segunda-feira, 23 de abril de 2018

Crítica à "Ética" libertária

Por: Jean A. G. S. Carvalho


Sátira da bandeira de Gadsden e seu slogan "Don't tread on Me" - o espírito de subserviência dos libertários às corporações privadas e a incapacidade de reconhecer que a coerção não parte exclusivamente do Estado


É realmente possível falar numa "Ética" libertária? Definitivamente, não. E não é difícil entender o motivo.


Dado que Ética pressupõe um acordo social entre mais de uma pessoa, trata-se duma construção essencialmente não-individual/individualista. Não há absolutamente nenhuma Ética individual. Toda Ética é essencialmente social, coletiva, e a sociedade (o coletivo) é um organismo radicalmente rejeitado pelos libertários. Aliás, o cerne do libertarianismo é a primazia do indivíduo acima do coletivo, da coletividade (do tecido social). Nesse grau de organização hierárquica, é impossível falar de qualquer Ética real, já que a Ética pressupõe o inverso: um pacto objetivo socialmente mantido que se põe acima do indivíduo e sua subjetividade. 

Ayn Rand, Ludwig von Mises, Murray Rothbard e Hoppe declaram o egoísmo, o interesse pessoal e a ganância como virtudes - o desejo pessoal e o indivíduo acima de qualquer noção coletiva e social. Isso nada tem a ver com Ética. Na verdade, essa é a negação máxima de qualquer traço ético.

Assim, é possível afirmar sem sombra de dúvidas que não existe nenhuma "Ética" libertária. Trata-se de uma inviabilidade lógica, sociológica e filosófica.

Durante milênios, diferentes civilizações trataram de criar seus próprios códigos morais abarcados por uma noção Ética. Embora possamos encontrar inúmeras diferenças sobre o que é moral ou imoral em cada cultura, também podemos notar elementos quase que universais em todas elas (proteção em relação às crianças, códigos de conduta em atividades econômicas e punição contra incesto em graus de parentesco como mães, pais, avós, avôs, irmãos, filhos, etc.). As noções de certo e errado sempre foram preocupações dos diversos povos e das diversas abordagens religiosas. 

Podemos definir Ética como a parte da Filosofia que trata dos princípios motivadores do comportamento humano, da essência das regras, normas, proibições e valores; a ética abrange todo um conjunto de preceitos morais de grupos sociais e das pessoas que compõem esses grupos.

Qualquer construção Ética, em qualquer civilização, possui um caráter essencialmente coletivo. Os códigos morais não são centrados no indivíduo ou em suas impressões sobre o que ele mesmo considera como certo ou errado; ao contrário, são estabelecidos em conformidade social. É pelo todo, pelos outros, que a pessoa aprende e aceita (ou rejeita) princípios morais. Mesmo que deseje romper com esses princípios, eles não são originados ou criados no indivíduo, mas numa coletividade que partilha de princípios e valores comuns.

Além de a noção coletiva ser necessária para a existência de uma Ética, um forte pensamento comunitário (um reconhecimento de comunidade) é essencial para que os preceitos sejam não só reconhecidos, mas praticados. E isso é o oposto de qualquer noção de "Ética libertária". Toda a abordagem libertária e liberal sobre Ética permanece centrada no indivíduo: as noções existem por ele, para ele e pela vontade dele. 



Nesse tipo de abordagem, a Ética é transformada numa ferramenta utilitária colocada à serviço do próprio indivíduo: absolutamente tudo gira em torno de suas "liberdades individuais". Não é a pessoa que deve pactuar com uma Moral ou uma Ética civilizacional, mas sim o conjunto social é que deve se subordinar à subjetividade individual. O indivíduo, que é  um resultado do organismo social, acaba precedendo-o numa inversão hierárquica e ontológica.

Toda a chamada "Ética liberal/libertária" centra-se não só no indivíduo e nas chamadas liberdades individuais, mas em questões puramente econômicas e materiais. As noções de certo e errado, de crime, de mal e bem são centradas naquilo que se deve fazer ou não em relação à propriedade. É a propriedade, e não o homem, o cerne da chamada "Ética" libertária. Aliás, todos os significados e valores do homem só são possíveis e viabilizados dentro do libertarianismo (ou "anarco"-capitalismo) por conta de suas interações com a propriedade.

Os chamados "direitos naturais" (a versão libertária do jusnaturalismo) como a vida só têm sentido à medida em que o homem é capaz de imprimir vazão desses direitos por meio de suas posses. Assim, não se trata de um "direito" ou de um valor intrínseco ao homem, mas sim de um conjunto de elementos precificados, que devem ser comprados, adquiridos pelo homem. É exatamente por isso que a vida, esse tal "direito natural", assim dado pelos libertários, será negado a alguém que, dentro dessa lógica, não for capaz de pagar por seus tratamentos médicos, por exemplo.

Nessa ótica, a própria vida humana não tem preservação ou valor inerente. Ao contrário: nessa ótica, matar ou causar dano a outra pessoa são coisas que só se consideram erradas porque são um "ataque à propriedade" (no caso, a pessoa é vista como uma "auto-propriedade", ou seja, uma propriedade de si mesma). Deixar de danificar ou matar uma pessoa não é algo dado por uma máxima moral imbuída de valor transcendental e metafísico, mas puramente mecanicista, econômico.

Nessa mesma linha, a própria "ética" libertária não consegue definir ou criar um consenso mínimo sobre o cuidado e o direito das crianças, por exemplo. É verdade que não há uma opinião única sobre diversos assuntos, mas todas elas se debruçam sobre uma única preocupação: ferir ou não a propriedade. A principal pergunta dessa "Ética" libertária não é sobre a dignidade humana ou uma noção de Bem superior e de preceitos morais inegáveis, mas sim se determinada ação viola os preceitos de propriedade e livre comércio.

O próprio Rothbard, um dos exponentes dessa ideia, chega a afirmar que matar os próprios filhos por inanição não é algo a ser considerado como crime, e que os pais não devem ser constrangidos por meio de terceiros a prover sustento aos seus filhos:


"Applying our theory to parents and children, this means that a parent does not have the right to aggress against his children, but also that the parent should not have a legal obligation to feed, clothe, or educate his children, since such obligations would entail positive acts coerced upon the parent and depriving the parent of his rights. The parent therefore may not murder or mutilate his child, and the law properly outlaws a parent from doing so. But the parent should have the legal right not to feed the child, i.e., to allow it to die. The law, therefore, may not properly compel the parent to feed a child or to keep it alive. (Again, whether or not a parent has a moral rather than a legally enforceable obligation to keep his child alive is a completely separate question.) This rule allows us to solve such vexing questions as: should a parent have the right to allow a deformed baby to die (e.g., by not feeding it)? The answer is of course yes, following a fortiori from the larger right to allow any baby, whether deformed or not, to die. (Though, as we shall see below, in a libertarian society the existence of a free baby market will bring such “neglect” down to a minimum.)"  
- Murray Rothbard, "Children and Rights", página 100.



Cabe enfatizar que Rothbard se refere às crianças como "it", termo comumente usado na língua inglesa para se referir a objetos. 

Murray consegue a proeza de fazer uma inversão grotesca de gravidade: para ele, agredir fisicamente uma criança é errado, mas matá-la por fome, não. Agredir um filho, para ele, é pior do que matá-lo. É inviável considerar isso sequer como "filosofia".

Rothbard considera matar os filhos por inanição como um "direito dos pais", e criar mecanismos legais para punir isso seria atentar contra esse "direito paterno". Novamente: a entronização das vontades e liberdades individuais acima de noções éticas básicas. E a liberdade individual da criança? Ela inexiste, já que, na visão de Rothbard e de vários outros autores libertários, a criança é uma "autopropriedade em potencial" (ou seja, antes da vida adulta, não possui vontade própria). Ironicamente, Rothbard considera que fumar, ingerir álcool e praticar sexo (uma imensa prerrogativa para pedofilia) são "direitos da criança" - tudo isso, exceto receber alimento e abrigo.

Mesmo que vários libertários neguem a premissa de Rothbard, ela não é incoerente com o ideal máximo dessa estrutura de pensamento. Ao contrário: o profundo individualismo, atomização e redução da existência humana a questões de ganho e perda são um terreno extremamente fértil para que aberrações como as proferidas por Rothbard (que, longe de ser considerado um anátema por esses mesmos libertários "discordantes", é tido como um ícone do "anarco"-capitalismo e do libertarianismo) sejam criadas e defendidas. E não é difícil encontrar, entre os círculos liberais/libertários, pessoas que ecoam o pensamento de Rothbard não só em relação às crianças, mas sobre inúmeras outras bestialidades.

