terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A Personalidade Econômica

A pessoa e o indivíduo: distinguindo os conceitos


Por: Alexandr Dugin
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




O conceito de "trabalhador completo" como uma figura-chave para a economia pode ser complementado com a fórmula da "pessoa econômica". A pessoa econômica é o trabalhador total (integral). Nesse caso, a pessoa em sua interpretação antropológica (especialmente aquela da escola francesa de Durkheim, Mausse[1] e os sucessores de F. Boas nos EUA[2]) que toma o papel central. Aqui, a personalidade (la personne) é contrastada com algo social, comunitário, complexo, artificialmente criado, em contraste com o indivíduo, que é uma unidade atomizada do resto do ser humano, sem nenhuma característica adicional.

O indivíduo é o produto da subtração da personalidade do ser humano, o resultado da liberação da unidade humana de qualquer laço e estrutura coletivos. A pessoa consiste dum entrelaço de diferentes formas de identidades coletivas que podem ser descritas como funções (na sociologia) ou como filiações (na antropologia). A pessoa só existe e possui significado quando em sua relação com a sociedade. 

Pessoa é um agregado de funções, bem como o resultado da consciência do ser humano e da criação premeditada de sua identidade. A pessoa nunca é dada; ela é resultado dum processo e duma tarefa. A pessoa é constantemente construída e, durante sua construção, estabelece a si mesma, coloca-se em ordem ou não, conforme o mundo ao redor colapsa e se transforma em caos.

A pessoa é uma relação de muitas identidades, cada uma delas relacionada a um tipo, ou seja, isso significa dizer que ela engloba em seu interior um número indeterminável de pessoas e seus aspectos. A pessoa concreta é uma combinação dessas filiações (tipos) e em cada e em todo o tempo algo original, como o número de possibilidades em cada tipo e, mais do que isso, de combinações desses tipos - que são ilimitadas.

As pessoas usam uma e a mesma língua, mas a pronunciam com a ajuda de uma multiplicidade de discursos diferentes, que não são realmente originais (como às vezes pode parecer ao próprio ser humano), mas também não tão previsivelmente recorrentes (como é o caso de máquinas ou mesmo dos sistemas de sinais de alguns tipos de animais). As pessoas também consistem de imposições de identidades de idade, gênero, sociedade, etnia, religião, profissão e de classe, cada uma das quais possui sua estrutura. Assim, a pessoa é uma cadeia de estruturas cuja semântica é determinada pelo contexto estrutural. 

O indivíduo é o produto da observação externa da pessoa humana, onde o aspecto pessoal não está claro ou é completamente removido. O indivíduo é concebido separadamente das estruturas e filiações e é fixado apenas com base em sua presença física factual, sistema nervoso reativo e capacidade de se mover por sua própria vontade. Em certo sentido, o indivíduo como conceito é mais fácil de entender na teoria do comportamento: de acordo com os behavioristas, a pessoa é "caixa preta" e envolve o contato com o meio ambiente; Este é o indivíduo e sua condição empírica primária.

No entanto, mesmo que o indivíduo seja empiricamente totalmente realizável, é puramente niilista como um conceito metafísico. O Behaviourismo afirma que não sabe nada sobre os conteúdos da "caixa preta" e, além disso, declara não estar interessado nos conteúdos. Em princípio, esta é uma conclusão lógica da filosofia estadunidense do pragmatismo. Mas, se os conteúdos não são de interesse, isso não significa que eles não estão lá. Isso é muito importante: o pragmatismo puro, recusando-se a se interessar pela estrutura da pessoa, age de forma muito modesta e não tira conclusões sobre a ontologia dos conteúdos da "caixa preta". É por isso que o pragmatismo americano é apenas parcialmente individualista, em seu aspecto empírico.

O individualismo radical tem outras raízes puramente inglesas e está acasalado com a ideia da emanação de todas as linhas de filiação. Em outras palavras, o individualismo é construído sobre a destruição deliberada e consistente da pessoa, sobre sua rejeição e sobre a concessão de um status metafísico e moral a essa rejeição: a destruição da pessoa é um movimento para a "verdade" e o "bem" , o que significa um caminho rumo à "verdade do indivíduo" e ao "bem para o indivíduo".


Aqui vemos o limite entre a indiferença e o ódio: o pragmatismo estadunidense é apenas indiferente à pessoa, enquanto ao mesmo tempo o liberalismo britânico e seus derivados universalistas e globalistas odeiam e tentam destruí-lo. O objetivo é a transformação do indivíduo de um conceito vazio, criado a modo de subtração, em algo real, no qual a separação física de um ser seria fechada com o elemento do abismo metafísico (que é recebido da liquidação de a pessoa e todas as suas estruturas fundamentais).


A Economia da pessoa

Após esta explicação, é fácil aplicar os dois conceitos (pessoa e o indivíduo) à economia. O trabalhador integral (total) é precisamente uma pessoa econômica e não um indivíduo econômico. Aqui, a integralidade que caracterizamos como composto de produção e consumo e propriedade dos meios de produção é complementada com uma característica mais importante: a pertença a estruturas societárias orgânicas. O trabalhador integral vive (produz e consome) num ambiente histórico-cultural, o que lhe dá uma seleção de filiação de identidades coletivas. Esta seleção determina sua língua, sexo, clã, lugar no sistema de parentesco[3] (C. Levy-Strauss), gênero, religião, profissão, pertença a uma sociedade secreta, vínculo ao meio, etc. Em cada uma das estruturas, o ser humano ocupa um lugar determinado, ao mesmo tempo que dá a sua semântica correspondente.

