de 2017

A Direita admite que seu candidato vai perder

Por: Jean A. G. S. Carvalho



A Direita está admitindo que vai perder as próximas eleições presidenciais?

Há uma convulsão política no país. A instabilidade é total. O governo sátrapa assumiu com a missão de reestruturar a política, trazer estabilidade e fomentar uma reorganização do país. Nada disso aconteceu. Ao contrário, todos os problemas se agravaram, principalmente aqueles que o novo governo havia se comprometido a solucionar.

Diante disso, com uma taxa de aprovação irrisória, descontentamento generalizado e desilusão com as instituições do país, com a própria Constituição e principalmente com as figuras e partidos políticos, o lema das "Direta Já" ganhou novo fôlego e tem sido defendido por inúmeras pessoas, das mais diversas filiações políticas - mas essencialmente de Esquerda.

A Direita, provavelmente mais por reflexo contra a Esquerda do que por iniciativa própria (afinal, não possuem princípios nem valores, apenas reações àquilo que a Esquerda faz ou deixa de fazer), não está exigindo eleições agora. E não vamos entrar no mérito se eleições imediatas resolveriam ou não o problema. Vale mais a pena fazer uma leitura simples desse gesto: a Direita assume, mesmo que inconscientemente, que não tem chances de vencer as eleições presidenciais e de que, numa eleição imediata, seu candidato favorito (Bolsonaro) vai perder.

A retórica é simples: se houver novas eleições, Lula será eleito. A própria Direita já entrega a vitória das eleições ao maior opositor de seu projeto. Mas o discurso não é justamente o de que Bolsonaro "lidera todas as pesquisas de intenções de voto"? O discurso não é justamente o de que ele tem uma massa cada vez maior de apoiadores? Se é essa a questão, por que o medo de novas eleições? Que diferença faria iniciar o processo esse ano ou em 2018, se a vitória do "mito" já está, segundo a Direita, mais do que garantida?

Se houvesse mesmo segurança em relação a Bolsonaro, a própria Direita faria coro ao "Diretas Já". Primeiro, porque seria a chance de retirar Temer do poder e colocar alguém do interesse deles. Segundo, porque a vitória já estaria "garantida" - é isso o que eles repetem sempre. Mas, certos de que se Lula concorrer Bolsonaro sai como derrotado, a única esperança da Direita é se agarrar ao cadáver de Temer para impedir o "retorno do comunismo". Dessa forma, o discurso moralista da Direita cai por terra: eles abraçam um governo de escória corrupta para impedir o adversário, ao invés de pressionar novas eleições para eleger um candidato "limpo" (o que sabemos que não é verdade).

Com cada gesto, a Direita dá mais força aos próprios adversários e assume cada vez mais suas fraquezas. Há ainda o agravante de que Dória, se realmente se lançar candidato, vai disputar o mesmo público que Bolsonaro, rachando seus votos e dificultando ainda mais sua eleição. Há muitos que já migraram do apoio a Bolsonaro para o apoio a Dória, uma figura mais sóbria e lúcida. Bolsonaro terá dois opositores pela frente: Lula (se não for preso) e Dória (se realmente se candidatar). 

E, mesmo que essas duas figuras não participem da disputa, qualquer outro candidato mais protecionista e trabalhista (bandeiras que Bolsonaro odeia, inclusive migrando do nacionalismo pleno herdado de Enéas para o típico liberalismo caricato do MBL) será um rival sério para ele, respondendo mais aos anseios da massa do que a mera retórica moralista e repressiva.

Bolsonaro continua sendo seu pior adversário: a falta de um projeto substancial, de coerência em diversos pontos e de uma capacidade de conciliação (algo mais importante, agora, do que o mero comportamento de hostilização) fazem com que dificilmente sua base de apoio se expanda para fora da mera massa de direitistas, cuja única razão existencial é a luta contra um comunismo imaginário, sem qualquer projeto próprio para o país ou para qualquer outra coisa.

As pessoas estão entendendo cada vez mais que nem todos os problemas se resolvem com porrete, bala ou polícia. 



 
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segunda-feira, 22 de maio de 2017

O setor militar pode criar milhões de empregos no Brasil - e literalmente solucionar a crise

Por: Jean A. G. S. Carvalho




Como um setor praticamente ignorado pode ser uma das soluções para a crise econômica brasileira

Um dos ramos essencialmente ignorados no Brasil é o setor militar. Tanto por uma subserviência da Direita, cuja aspiração máxima para o Brasil é servir como um protetorado ou entreposto dos Estados Unidos, seja pela marginalização cultural e intelectual que a Esquerda tem feito nas últimas décadas, talvez por reação ao golpe de 1964, tratando qualquer traço de militarismo ou investimento militar como um "novo fomento à ditadura". Assim, desejando uma proteção estadunidense ou temendo um novo regime militar, Direita e Esquerda têm agido como sabotadores históricos dum maior reforço no setor.

Uma das ações mais consistentes para superar um contexto de crise é o investimento ativo no setor produtivo, infraestrutura e indústria. Geração de empregos em setores com alta demanda e que, em médio e longo prazo, ampliam os horizontes econômicos do país. O setor militar oferece uma ampla gama para gerar esses empregos, por vários fatores. 

Dentre esses fatores estão as condições geográficas: o Brasil é um país continental (o 5º maior do mundo em extensão territorial, com 8.511.965 km²), possui uma faixa costeira imensa (7.491km de extensão, que se amplia para 9.200km se as saliências e reentrâncias litorâneas forem levadas em consideração), faz fronteira com  10 países (Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai, num total de 15.179 km de fronteiras) - enfim, um país imenso. 

E essa imensidão exige uma capacidade de defesa imensa. Isso significa que a força militar brasileira deve ser essencialmente proporcional às dimensões territoriais do país. Uma vastidão territorial exige um forte Exército, uma faixa costeira imensa e inúmeros rios exigem uma Marinha potente e a amplidão do espaço aéreo requer uma Aeronáutica em plena capacidade de operação.

O Brasil possui imensas riquezas naturais: reservas consideráveis de minérios[1], as maiores reservas de água potável do mundo[2], biodiversidade incomensurável[3] e inúmeros outros potenciais. Isso significa que dispomos de recurso essenciais, cuja natureza limitada os torna ainda mais valiosos com o passar do tempo. As defesas devem estar à altura daquilo que precisa ser resguardado. Os interesses estratégicos do Brasil nesses termos dependem também de sua capacidade militar.