Ele ainda define que uma criança "deformada" (o que seria essa deformidade, em termos específicos? Alguma doença objetivamente diagnosticada, ou simples aversão estética por parte dos pais em relação à criança?) pode ser morta pelos pais, se eles assim desejarem. Aqui, há o rompimento das noções mínimas de proteção não só à criança, mas também aos portadores de necessidades especiais, sejam elas deficiências físicas e/ou mentais.

Aliás, os mesmos libertários que dizem discordar de Rothbard em relação ao sustento das crianças são aqueles que afirmam que não deve haver nenhuma obrigação legal para que os pais sustentem seus filhos, já que isso seria uma "violência contra as liberdades individuais dos pais". Se não há nenhuma obrigação legal ou nenhuma punição clara para isso, então a ação é motivada mesmo que indiretamente, porque o organismo social não comunica por meio da Ética que essa é uma atitude socialmente inaceitável. Mas, novamente, o foco não é a sociedade, mas sim o "indivíduo supremo" e suas vontades.

Se a "Ética" libertária é incapaz de definir termos claros para algo tão básico quanto o cuidado com elementos vulneráveis que, por sua própria condição, são dependentes de terceiros (como as crianças, os deficientes e os idosos) o que ela realmente tem a oferecer sobre questões humanas muito mais complexas?

Uma das premissas basilares da chamada "Ética" libertária é definida na citação abaixo, de Rothbard:


"I define anarchist society as one where there is no legal possibility for coercive aggression against the person or property of any individual."  
- "Society Without A State", The Libertarian Forum, 1975.
A ausência de "coerção" é um dos fundamentos de toda a chamada "Ética" libertária. Para eles, coerção é algo intrinsecamente ligado ao Estado. Entretanto, a atividade coercitiva é essencialmente ligada à própria natureza humana. Elimine o Estado e, imediatamente, grupos e pessoas com destaque e com perfil psicológico para a liderança tomarão o comando e, de modo mais direto ou mais indireto, mais grave ou menos grave, mais objetivo ou mais subjetivo, mais físico ou mais psicológico, começarão a coagir, ou seja, influenciar e coordenar as demais pessoas de acordo com suas vontades.

É até irônico que, enquanto libertários e "anarco"-capitalistas rejeitem a coerção como algo válido, praticamente endossem o egoísmo humano. Eles afirmam que o egoísmo e o individualismo são coisas inerentes à natureza humana. Mas a coerção, ou seja, a vontade de submeter as ações dos demais aos desejos individuais, também não seria um traço "natural" e, aliás, intimamente ligado ao individualismo e ao egoísmo?

Aliás, como Gore Vidal percebeu, há uma "glorificação" de elementos negativos como o egoísmo, a cobiça, a ganância e o individualismo nessa ideologia - coisas que, pela inversão liberal/libertária/"anarco"-capitalista, são transformadas em "virtudes":


"This odd little woman is attempting to give a moral sanction to greed and self interest, and to pull it off she must at times indulge in purest Orwellian newspeak of the "freedom is slavery" sort. What interests me most about her is not the absurdity of her "philosophy," but the size of her audience (in my campaign for the House she was the one writer people knew and talked about). She has a great attraction for simple people who are puzzled by organized society, who object to paying taxes, who dislike the "welfare" state, who feel guilt at the thought of the suffering of others but who would like to harden their hearts. For them, she has an enticing prescription: altruism is the root of all evil, self-interest is the only good, and if you're dumb or incompetent that's your lookout." 
- Gore Vidal, "Comment", Esquire, 1961. 


O que os libertários, liberais e "anarco"-capitalistas fazem é basicamente assumir que o egoísmo seja algo positivo, mas rejeitam as repercussões dessa "virtude", sendo a coerção uma delas. Eles desejam uma sociedade altamente fagocitada, fragmentada, dividida, atomizada, individualizada, mas se queixam de que certos elementos se sobressaiam e, em algum grau e de algum modo, influenciem ou criem determinações para os indivíduos, restringindo suas liberdades e suas capacidades de ação.

As próprias corporações podem assumir esse papel. Um negócio privado que inutilize o ar, a água e o solo e esgote recursos naturais aplica coerção a outros indivíduos que, desprovidos desses meios, se vêem obrigados a adotar outros meios de vida e outras formas econômicas. O "livre mercado" fetichizado por eles não existe - é uma inviabilidade lógica. Sempre haverá alguém para praticar coerção, seja esse alguém um grupo ou uma pessoa, uma empresa privada ou uma estatal, o Estado ou o mercado.

Pela interferência direta de grupos de acionistas, desejos corporativos e agências de rating (tão aclamadas pelos amantes do capitalismo), milhões de pessoas são literalmente levadas à ruína financeira, estruturas econômicas inteiras podem decair e toda a vida de um número imenso de seres humanos é diretamente interferida por esses grupos. Isso é coerção, certo? Para os grupos libertários, se nenhuma arma foi apontada para sua cabeça, a resposta é "não". Não importa o poder real que essas corporações tenham, eles sempre tomarão a justificativa de que "você não foi obrigado a fazer nada" e, é claro, o mantra das "trocas voluntárias" será repetido à exaustão.

John Scalzi determina bem a presença da coerção dentro do próprio pensamento libertário, criticando, em específico, o idealismo em torno do homem de negócios e do setor privado, transmitido por meio da obra "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand: 


"The idealized world Ayn Rand has created to facilitate her wishful theorizing has no more logical connection to our real one than a world in which an author has imagined humanity ruled by intelligent cups of yogurt. This is most obviously revealed by the fact that in Ayn Rand’s world, a man who self-righteously instigates the collapse of society, thereby inevitably killing millions if not billions of people, is portrayed as a messiah figure rather than as a genocidal prick, which is what he’d be anywhere else."
- John Scalzi, "What I Think About Atlas Shrugged", 2010.


Eles literalmente ignoram aquilo que Scalzi (e tantos outros mais) foi capaz de perceber: uma das facetas mais radicais e visíveis do capitalismo, que é o financial terror (terror financeiro numa tradução livre). O controle das suas decisões, do seu estilo de vida, da sua capacidade econômica e do seu poder de decisão é algo estritamente originado pelo Estado, jamais por essas corporações. É essa a lógica liberal, libertária e "anarco"-capitalista.

Aliás, os próprios libertários, liberais e "anarco"capitalistas conseguem transformar o meio em algo maior que seu próprio fim. Eles mesmos admitem que o Estado é uma ferramenta nas mãos de corporações. Mas, para eles, a estância maior da dominação é o Estado. Ora, se o Estado é a maior estância de poder, por qual motivo ele é cooptado por essas corporações? Se ele é um meio maior do que aqueles que o utilizam para determinados fins, por que é que ele é subjugado? 

Ao invés de atacar o cerne dessa equação, que é o próprio poder corporativo em seu caráter cada vez mais globalista, eles se limitam a atacar o Estado, que é um grau inferior da expressão do poder político-financeiro em comparação às corporações. E a "lógica" liberal/libertária/"anarco"-capitalista define que, se o Estado é dominado por essas corporações, a solução mais "óbvia" consiste em eliminar o Estado e dar poder de ação total aos agentes que antes o dominavam.

Isso significa não só preservar os originadores da corrupção, da coerção e da dominação econômica, como ampliar suas potencialidades. O mercado plenamente desregulado, que para esses ideólogos consiste na melhor ferramenta contra a coerção, significa apenas a amplificação do poder coercitivo das corporações.

Mas coerção é algo negativo em si? Definitivamente, não. A coerção é, em vários sentidos, necessária. Pode haver grupos que não precisam recorrer a esse expediente para demover seus integrantes de práticas negativas. Mas esse quadro é mais exceção do que regra, não só na atualidade, mas em toda a história humana.

A punição de crimes como o assassinato, o sequestro e a pedofilia exigem a restrição da liberdade individual e do próprio indivíduo. E deve-se aplicar independente da vontade do indivíduo. A punição, parte intrínseca de absolutamente qualquer código moral, é essencialmente coercitiva. Ao negar esse aspecto, libertários negam um dos elementos que constituem condição sine qua non para qualquer construção ética.

Desde que alguém ou alguma corporação privada não usem de violência física direta contra terceiros, nessa lógica, não há "coerção". Há não só a rejeição do elemento coercitivo, mas um reducionismo grotesco de seus significados e dinâmicas.