E é exatamente isso que determina sua atividade econômica. O trabalhador (acima de todo o agricultor) trabalha não apenas para a sobrevivência ou o enriquecimento, mas para muitos outros (e muitas vezes mais importantes) razões, que resultam das estruturas que determinam sua personalidade. O trabalhador trabalha em virtude de sua linguagem (que também é uma espécie de economia: uma troca de discurso, saudações, bênçãos ou maldições), clãs, gênero, religiões e outros status. Além disso, toda a pessoa participa do trabalho, em toda a diversidade de seus elementos componentes. Nesse sentido, o trabalhador integral afirma constantemente as estruturas de sua pessoa, o que torna a economia uma espécie de liturgia, criação, defesa e rejuvenescimento ontológico do mundo.
A pessoa econômica é uma expressão completamente concreta das características do tipo em que essas características, com muitos níveis, se combinam em um compósito complexo e dinâmico. Se as estruturas são comuns (mesmo que essa semelhança não seja universal, mas seja definida pelos limites da cultura), sua expressão e confirmação na pessoa é sempre única: não só isso, mas em alguns casos as próprias estruturas são diferentes (para exemplo, nas áreas de gênero, profissões, castas, onde são etc.), mas seus momentos se manifestam com um grau diferente de intensidade, pureza e clareza. 
É aí de onde vêm os diferenciais, que tornam a vida inesperadamente variada: as pessoas que refletem combinações de estruturas comuns (limitadas, é claro, por fronteiras culturais), são sempre diferentes, como todas e cada uma delas traz elementos acentuados e combinados diferentes estruturas. É precisamente isso que nos permite examinar a sociedade como algo único, permanente e subordinado a uma lógica paradigmática geral, bem como algo que é sempre único e histórico, pois a liberdade da pessoa é excepcionalmente ótima e capaz de dar um parto infinita multiplicidade de situações.
No entanto, a sociedade do trabalhador integral é totalmente definida por uma unidade de paradigma onde a regra principal é a dominação da personalidade como base de gestalt.
Isto é exatamente o que é toda sociedade tradicional, onde a área da economia é separada em uma esfera individual e independente, separada da outra esfera, que contém guerreiros, governantes e sacerdotes. É importante que os guerreiros e os sacerdotes não participem diretamente da vida econômica e aparecem no papel do Outro, designados para consumir os excedentes das atividades econômicas do trabalhador integral. O que é importante aqui é a palavra "excedentes". Se os guerreiros e os sacerdotes consumissem mais do que os excedentes (a "parte maldita" de G. Bataille[4]), os trabalhadores morreriam de fome e escassez, e isso causaria a morte dos guerreiros e dos próprios sacerdotes. Além disso, em sociedades sem estratificação social, os espíritos, os mortos e os deuses aparecem como aqueles que destroem a "parte maldita" (excedentes), em cuja honra o potlatch é implementado. A palavra russa "лихва" [palavra arcaica com fins lucrativos] é muito expressiva: significa algo excessivo, bem como um aluguel bancário e vem da raiz "sinistro", "mal".
A partir desta observação surge um importante princípio da teoria do trabalhador integral: a comunidade laboral dos trabalhadores integrais deve ser soberana em um sentido econômico, isto é, tem que ser totalmente autárquica em todos os sentidos do termo. Neste caso, será independente dos complementos (os guerreiros e os sacerdotes), que podem usar a "parte maldita" ou não estar presentes, caso no qual os trabalhadores integrais destroem isso através de um ritual sagrado. Deste modo, o pré-requisito para a interiorização da condenação será destruído. E essa interiorização da condenação é o cisma (Spaltung), que é o capitalismo.
O capitalismo carrega em seu interior o cisma da pessoa econômica, a separação da estrutura, ou seja, a despersonalização. Isso leva ao mesmo tempo à perda da soberania da comunidade comercial, à dependência de fatores externos, à divisão do trabalho e à condenação econômica: o trabalhador integral (agricultor) se transforma em burguês, ou seja, em um consumidor imanente da parte maldita. É aí que a desintegração do caráter pessoal da economia e a mudança de toda a natureza do trabalho têm sua origem: do trabalho como forma de vida sagrada no contexto das estruturas pessoais para trabalhar como forma de reunir recursos materiais. De acordo com Aristóteles, esta é a mudança de economia (οἰκονόμος) para chrematistas[5] (χρηματιστική). A pessoa é a figura principal da economia como construção de casas. O indivíduo é a unidade artificial de chritmática como um processo permanente de enriquecimento.

O indivíduo chrematista
O modelo do capitalismo é construído sobre uma visão da sociedade como uma reunião de indivíduos econômicos. Em outras palavras, o capitalismo não é um ensinamento econômico sobre a economia das pessoas, mas sim um sistema antieconômico que absolutiza os chritmáticos como uma esquematização da atividade egoísta dos indivíduos. O indivíduo chrematista é o resultado do cisma (Spaltung) da personalidade econômica.
O capitalismo pressupõe que, no fundamento da atividade econômica, existe um indivíduo que visa o auto enriquecimento; não para o equilíbrio da estrutura cósmica e do elemento sacral da liturgia do trabalho (como o trabalhador integral), mas para o auto enriquecimento, como um processo monótono de ampliação da assimetria. Isso significa que o capitalismo é o impulso deliberado para a interiorização e o cultivo da "parte maldita". E é precisamente esse o indivíduo chrematista: ele tenta maximizar sua riqueza, e esse desejo é expresso no capitalismo do desejo. Aqui, o desejo é anônimo (é aí que vem a "máquina de desejo" de M. Foucault), pois não é tanto o desejo da pessoa que expressa uma estrutura de filiação, mas a vontade niilista do indivíduo, que é dirigido contra tais estruturas. Este desejo chrematista é uma força de niilismo puro, dirigido não só contra a personalidade, mas também contra a economia como ciência e, além disso, contra o ser humano como estrutura.
O capitalismo destrói o cosmos como um campo sagrado da existência de uma comunidade de pessoas, ao mesmo tempo que afirma um espaço de transações entre indivíduos chritmistas. Esses indivíduos não existem, como cada indivíduo concreto é ainda (mesmo nas condições do capitalismo) uma pessoa fenomenológica, isto é, um tecido de filiação coletiva. Mas o capitalismo tenta reduzir ao máximo esse aspecto da pessoa, o que só é possível por meio da substituição da humanidade por indivíduos pós-humanos. É exatamente nessa transição para o pós-humanismo que o desejo chrematista atinge seu ápice: a "parte maldita" cria uma ilusão do humano em coordenação com o capitalismo. A transação ideal só é possível entre cyborgs: redes neurais sem qualquer dimensão existencial ou vínculo com estruturas pessoais.
Mas o ciborgue não começou a ser introduzido na economia hoje. Desde o início, o capitalismo esteve envolvido com o ciborgue, pois o indivíduo chrematista é um ciborgue, um conceito artificial que emerge da divisão do trabalhador total. O proletariado e os burgueses são figuras artificiais, desenvolvidas pela dissolução do fazendeiro (a terceira função tradicional) e a posterior montagem artificial de suas partes em duas multidões desiguais: exploradoras urbanas e exploradoras urbanas. O ciber burguês e o ciber-proletário são igualmente individuais e mecânicos ao mesmo tempo; no entanto, o primeiro é regido pela "parte maldita" liberada e a outra pelo soma do destino mecânico da produção, que tem suas raízes na pobreza e no nada da matéria. Nós nos tornamos burgueses e proletários quando deixamos de ser pessoas, quando rejeitamos a pessoa.