Há uma grande demanda por armamentos, veículos, aeronaves, embarcações,  tecnologia e equipamentos militares em geral - o Brasil tem os potenciais, como a EMBRAER[4] e a IMBEL[5], mas faltam incentivos mais robustos nesses setores. Em termos militares, o Brasil ainda depende muito de aparatos estrangeiros. Força militar também significa autonomia tecnológica. Milhares de empregos podem ser criados em indústrias de fabricação dos mais diversos equipamentos e instrumentos de uso militar.

Temos a vantagem de que o Brasil é um país considerado pacífico no cenário internacional, o que pode permitir um desenvolvimento militar sem constrangimentos ou indisposições com a comunidade dos países.

Setores de infraestrutura (construção de estradas, portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, pontes, etc.), nos quais as Forças Armadas têm desempenhado projetos com excelente execução e rapidez, também podem gerar centenas de milhares de empregos. Somando toda a demanda industrial, tecnológica e mesmo na área de serviços (inteligência militar, suporte técnico, manutenção, gerenciamento, pesquisa, etc.), não é exagero dizer que milhões de postos de trabalho podem ser criados num setor que não se restringe aos militares, mas que pode muito bem capacitar e englobar mão de obra civil, desde tarefas de simples execução quanto atividades mais complexas. 

Investir no setor militar exige investir também em educação (o ITA é um exemplo), infraestrutura, agricultura, projetos ambientais e inúmeros outros setores. As áreas essencialmente militares devem ser vistas como um ponto estratégico para o Brasil, gerador de riquezas, emprego e renda, e uma resposta a problemas atuais que, caso o quadro atual de negligência para com o setor seja mantido, serão imensamente agravados.

A marginalização das Forças Armadas por questões ideológicas ou mesmo pseudo-econômicas (a retórica de "austeridade" e de "necessidade de cortes em gastos governamentais") só beneficia aqueles que lucram com a crise e que desejam manter o quadro atual, não superá-lo. Retomar o processo de crescimento econômico do Brasil pode levar anos (ou mesmo décadas), mas não precisa ser assim: investir na indústria militar é um dos "atalhos" que podemos percorrer com tranquilidade.

Obviamente, isso exige desafiar toda uma lógica financista global e setores tradicionais para os quais um Brasil entravado e submisso é bastante interessante - e para os quais sua soberania e reforço é um "erro" a ser evitado ou corrigido.

Já temos bons exemplos em funcionamento. O que precisa (e deve) ser feito é aprimorar os bons exemplos em curso (como o Tucano e o blindado Guarani) e criar outras iniciativas baseadas naquilo que deu certo. Não é uma tarefa difícil se houver o interesse e os investimentos adequados.



Notas:

[1] O Brasil é considerado uma das maiores reservas de minérios do mundo, com apenas 30% de suas áreas mapeadas geologicamente. Isso significa que dispomos de mais riquezas minerais do que imaginamos, superando os números atualmente disponíveis. Fonte: "Mapping mineral deposits and mining around the globe".

[2] As reservas brasileiras de água doce correspondem de 12% a 16% do total mundial - quase o dobro das reservas da Rússia, o segundo maior país no ranking, depois do Brasil.

[3] O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, com mais de 103.870 espécies animais e 43.020 espécies vegetais catalogadas.

[4] A EMBRAER S.A. é um conglomerado transacional brasileiro que se dedica à fabricação de aviões executivos, comerciais, militares e agrícolas. Sediada na cidade de São José dos Campos, possui diversas unidades no Brasil e em outros países, incluindo China e Portugal. É a 4ª maior empresa do ramo no mundo e um referencial em tecnologia, dinamismo e qualidade.

[5] A IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil) é uma empresa pública com personalidade jurídica de direito privado, vinculada ao Ministério da Defesa por meio do Comando do Exército, criada em 14 de julho de 1975, por meio da lei nº 6.227. Sua função primordial é a criação de armamentos e equipamentos militares para as Forças Armadas do Brasil. Fabricam pistolas, fuzis, carabinas, facas, munições, pólvora e explosivos, equipamentos de comunicação e inúmeros outros itens.

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Trump assina acordo militar de U$110 bilhões com a Arábia Saudita

Por: Kathryn Watson
Traduzido por: Jean A. G. S. Carvalho




Para "combater o Estado Islâmico", Trump injetará bilhões nas mãos dos grandes financiadores do ISIS

O presidente Trump assinou um acordo econômico-militar multibilionário com a Arábia Saudita nesse sábado [20/05/2017], num movimento cujo objetivo é fortalecer a aliança entre EUA e Arábia Saudita contra o Estado Islâmico, selado na primeira viagem do presidente ao estrangeiro.

O acordo vale U$110 bilhões em valores efetivos imediatos, e U$350 bilhões ao longo dos próximos dez anos, num esforço em equipar a Arábia Saudita e os parceiros do Golfo Pérsico na luta contra o Estado Islâmico. O acordo fornecerá jatos, tanques, navios de guerra e sistemas de defesa antimísseis, também voltado para criar empregos no setor de defesa nos EUA, de acordo com a Casa Branca. O acordo inclui arranjos adicionais do setor privado e uma visão conjunta com a Arábia Saudita, um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

"Esse foi um dia tremendo", disse o sr. Trump aos repórteres. "Investimentos tremendos para os Estados Unidos".

"Centenas de bilhões de dólares em investimentos para os Estados Unidos e empregos, empregos e empregos", continuou.

O acordo sinaliza um fortalecimento nas relações entre os EUA e a Arábia Saudita, e distancia os Estados Unidos do Irã, adversário da Arábia Saudita. Segundo várias alegações, Trump está se preparando para anunciar seu apoio a uma "OTAN Árabe" para fazer frente à crescente influência iraniana na região.

O conselheiro econômico da Casa Branca, Gary Cohn[1], disse aos repórteres que viajaram com o presidente que o acordo irá "investir muito dinheiro nos EUA e para que muitas companhias estadunidenses possam fazer investimentos e construir projetos por lá".

"Eles vão contratar companhias estadunidenses [...] num monte de coisas relacionadas à infraestrutura", prosseguiu Cohn, acrescentando que o acordo significa "um monte de dólares".

A Arábia Saudita é o primeiro país que Trump está visitando em sua primeira viagem ao exterior como presidente. O presidente tem, entre suas atividades programadas, um discurso sobre o Islã e a participação num fórum do Twitter com jovens sauditas num domingo bastante agitado. Depois de visitar a Arábia Saudita, Trump vai se dirigir a Israel, encontrando-se com o papa Francisco, mais tarde, no Vaticano. A parte final de seu tour incluirá uma reunião com a OTAN em Bruxelas, na Bélgica, e uma reunião econômica com o G-7 na Sicília, Itália.