Um código moral implica em coerção, em maior ou menor grau, de modo mais direto ou indireto. Todo código moral estabelece princípios de certo e errado, bem e mal, legalidade e ilegalidade, justiça e crime, e romper com esses princípios envolve consequências mais ou menos graves. E essas consequências são coerções sobre a pessoa, o indivíduo, que concorda em obedecer o pacto social para não sofrer essas punições. 

A noção libertária sobre moralidade e ética é, na verdade, um preceito anti-social, anti-comunitário - e, como já reforçado anteriormente, a destruição de noções coletivas e comunitárias é a negação da própria Ética e o meio sistemático de desmotivar os membros de um grupo social a agir de modo moral e ético.

Os liberais, libertários e "anarco"-capitalistas apelam ao individualismo como se vivêssemos numa sociedade altamente comunitária, prestativa, cooperativa e solidária. Na verdade, eles clamam por algo do qual a sociedade já está saturada, e pedem por um elemento extremamente presente como se ele fosse inexistente, como se estivéssemos imbuídos de coletivismo e destituídos de todos os traços de individualismo e egoísmo.

Gore Vidal demonstra como apelar ao individualismo é algo extremamente fácil - fácil demais para organizar qualquer estrutura Ética:



"For to justify and extol human greed and egotism is to my mind not only immoral, but evil. For one thing, it is gratuitous to advise any human being to look out for himself. You can be sure that he will. It is far more difficult to persuade him to help his neighbor to build a dam or to defend a town or to give food he has accumulated to the victims of a famine. But since we must live together, dependent upon one another for many things and services, altruism is necessary to survival. To get people to do needed things is the perennial hard task of government, not to mention of religion and philosophy. That it is right to help someone less fortunate is an idea which has figured in most systems of conduct since the beginning of the race. We often fail. That predatory demon “I” is difficult to contain but until now we have all agreed that to help others is a right action. […] Ayn Rand’s "philosophy" is nearly perfect in its immorality, which makes the size of her audience all the more ominous and symptomatic as we enter a curious new phase in our society. To justify and extol human greed and egotism is to my mind not only immoral, but evil." 
- Gore Vidal, "Comment", Esquire, 1961. 


Apesar de falar especificamente sobre Ayn Rand, a análise de Gore se aplica à estrutura e à essência filosófica das ideologias liberais, libertárias e "anarco"-capitalistas em geral. Ayn Rand foi apenas uma das porta-vozes dessa estrutura de pensamento. 

Aliás, grande parte da crítica desses ideólogos contra a violência e a coerção estatal só vai até a página 2. A própria Ayn Rand justifica o massacre contra os indígenas norte-americanos - ou seja, ela ratifica como válida uma política sistemática de extermínio perpetrada pelo Império Britânico e pelos Estados Unidos recém-formados:


"Now, I don’t care to discuss the alleged complaints American Indians have against this country. I believe, with good reason, the most unsympathetic Hollywood portrayal of Indians and what they did to the white man. They had no right to a country merely because they were born here and then acted like savages." 
- Ayn Rand


É exatamente isso: Ayn Rand, a radical opositora do governo, defendendo a política de Estado de um governo (no caso, o dos EUA) contra um grupo de indivíduos. Talvez os indígenas tivessem valor existencial inferior, aos olhos dela, diante dos "homens de negócio" e executivos da Times Square.

Onde está mesmo a defesa da liberdade, do direito à vida, da liberdade de autonomia dos indivíduos frente a maquinários coercitivos? Para essas figuras, só onde importa. Isso porque, como as ideologias que eles tanto criticam, essas figuras não estão imbuídas de uma Ética real, apenas de noções mecanicistas e de discursos cheios de demagogia. Dois pesos, duas medidas.

A mesma Ayn Rand que critica a expropriação de terras realizada por governos e que considera isso como um atentado contra a liberdade econômica é aquela que justifica a tomada e o roubo de terras, a destruição de propriedades por parte do "incrível homem branco empreendedor". 

Quando alguém como Paulo Kogos reclama de participar de um evento liberal e ter objetos pessoais furtados[1], na verdade reclama das consequências e dos efeitos colaterais de valores que defende abertamente. Quando ele mesmo se queixou da "atomização" crescente no meio do qual ele mesmo faz parte, está reclamando de algo que promove. Como esperar um comportamento moralmente saudável quando você promove uma ideologia para a qual egoísmo e ganância são virtudes? Como esperar que outras pessoas tenham empatia e restrinjam suas vontades individuais quando se repete insistentemente que o que importa é o indivíduo, sua vontade e seus desejos? Como esperar uma noção ética coletiva e comunitária atacando diretamente esses conceitos e promovendo a própria atomização da qual você supostamente reclama? Impossível.

Não é possível sequer esperar que pessoas oriundas de meios profundamente anti-comunitários e que colocam a primazia do indivíduo acima de todas as outras coisas sejam capazes sequer de respeitar questões relativas à propriedade. Essas pessoas, que são produtos dessas ideologias, simplesmente não se importam com absolutamente nenhuma noção social (e, mesmo que existam pessoas assim nesses meios, elas estão em conflito direto contra o próprio cerne das ideologias das quais são seguidoras - realmente há liberais empáticos e virtuosos, mas as virtudes que eles, pessoalmente, cultivam, não se refletem na estrutura de pensamento, da qual eles são portadores, como um todo).

Há ainda outros problemas em relação às abordagens "éticas" e morais dos libertários, "anarco"-capitalistas, liberais e congêneres: não há absolutamente nada nessa chamada "ética" que se debruce sobre questões ambientais e ecológicas ou o tratamento dos animais - aliás, eles desconsideram que os animais sejam passíveis de qualquer tratamento ético -, nem sobre direitos básicos e dignidade de crianças (que, na interpretação de autores como Rothbard, estão num nível intermediário entre o homem e os animais), muito menos sobre cuidado com os idosos ( chegou a afirmar que não há nenhuma responsabilidade sobre idosos - se eles são incapazes de pagar por sua saúde, devem morrer, porque são um "peso").

Alguns chegam a admitir que não há oposição entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico, e que as próprias empresas podem preservar ecossistemas se isso as beneficiar economicamente. Mas, novamente, não há importância na preservação ambiental em si mesma. Ela deve ser, no máximo, um meio para ampliar os lucros das empresas. Se essas mesmas empresas decidirem que isso não é interessante, elas devem ter o "direito" de devastar ecossistemas inteiros porque sim, e pronto.

A intrincada relação entre o homem e o meio é, assim, negada por essas filosofias. Aliás, na maioria dos grupos de liberais, libertários e "anarco"-capitalistas, há um profundo desinteresse pelo tema. Biologia? Ecologia? Oceanografia? Geografia? Botânica? Zoologia? Nessas abordagens, absolutamente nada disso importa. Para eles, afinal, tudo pode ser reduzido a questões técnicas, ganho, perda, lucro, déficit, demanda e oferta.

Em resumo, toda a chamada "ética libertária" é uma redução aberrante de todas as facetas da existência humana ao puro mecanicismo, a um economicismo brutal e a questões de compra e venda, oferta e demanda, "trocas voluntárias" e propriedade privada - e a subjetividade infinita das vontades individuais. Questões existenciais, filosóficas, sociológicas, culturais, linguísticas, étnicas e geopolíticas são sumariamente ignoradas nessa abordagem. Todas as civilizações construíram suas noções sobre Ética agregando elementos de todas essas facetas humanas. Mas os libertários se convenceram de que podem criar uma "Ética" ignorando todos os elementos humanos e priorizando apenas um, que eles consideram como a "economia". 

Não é exagero afirmar que isso não passa justamente de uma anti-Ética e que todo esse agregado de análises não responde às questões existenciais mais básicas (muitas delas já ao menos parcialmente exploradas com imensas contribuições ao longo dos milênios, contribuições essas que são negadas pelos adeptos dessas ideologias, sendo sumariamente lançadas no lixo - como o próprio Alexandre Porto, que declarou as contribuições filosóficas aristotélicas como "inferiores", declarando-se um "filósofo" melhor do que Aristóteles[2]). É um deserto arenoso e incrivelmente anti-civilizacional e anti-humano.

Em resumo, ao entronizar o indivíduo acima de todos os elementos existenciais e promover o individualismo acima de qualquer noção comunitária, é impossível levar em consideração qualquer abordagem liberal, libertária ou "anarco"-capitalista sobre moralidade e Ética. Não é possível esperar um comportamento consciente num tecido social quando você justamente rejeita qualquer noção coletiva e social e promove o "eu" acima de absolutamente todas as coisas.