A escatologia econômica e a QTP
No contexto da estrutura geral da Quarta Teoria Política, podemos falar de uma estrutura escatológica da história econômica.
No início, há a pessoa econômica, o trabalhador integral (total), que nas especificidades das sociedades indo-europeias (acima de tudo na Europa) é retratado na gestalt do fazendeiro. O fazendeiro é uma pessoa totalmente desenvolvida, que é o aspecto do ser humano (em um sentido amplo do Anthropos) que se dedica ao elemento da Terra. Durante o crescimento do pão, o agricultor experimenta o mistério da morte e ressurreição, vendo o destino do homem no destino de uma semente. 
O trabalho do fazendeiro é o mistério da Elêusis, e é importante que o presente de Deméter para as pessoas, graças ao qual poderia transição da caça e coleta à agricultura (ou seja, o presente da revolução neolítica) consistia em pão e vinho, o orelha e grão de uvas. O agricultor é uma personalidade misteriosa, e a economia em seu sentido primordial foi fundada nos mistérios de Deméter e Dionísio. Os cultos não apenas acompanharam as atividades do fazendeiro, foram a própria atividade descrita como paradigma.
Aquele que era introduzido nos mistérios passava a ser considerado como uma pessoa plena em Atenas - mais concretamente, nos mistérios eleusinos: os mistérios do pão e do vinho, ou seja, nos mistérios do fazendeiro, da morte e do renascimento. Esta figura é a figura do trabalhador total.
O próximo momento da história econômica é a chegada do capitalismo. Está ligado à divisão da pessoa econômica, à desintegração da forma unificada do trabalhador sagrado e, portanto, à industrialização, à urbanização e à aparência das classes: a burguesia e o proletariado. O capitalismo postula um indivíduo chrematista como figura normativa, descrevendo-o como uma simbiose do animal e da máquina. A metáfora do animal "explica" a vontade de sobrevivência e "desejo" (bem como a motivação predatória do comportamento [anti] social: o lúpus de Hobbes) e a racionalidade (a "razão pura" de Kant) é vista como um prelúdio para inteligência artificial.
Isto estava implícito no capitalismo inicial (o início do período moderno) e tornou-se explícito no capitalismo tardio (o período pós-moderno). Assim, o trabalhador integral repetiu o destino da semente mais uma vez; não na estrutura do ciclo rural anual, mas na história "linear".
No entanto, o tempo linear do capitalismo é um vetor que se move em direção ao elemento puro da queda, após o qual nada segue e que não pode conter nada. A morte do período moderno é uma morte sem ressurreição, uma queda sem sentido ou esperança. E o máximo de morte irreversível desse fator, a anilitima, é alcançado com a aparência do indivíduo puro como um ponto culminante do capitalismo como um estágio da história.
O indivíduo puro deve ser portador da imortalidade física, pois não haverá nada nele que possa morrer. Não deve haver nenhuma pista de estrutura ou filiação nele. Ele deve ser totalmente liberado de todas as formas de identidade coletiva e também da existência. Este é o "fim da economia"[6], a "morte da pessoa", ao mesmo tempo que é o florescimento dos chrematisticos e a imortalidade do indivíduo (pós-humano).
A semente dos corrimões humanos, mas em seu lugar não há vida ressuscitada, mas um simulacro, um anticristo eletrônico. O capital é etimologicamente relacionado à cabeça (o caput latino), ou seja, a capital tem sido uma preparação para a chegada da inteligência artificial. Então, qual é o aspecto econômico da Quarta Teoria Política, que desafia o liberalismo em seu estágio final (terminal)?
Devemos, teoricamente, afirmar um retorno radical ao trabalhador integral, à pessoa econômica contra a "ordem" capitalista desintegrada (o caos organizado para ser mais preciso) e o indivíduo chrematista. Isso significa des-urbanização radical e retorno à prática agrícola, à criação de comunidades de fazendeiros soberanos. Este é o programa econômico da QTP: a ressurreição da economia após a noite escura dos chrematísticos, o renascimento da pessoa econômica do abismo do individualismo.
Mas não podemos ignorar a medida sem fundo do niilismo capitalista. O problema não tem uma solução tecnológica: não podemos consertar o capitalismo, deve ser destruído. O capitalismo não é apenas o empate da "parte maldita", é a sua própria natureza. É por isso que a batalha contra o capitalismo não é uma competição para um sistema econômico mais eficiente, mas uma batalha religiosa e escatológica contra a morte.
Historicamente, ou para ser mais preciso, hiero-historicamente, seynsgeschichtliche[7], é a última nota anterior do mistério Eleusino. A economia desaba sob o peso dos chrematísticos e a pessoa econômica foi rasgada em pedaços pelo indivíduo; os elementos e a estrutura da vida foram destruídos pela mecânica do desejo eletrônico.
Mas tudo isso começa a ter sentido quando lidamos com a história econômica como um mistério. Esta é a última hora antes do amanhecer. O capitalismo chegou ao seu estágio final. O selo do anticristo eletrônico foi quebrado, tudo está ficando claro. Esta não é apenas uma crise ou uma falha técnica; estamos entrando no momento do Juízo Final.
Mas esse é o momento da Ressurreição. E, para que a Ressurreição aconteça, o sujeito da Ressurreição é necessário, isto é, o iluminado, a pessoa, o fazendeiro, o ser humano. Mas é exatamente essa figura que morre na história. E parece que está ausente. Que não é mais. E retornar é impossível: a distância do momento da inocência (a sociedade tradicional) é irreversivelmente distante e cresce com cada momento. No entanto, a distância para a ressurreição final está diminuindo. E tudo o que é apostado no que deve surgir novamente será mantido seguro até a explosão final e explosiva das trombetas do arcanjo.
É por isso que não enxergamos o trabalhador integral, o agricultor ou a personalidade econômica em nossa perspectiva, mas sim o trabalhador integrado, não a personalidade da semente, mas a personalidade da espiga, a personalidade do pão, a personalidade do vinho. O fazendeiro hoje é chamado a uma milícia - e seu destino, na hora antes do amanhecer (o mais escuro), é se tornar parte de um exército econômico, cujo objetivo é a vitória sobre a Morte e a pacificação do tempo, tornando-a subordinada à eternidade.
A Quarta Teoria Econômica não pode ser o próximo projeção ou consistir em fantasias sobre modernização e otimização. Este não é nosso projeção nem nossas fantasias, que são codificadas no mundo de nossa imaginação pelo capitalismo. Devemos pensar em termos da pessoa, não do indivíduo, historicamente, não situacionalmente, economicamente e não chrematicamente.
Não se trata de construir um sistema de economia que seja mais eficaz do que o liberalismo, trata-se da destruição da "parte maldita".
A riqueza acumulada é um presente do diabo, e ele se desmorona na primeira rajada de vento. Somente um presente gratuito nos pertence pessoalmente, apenas algo que foi distribuído, sacrificado, dotado sem a necessidade de compensação é a nossa propriedade. É por isso que o sonho da economia deve ser ressurreição, ressuscitar, um sonho sobre um presente.