A primeira viagem presidencial de Trump ao exterior vem em meio à turbulência em casa. 

Momentos depois de o Air Force One[2] decolar na sexta-feira, repórteres divulgaram informações de que o presidente havia dito a diplomatas russos que "ter demitido aquele diretor louco do FBI, James Comey[3], aliviou a pressão sobre ele", e que um atual conselheiro sênior da Casa Branca é uma pessoa de interesse significativo numa investigação jurídica com possíveis laços entre a Rússia e os associados de Trump.

Isso foi na sexta-feira. Mais cedo, na mesma semana, emergiram rumores de que Trump disse a Comey para parar com sua investigação sobre o ex-conselheiro de segurança nacional Michael Flynn[4], e que o presidente teria revelado informações sobre o ISIS potencialmente classificadas como nível alto aos russos. 



A correspondente da CBS News na Casa Branca e correspondente sênior em relações internacionais Margaret Brennan contribuiu para esta matéria.



Postado originalmente em: CBS




Notas:

* O subtítulo "Para 'combater o Estado Islâmico', Trump injetará bilhões nas mãos dos grandes financiadores do ISIS" foi adicionado ao texto traduzido pelo tradutor. Não consta na matéria original.

[1] Gary D. Cohn é um banqueiro investidor e figura política, trabalhando como conselheiro econômico chefe para o presidente Trump. Também é diretor do Conselho Econômico Nacional. Ele também trabalhou como presidente e chefe do escritório de operações do Goldman Sachs de 2006 a 2017. Apesar de ser filiado ao Partido Democrata, Cohn ajudou financeiramente diversos políticos republicanos. Ele é considerado como uma das vozes mais influentes na administração Trump.

[2]  Air Force One é o código oficial utilizado pelo controle de tráfego aéreo da Força Aérea dos Estados Unidos para designar a aeronave que transporta o presidente dos EUA.

[3] James Comey foi o sétimo diretor do FBI (Federal Bureau of Investigation - Serviço Federal de Investigação), atuando na função de 4 de setembro de 2013 a 9 de maio de 2017, quando foi demitido pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump.

[4] Michael Thomas Flynn é um tenente general aposentado pelo Exército dos Estados Unidos. Possui uma considerável carreira militar, tendo participado de inúmeras operações, programas de inteligência e defesa, dentre várias outras ações. Ele foi o 18º diretor da Agência de Defesa e Inteligência e o primeiro conselheiro de segurança nacional apontado pelo presidente Donald Trump. Ele também atuou como 25º conselheiro de segurança nacional de 20 de janeiro de 2017 a 13 de fevereiro de 2017, quando foi forçado a resignar depois de acusações de que ele teria vazado informações confidenciais aos russos.

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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Alexandr Dugin: O Neoliberalismo é um dogma para fanáticos

Por: Claudio Napoli
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho

 

Numa de suas conferências, intitulada "A ideologia das ambições dos Estados Unidos para a hegemonia global', realizada em 16 de Fevereiro de 2016 no Instituto Russo de Pesquisa Estratégica, Alexandr Dugin enfatizou a natureza totalitária sobre a qual tais ambições são baseadas.

De acordo com Dugin, o neoliberalismo global, liderado pelo bloco anglo-americano, está tentando impor ao mundo, com uma violência mais ou menos velada, um verdadeiro totalitarismo, cuja auto-referencialidade não tolera funcionalmente a existência de pontos de vista alternativos.

"Um Estado soberano se transforma num inimigo a ser eliminado no exato momento em que adota um modelo de desenvolvimento econômico e geopolítico diferente do credo elaborado pela máquina midiática propagandística de Washington e Londres: nenhum sujeito pode ter a liberdade de não ser liberal. Credo, quia absurdum est."- Alexandr Dugin

A partir desta perspectiva, entendemos perfeitamente como, desde a década de 1950 no século passado, os principais aliados do liberalismo atlântico foram fundamentalistas islâmicos, neonazistas e juntas militares.

O caráter de parcerias semelhantes só é aparentemente contraditória, já que o caráter de absoluta exclusividade encarnado por estes "ajustes" de pensamento sempre encontrou um inimigo comum nos movimentos socialistas e no nacionalismo secular, que foram esmagados metodicamente no mundo inteiro, ao longo dos últimos de 66 anos (com exceção dos países escandinavos e do Uruguai de Mujica, cujos casos muito específicos não pode, contudo, passar por exames no âmbito deste artigo).

No campo da conferência de fevereiro, o filósofo russo examinou em detalhes o impacto do fanatismo liberal sobre o tecido constitucional, social e político na Rússia contemporânea:
 
"Os estadunidenses impõem seus valores liberais como um dogma. A própria ausência de qualquer posição ideológica na nossa Constituição é uma consequência do dogma neoliberal,que permeia nossa consciência, nossa publicidade, nossa educação, as nossas instituições e, claro, a nossa Constituição".
- Alexandr Dugin  

Como Dugin explica um espírito único paralisando a consciência e as estruturas institucionais de nações ocidentais e da Rússia? Com a matriz protestante de espírito, fundada no conceito da superioridade da nação inglesa:


"A ideia de uma missão especial incorporada pelos anglo-saxões já existia no século XIX. Este mito é baseado na ideia da natureza elitista da 'raça' anglo-saxã e protestante [...]. Ainda hoje há um grande número de pessoas que pregam este princípio. Estamos enfrentando fanáticos que, desde Cromwell, têm sacrificado as vidas de milhões de pessoas."
- Alexandr Dugin 

As reflexões sobre o verdadeiro caráter do messianismo neoliberal anglo-americano não são novidade para Dugin. Ao contrário: podemos defini-las como a base conceitual dos estudos iniciados pelo filósofo para formular a Quarta Teoria Política. A avaliação que Dugin tem feito sobre esse messianismo ao longo dos anos é extremamente negativa.

Com base na polêmica de Nietzsche contra o utilitarismo inglês teorizado por J. S. Mill, Dugin sempre manteve a opinião de que o utilitarismo e o neoliberalismo, que é uma derivação direta, trouxe, traz e trará graves repercussões sobre o destino da humanidade, como, por exemplo, lê-se num artigo programático publicado em 2003 pela Novaja Gazeta, no qual Dugin diz que a suposta liberdade dada pelo neoliberalismo é puramente negativa. Ou seja, é uma coisa em nome de suas próprias ambições egoístas de liberação. Certamente, não é uma liberdade criativa, positiva ou social: a liberdade para alguma coisa.