É bastante óbvio que a individualidade não deve (e não pode ser) negada diante da existência da coletividade. Entretanto, não é interessante incorrer no erro dessas ideologias extremamente dogmáticas que incorrem no extremo oposto das ideologias excessivamente coletivistas: negar a importância do bem coletivo para fomentar uma suposta valorização do indivíduo. Somos interdependentes e, como animais sociais (animais políticos, como diria Aristóteles), nosso bem pessoal está diretamente atrelado ao estado do organismo social no qual estamos inseridos. Reconhecer isso é fundamental para se falar em Ética.

Sem rejeitar a individualidade e a importância da pessoa humana, devemos também compreender os perigos de uma posição radicalmente anti-social e hostil a qualquer menção de coletividade. 

O mesmo reducionismo grosseiro feito por Hoppe, onde a leitura ideológica é definida unicamente pela presença ou ausência de governo (sendo a presença deste característica da "Esquerda" e sua ausência a condição da "Direita" - e sendo absolutamente todo governo considerado como "socialismo", colocando no mesmo nível um faraó do antigo Egito e um burocrata soviético), é encontrado na "Ética" libertária: a sujeição de todas as coisas e todos os elementos ao mecanicismo economicista. 

Em resumo: um libertário pode agir de forma ética, mas ele age de forma ética compactuando com alguma ética socialmente estabelecida e independente da ideologia com a qual ele compactua. O libertarianismo, em si mesmo, não é ético e não pactua nenhuma ética real.



Referências e notas:


[1] Vídeo disponível no Youtube: "Roubo na Libertycon e o Futuro Sombrio do Libertarianismo no BR"


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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Ex-Inspetor Chefe da ONU admite: "Assad não é o responsável pelos ataques químicos"

Por: Sean Adl-Tabatabai
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho


À direita, Åke Sellström, que trabalhou nas inspeções sobre armas químicas no Iraque e, agora, na Síria


Um ex-diretor dos inspetores de armas da ONU disse que o governo sírio não é responsável pelo recente episódio com armas químicas, e alega que o ataque é uma tentativa de derrubar Bashar Al-Assad.

Dúzias de pessoas foram mortas na cidade de Douma, controlada pelos rebeldes, no sábado, num ataque que o presidente Vladimir Putin e outros descreveram como uma "false flag" perpetrada pelo grupo dos Capacetes Brancos, filiado à Al-Qaeda.

Na noite de domingo, dois caças israelenses F-15 atacaram uma base militar aérea síria na província de Homs, disparando oito mísseis teleguiados no aeroporto, matando 14 soldados.

O canal Infowars.com informa que, contudo, de acordo com o especialista em armas químicas Åke Sellström, que investigou o uso de armas químicas tanto no Iraque quanto na Síria, é improvável que Bashar Al-Assad e o Exército Sírio sejam os responsáveis pelo ataque na Ghouta Oriental.  

"Com grande crítica por parte da comunidade internacional, Assad e os russos bombardeiam Ghouta aos poucos, e achar que eles adicionariam a isso a oportunidade de também serem criticados por usar armas químicas é algo que parece muito estranho. Eles não precisam disso, as táticas deles já estão sendo bem-sucedidas", disse Sellström, afirmando que pode haver numerosas "outras explicações" para o ataque. 

Sellström afirmou ainda que, se as Nações Unidas realmente investigarem o ataque, gravações e testemunhos não serão suficientes para definir o que ocorreu.

"Teríamos de encontrar pessoas e doutores e, em particular, precisaríamos de amostras do ambiente e das pessoas contaminadas", disse Sellström, afirmando que seria difícil medir o nível de exposição ao cloreto "porque ele evapora rapidamente e não deixa nenhuma marca visível no corpo". 

Como documentamos no vídeo abaixo, o grupo rebelde em Douma já havia concordado em deixar a área no prazo de 48 horas, e a batalha foi vencida.

Uma fábrica de armas químicas que estava em poder dos rebeldes também foi descoberta na mesma região onde o ataque aconteceu semanas atrás.

Dado que o Exército Sírio estava perto da vitória, não faz nenhum sentido, de qualquer modo, acreditar que os sírios sabotariam seu próprio sucesso. 



Publicado originalmente em: Your News Wire



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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Quatro elementos terríveis em nossa cultura que estão destruindo os garotos

Por: Matt Walsh
Tradução: Jean A. G. S. Carvalho




Nossa cultura é muito ruim para os garotos. Ela também é ruim para as meninas. É ruim pra todo mundo. Mas acho que falhamos em reconhecer e apreciar as batalhas singulares que os garotos enfrentam. Parcialmente, falhamos em reconhecê-las porque estamos ocupados demais nos preocupando com a perseguição do patriarcado contra as mulheres. Em parte, falhamos em reconhecê-las porque, coletivamente, simplesmente não nos importamos tanto assim com os garotos. E, em parte, falhamos em admitir isso porque os homens não falam muito sobre suas próprias dificuldades. E, parcialmente, o homem não vai falar sobre isso porque, todo mundo, incluindo seus amigos, só vão rir dele e minimizar o problema. 

Há muitos fatores em jogo, e todos eles levam a uma situação bastante terrível. Os homens são informados o tempo todo sobre seus privilégios; mas, se você olhar as coisas honestamente, não verá muitas evidências desse privilégio. Pelo contrário, você verá várias desvantagens profundas sofridas pelos homens em geral - e pelos meninos em particular.

Aqui, acho que estão as quatro principais desvantagens:


1. Nossa cultura ataca implacavelmente as fraquezas dos meninos

Vamos imaginar o mundo no qual qualquer menino comum de 13 anos de idade habita. Ele já foi exposto à pornografia pesada por muito tempo e, provavelmente, a assiste regularmente. Então, a puberdade chega. Seus hormônios aumentam. Seu cérebro se esforça para se concentrar obsessivamente no sexo. 

Ele não pode realmente resolver isso. Agora, o menino é fértil, mesmo quando as meninas de sua idade, na maior parte, não o são. Ele sente o impulso biológico de sair e encontrar uma parceira sexual, embora ele não entenda quase nada sobre esse impulso e sua concepção sobre a sexualidade humana tenha sido pervertida e confundida pelo vício em pornografia que ele desenvolveu na sexta série.

O menino não pode fugir do sexo. Está tudo no computador dele. Está  no telefone dele. Está em toda a mídia social. Por toda a TV. Em toda a música que ele ouve. Ele vai para a escola e suas colegas de classe estão vestidas como strippers. Ele vai a qualquer lugar e é assim que as mulheres estão vestidas. Parece que todo mundo está fazendo de tudo para torná-lo um degenerado, mesmo quando eles exigem que ele se controle. 

Pedimos que o garoto tenha autodisciplina e autocontrole, sem fornecer ferramentas para desenvolver isso. Em vez de apoio, nós lhe demos tentação. Tentação incessante, em todo lugar que ele vai, o dia todo, todos os dias - e no momento em que seu cérebro é menos capaz de superar isso.

E, mesmo que o menino possua uma força moral quase sobre-humana necessária para buscar a castidade e a pureza em meio à névoa sufocada pelo sexo que o engolfa, ele só encontrará zombaria e desânimo por parte da nossa sociedade. As próprias pessoas que exigem que ele "respeite as mulheres" e "controle a si mesmo" vão desprezá-lo se ele tentar fazer exatamente isso. Novamente, o menino precisará apelar à sua coragem sobre-humana para ignorar as zombarias, assim como ele rejeita as tentações, de modo que ele possa trilhar o caminho da virtude por conta própria, sem a ajuda de ninguém.

A maioria dos meninos não têm essa coragem. A maioria dos adultos não possui isso. No entanto, esperamos dos nossos meninos uma virtude que não possuímos e nunca demonstramos.


2. Existe uma ausência catastrófica de modelos masculinos

Nos EUA, cerca de 17 milhões de crianças vivem em lares sem a figura do pai. Na comunidade negra, cerca de 70 ou 80% não têm pai.

Quase todas as crianças têm mães. E eles têm quase que só professoras. Eles são mais propensos a ter avós do que avôs, já que os homens morrem significativamente mais cedo. Uma menina não terá escassez de modelos femininos, o que é um fato que vale a pena comemorar. É também uma vantagem profunda da qual muitos garotos, com seu "privilégio", não desfrutam.

Mesmo os meninos que têm pais podem não ter modelos masculinos. Muitas vezes, apesar da presença física do pai, a mãe ainda é a líder espiritual do lar. Há muitos pais que ficam por perto, mas depois se recusam a participar da formação moral de seus filhos. Eles são corpos calorosos ocupando espaço e, talvez, levando para casa um salário, mas eles não lideram suas famílias nem fornecem um exemplo que valha a pena para seus filhos.