Fontes e notas:
[1] Мосс М. Общества. Обмен. Личность. Труды по социальной антропологии. М. : Восточная литература, 1996. Mausse M. Une catégorie de l’esprit humain : la notion de personne celle de “moi” //Journal of the Royal Anthropological Institute. vol.LXVIII, Londres, 1938.
[2] Benedict R. Patterns of Culture. NY: Mentor, 1934; Wallace A. Culture and Personality. NY: Random House, 1970; LeVine R. A. Culture, Behavior, and Personality. NY: Aldine Publishing, 1982; Funder D. The Personality Puzzle. NY: Norton, 1997; The Psychodynamics of Culture: Abram Kardiner and Neo-Freudian Anthropology. NY: Greenwood Press, 1988.

[3]  Lévi-Strauss C. Les Structures élémentaires de la parenté. Paris; La Haye: Mouton, 1967.

[4] Bataille G. The Accursed Share.

[5] Estudo relacionado à riqueza ou a teoria particular da riqueza medida em dinheiro. 
[6] Дугин А.Г. Конец экономики. СПб:Амфора, 2005.
[7] Termo alemão usado por Heidegger que pode ser traduzido aproximadamente como "ser-histórico".

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Saruman e a crítica de Tolkien à Industrialização

Por: Jean A. G. S. Carvalho






Há um aspecto importante na obra literária de Tolkien e na adaptação cinematográfica de Peter Jackson, registrada em "The Lord of The Rings" ("O Senhor dos Anéis"[1]): a oposição entre o "mundo antigo" e a indústria. 

Saruman, chefe do Conselho Branco, corrompido por Sauron mais tarde, se torna a personificação da Indústria na Terra Média. Ele transforma a bela e verde Isengard ("Jardim de Isen", numa tradução aproximada) num cenário desolado, e começa a devastar a antiquíssima floresta de Fangorn para extrair combustível à indústria nascente.

Há, nas palavras de Saruman, uma oposição entre o "mundo antigo" e o "mundo novo", aquilo que precisa ser suplantado para dar lugar a uma nova ordem, uma nova configuração de poder, superior, mais eficiente e mais terrível:


"The world is changing. Who now has the strength to stand against the armies of Isengard and Mordor? To stand against the might of Sauron and Saruman and the union of the two towers? Together, my Lord Sauron, we shall rule this Middle-Earth. The old world will burn in the fires of industry. The forests will fall. A new order will rise. We will drive the machinery of war with the sword and the spear and the iron fist of the Orc. We have only to remove those who oppose us". 
["O mundo está mudando. Quem agora possui força para enfrentar os exércitos de Isengard e de Mordor? Para se opor ao poder de Sauron e Saruman, e à união das duas torres? Juntos, meu Senhor Sauron, governaremos esta Terra Média. O velho mundo queimará nas fornalhas da indústria. As florestas cairão. Uma nova ordem se erguerá. Vamos conduzir a maquinaria de guerra com a espada e a lança e o punho de ferro dos Orcs. Temos apenas que remover aqueles que se opõem a nós."]




Há uma hierarquização da matéria: Saruman se encanta pelos metais e pelas forjarias. Seu próprio nome significa "homem hábil". Pelo poder de sua maquinaria, ele se julga capaz de dobrar não só as raças, especialmente a dos homens, mas a própria Natureza e seus fenômenos. 

Ele represa o rio Isen, utiliza as árvores ancestrais de Fangorn como mero combustível para produzir as milhares de armas para seus exércitos de orcs e sua elite Huruk-hai. Saruman, antes conhecido como "o sábio", renega todo o mundo antigo e abraça a técnica, a habilidade manual e o fogo - um fogo que deve consumir todos aqueles que se opõem a essa nova ordem.

Há um propósito para essa nova indústria: consumir a humanidade. Saruman deixa explícito que os produtos de suas novas fornalhas, as armas e o poderio de seu exército têm como função primordial eliminar os homens de toda a Terra Média. Como Aragorn alertou Théoden, rei de Rohan, Saruman não estava interessado em saquear ou apenas conquistar, mas em exterminar os povos livres, os homens que desejam manter sua liberdade.

É esse desejo que fica expresso nas palavras dos próprios orcs Huruk:




"We are the fighting Uruk-hai! We slew the great warrior. We took the prisoners. We are the servants of Saruman the Wise, The White Hand: The Hand that gives us man's-flesh to eat. We came out of Isengard, and led you here, and we shall lead you back by the way we choose.[2]"


["Somos os lutadores Uruk-hai! Nós matamos o grande guerreiro. Nós fizemos prisioneiros. Somos os servos de Saruman o Sábio, a Mão Branca: a Mão que nos dá carne de homens para comer. Viemos de Isengard e os trouxemos para cá, e os levaremos de volta pelo caminho que escolhermos"]




A Indústria consome homens e mulheres. Esse é o desígnio histórico: a industrialização como maquinário e a humanidade como seu combustível. A observação histórica dos efeitos da Revolução Industrial, sobretudo a nível psicológico, levam a essa conclusão tolkieniana: somos consumidos por um ordenamento que não nos diz respeito e que, sob o pretexto do aprimoramento, nos aprisiona de fato. 

Tolkien era visivelmente um entusiasta do campo e da vida rural: o Condado, lar dos hobbits, é um lugar idílico de vida simples, feliz e pacata; a sabedoria milenar dos elfos, a liberdade de cavaleiros correndo pelos campos de Rohan e os feitos dos homens de Gondor são colocados em oposição direta às desolações das forjas em Mordor e em Isengard. 

A Revolução Industrial, no nosso mundo concreto, marcou decisivamente a superação do campo pela urbe, pela cidade; e, no mundo de Tolkien, o poder industrial de Barad-dûr e Orthanc significava a ameaça a esse estilo de vida idílico (como fica claro no vislumbre que Frodo tem da dominação de Sauron sobre o Condado, quando passou por Lothlórien).

Saruman não tem nenhuma consideração pelo campo, pela vida simples, pelas coisas singelas. Não nutre nenhum apreço pela vida, muito menos a vida humana. Enxerga a natureza como mero recurso a ser consumido até a exaustão, produzindo cada vez mais, ampliando, crescendo indefinidamente, expandindo sem nenhum limite. 

Esse é o quadro perfeito da nossa lógica de trabalho, da nossa atual percepção sobre técnica e "progresso" material pautado em consumo superficial, aglomeração e acúmulo contínuo - e, nesse consumo, somos nós mesmos consumidos.