Por sua própria essência conceitual, "liberdade de" (se usarmos uma terminologia heideggeriana) não é algo capaz de resolver (ou pelo menos reduzir) o mal social resultante dos conflitos irreconciliáveis causados pelos benefícios pretendidos pelas multinacionais e o cartel bancário. O neoliberalismo é antissocial.

Neste defeito genético estão os germes implosivos que condenam a sua existência enquanto teoria e sociopolítica prática. Tais germes só podem sobreviver na presença de um inimigo externo. Um inimigo que limita a "liberdade de", mas que tem sido ausente desde 1991, determinando a crise do liberalismo que observamos hoje. Criar novos inimigos é uma tentativa desesperada de superar a crise terminal, inimigos que agora podemos chamar de "ologramáticos".
 
Por quanto tempo vai durar a agonia do liberalismo e da pseudo-civilização, imposta às nações conquistadas até o presente momento? A resposta de Dugin, dada em 2012 em uma entrevista no site da Politikus.ru é a seguinte:


O problema é que os neoliberais acreditam firmemente que o Fim Supremo da história será resolvido no exercício das teorias deles. Eles não enxergam nada além dessa matriz de pensamento. E isso é uma coisa muito perigosa, uma vez que estamos lidando com um movimento imperialista reforçado por um sucesso mundial temporário [...], isso não vai ser algo fácil de se erradicar. Para fazer isso, você precisa desenvolver uma revisão completa de muitos processos históricos."
-Alexandr Dugin 
  
Em outras palavras, gostaríamos de acrescentar que é necessário criar, na dimensão histórica, um Quarto Caminho, ou seja, uma alternativa capaz de neutralizar política, militar e financeiramente a ameaça desse sistema agressivo que chegou à conclusão funcional de seu próprio potencial histórico. isso vai salvar as nações "neoliberalizadas" antes que sejam destruídas por uma implosão que parece inevitável.




Retirado de: Geopolitica.ru

 
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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Uma biografia de Alexandr Dugin

Biografia originalmente organizada e escrita em inglês por Flavia Virginia
Traduzida livremente para o português por Jean A. G. S. Carvalho



Origens
Alexandr Gel'evich Dugin nasceu em Moscou, em 7 de janeiro de 1962, filho de Galina Viktorovna Dugina (1937-2000), doutora PhD, e de Gelij Alexandroich Dugin (1935-1998), tenente-general do serviço secreto (então KGB e, posteriormente, FSB). Ele foi batizado aos seis anos no Templo Ortodoxo Russo de Michurinsk, por sua avó Elena Mikhailovna Kargaltseva. Ele professa a fé dos velhos crentes.


Família
Dugin é casado com uma PhD em filosofia e tem dois filhos, também filósofos e músicos, além de uma neta. 


Associações
De 1980 em diante, ele se familiarizou com um grupo de tradicionalistas: Gejdar Dzhemal, Evgenij Golovin, Yurij Mamleev, Vladimir Stepanov, Sergej Zhigalkin, dentre outros. Em 2014, ele fundou o CEM (Centro Russo-Brasileiro de Estudos da Multipolaridade) no Brasil, juntamente com a filósofa brasileira Flavia Virginia.


Interesses
Sua perspectiva filosófica começa a tomar forma por meio de estudos conduzidos no campo do tradicionalismo religioso, do conservadorismo, do hermetismo e da poesia. Autores europeus da Idade Média e do Renascimento também estão na lista, tanto quanto estudos orientais. Em 1982, ele começa a trabalhar para alguns institutos como tradutor do inglês, francês e alemão, traduzindo também alguns trabalhos de Julius Evola e René Guénon. 


Escritos
Começando uma carreira meticulosa como escritor, com assuntos cobrindo uma ampla gama de assuntos, passando pela filosofia, política, vários aspectos da Rússia (incluindo a União Soviética), geopolítica, história das religiões, Eurásia, sociologia e indo até o tradicionalismo; esses trabalhos também são feitos em vários formatos (ensaios, programas textuais, obras didáticas, livros, etc.). Seu trabalho começou a ser traduzido para várias línguas a partir de 1997. Ele é frequentemente convidado como colunista para redigir em vários jornais na Rússia e no exterior.


Transmissões
De 1980 em diante, ele passou a ser transmitido amplamente, incluindo programas de TV como o "Spas" e programas de rádio como o "Panorama Geopolítico", "Marcos", "Coisa Russa", dentre outros.


Editor
Ele desenvolve uma carreira no mercado de publicações, tendo criado muitos jornais nos últimos trinta anos, como o Den (Dia), o Pamjat (Memória), o Elementy (Elementos) e o Zavtra (Amanhã). Ele é, atualmente, o cabeça do Arktogaia, uma editora especializada em assuntos familiares à esfera de interesses dele, ligada a muitas outras editoras ao redor do mundo. De março de 2015 a março de 2017, ele ocupou o cargo de editor-chefe na TV russa Tsargrad (um canal transmitido tanto na TV regular quanto na internet), cujo objetivo principal é o de promover valores tradicionais; também trabalhou na revista internacional Katehon, especializada em geopolítica e política. 


Performances
Dugin participou de diversas iniciativas artísticas, tendo sido vocalista do grupo musical "Betelgeuze", além de também participar do programa de rádio "Finis Mundi", com experiências em vídeo e poesia. Ele está agora conectado à Associação de Artistas Eurasianos, formada especialmente para publicar o trabalho de artistas filiados à ideia do Eurasianismo.


Professor e conferencista convidado
Nos anos 1990, ele lecionou em diferentes academias, simpósios, encontros com figuras políticas proeminentes e círculos militares na Rússia e em todo o espaço pós-soviético, além de muitas cidades da Europa. 


PhD
Em 2000, ele defendeu sua tese de pós-graduação em Filosofia em Rostov-Na-Donu, com a dissertação intitulada "A Evolução das Fundações Paradigmáticas da Ciência", e também defendeu sua tese para o grau de PhD na Faculdade de Sociologia (na mesma universidade) em 2004, com o título "A Transformação das Estruturas Políticas e das Instituições no Processo de Modernização da Sociedade Civil".


Posições de Liderança
Em 1998, Dugin criou, juntamente com os amigos Gejdar Dzhemal e Evgenij Golovin, o projeto Universidade Nova, um centro de estudos baseado nas descobertas e interesses que têm sido os principais assuntos do grupo por um longo tempo. Ele manteve, de 2008 a 2014, duas posições na Universidade Estatal de Moscou, na Faculdade de Sociologia: foi líder do Departamento de Relações Internacionais e do Centro de Estudos Conservadores. Em 2014, ele foi injusta e inapropriadamente demitido dessas funções, por razões essencialmente políticas. Ele é líder do Movimento Eurasiano Internacional e fundador do Partido Eurasiano, que está crescendo dentro do Grande Espaço Russo e ganhando uma representatividade crescente. A liderança de várias outras instituições tem estado nas mãos dele durante os últimos vinte anos, dentre elas o Centro de Expertise Geopolítica e o Conselho Político. Em 2005, a União da Juventude Eurasiana foi fundada. Dugin também é membro do Conselho Consultivo na Duma de Estado Russa.