Se um menino quer saber como é ser homem, ele terá que depender de sua mãe para mostrar-lhe o caminho, ou então ele ligará a TV e imitará aquilo que vê na tela. Ele aprenderá sobre masculinidade com cantores, estrelas de cinema e super-heróis. Ele desenvolverá uma idéia vazia e caricatural sobre a masculinidade - e ele se tornará um homem oco e caricato.

O que mais podemos esperar? É difícil ser um bom homem hoje em dia. É quase impossível se ninguém nunca te mostrou como.


3. O sistema de edução é projetado para meninas

Há uma razão pela qual as meninas superam os meninos na escola. As meninas não são mais espertas, em média, mas elas têm mais facilidade porque a sala de aula é montada para recompensar o comportamento calmo e organizado mais natural delas. Os meninos são mais indisciplinados; eles têm mais energia física; eles são menos capazes de ficar parados e menos capazes de se concentrar atentamente em uma tarefa tediosa por um período prolongado de tempo. O ambiente típico de sala de aula é a tortura de um menino. Penaliza-o por ser ele mesmo. Penaliza-o por ser um menino.

Como resultado, os meninos obtêm notas mais baixas. Os meninos são mais propensos a desistir da escola. Os meninos têm mais chances de serem expulsos. Talvez, o pior de tudo: meninos são duas vezes mais propensos a serem diagnosticados com TDAH. No ensino médio, 20% dos meninos são diagnosticados com o transtorno. No entanto, nunca paramos para nos perguntar por que os meninos são mais suscetíveis a essa condição mental misteriosa. Nós nunca paramos para considerar que talvez não estejamos diagnosticando tanto meninos quanto diagnosticando a própria infância como uma "doença".

Se o sistema escolar não se baseasse em sentar e memorizar as coisas (e não precisa ser assim), não haveria TDAH. Decidimos arbitrariamente que toda criança deve ser o tipo de criança que vive nesse ambiente, mesmo que tenhamos que enfiar comprimidos em sua boca para forçar o problema. As meninas não são drogadas com tanta frequência porque a maioria delas já é o tipo de pessoa que o sistema escolar prefere. O sistema pode não necessariamente preferir meninas, mas prefere pessoas que tenham características mais comuns em meninas, o que dá no mesmo.


4. A masculinidade é desprezada

Você pode pensar que já fizemos o suficiente por esses meninos. Nós fizemos a nossa parte. Nós colocamos o sexo na cara deles, os privamos de modelos, e os forçamos a um sistema educacional que trata sua personalidade como uma doença. Mas não estamos satisfeitos. Finalmente, caso algum garoto tenha sobrevivido ao desafio, tentamos enterrá-lo em auto-aversão.

A feminilidade é atacada em nossa cultura também, mas não de forma tão explícita ou direta. Ninguém jamais chamaria a feminilidade de "tóxica" ou "frágil". Ninguém fala em "privilégio" feminino - embora, como demonstrei, as mulheres desfrutem de muitos privilégios únicos. Ninguém rotularia todas as mulheres de "perigosas" ou "monstros em potencial a serem temidos". Estas são as ofensas reservadas especialmente para a masculinidade.

Isso não seria tão ruim se não fosse pelo fato de os meninos estarem emergindo da infância já quebrados. Eles não estão em condições de suportar o ataque anti-masculino. Então, eles vão ficar destruídos - e nós não vamos reconhecer que eles estão quebrados, e não vamos encarar o fato de que somos nós que os destruímos.



Publicado originalmente em: Daily Wire

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que a imprensa não fala sobre a guerra na Síria

Por: Jean A. G. S. Carvalho

Bashar em visita a unidades militares do Exército Árabe Sírio, em 2013


O prolongamento do conflito sírio

Os noticiários estão exibindo constantemente imagens de civis sírios, crianças mortas e inúmeros feridos. A destruição naquele país, que já dura mais de seis anos, é retrato constante nos jornais de emissoras do mundo inteiro. Mas, por qual motivo toda essa morte e destruição não acaba? Por qual razão a guerra na Síria se arrasta por tantos anos? 

Um dos motivos é a própria retórica da imprensa, é claro. A maior parte dos canais exibe as consequências da guerra na Síria, mas não suas causas. E a maior parte da opinião dessa imprensa pede a continuidade do conflito para derrubar Bashar al-Assad. Temos de ter em mente que, quando falamos nessa "imprensa", estamos falando da boca de corporações e governos que lucram com o caos no Oriente Médio. 

Não estamos falando de observadores imparciais que apenas narram os fatos, mas de órgãos que são pagos para construir uma narrativa que justifique a qualquer custo a derrubada do regime sírio, especialmente usando slogans vazios como "liberdade", "democracia", "direitos humanos" e "o regime sírio é uma ditadura inaceitável".

Enquanto esses canais invocam o apelo emotivo contra o genocídio, apenas justificam o prolongamento desse morticínio. Se a preocupação fosse realmente com crianças mortas, o problema seria atacado em seu âmago, sua raiz: o conflito sírio é um produto do imperialismo e é benéfico para os poderes dominantes. É por isso que a guerra ainda não acabou: ela precisa continuar, porque gera lucro, dividendos e o álibi para a invasão e dominação da Síria.

A verdade é que, não fosse a ingerência estadunidense e a retórica falsa da mídia, criando um apelo sentimentalista e uma comoção que praticamente exige a derrubada do "terrível ditador", o conflito sírio já estaria praticamente solucionado e o banho de sangue seria cada vez mais parte do passado. Esses canais não querem a paz, não querem a solução para a guerra. Exatamente porque a guerra é a própria solução. Em se tratando do maquinário de guerra dos EUA, os conflitos já nem mais são meios para um fim, mas sim a própria finalidade. Não importa o resultado de uma guerra: importa haver guerras. 

É por isso, por exemplo, que os Estados Unidos continuam enviando jovens para morrer inutilmente na fracassada guerra do Afeganistão, um conflito que se arrasta desde 2003 sem nenhuma conclusão positiva. Mas quem é que precisa da vitória no Afeganistão, ou no Iraque, ou na Síria, ou mesmo na "guerra contra o terror"? Ninguém precisa disso. Ao menos não os donos da indústria bélica. Eles precisam da guerra e ponto final. Há demanda por munição? Há alvos contra os quais usar essa munição? Então, ótimo. 

A imprensa comum, prostituída, jamais falará disso, porque ela não passa de agência de publicidade dessas corporações. E não há nenhum modo melhor de vender uma guerra do que clamar por "paz" da forma mais vazia possível. Sentimentalismo é o leitmotiv de qualquer conflito.


Assad realmente usou armas químicas contra civis?

É exatamente por isso que, mais uma vez, surgem denúncias de que Assad usou gás contra civis. Onde está a lógica nessa afirmação? As mesmas acusações foram feitas em 2016 e 2017, e foram desmentidas. Por qual motivo essas seriam verdadeiras? Com a maior parte do Estado Islâmico (Daesh) destruído, com quase todo o território reconquistado, com os principais redutos terroristas (chamados de "rebeldes") cercados ou já retomados e com amplo apoio civil, qual seria a lógica de Bashar usar armas químicas contra seu próprio povo? 

Deixando de lado as emoções e o sentimentalismo, vamos tratar apenas da parte lógica, por agora. Bashar não ganharia absolutamente nada com isso. Aliás, ele perderia apoio popular (essencial para reconstruir o país) e apenas daria mais impulso aos grupos terroristas. Se a população é atacada pelo governo, a lógica é se aliar aos opositores. Usar armas químicas contra civis só fortaleceria as fileiras do inimigo. 

E, pra piorar, isso seria o pretexto ideal para uma invasão liderada pelos Estados Unidos, contando com praticamente todos os principais membros da OTAN (a França de Macron já quer tomar a dianteira e praticamente pressiona uma invasão). Ou Bashar teria de ser realmente tolo a esse ponto, ou tudo isso não passa de mentira - e, pela experiência histórica e toda a conjuntura, ficamos com a segunda opção.

Aliás, se o próprio governo estadunidense vem fazendo inúmeras ameaças de invadir a Síria, porque Trump teria recuado no último minuto? Porque a retórica evaporou. A denúncia já está de desfazendo no ar, e a recusa de invadir a Síria é um testemunho disso (mesmo que o papel da Rússia e do Irã em torno da Síria também tenha contribuído para demover os EUA dessa decisão). 

Se armas químicas realmente tivessem sido disparadas pelo regime sírio, dificilmente os Estados Unidos perderiam a chance de invadir o país, consolidar seu domínio no Oriente Médio e lucrar com sua máquina de guerra em ação - afinal, ela precisa sempre estar ativa.