Saruman prometeu aos povos a liberdade e, com mentiras e palavras vazias, apenas os aprisionou ainda mais. Convenceu várias tribos, como os homens de Dunland, de que a guerra pela técnica traria novamente sua libertação e prosperidade. Mas esses homens apenas lançaram seus jovens à morte.

O resultado máximo e final da dominação de Sauron e Saruman, em última instância, seria o fim do mundo e de toda a vida. Sauron desejava estender sobre todos o vazio. Ele odiava, como seu mestre Morgoth (do qual era apenas um general), destruir Arda - toda a criação e o mundo físico lhe eram odiosos. Esse trabalho não significaria avanço, mas sim o fim. Tal foi a promessa da Revolução Industrial e de seus barões: agora, as massas sem-terra e sem propriedade real se aglomeram pela esperança de alguma subsistência - e a máquina substitui cada vez o homem.

A compreensão de que a técnica deve estar subordinada a princípios morais atemporais e de que não é a medida máxima da realização civilizacional não foi tomada por Saruman. E a crítica contida na obra de Tolkien continua a ser extremamente atual. Nossa espécie se tornou escrava da técnica, tecnicista, substituindo aquilo que é imaterial e eterno pelo descartável. 

É exatamente por isso que o niilismo e o esvaziamento existencial (algo nítido em personagens como Saruman e Sauron) são produtos de massa dessa indústria de produção em larga escala, mantida pela produção daquilo que não consumimos e o consumo daquilo que não produzimos. 

A crítica contida em Tolkien não significa a simples rejeição da técnica (τέχνη, techné[3]), o que seria impossível, já que tecnologia e aprimoramento são traços da própria humanidade. Significa a rejeição da adoção da técnica pela técnica, do progresso pelo progresso, do "avanço" como um fim em si mesmo, mesmo às custas de tudo aquilo que é considerado como "antigo" e da própria dignidade humana. 

A técnica pode e deve ser um instrumento à serviço do homem, e não uma estrutura que se serve do próprio homem e supera a própria dignidade humana e anula toda a interação positiva dele com o meio no qual está inserido.

É exatamente por isso que a vida no Condado é retratada por Tolkien como um sistema imensamente superior ao das "incríveis" forjas de Isengard e Mordor.




Notas:

[1] A obra de Tolkien foi originalmente construída como um livro único, sendo posteriormente dividida numa trilogia.

[2] The Lord of the Rings: The Two Towers ("O Senhor dos Anéis: As Duas Torres"), capítulo 3, "The Uruk-hai" ("Os Uruk-hai").

[3] Do grego, significa habilidade, trabalho, arte, técnica.




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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Uma crítica de Primo de Rivera ao Individualismo Liberal


Por: José António Primo de Rivera
Tradução: Gabriel Larré da Silveira

José António Primo de Rivera, em pé, ao centro (fonte da staticflickr.com)


Pega-se pelas pontas, entre o polegar e o indicador de cada mão. Aplica-se ao objeto de observação. Cabe exatamente o objeto na medida? Então está bem. Não cabe ou não a preenche? Então está mal. Nada pode ser mais simples.
Com tal procedimento, um jornal - admirável, fora isso, por mil motivos - conseguiu julgar toda sorte de acontecimentos. A medida - a medida que está entre o indicador e o polegar de cada mão - resume-se a estas palavras: ¨é preciso respeitar os direitos individuais¨.
Como veremos, não se trata de uma frase cuja apreensão requeira grande esforço. Mas ela tem uma virtude maravilhosa: uma vez adquirida, livra quem a adquire, para todo o resto de seus anos, da desagradável necessidade de pensar. Os convencidos pela frase resolveram para sempre o problema de avaliar qualquer evento político. Os direitos individuais foram respeitados? Então está bem. Os direitos individuais foram ignorados? Então está mal. Ditaduras, leis, revoluções… quanto mais complexa e profunda a vida de um povo, mais facilmente adquire simplicidade transparente.
Agora, o que são os ¨direitos individuais¨? Imaginemos um trabalhador do próprio jornal descobridor desta norma. Esse trabalhador há muitos anos trabalha em um linotipo. Pagam-no bem, sim, mas o homem vive sujeito ao linotipo durante várias horas por dia. E junto com o linotipo corre sua idade madura. Uma manhã, quando amanhece, o trabalhador - que passou a madrugada inteira em frente ao teclado do linotipo - nota que um suor frio corre-lhe a testa. Seus olhos começam a ver turvo. De repente, sua boca se entorna e, pesadamente, cai no chão. Carregam-no, assustados, vários companheiros de trabalho. Está sem sentido. No canto de sua boca escorre um pequeno fio de sangue. Está morto.
E então? Então, se a viúva do trabalhador tem a sorte de viver em um Estado liberal, encontrar-se-á com uma magnífica Constituição, que lhe assegurará todos os direitos. Os famosos ¨direitos individuais¨. A viúva terá a liberdade para escolher a profissão que lhe agrade. Ninguém poderá impedi-la de, por exemplo, abrir uma joalheria ou um banco. Também terá liberdade para escolher a própria residência.
Poderá viver em Nice, em Deauville ou em um palácio em Bilbao. Antes se abrirá a Terra que permitir que lhe coloquem travas à livre expressão de pensamento. A viúva estará apta para fundar um jornal como aquele em que seu marido trabalhava. E como, ademais, as leis protegem a liberdade religiosa, lhe será permitido fundar uma seita e abrir uma capela.
O trabalhador deixa viúva e seis filhos, nenhum em idade para trabalhar. A viúva recebe um subsídio, mais por generosidade da empresa do que por imposição da lei. Vive alguns meses; talvez um ano ou dois. Mas chega um dia em que resvala entre os dedos o último centavo do subsídio. Já não há o que comer em casa. As crianças empalidecem por dias. Logo serão presas fáceis para a anemia, para a tuberculose - ou para o ódio. Essa riqueza jurídica, não conforta a qualquer um? Claro, talvez a viúva não sinta a urgente necessidade de escrever artigos políticos ou fundar religiões. Talvez, por outro lado, tropece em algum pequeno obstáculo antes de estabelecer uma fábrica ou um grande jornal, por exemplo. Poderia ocorrer que sua maior necessidade fosse encontrar sustento para si e para seus filhos. Mas isso é, cabalmente, o que não lhe proporciona o Estado liberal. Direito à comida, sim, sem dúvida alguma. Mas comida?
Leitor, se você vive em um Estado liberal, procure ser milionário, bonito, inteligente e forte. Então sim, lançados todos na livre concorrência, a vida será sua. Terá você jornal para exercitar a liberdade de pensamento, carros onde poderá colocar em prática a liberdade de locomoção…; quando você queira. Mas ai dos milhões e milhões de seres mal dotados! Para esses o Estado liberal é feroz. De todos eles fará carne de canhão na implacável luta econômica. Para eles, os sujeitos dos direitos mais sonoros e realizáveis serão a fome e a miséria.
A viúva terá que se render na dura luta. Aceitará o que lhe derem por cozinhar dez horas em alguma casa. Ficará de jejum para que seus filhos criem a ilusão de que comem algo. E enquanto, à noite, no sótão escuro, seus olhos queimam de dor, não faltaram oradores liberais que escrevam parágrafos como este: ¨já não existe a escravidão. Graças às nossas leis, ninguém pode ser forçado a trabalhar senão em um ofício que escolha livremente¨. Eis como o Estado liberal, mero declamador de fórmulas, não serve para nada quando mais dele se necessita. As leis permitem tudo; mas a organização econômica, social, não garante que tais permissões possam se concretizar em realidades.
Isso já percebeu a Humanidade. Por isso, para julgar os acontecimentos políticos, exige medidas mais profundas do que aquelas do jornal. Quer Estados que não se limitem a nos dizer o que podemos fazer, mas que nos coloquem, protegidos os mais fracos, exigindo sem rancor sacrifícios dos mais poderosos, em condições de poder fazê-lo. Dois tipos de Estado tentam atingir tal ambição.
Um é o Estado socialista, mas apenas em seu ponto de partida, esterilizado depois, pelo seu conceito de vida materialista e pela sua concepção de luta de classes. O outro é um Estado que aspira à integração dos povos, ao calor de uma fé comum. Seu nome começa com F. Já se pode dizê-lo?