Ativismo social
Com ferocidade, se opõe à direção liberal tomada pela elite russa de 1990 em diante, usando todos os meios disponíveis para fazer prognósticos desse curso e denunciá-lo - incluindo entrevistas com figuras proeminentes no cenário político internacional. 


Conexões com a esfera política
Dugin tem sido um ator político constante em diversas situações, especialmente naquelas relacionadas com o aspecto geopolítico da política, o que lhe dá uma fama crescente, principalmente nas ideias concernentes ao Eurasianismo e à Multipolaridade. Contudo, ele tem sido um forte apoiador das políticas do presidente Putin nos assuntos da política externa - e há boas evidências de que o presidente Putin tem levado os conselhos de Dugin bastante a sério. Ele também se encontrou com Nursultan Nazarbaev, presidente do Cazaquistão, conquistando seu respeito, além de também se encontrar com o primeiro ministro Vojislav Koštunica, da Sérvia, além de outras figuras políticas importantes.


Internet
Alexandr Dugin tem uma presença bastante potente na internet, um meio que ele tem utilizado desde o começo dos anos 2000, com muitos portais diferentes, trazendo atenção sobre vários campos de interesse dele e apresentando outros grandes pensadores da Rússia e do exterior.


Focos principais
Eurasianismo, Mundo Multipolar e Quarta Teoria Política.


Interesses
Relações internacionais, Assuntos Russos Internacionais, Escola Nacional de Relações Internacionais, Geopolítica, Etnosociologia, Problemas Metodológicas em Sociologia das Relações Internacionais, Estrutura da Sociologia, Ciências Políticas, Filosofia Política, Filosofia e Visão Religiosa.  


Questões políticas recentes
Por conta de suas visões políticas que denunciam os efeitos terríveis da moldura mental liberal, partindo dum ponto de vista novo - nem comunista, nem fascista, já que ambos são facilmente derrotados em nossos dias -, Alexandr Dugin sofreu sanções dos EUA e do Canadá em 2015 - sanções que duram até hoje. As sanções não foram explicadas e só foram descobertas ocasionalmente por alguns de seus amigos. Os cosmoliberais desses países o consideram como o filósofo mais perigoso do mundo.  




Publicado originalmente em Alexandrdugin.net



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sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Direita subestima Lula

Por: Jean A. G. S. Carvalho



Nunca se deve subestimar um oponente. Nunca. Essa é uma lição básica no jogo de poder e não faltam exemplos históricos para ilustrar os perigos de se menosprezar um opositor. Seja na guerra, nos negócios, na política (e até mesmo no amor) e em qualquer outro campo, dar um inimigo como completamente vencido (mesmo quando se tem imensa vantagem sobre ele) é um dos piores erros que se pode cometer.

Esse é um ponto simples que a Direita se recusa a aceitar. A Direita assumiu sua vitória completa em 31 de agosto de 2016, com o Impeachment de Dilma. Para eles, o Partido dos Trabalhadores, afundado em acuações de corrupção, perdeu para sempre seu trono e jamais voltará ao poder. Os brasileiros, acreditam eles, jamais votarão em qualquer candidato petista.

Entretanto, a realidade é bastante diferente do romantismo da Direita, que perdeu uma chance única de realmente mostrar uma alternativa superior ao PT. O governo Temer assumiu comprometendo-se a retomar o crescimento econômico, garantir estabilidade política e corrigir os erros petistas. Falhou miseravelmente nesses três objetivos, e piorou significativamente os problemas já existentes.

Em lugar da retórica de "austeridade" (só para os pobres, é claro), reformas inúteis e cortes em direitos sociais e trabalhistas, o novo governo deveria ter feito exatamente o oposto: ampliado programas sociais, investimentos públicos, incentivos ao setor produtivo e aplicado ideias usadas pelo New Deal[1]: ampliação de obras públicas em infraestrutura, gerando empregos de forma rápida e estável.

Nada disso foi feito. A receita foi inversa: hostilizar a população, apertar o trabalhador, beneficiar banqueiros e especuladores e minar o setor produtivo. Dizer que o que passamos hoje é "consequência inevitável do governo petista" é desconhecer os princípios básicos da política. A situação é grave, mas o nível na qual se encontra é mais resultado de políticas desajustadas do que de um "curso natural". (aliás, não há nada de natural nessa crise).

A Direita ignorou um princípio básico de Maquiavel (que, aliás, é erroneamente tido como um autor negativo): o poder se mantém pela aprovação do povo. E, para conquistar essa aprovação, medidas simples podem ser tomadas. A primeira e mais básica delas é: governar em favor do povo e tomar medias que agradem a população em geral. Esse ponto crucial é tido pelos direitistas como "populismo" no sentido mais negativo do termo. 

A Direita é anti-poder, não sabe lidar com ele e provavelmente nunca saberá. É exatamente por isso que figuras mais à Esquerda (ou não necessariamente de Esquerda, mas com um teor populista tão demonizado pelos direitistas) terão mais acesso ao poder.

Longe de se lembrar da figura de Lula como corrupto inveterado (o que pode ser verdade no imaginário coletivo), o pobre que hoje mal consegue comer e sustentar os filhos lembra-se dos primeiros anos do governo petista como a época na qual tinha emprego, algum dinheiro e um vislumbre de oportunidades. Pesando os prós e contras, ele assume que "antes, as coisas eram melhores" e conclui que não está ganhando nada com os processos atuais de "combate à corrupção".

Ele continua pobre enquanto a Lava Jato prossegue. Continua desempregado. Não percebe efeitos reais dessa cruzada moral. Aliás, o efetivo combate à corrupção seria justamente retomar o dinheiro roubado e conduzi-lo em ações nas quais o pobre efetivamente sentisse estar retomando aquilo que lhe foi roubado: saindo do desemprego, melhorando de vida e tendo melhores oportunidades. O resto é moralismo superficial com prazo de validade mínimo.

A Direita continua cobrando um hiper-moralismo duma população que ainda mal consegue estabilidade para suprir suas necessidades mais emergenciais. Um hiper-moralismo que nem o mais ferrenho conservador é capaz de seguir. E, enquanto continuar exigindo isso das classes mais pobres sem dar-lhes alternativa nenhuma nem soluções para seus problemas urgentes, a Direita permanecerá como refugo político.