Mas elas não foram disparadas pelo governo. E afirmamos isso com convicção. Assim como havíamos afirmado (não apenas nós, mas vários órgãos de mídia alternativa) em 2016 e 2017, para incredulidade de muitas pessoas, e a mentira foi exposta, ela será novamente revelada.

Em termos lógicos, é muito mais fácil acreditar que os dispositivos químicos foram disparados por grupos rebeldes - terroristas ligados aos EUA e que recebem dinheiro, treinamento e armas deles. Esses sim se beneficiariam com o ataque: os terroristas teriam mais amparo internacional para sua "causa democrática" (se é que escravizar mulheres, violentar crianças e decapitar oponentes é "democracia" -talvez, pro Ocidente, isso seja, desde que esteja aliado aos seus interesses: afinal, eles amam os sauditas) e, de brinde, EUA e OTAN teriam toda a prerrogativa para invadir de vez a Síria.

E, como bônus, teriam todo o aparato para demonizar ainda mais a Rússia, um inimigo geopolítico. E o Irã, então? Seria o próximo alvo. A Arábia Saudita, que não passa de uma base militar estadunidense no Oriente Médio, seria o único agente com poder real naquela região - e totalmente leal aos estadunidenses.

Isso também beneficiaria completamente Israel, que, de modo criminoso, já fez ataques contra território sírio. Se a Síria cair, um dos últimos aliados do Irã na região será devastado (lembre-se que o Iraque e a Líbia já foram essencialmente destruídos) e o próprio regime iraniano ficará praticamente isolado. A Arábia Saudita é uma parceira fiel dos israelenses: o wahabismo e o sionismo não são estranhos um ao outro. Qualquer projeto nacionalista no Oriente Médio deve ser destruído. Esse é um imperativo geopolítico israelense. 


Turquia: aliada ou inimiga?

A Turquia tem estado bastante indecisa no confronto. No início, auxiliou os terroristas que se opõem a Bashar. Depois do incidente com o caça russo e pressões de Putin, Erdogan praticamente mudou de direção, auxiliando no combate a esses grupos em suas fronteiras e cessando a ajuda aos terroristas (ao menos de modo direto). Mas não é possível, ainda, enxergar o regime turco como um aliado geopolítico para equilibrar a situação na Síria.

A realidade é que Erdogan perderia muito com um atrito mais forte contra a Rússia. E, geograficamente, mais próximo da Eurásia do que do Ocidente (embora pleiteie entrada na União Europeia, a Turquia definitivamente não é "ocidental"), o regime turco ganharia mais com uma aproximação amigável com Moscou do que com o contrário.

A pressão interna contra o apoio aos terroristas também retiraria legitimidade de um governo que já estava instável. Assim, Erdogan poderia tanto conciliar um equilíbrio na política doméstica quanto uma alteração em sua política em relação à Síria.

Depois de derrubar um caça e matar um piloto russo, quase provocando um conflito com a Rússia, manter qualquer conexão (ao menos visível) com os wahabistas seria assinar um atestado de suicídio geopolítico. Os líderes turcos talvez não sejam tão tolos a esse ponto.

Hoje, o principal campo de operações da Turquia no conflito sírio é em relação aos grupos de curdos que revindicam partes do território turco - também há grupos de turcos reivindicando partes dos territórios sírios e iraquianos.


Israel e Arábia Saudita: Sionismo e Wahabismo de mãos dadas

E o papel de Israel nesse conflito? Por incrível que pareça, favorecer o que há de mais radical e extremista na região do Oriente Médio é benéfico ao regime israelense. Veja, por exemplo, a relação amistosa entre a Arábia Saudita e Israel.

Os dois países possuem praticamente os mesmos imperativos geopolíticos: derrubar os nacionalismos no Oriente Médio e enfraquecer o Irã (se possível, aniquilá-lo, preferencialmente). Os dois países também se alinham ao eixo Ocidental, dialogando amigavelmente com as potências dominantes do Hemisfério Norte. 

O Irã é um opositor "natural" do regime saudita. Isso acontece por razões religiosas, já que o grupo islâmico dominante na Arábia Saudita é o wahabismo/salafismo (originado por Muhammad ibn Abd al-Wahhab - daí o nome), um secto do ramo sunita do islã, enquanto que, no Irã, o que prevalece é o ramo xiita. E a visão entre wahabitas e xiitas não é das mais amigáveis possíveis. Aliás, o ramo wahabi é historicamente ligado aos grupos terroristas mais radicais da região. Só que, ironicamente, xiita se transformou no adjetivo comumente usado para designar aquilo que há de mais radical, intolerante e genocida - o jogo dos termos com intenções geopolíticas.

Israel, assim como Arábia Saudita, não nutre nenhuma simpatia pelo Irã. O regime amparado em Khomeini é considerado como um "risco à existência de Israel". E, para piorar, as potencialidades iranianas de desenvolver armas nucleares são um desafio ainda maior ao regime israelense. O Irã é um adversário não só em potencial, mas real, presente. É um obstáculo geopolítico aos desejos expansionistas de Israel.

Por outro lado, os territórios fragmentados, destruídos e dominados pelos "guerreiros da democracia", terroristas pagos para enfraquecer, minar e obliterar regimes autônomos, não são desafio nenhum a Israel. Quando alguém olha a militância do Estado Islâmico (Daesh), da Al-Qaeda, da Al-Nusra ou de qualquer outro grupo radical, logo pensa em um profundo ódio e um risco terrível para Israel. E, apesar de o discurso ser fundamentalmente anti-judaico e anti-ocidental, esses grupos não representam nenhum perigo de fato.

De todas as ações terroristas do Estado Islâmico (Daesh), quantas foram contra Israel? Que partes do território israelense foram tomadas pelos extremistas? Pode-se afirmar que isso não ocorre graças ao imenso aparato militar israelense. Mas será esse o caso, ou simplesmente Israel não está na lista real de inimigos? Afinal, até mesmo um grupo desestruturado e infinitamente mais fraco do que Israel, como o Hamas, realiza ataque esporádicos contra território israelense. Mas o Estado Islâmico, com muito mais amparo, maquinário e equipamentos (estadunidenses, inclusive), não ousa fazer um arranhão sequer em território israelense. Estranho - e intrigante.

A Líbia nacionalista, com Gaddafi, era um desafio a Israel; a Líbia "livre e democrática", arruinada e dominada pelo que há de mais extremista, não. O Iraque de Saddam era uma afronta a Israel; o Iraque "libertado", fragmentado e desestruturado, não. Uma Síria com Bashar é um entrave aos desígnios de Israel; uma Síria "liberta pelos guerreiros democráticos", não.

Não importa se quem vai tomar o poder nessas nações é imbuído da mentalidade mais psicótica, radicalista, extremista e assassina. Não importa se seus discursos falam em "destruir Israel e EUA" ou "dominar o Ocidente". Esses grupos não conseguem fazer isso. Não são afronta nem ameaça, são brinquedos com os quais se pode derrubar "inimigos" reais - Rússia, Irã, Iraque, Síria, Líbia, Líbano. 

O Estado Islâmico (Daesh) não é um perigo a Israel. É exatamente por isso que as ações militares israelenses na Síria consistem em atacar o exército sírio, e não o Estado Islâmico. Não é o terrorismo na região que assusta Israel, mas sim a existência de uma união arábico-persa e da mínima possibilidade de um pan-arabismo no Oriente Médio.

É por isso que a Síria deve cair, como caíram a Líbia e o Iraque. E a queda da Síria facilita a queda do Irã. Os sauditas? Eles e seu radicalismo wahabi, uma versão mais hardcore do Islã com roupagem anti-ocidental, são cães domesticados a serviço do Ocidente e do sionismo - pense nas imagens dos políticos europeus e estadunidenses dançando alegremente com aqueles "radicais sauditas". Se existe mesmo um ódio saudita a Israel e ao Ocidente, ele é amaciado com barris de petróleo e muito, muito investimento em armas.


Rússia e Irã - "Eixo do mal"?

Qual o papel da Rússia e do Irã no conflito sírio? A mídia resume a participação desses dois países ao nível de "apoio a uma ditadura terrível" ou "complacência com um regime genocida". Assim sendo, Bashar é a personificação do mal - e a "terrível" Rússia, por se associar a esse regime, também passa a sê-lo (na verdade, sempre foi - como Dugin diz, a Guerra Fira e a hostilidade contra a Rússia nunca acabaram de fato). Com o Irã, a lógica é a mesma: um "regime terrível" amparando um "ditador".