Texto original disponível em: Rumbos

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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Nascimento de Cristo como Recomeço e Reconciliação

Por: Jean A. G. S. Carvalho


O nascimento de Cristo foi um evento de reconciliação divina com a humanidade em sentido universal


Grande parte do significado do Natal foi diluído pelo capitalismo e pelo espírito mercantil (aquilo que, nas Escrituras, se chama de "Mamon"). A significação e a percepção coletiva do período natalino foi substituída por consumismo superficial. Entretanto, é impossível anular completamente os sentidos profundos de um fenômeno, principalmente quando ele reside nas mentalidades das massas.

O Natal tem em si mesmo uma mensagem profunda de Recomeço. Cristo, Deus encarnado, é o sinal de que Ele busca oferecer à humanidade uma nova oportunidade de Redenção, de salvação. Toda uma trajetória de erros e de desacertos humanos pode ser corrigida por meio desta oportunidade.




"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." 
(João 3:16)




Esse nascimento marcou a Reconciliação entre Deus e o homem (humanidade), entre O Criador e Suas criaturas. Por meio do sinal na manjedoura, do pequeno menino rodeado por Maria, José e os reis magos, o homem pôde se reaproximar d'Aquele que "estava em silêncio". Foi uma nova Mensagem transmitida pelo Único.

Assim como o pecado adentrou o mundo por um só homem, Adão, a salvação veio também por um homem (o "Filho do Homem"), homem-Deus, Jesus Cristo ( יֵשׁוּעַ [Yeshua], Ἰησοῦς [Iesous]); e, assim como o erro entrou por meio duma mulher, Eva, a Reconciliação veio ao mundo pelo ventre de uma mulher, Maria. Para o erro, a oportunidade de repará-lo; para o engano, a chance da Verdade.



"Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor"
(Lucas 2:11)



Longe de ser apenas um evento ocasional, aleatório, o nascimento de Cristo marcou o cumprimento de todo um teor profético. A Reconciliação foi previamente anunciada. A Nova Oportunidade foi comunicada aos homens - não só se dá à criatura humana essa nova senda, mas ela é comunicada a ele.



"Mas a terra, que foi angustiada, não será entenebrecida; envileceu nos primeiros tempos, a terra de Zebulom, e a terra de Naftali; mas nos últimos tempos a enobreceu junto ao caminho do mar, além do Jordão, na Galiléia das nações. O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz."
(Isaías 9: 1 e 2) 



O significado do Natal reside neste ponto simples: uma nova oportunidade. Uma nova oportunidade para viver, compreender o propósito existencial humano e reparar danos e falhas. Essa é a mensagem simples do Evangelho e do nascimento de Cristo, mensagem universal e essencial a um mundo cada vez mais incapaz de reconhecer seus próprios erros e de perceber a necessidade de corrigi-los - e dar uma nova chance a si mesmo e aos demais.


Interpretar o Natal como uma oportunidade de reflexão, reconciliação com Deus, consigo e com os outros é a forma mais saudável de se finalizar um ano e iniciar outro.


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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

"Ran" (乱): Fidelidade e Traição aos olhos de Kurosawa

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Cena do filme na qual Kurogane executa Kaede, a traiçoeira e manipuladora amante de Jiro


   Atenção: o texto contém spoilers do filme   

O significado da obra de arte de Akira Kurosawa é evocado já no título: Ran (乱em japonês, ideograma que significa "caos") manifesta o aspecto dramático da existência humana. Produzido em 1985, o filme de 155 minutos dividido em cinco atos é uma adaptação livre da tragédia "King Lear" ("Rei Lear"), de Shakespeare, narrando a estória de Hidetora Ichimonji, poderoso líder e senhor do Japão feudal, que decide dividir suas conquistas e seu reino entre seus três filhos (Taro, Saburo e Jiro), dando a liderança de fato ao primogênito deles, Taro.

Ran é uma obra prima, uma das melhores conclusões cinematográficas já produzidas. Não só pela genialidade de Kurosawa (que, inclusive, foi uma das inspirações para John Milius, diretor da legendária produção "Conan The Barbarian" - "Conan, o Bárbaro" - de 1982), que produziu este e outros magníficos trabalhos sobre o Japão medieval, mas por ser mais que uma simples adaptação de uma obra inglesa: uma verdadeira "niponização" perfeitamente realizada, plasmando com maestria os elementos da cultura japonesa numa das maiores peças de dramaturgia inglesa.

O filho mais novo de Hidetora, Saburo, se opõe à decisão do pai e mostra que a atitude dele é inconsequente e que não haverá união entre os três irmãos, dizendo que o pai é um tolo por esperar. O pai, sentindo-se aviltado, rejeita o próprio filho, lançando-o ao exílio juntamente com seu conselheiro Tango - o serviçal mais fiel de Hidetora. Saburo recebe o abrigo do lorde Fujimaki que, testemunhando o ocorrido, se admira da franqueza de Saburo e o convida a viver com ele, oferecendo ao rejeitado a mão de sua filha.