Lula tem chances sérias de vencer a eleição presidencial de 2018. E a melhor propaganda, para ele, é o governo atual. Enquanto os índices de aprovação de Lula sobem, os de Temer diminuem (aliás, já em menos de 5%). A Direita corre o sério risco de perder o páreo para um adversário que julgou ter eliminado, mas que ainda está de pé. E quanto mais se distancia das aspirações do povo, mais abre mão de instrumentos importantes que, diferente deles, Lula saberá aproveitar.

Não há razões sérias para acreditar que Lula realmente será preso. A cruzada moral é um teatro político e jurídico. A Direita espera por um príncipe em cavalo branco, sonha com alguma manobra dos militares ou, na melhor das hipóteses, figuras quixotescas cujo único recurso é o moralismo barato e o discurso vazio de "valores e bons costumes". É justamente por romantizar a política que a Direita não é feita para ela. 

Enquanto a Direita não oferecer alternativas reais e se contentar com vitórias ilusórias, sua esperança máxima continuará sendo a de que homens fardados salvem o dia.




Notas:


[1] O New Deal foi o pacote de programas criado pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, para recuperar a economia estadunidense depois do crash (a crise econômica) de 1929. O programa consistia, basicamente, de pesados investimentos públicos no setor produtivo, criação de obras de infraestrutura e geração de empregos imediatos para a população, com o objetivo de estimular o consumo e resolver o desemprego em massa. Colocado em prática de 1933 a 1937, o plano conseguiu cumprir seus objetivos.
 

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segunda-feira, 8 de maio de 2017

O Populismo Moderno

Por: Alexandr Dugin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




Ultimamente, intelectuais europeus estão discutindo um novo conceito político que está se tornando mais e mais relevante: o momento populista. 

Eles estão preocupados por schmittianos[1] esquerdistas como Chantal Mouffe de um lado e, do outro, brilhantes ideólogos conservadores europeus e a "Nova Direita", sendo a mais influente e formidável de suas figuras o intelectual e filósofo europeu Alain de Benoist. Tanto a Direita quanto a Esquerda estão publicando textos dedicados ao momento populista, cada uma delas oferecendo diferentes interpretações, argumentos e previsões para o futuro.

O que é o momento populista?

Antes de tudo, é a emergência de líderes na política que se tornam extremamente populares, fazendo apelos para as grandes massas, enquanto que não se importam com a coerência ideológica de suas plataformas e posições. Podemos citar, primeiramente e antes de qualquer outra figura, Putin e Trump, cujas visões são difíceis de qualificar em categorias convencionais de Direita, Esquerda, etc.

Tais líderes compreendem e sentem a sociedade; o que ela genuinamente quer, por quais coisas ela está lutando, o que ela pensa e o que teme, e respondem a essas expectativas diretamente, sem se incomodar em acomodar essas respostas em algum tipo de sistema. E isso está funcionando cada vez mais.

Seja por acidente ou pela falha de sistema, isso está gradativamente se transformando numa tendência. Depois de Trump, essa é uma realidade global que gradativamente não pode mais ser ignorada.

Em segundo lugar, a democracia liberal está numa crise completa, ruidosa. Onde quer que ela tente agir aberta e diretamente, insistindo em seus valores ideológicos - os direitos humanos, as políticas de gênero, o cosmopolitismo, a sociedade aberta, a globalização, etc -, seus representantes constantemente sofrem o fracasso. O liberalismo ainda controla muitas esferas, como as finanças globais, a mídia global corporativa, a cultura, a educação e a tecnologia; mas, na sociedade, ele já é essencialmente rejeitado.  

O fim da história não aconteceu e o próprio Fukuyama, como um completo perdedor, está agora murmurando sobre como os Estados Unidos são, veja só, um Estado falido. O liberalismo está morto. Mas não são seus antigos inimigos, o comunismo e o fascismo, que o destruíram, mas algo novo: o Populismo. Qualquer populista, seja à Direita ou à Esquerda, pode agora vencer qualquer liberal.

Em terceiro lugar - e isso já está se tornando mais sério ,- um novo tema, um novo fenômeno está surgindo na vanguarda da política: o povo, ou o populus (daí o "populismo"). O povo está ausente nas ideologias da modernidade. Não há pessoas no liberalismo, cujo sujeito principal é o indivíduo. Não há pessoas no comunismo, onde a classe é a mais importante. Nem há o povo no fascismo, uma vez que a ênfase está no Estado. Tudo isso permanece no século XX. Agora, virando a esquina, algo novo está sendo mobilizado, algo antes esquecido (ou completamente desconsiderado): o Povo.  

Povo não é simplesmente a soma de indivíduos, classes ou cidadãos com passaportes e autorizações de residência. É algo vivo, orgânico, inteiro, em constante mudança e evitando definições rígidas. O Povo vive mais que as pessoas. Ele tem ciclos e escalas diferentes. Confia no mito e é cético diante da ciência. Mesmo quando o povo é covarde, ele é admirado por heróis destemidos. Mesmo se é torto, ama sinceramente a beleza. E, agora, este Povo está entrando em contradição ativa com o sistema político existente. 

O Povo não é nem de Esquerda nem de Direita. O povo está de pé para a ordem e para a liberdade, para um Estado poderoso e para a justiça social, para a força e para o feriado contínuo. O povo facilmente une opostos sem sequer notar. O povo vive de acordo com uma lógica particular que nada tem a ver com as normas da ciência política moderna ou da sociologia. O povo não é sempre o que os outros pensam sobre isso. Não se presta a ser calculado ou contado. Procede de uma lógica diferente daquela do Iluminismo e das sociedades da modernidade. Em certo sentido, o povo é muito antigo. Ele é nutrido pelos fluídos da eternidade.

O Povo é um conceito político que está aparecendo, hoje, em oposição ao liberalismo. Os liberais estão gritando sobre uma ameaça fascista ou comunista, e são incapazes de compreender a essência do momento populista, o qual interpretam por meio de velhos clichês. É por isso que eles estão perdendo. É por isso que eles estão condenados.

No entanto, tanto a Esquerda quanto a Direita são unânimes em achar que este é apenas um momento, um período de tempo limitado, uma espécie de quantum no movimento histórico. Provavelmente, ninguém pode dizer se o Povo (e, consequentemente, o populismo) é um sistema, um programa, uma estratégia ou apenas uma correção temporária no curso da globalização liberal.  