Em termos geopolíticos, Rússia e Irã não estão ajudando a Síria por mera bondade, filantropia ou espírito de caridade. Isso praticamente não existe na geopolítica. Mas isso não significa que não há maior reciprocidade entre certos Estados. Isso existe, e é bastante evidente no caso Síria-Irã-Rússia.

A Rússia tem interesses claros na Síria: ampliar sua área de influência, reconquistando parcerias no Oriente Médio que haviam sido perdidas com o fim da União Soviética (a URSS foi um dos braços para o projeto pan-arábico, pelo menos em determinados momentos) e, ao mesmo tempo, diminuir as pretensões de hegemonia estadunidense na região.

A Síria possui imensas reservas de gás natural e petróleo. E a Rússia tem demanda por essas commodities. Assim, para os russos, obviamente seria melhor que um país próspero nesses recursos estivesse ao seu lado do que tomado por potências rivais. A ajuda russa na Síria é, num primeiro momento, a contenção dos grupos radicais que operam em favor das potências ocidentais. Manter Bashar significa manter a estabilidade que os russos precisam - um aliado no poder sempre é bem-vindo.

Atualmente, a ação russa tem sido na forma de apoio logístico e presença militar direta (militares, especialistas, técnicos, engenheiros, comandantes, instrutores, etc.). Essa política de apoio imediato e direto foi essencial para barrar um ataque mais massivo das potências ocidentais. Mas o apoio também está no nível diplomático, na ajuda contra sanções e outras políticas hostis de soft power.

O Irã é atacado diretamente pelos grupos que fazem pressão contra a Síria, como o Estado Islâmico (que hoje opera praticamente apenas por atentados terroristas, já que seu exército convencional foi quase totalmente destruído), e indiretamente pelas nações ocidentais dominantes (sanções, pressões políticas, ameaças, etc.). Assim sendo, auxiliar um regime amigo na região e impedir sua decantação pelas potências ocidentais que lhe são hostis é uma prerrogativa para a própria sobrevivência do Irã.

Da mesma forma que os russos, os iranianos têm auxiliado o regime de Bashar tanto em logística quanto com combatentes. Inúmeros militares iranianos já estão em operação na Síria e, no teatro de operações, foram importantíssimos para as derrotas sucessivas dos grupos terroristas.

Rússia e Irã tem um objetivo bastante específico na questão síria: impedir o avanço de potências rivais e prolongar sua própria esfera de influência. O Irã, aliás, se enxerga como um agente de peso para a região do Oriente Médio - algo que corre perigo caso a predominância dos EUA e seus aliados se concretize ali.

A opinião de praticamente toda a imprensa ocidental convencional, essencialmente liberal, é contrária à Rússia e ao Irã. Mas, em termos práticos, é inquestionável o quanto russos e iranianos colaboraram e vêm colaborando para a erradicação e as sucessivas derrotas dos grupos terroristas na Síria. Sem apoio russo-iraniano, provavelmente o regime de Bashar já teria caído e a Síria seria uma Líbia 2.0. 


Estados Unidos e OTAN: heróis?

E as ambições dos EUA? Já ficaram claras: expandir ainda mais sua zona de influência, eliminar um regime rival (é essa a verdadeira razão da guerra contra a Síria: ela não se alinha aos EUA; qualquer falatório sobre "crime contra os direitos humanos", "democracia" ou "liberdade" é maquiagem para esconder isso) e assegurar domínio sobre recursos vitais como petróleo e gás natural.

Trump tem se gabado muito de que, graças às ações militares dos EUA, o Estado Islâmico foi praticamente eliminado. Mas a realidade é muito menos poética e heroica para os estadunidenses: na verdade, as operações militares dos Estados Unidos e seus aliados na Síria provocaram apenas catástrofe e recrudescimento da situação de terror.

Em primeiro lugar, não é possível afirmar que os EUA realmente enxergue os grupos terroristas na Síria como "inimigos". Nem mesmo o Estado Islâmico. Armamentos estadunidenses já foram encontrados em posse dos terroristas; militantes do Estado Islâmico trafegavam com veículos e armas anti-aéreas dos EUA. Isso não é teoria da conspiração: é algo fartamente documentado, basta uma rápida pesquisa.

Além disso, várias ações de bombardeio que, teoricamente, estavam direcionadas contra o Estado Islâmico e outros grupos terroristas, acabaram atingindo tropas de sírios ou até mesmo de iraquianos. Sim, não existe lealdade dos EUA sequer com seus aliados declarados - que dirá com os "inimigos". Num dos casos, na operação realizada pelas tropas iraquianas para retomar a cidade de Mosul (que estava sob controle do Estado Islâmico), aviões dos EUA dispararam contra as tropas iraquianas. Depois, o comando militar alegou que tudo foi questão de "erro de cálculo". As desculpas são sempre vazias: erro, engano, equívoco. O irônico é que esses "acidentes" nunca atingem os terroristas.

Em relação aos inúmeros veículos e armamentos estadunidenses em posse dos terroristas, os militares estadunidenses alegam que esses materiais foram roubados de quartéis do Iraque. Não há proteção nesses quartéis? Quer dizer que os armamentos mais avançados que os EUA dispõem para um aliado são assim facilmente roubados? A maior potência do mundo não tem competência para assessorar tropas iraquianas? Não houve "roubo": houve entrega.

Os Estados Unidos entraram oficialmente na guerra síria em 2014. Em praticamente quatro anos, não foram capazes de retomar territórios importantes das mãos dos terroristas. Ao contrário: depois da intervenção estadunidense, o domínio do Estado Islâmico e de outros grupos de terror só aumentou. É como se a entrada militar dos EUA e seu "combate ao terror" fosse um mero enfeite, um teatro. E é como se nunca houvesse realmente uma guerra ao terror.

As operações contra as tropas sírias sempre foram executadas sem erros. Mas, conhecendo a praxe dos EUA, não é de se estranhar que os "erros" só acontecem quando os alvos são os terroristas. São "enganos" bastante acertados, "eventualidades" bastante planejadas.

Em poucos meses de ação russo-iraniana, o quadro foi quase totalmente revertido: Assad, que estava a ponto de cair, manteve-se no poder; as tropas sírias, quase totalmente desgastadas, foram revigoradas; o Estado Islâmico, com imensos territórios no Iraque e na Síria, foi varrido do mapa e reduzido a grupos esparsos. Não foram as ações militares dos EUA que detiveram o terrorismo. Ao contrário, elas não só não o detiveram como o ampliaram. Se há algum mérito no combate ao terror naquela região, ele é inteiramente iraniano e russo. 

Não devemos agradecer absolutamente nada aos EUA, ao contrário do que Trump disse, se indagando sobre "onde estava os parabéns para os Estados Unidos". Eles não estão em lugar nenhum, porque não há nada a ser parabenizado. Aliás, as únicas boas ações de Trump na Síria foram as promessas que ele não cumpriu - os ataques que disse que iria fazer e não fez. A melhor ação dos EUA na Síria (e praticamente em qualquer lugar do mundo) é não fazer absolutamente nada.


Exército "Sírio" Livre?

O Exército Sírio Livre é citado pelos opositores de Bashar como um exemplo de "oposição moderada" ao "regime brutal" sírio. Mas isso é tão verdadeiro quanto todo o resto da retórica midiática dominante - ou seja, é mais uma mentira.

Ele é tão "sírio" quanto "livre": ele busca a construção de um regime autoritário e age realmente com autoritarismo pleno nos territórios dominados por ele. E grande parte de seus elementos sequer são sírios: são mercenários vindos de várias partes do mundo (incluindo inúmeros sauditas), como já ficou fartamente documentado. 

Essa organização é, na verdade, mais um braço terrorista a serviço dos Estados Unidos e das potências ocidentais. Não é uma reação de libertação do povo, mas de implantação de um regime totalitário valendo-se de retóricas "democráticas".

A imprensa comum não diz absolutamente nada sobre os inúmeros crimes de guerra praticados pelo Exército "Sírio" Livre. E tratá-los como "moderados" só mostra o nível de distorção da realidade causado por essa imprensa.

Os Estados Unidos gostam de organizações com nomes bonitos e pomposos, uma profusão de liberdade e democracia, porque assim podem esconder melhor o que eles realmente são: braços seus usados para o terrorismo e a destruição de nações.