Primeiro, é importante notar um dos traços mais significativos de Ran: a ilusão da sabedoria. Hidetora é um ancião, um homem velho, experiente. Guerreiro experimentado, acredita possuir conhecimento da vida e enxerga a própria decisão como inteiramente prudente. 

A insubordinação de Saburo é inadmissível: primeiro, porque ele é mais jovem; segundo, porque é filho. Hidetora é pai e velho, hierarquicamente superior. Compreendendo o contexto nipônico e feudal, com os traços de formalismo típicos (e ainda presentes no Japão contemporâneo), é fácil entender o motivo de a reação aparentemente exagerada de Hidetora ter sido tomada. 

Mas, assim como a sabedoria humana pode ser enganosa, aquilo que aparentemente se mostra como insubordinação é, no fundo, lealdade. Saburo foi o único a contestar abertamente o pai porque não se importava com riquezas ou com aquilo que poderia herdar de seu progenitor. Ele alertou sobre o engano em relação à fidelidade dos filhos porque sabia da natureza humana e do quanto ela é traiçoeira, mesmo entre filhos e pais, mesmo entre familiares, mesmo entre irmãos.

A aparente experiência de Hidetora era um engano, e a insubordinação de Saburo era um alerta. E o trágico aviso de Saburo se concretiza: Taro, o filho mais velho transformado em autoridade pelo pai, começa a se desfazer dele, esquecendo qualquer glória daquele que fora o lorde de toda uma planície, de vastos territórios e vencedor de inúmeras batalhas. 

O antigo soberano se transforma num peso dentro de seu próprio palácio, cada vez mais ostracizado e com uma autoridade crescentemente diminuída. Buscando refúgio em seu segundo filho, Hidetora é também desrespeitado por Jiro, tendo seus fiéis guardas sido impedidos de permanecer no interior do castelo. 

O orgulhoso líder de guerra se recusa a permanecer no local, seguindo com seus próprios companheiros para uma região desolada. Sem local para onde se dirigir, o outrora majestoso monarca é atraído para uma nova localidade com um aviso falso de outro traidor, um de seus conselheiros, que lhe dá um alerta sobre um ataque eminente contra certa fortificação, por parte de outro lorde (um ataque falso, obviamente - não há nenhum exército inimigo se movimentando contra Hidetora).

Taro e Jiro fazem entre si um pacto contra o próprio pai. Ele precisa morrer. Unindo seus exércitos, encurralam o próprio Hidetora, abandonado, cercado por tropas que deveriam estar a seu serviço, à serviço do clã Ichimonji. 

Suas mulheres cometem o suicídio, seus guerreiros mais nobres derramam o sangue num último gesto de proteção ao grande líder, e Hidetora senta-se imóvel, face assombrada, rodeado por flechas flamejantes, saraivadas de tiros e soldados cercando sua torre. 

Em meio à carnificina, Taro é morto à mando do próprio irmão, Jiro. Traição entre os traidores, complô entre os falsários. Irmão morto por irmão, a repetição de Caim (קַיִן, "lança") e Abel (הבל., "fôlego" - e, assim como Caim foi a lança para Abel, matando o irmão, Jiro é o disparo contra Taro (embora Taro fosse também um traidor, diferentemente de Abel).

Hidetora sai da torre como um fantasma: pálido, assombrado e assombroso, desligado de toda a realidade ao redor. O homem que massacrou inúmeros e que viveu a batalha intensamente não estava preparado para lidar com a traição, muito menos vinda de sua própria prole. Ele caminha em meio aos soldados, sozinho, desolado, e seu algoz traidor, Jiro, fica incapacitado de concretizar o escárnio e matar o próprio pai, que passa a vagar sozinho pelos ermos, seguido apenas de Tango e do bobo da corte, Kyoami.

Dessa forma, a "profecia" de Saburo é colocada em ação e a traição chega rapidamente. Dois filhos contra um pai, irmão contra irmão. O poder absoluto passa para as mãos de Jiro, que é rapidamente dominado por Kaede, viúva de Taro que se oferece rapidamente ao assassino de seu próprio marido. Kaede preocupa-se com poder e vingança: assim como Taro havia sido um meio efetivo para atingir esse fim, agora Jiro também poderia sê-lo. 

E, como Taro pôde ser descartado, Jiro também poderia ser dispensado assim que se tornasse inútil aos propósitos de Kaede. Aqui, a figura feminina ardilosa, a traição pela manipulação do encanto e da paixão, sentimentos essencialmente carnais, efêmeros e opostos à prudência.

Kaede coloca a necessidade de Jiro eliminar sua esposa, Sue, para que ambos possam concretizar sua união. A junção carnal entre Jiro e Kaede é não só resultado do fratricídio, mas do adultério - elementos permeados por formalismos e legalidade. Kurogane, respeitável samurai e exímio estrategista militar, é encarregado de matar Sue e trazer sua cabeça aos pés da amante e do traidor.

Kurogane se recusa a fazer isso e, ao voltar, trás uma cabeça duma estátua de raposa, fazendo uma metáfora para alertar Jiro do perigo de se envolver com mulheres traiçoeiras e de quantas desgraças elas são capazes de arquitetar, usando o poder dos homens para seus próprios fins pérfidos. 

Kurogane é o homem correto no local errado: pela força das circunstâncias, deve permanecer ao lado de Jiro, mas mantém seus próprios princípios morais acima da obediência cega a uma autoridade. Embora o respeito e a obediência devam ser máximas para a vida, não devem ser cegos. Obedecer aos desígnios de Kaede seria acelerar a destruição do próprio Jiro. 

Kaede é a figura da serpente, a figura maligna da trama e da destruição. Ela testemunhou morte, a morte de sua família, e deseja apenas vingar-se derramando mais sangue. É a vítima-algoz. 

Não ama, apenas odeia. Sue é a figura doce, passiva, perdoadora (a família dela também havia sido eliminada por Hidetora, mas ela não odiava o próprio sogro) e fiel. Sue são os olhos de Tsurumaru, seu irmão, cegado por Hidetora. Buda é o norte de Sue - num muno cada vez mais cruel, ela é um traço de bondade, simplicidade. Há aqui o dualismo entre Kaede (uma succubus) e Sue (a ninfa, Νύμφαι).

Jiro é o homem que escolhe a morte e o assassinato (Kaede) em lugar da espiritualidade e da vida (Sue). Sue, aquela que guia e dá visão (não só ao irmão Tsurumaru, mas também ao sogro Hidetora), é substituída pela cegueira, pela obscuridade de Kaede. 