Os globalistas tiveram seu momento no início dos anos 90 - o momento unipolar. Eles arruinaram tudo o que puderam ao longo de trinta anos, transformando a globalização e o mundo unipolar numa horrenda caricatura. Os reformadores da Rússia nos anos 90 fizeram o mesmo com a democracia. Agora, um momento diferente está chegando. O Povo está aparecendo no palco da história do mundo. Esta é uma chance, um risco, uma responsabilidade e um desafio. Mas é o nosso momento. Não utilizá-lo seria um verdadeiro crime.

Sim, isso mesmo: não tirar proveito de um momento tão populista seria algo bobo, e até criminoso. Mas, existe algum crime que ainda não tenhamos cometido? Infelizmente, tudo repousa em nossos ombros. No entanto, esta é uma oportunidade maravilhosa e aberta para uma alternativa verdadeira, uma alternativa russa.





Publicado originalmente em 4PT.SU


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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Alain de Benoist: Macron é um Algoritmo

Por: Alain de Benoist
Tradução para o português: Jean A. G. S. Carvalho

Fonte: Pietro Piupparco/Flickr


Quais lições você pode tirar do primeiro turno da eleição presidencial? O que diferencia essa eleição de todas as outras que a precederam?

Alain de Benoist: O principal fato dessa eleição, aquilo que lhe confere um caráter bastante histórico, não é o fenômeno Macron nem a presença de Marine Le Pen no segundo turno. É o curso total de dois ex-principais partidos do governo, o PS [Parti Socialiste - Partido Socialista] e o LR [Les Républicains - Os Republicanos]. Eu até mesmo cheguei a predizer isso no último mês de fevereiro, no momento no qual ninguém pareceu ter percebido isso: pela primeira vez desde que o chefe de Estado foi eleito por meio do sufrágio universal, nenhum dos dois partidos que governaram a França alternadamente por quase meio século estarão presentes no segundo turno.

No passado, juntos, esses dois partidos nunca representaram menos de 45% dos votos (57% em 2007, 55.8% em 2012). Hoje, somados juntos, eles dificilmente representam um quarto dos votos (Fillon ficou com 19%, Hamon com 6%), menos do que Sarkozy conseguiu em 2007 ou Hollande em 2012. Os dois partidos se encontram num estado de ruína, à beira da implosão. A decomposição deles marca o fim da Quinta República como a conhecemos. Eles são os grandes perdedores da eleição.

Contudo, esse golpe de trovão não deve nos surpreender, já que ele se conforma perfeitamente com o esquema populista. Em todos os países onde o populismo soma pontos, os partidos que representam a velha classe dominante são os que mais  sofrem. Nós vimos isso na Grécia, na Espanha, na Áustria e em todas as partes. Agora é a vez da França. E, sem dúvidas, isso é só o começo, porque agora seremos indubitavelmente conduzidos para um período de instabilidade, crise institucional e grande confusão.

 
É o fim do sistema tradicional de Direita-Esquerda que temos presenciado há décadas?

Alain de Benoist: Os velhos partidos do governo também eram aqueles que conduziam  a divisão tradicional entre Direita e Esquerda. Então, o cursor se moveu no plano horizontal, que cansou os eleitores que gradativamente não enxergam mais o que distingue a Direita da Esquerda. Ambos, Macron e Marine Le Pen, surfam na onda desse desencanto em relação ao "Sistema". Aqui, repito o que eu já havia escrito muitas vezes: o velho eixo horizontal correspondente à divisão entre Direita e Esquerda, daí em diante, foi substituído com um eixo vertical, opondo os que estão no topo àqueles que estão no fundo. O povo contra as elites, as gentes contra os poderosos.

É claro que podemos tentar preservar a paridade entre Esquerda e Direita custe o que custar, mas devemos perceber que as classes populares estão cada vez mais direitistas, enquanto que a burguesia está cada vez mais esquerdista, o que, por si só, já constitui uma revolução.


Os resultados também parecem confirmar não só a divisão entre as metrópoles e a "França periférica", mas também entre a França que tem menos imigrantes, que vota por Macron, e aquela que possui mais deles, que vota por Le Pen. O que você acha disso?

Alain de Benoist: Atualmente, acho que a divisão Macron - Le Pen abrange, numa extensão bastante grande, a oposição entre a "França periférica", a França dos humilhados, dos abandonados, das classes populares, que corretamente creem que são vítimas duma exclusão tanto política quanto social e cultural, e a França das metrópoles urbanizadas, onde as classes superiores e os bobos[1] vivem, as classes dos proprietários e da burguesia intelectual integrada, que lucram com a globalização e sempre aspiram por mais "abertura". Dum lado, a França que lucra muito com o outro lado, o lado que sofre e que se preocupa.   

Mas essa oposição espacial, particularmente bem explorada por Christophe Guilluy, também tem (especialmente) o sentido de uma oposição de classes. Sobre esse assunto, partilho da opinião não só de Guilluy, mas também de Mathieu Slama, pelos quais a "luta de classes reaparece politicamente para favorecer um duelo no segundo turno, no qual se opõem o liberal Emmanuel Macron e a nacionalista Marine Le Pen".

"Por trás dessa luta de classes" - prossegue Slama - "se esconde o choque de duas visões de mundo: a visão liberal e universalista, que não acredita nem no Estado nem na Nação, e a visão que hoje chamamos de populista ou soberanista, que deseja restaurar o Estado, as fronteiras e o significado de comunidade diante dos saques da globalização".

O erro simétrico das clássicas Direita e Esquerda sempre foi o de acreditar que a política poderia extrair a si mesma das questões de classe - a Direita por sua alergia ao socialismo e ao marxismo, e a Esquerda por acreditar que a classe trabalhadora desapareceu - e que, por isso, não está mais interessada no povo.


O que Macron representa?

Alain de Benoist: A morfopsicologia já nos diz que Emmanuel Macron é um temperamental, um pequeno objeto manipulável, incapaz de tomar decisões. Digamos que ele é um algoritmo, uma imagem sintética, um milionário da indústria de telecomunicações, um tocador de flauta programado para conduzir, pela ponta do nariz, aqueles que não enxergam além do próprio nariz. Ele é o candidato da casta, o candidato dos dominantes e poderosos. Ele é o liberal-libertário que concebe a França como uma "start up" e sonha com a abolição das fronteiras e dos limites, da história e das linhagens.

Ele é o homem da globalização, o homem dos fluxos migratórios, o homem da instabilidade universal do trabalho. É o líder dos "progressistas", em contraste com aqueles que não acreditam mais em progresso, porque perceberam que isso não melhora suas vidas mas, ao contrário disso, escurece suas rotinas diárias.