O próprio Exército Sírio Livre é formado por desertores do Exército Sírio (mercenários pagos) e militantes comuns. Apesar de se dizer secular e opositor de grupos extremistas como o Estado Islâmico (Daesh), o grupo é aliado de extremistas do Ahrar al-Sham, um grupo radical de ramificação sunita (mais uma vez, as ligações com os sauditas) cujo objetivo declarado é instituir um califado na Síria.

Aliás, grande parte dos combatentes do Exército Sírio Livre desertou para a Jabhat al-Nusra e o Estado Islâmico (Daesh). A realidade é que, antes a maior força de oposição ao regime sírio, hoje esse grupo perdeu espaço para os grupos terroristas mais radicais, sejam eles opositores (como o Daesh) ou aliados (como o Ahrar al-Sham - que recebeu apoio da Turquia, da Arábia Saudita e do Qatar).

Não é possível considerar esse grupo como uma oposição legítima, muito menos oposta aos extremistas (na verdade, nem é possível distinguir entre moderados e radicais, já que todos se encaixam na segunda opção) ou uma saída viável para a Síria. São mercenários a serviço de forças hostis à Síria.

Aliás, o próprio ex-comandante do Exército "Sírio" Livre, Salim Idris, conclamou mais apoio militar, diplomático e financeiro das potências ocidentais, especialmente dos EUA. Que liberdade esses mercenários desejam para a Síria? Nenhuma. Seriam meros fantoches a serviço daqueles que hoje odeiam e destroem os sírios. Eles mesmos odeiam a Síria.

Não se confia em traidores.


Direitos humanos: mera retórica

Todo o falatório sobre a guerra na Síria ser motivada por "infração aos direitos humanos" é falsa. Não é esse o motivo. Não foi o motivo no Afeganistão, nem no Iraque, nem na Coreia, nem na Líbia, nem em absolutamente nenhum lugar do mundo. 

Se infringir direitos humanos é prerrogativa para derrubar um regime, o governo dos EUA deveria ser o primeiro a cair. Quem puniu os Estados Unidos pelo escândalo de Guantánamo? Isso sem falar em inúmeros outros casos. 

Quem puniu os governos europeus, especialmente a França, pelas atrocidades cometidas contra os Líbios? Hoje, a Líbia é um reduto de tráfico humano. Mas isso não causa comoção. Afinal, ela está "liberta e democrática", seja lá o que isso signifique.

Isso é vazio. O que realmente importa é se um regime é submisso aos poderes dominantes ou não. A imprensa imunda e prostituída (aquilo que eu gosto de chamar de imprensa sifilítica) nunca dirá uma palavra sequer sobre a ótima qualidade de vida e IDH na Síria pré-guerra. Sim, a Síria "ditatorial". O nível educacional, o padrão de vida, o funcionamento das instituições: antes de 2012, nada na Síria parecia com o quadro atual.

Quais os benefícios dessa falsa libertação, desse discurso vazio de "democracia"? Morticínio, crise de refugiados, desgaste político e até mesmo ameaças de uma Terceira Guerra Mundial. Esse é o resultado do "magnífico" trabalho de expansão da toxina estadunidense chamada de "democracia".

Macron disse, como outros fantoches europeus, que não é possível admitir aquilo que o governo sírio vem fazendo (mais especificamente, o tal uso de armas químicas contra civis). Realmente: Macron, assim como Sarkozy - e todos os outros animais adestrados da União Europeia -, não pode admitir que um ataque falso, uma mentira, fique impune. Ele gosta de criar a mentira e dar uma resposta a ela.

Para Macron e Trump, é inadmissível que um regime legítimo que vem sendo covardemente atacado pela imprensa internacional, que obviamente não usou armas químicas contra seu povo, continue de pé. Para eles, o admissível é que a crise de refugiados para a Europa continue, que a instabilidade e o terror no Oriente Médio sejam a norma e que o que há de mais radical e bizarro naquela região ganhe espaço político, porque essa é a alternativa "democrática" deles diante das "terríveis ditaduras" - sim, Bashar é o "terrível ditador" que preserva a vida de cristãos. Mas o direitista neocon acredita piamente que ele é o inimigo, e que "guerreiros democráticos" que exterminam as populações cristãs é que devem tomar seu lugar. É uma política completamente satânica.

Os "amigos" podem ferir os tais direitos humanos à vontade. EUA pode fazer isso, Europa pode fazer isso e todos os aliados também. O que são direitos humanos? Eles é que decidem. O que é infringi-los? Eles é que decidem. Não há dois pesos e duas medidas: há milhões de pesos e bilhões de medidas.

Podemos citar um exemplo bem crítico e visível: o regime saudita é completamente brutal - mas os sauditas já presidiram o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Há inúmeras denúncias contra o "terrível ditador Bashar al-Assad", mas não há uma só palavra sobre os abusos cometidos contra os sauditas. Aliás, os senhores da guerra que comandam aquele Estado fantoche nunca são chamados por aquilo que são: déspotas. São príncipes, reis, sheiks, etc. São celebridades, monarcas, nobres. Ninguém fará sanções contra os sauditas pelos crimes que eles cometem, agora mesmo, contra os iemenitas. 

Toda a retórica e apelo aos "direitos humanos" nesse conflito (e em tantos outros) é falsidade. A invocação da dignidade humana é usada para justificar a derrubada de regimes opositores (como, no Oriente Médio, o que ocorreu com Iraque e Líbia), mas é esquecida quando se trata de um Estado aliado, amigo. Nunca haverá um apelo pelos direitos humanos contra o regime saudita, ao menos não enquanto os senhores do petróleo estiverem aliados aos poderes dominantes do Ocidente.


Conclusão: por qual razão a imprensa mente ou omite dados?

Todos queremos a paz na Síria, certo? Errado. Há grupos políticos e corporativos que lucram muito com ela. Grupos para os quais a guerra é um business, um negócio imensamente lucrativo. Eles fingem se importar com a guerra, mas desejam-na.

Esses grupos precisam de uma retórica que sustente suas ações. EUA, OTAN, União Europeia, Arábia Saudita e Israel precisam de um discurso que valide suas ações. Eles precisam de uma imprensa que repita insistentemente que o problema é Bashar e que a "solução" é eliminá-lo. Não importa se, depois, vão se calar como fizeram com a Líbia. Se Bashar cair, não haverá mais imagens trágicas, sentimentalismo e apelo humanitário. Haverá esquecimento, como houve com os líbios (a imprensa não fala mais deles). Isso porque o que importa é o objetivo final: suprimir e dominar a Síria. Criancinhas mortas? Mulheres violentadas? Nada disso vai importar.

Ao mesmo tempo, essa imprensa precisa tratar quem realmente está combatendo o terrorismo (Síria, Irã e Rússia) como os "inimigos". É preciso criar a retórica contra os terríveis russos, os iranianos fundamentalistas e os malvados militares sírios. Estado Islâmico? Bombardeios dos EUA? Agressões da OTAN? Crimes hediondos dos "rebeldes moderados"? Nada disso é pauta. A imprensa fala cada vez menos em "terrorismo" e "terroristas": são "insurgentes". Quase sete anos de conflito e a retórica ainda não mudou, nem vai mudar - porque Bashar ainda não caiu e a Síria ainda não morreu.

É por isso que a imprensa prostituída, a imprensa sifilítica, não expõe esses dados. Não é que ela não saiba disso, é que ela precisa omitir isso para criar a retórica perfeita: um terrível regime sendo combatido pelos heróis da democracia e da liberdade. E um pouco de apelo sentimentalista sempre cai bem.

A guerra na Síria é bastante complexa, sim. Mas é preciso fazer um resumo bastante preciso: nesse exato momento, há aqueles que querem apoiar o único governo viável para estruturar e coordenar a Síria, pacificando-a, e esses são os aliados de Bashar, aqueles que realmente se importam com o povo sírio. Do outro, a falsa retórica humanista daqueles que só favorecem o terror e só prolongam o sofrimento da Síria. 

É simples assim. E é justamente por ser simples que não está na pauta da imprensa. Aqueles que a mídia convencional mostra como vilões são heróis, e aqueles que ela retrata como heróis (incluindo organizações de "direitos humanos" como os White Helmets - Capacetes Brancos, com ligações com a Al-Qaeda) são vilões. Troque os sinais e você vai decifrar as mensagens dessa mídia cujo único dom é distorção completa da realidade e desinformação.

Onde está Trump no campo de ação, com seus soldados? Onde está Macron? Todos fora da Síria. Enquanto isso, o "terrível ditador" Bashar al-Assad anda em meio ao povo, sem escolta, e visita seus soldados - e é sempre bem recebido por eles. Quantos políticos nas "democracias" do Ocidente têm liberdade, segurança e capacidade para fazer isso?



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