É típico dos homens escolher aquilo que os cega, aquilo que os destrói, em lugar daquilo que os eleva e os aproxima da Verdade. Cercam-se de traidores, ignoram os sinais óbvios e subliminares e lamentam as desgraças naturalmente decorrentes disso. 

Saburo é o filho fiel. Ele não é o herdeiro traidor (Taro), nem o fratricida (Jiro). Não se porta como os dois, com sua falsa submissão à autoridade paterna, às formalidades, convenções e tradições. Saburo é energia viva, simplicidade, sinceridade, é um gênio autêntico. Ele se coloca "contra" o pai por estar a favor dele. 

E, mesmo vendo que seus alertas se concretizaram, não rejeita o pai e não o abandona. Não diz ao pai que "estava certo" e que "havia avisado", apenas se oferece para recebê-lo.


Saburo o procura, ele busca pelo pai. Não o encontra. Mas não desiste: prossegue na busca. Hidetora foge do filho como quem foge de um fantasma, de um pesadelo. Ele sente vergonha e se enxerga como indigno do amor e da proteção do filho. Mas Saburo apenas deseja honrar o pai - e, insistentemente, convence-o disso. 

Tango, conselheiro fiel que se manteve ao lado de seu senhor mesmo após o exílio injusto (a amizade verdadeira que poucos reconhecem, o amigo real que é comumente injustiçado em detrimento de falsos colegas), pede para que ele recobre sua lucidez e perceba a origem das lágrimas do filho. 

Juntos, voltando alegremente como filho e pai, os dois se deparam com a morte: Saburo é atingido por um disparo traiçoeiro. Ele cai e morre. Hidetora se desespera e, num último lamento, prossegue para o pós-vida junto ao corpo do filho. A vitória na batalha não foi desfrutada. Hidetora recebe de volta o sangue que derramou e Saburo é atingido pela imprudência do pai. Não conseguimos escapar da morte. Certas coisas são inadiáveis.

Ran consegue nos fazer perceber a transitoriedade da vida. Morreremos. E a traição pode vir de locais inesperados: não do inimigo aberto, não do "outro", mas muitas vezes daquele que está dentro, ao lado, daquele que compartilha dos nossos laços de sangue e de nossas ideias. 

A espada não é erguida contra nós por parte do "insubordinado" (Saburo), mas sim dos falsos submissos (Taro e Jiro), dos bajuladores. O homem que escolhe a traição (Kaede) colhe traição; aquele que escolhe a lealdade, mesmo que morto, morre em paz de espírito e nos braços daqueles que realmente são fiéis (Hidetora, o pai arrependido, e Saburo, o filho leal).

Podemos interpretar "Ran" como uma releitura não só de "Rei Lear", de Shakespeare, mas do próprio conto de Gênesis sobre o filho pródigo (descrito no capítulo 15 do Evangelho de Lucas), aquele que desdenha todas as recomendações do pai, sofre as consequências (perambulando em situação de miséria), gasta toda sua riqueza e, ao invés de ser recebido com reprimendas e punições, recebe o perdão do pai e é acolhido por ele. em "Ran", o conto do filho pródigo é invertido: Hidetora rejeita os conselhos do filho, perde suas glórias e, em situação de miséria, é recebido com amor por seu descendente. A morte, diante de tantas traições, foi uma dor pequena aos dois. Hidetora é o "pai pródigo" recebido com honra pelo filho fiel.

E, quando as riquezas e as mulheres de Hidetora não significam mais nada, quando suas  antigas glórias militares não são capazes de ajudá-lo e ele se transforma cada vez mais numa sombra daquilo que fora, quando a traição se manifesta de todos os lados (inclusive por seu primogênito e por seu segundo filho) e seus mais íntimos amigos se afastam dele, é nos braços do filho que ele encontra lealdade real. 

É no funcionário exilado, Tango, que ele encontra nobreza, e não em seus conselheiros corruptos, que se vendem por pouco na esperança de obter muito. A fidelidade, assim como a traição, vem de onde menos se espera.

Em "Ran", Akira Kurosawa transmite valores milenares japoneses por meio duma obra inglesa (temas atemporais e que ultrapassam limites geográficos). Vida, morte, traição, lealdade, guerra, paz, terror e maravilhas, o homem e a natureza e o homem como parte da Natureza, a técnica, o progresso, as tradições, o formalismo e a autenticidade, a incredulidade e a fé. 

Kurosawa incorpora em si mesmo, enquanto indivíduo (ou melhor, como pessoa), uma identidade coletiva, uma identidade nipônica que não foi totalmente aniquilada pela modernidade e que encontra expressão na vida samurai, no Bushido e, igualmente, no cinema e nas câmeras.

É exatamente por isso que o trabalho de Kurosawa encontrou ecos no Ocidente, principalmente em John Milius, em toda uma geração de diretores de cinema, homens como Federico Fellini, Bernardo Bertolucci, Robert Altman, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Satyajit Ray, Spike Lee, Alexander Payne e tantos outros. "Ran" é um drama porque reflete parcialmente a realidade da própria existência humana, com elementos tão presentes hoje quanto o foram na época em que Shakespeare escreveu "Rei Lear" - e, na modernidade, conceitos como fidelidade e traição são cada vez mais diluidos, criando um panorama cada vez mais propício para as figuras da traição - como Kaede, Jiro e Taro - e onde reconhecemos cada vez menos quem nos é realmente leal (como as figuras de Saburo e Tango).

Kurosawa nos comunica os conceitos de fidelidade e de traição por meio de cenas impressivas e, ao mesmo tempo, sublimes. Ele consegue transmitir conceitos belos como simplicidade e sabedoria em meio a batalhas sangrentas. Consegue imprimir pureza e docilidade (a figura da doce Sue) em meio à carnificina, dentro de um mundo brutal. É um oriental comunicando a coexistência e a multiplicidade de elementos aparentemente antagônicos, a face multifacetada da vida: dor e prazer, vida e morte, guerra e paz, materialismo e espiritualidade, poder e humildade, riqueza e miséria, glória e esquecimento.

A brevidade da existência humana, a eminência da morte e a incapacidade de distinguir amigos de inimigos (bem como o quanto podemos nos enganar pensando que há em nós alguma sabedoria nossa, ou que o conhecimento é propriedade nossa) e a vaidade das riquezas são temáticas essencialmente atuais e tratadas por Kurosawa do modo que lhe é peculiar: o culto ao espírito samurai (algo visível também em sua obra "Os Sete Samurais" - 七人の侍 em japonês, produzido em 1954). 

"Ran" é um manifesto contra o espírito superficial e materialista não condicionado exclusivamente à modernidade, mas que se transformou em seu símbolo oficial.


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