No passado, os milieus dos negócios apoiaram a candidatura daqueles que eles consideravam como mais dispostos a defender seus interesses (Alain Juppé no começo da campanha). Dessa vez, eles julgaram ser mais simples apresentar diretamente um dos seus. Aude Lancelin não está errada em relação a isso, ao falar sobre o "golpe do CAC 40" [Cotation Assistée en Continu 40, a Cotação Assistida em Contínuo 40, uma indexação francesa de mercado de ações].


A falha de Jean-Luc Mélenchon?

Alain de Benoist: Uma falha um tanto quanto relativa! Um orador sem igual, verdadeiramente ocupando o papel de tribuno, Jean-Luc Mélenchon é aquele, em forma e substância, que teve a melhor campanha eleitoral. No espaço de poucas semanas, ele cresceu mais do que qualquer outro candidato nas pesquisas, esmagando o Smurf do PS passando - e praticamente alcançando - o nível de Fillon e duplicando suas pontuações em relação a 2012.

Mais importante ainda, essa eleição presidencial deu-lhe a possibilidade de incorporar um populismo de Esquerda que, antes dele, só existiu num esboço rude. Você pode ter reparado que ele começou seu crescimento nas pesquisas logo após ter atingido o momento no qual ele não falava mais sobre a "Esquerda" em seus discursos, mas só no "povo". É um detalhe revelador. Adicionado a isso, diferentemente de Hamon ou Duflot, ele teve a coragem de não pedir que as pessoas votassem em Macron. Pessoalmente, lamento muito que ele não esteja no segundo turno.

 
Marine Le Pen ainda tem chances de ganhar? Quais deveriam ser os principais eixos da campanha dela? Onde encontrar uma reserva de votos?

Alain de Benoist: As chances dela no segundo turno são muito fracas a priori, já que todas as pesquisas estão golpeando-a. Seus principais opositores convocaram seus apoiadores a votar em Emmanuel Macron, começando por François Fillon (ao qual não falta desprezo), mas ainda precisamos saber se as ordens deles serão obedecidas. A transferência de votos nunca é automática. Além dos abstencionistas, Marine Le Pen pode esperar angariar ao menos 1/3 dos votos de Fillon, mais do que 1/2 dos votos de Dupont-Aignan e até mesmo 10% ou 15% dos votos de Mélenchon, mas duvido que isso possa permitir que ela vença.

O placar do segundo turno deve ser de 60 contra 40, ou de 55 contra 45 no melhor dos casos. Dito isso, com 21.4% dos votos (contra 17.9% em 2012), Marine Le Pen seriamente conquista pontos, não só por ter chegado ao segundo turno, mas também por ter obtido quase que oito milhões de votos (o dobro obtido pelo pai dela em 2002), contra apenas seis milhões nas últimas eleições regionais. O mais importante é que ela ultrapassou o PS e o LR, o que coloca o FN [Front National - Front Nacional] como a principal força de oposição contra a futura coalizão "progressista" de Macron.

Apesar disso, digamos que a campanha dela foi bastante irregular. Não houve lirismo o bastante, nem emoção o suficiente: ela sabe como arrancar aplausos, mas não sabe como provocar vibração. No vídeo de campanha dela, o povo também esteve ausente.

A única chance dela vencer é fazer com que a maioria do povo francês compreenda que o segundo turno não será um voto a favor ou contra o Front National, mas sim um referendo a favor ou contra a globalização.

Primeiramente, ela também deve estar apta a convencer os eleitores esquerdistas que seria insensibilidade da parte deles depositar seus votos para o homem do colapso social e da lei El Khomri[2], a ditadura dos acionistas e a onipotência dos mercados financeiros, para o porta-voz do capital que, para os políticos, é apenas um instrumento colocada a serviço dos interesses privados. 


O senhor ficou surpreso pela fraca mobilização nas ruas, contra Marine Le Pen, ao contrário daquilo que vimos em 2002?

Alain de Benoist: De modo nenhum, não estou surpreso. A eleição de 2002 não tem relação com essa que nós experimentamos. Só dinossauros e "antifas" não compreendem que os tempos mudaram.  


Alguma consideração final?

Alain de Benoist: Se um roteirista tivesse escrito o script dessa campanha eleitoral do modo como ela se desenrolou, nenhum diretor teria imaginado que esse cenário fosse crível. Ainda assim, o curso atestou todas as predições. François Hollande sonhou durante anos em concorrer para um segundo mandato, mas ele finalmente teve de renunciar a esse sonho. Ele foi comumente considerado como um hábil manobrista, mas perdeu o controle sobre seu próprio partido.

A Direita considerou essa eleição como impossível de se perder e, ainda assim, perdeu. As primárias deveriam reforçar o poder dos partidos e designar aqueles que são melhores posicionados para vencer a eleição (Sarkozy ou Juppé na Direita, Valls ou Montebourg na Esquerda), mas definitivamente enfraqueceram essas figuras e só selecionaram "outsiders" [estranhos] que não brilham.

Assim como no fenômeno Macron, ninguém havia imaginado essa possibilidade um ano atrás. O que mostra que, na política, nada é feito com antecedência. A história está sempre aberta.



Postado originalmente em: Geopolitica.ru


Notas:

[1] Neologismo francês oriundo da junção dos termos Bourgeois (burguês) e Bohémien (boêmio), usado para se referir àqueles que fazem parte da burguesia e vivem uma vida boêmia, desregrada; membros "inconsequentes" das elites.  Nem todos os bobos, entretanto são necessariamente membros da elite financeira ou ricos (o termo abrange parte significativa da classe-média francesa). O termo tem significado semelhante ao da expressão "Gauche caviar" (Esquerda caviar), já que a maioria dos bobos são de Esquerda - membros da elite que aderem à Esquerda, essencialmente no campo moral/cultural (pós-modernismo), e não necessariamente popular e trabalhista.

[2]  Lei n ° 2016-108,8 de 8 de agosto de 2016, relativa à legislação trabalhista francesa.  Foi apresentada ao parlamento francês em 17 de fevereiro de 2016, por Myriam El Khomri (daí o nome da lei). O objetivo era reformular o Código de Trabalho na França, tornando o mercado de trabalho francês mais "flexível". Os apoiadores do projeto alegavam que as reformulações ajudariam a reduzir o desemprego. As mudanças efetivadas pela lei facilitaram a demissão de trabalhadores, reduziram o pagamento por horas extras e permitiram a ampliação da jornada de trabalho para além da então jornada máxima de trabalho de 35 horas semanais, além de reduzir o pagamento de indenizações trabalhistas.



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